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Henry Thomas*
DA EUROPA UNIDA
Examinaremos agora, o nascimento,
desenvolvimento e assassínio de uma nobre idéia. Esta
Idéia era consolidar a Europa numa livre e harmoniosa família
de nações e o homem em cujo cérebro se originou
a idéia foi Giuseppe Mazzini.
A fim de compreender a carreira
de Mazzini, vamos dar uma olhadela no circo da política européia
na primeira metade do século XIX. Em 1815, depois da derrota
de Napoleão, os delegados da paz das nações
européias reuniram-se em Viena. Como os delegados da paz
que se reuniram em Versalhes depois da guerra de 14, tentaram pôr
de pé o mundo ferido e não conseguiram mais que um
redondo fracasso. O congresso de Viena foi dominado por três
homens: Metternich, reacionário sincero; Talleyrand, hábil
velhaco, e o Czar Alexandre, místico semi-doido que combinava
um amor abstrato pela humanidade com um amor muito concreto pela
autocracia. Agindo sob a instigação religiosa do Czar
Alexandre e inclinando-se ao mesmo tempo à vontade mais prática
de Metternich e Talleyrand, os delegados esboçaram um pacto
de paz chamado a Santa Aliança. De acordo com essa tal Santa
Aliança, as nações mais poderosas da Europa
deveriam estabelecer a Fraternidade do Homem sobre a base das Santas
Escrituras. Incidentalmente, também, as nações
mais poderosas suprimiriam a liberdade das mais fracas.Armados com este documento,
que fora parcialmente inspirado por nobres sentimentos, mas principalmente
por motivos de diplomacia, estupidez e egoísmo, Metternich,
Talleyrand e Alexandre - iniciaram a escravização
do mundo "baseados nas Santas Escrituras". A Europa foi
desmembrada e os farrapos eram lançados aos mais gulosos
dos lobos imperiais. A República holandesa foi transformada
em monarquia. A Polônia foi traída e anexada à
Rússia. O princípio revolucionário foi suprimido.
A inquisição e a câmara das torturas foram ressuscitadas
na Espanha. Os espiões eram pagos para penetrar nos lares,
ouvir a conversa das pessoas e violar sua correspondência.
Os estudantes e professores que expressavam opiniões liberais
eram presos ou exilados. As nações não estavam
mais em guerra, é bem verdade; mas a paz da Europa, como
diz Hendrik Van Loon, em sua História da Humanidade "era
uma paz de cemitério".A Santa Aliança tentou
estender sua nefanda influência na América, como na
Europa. Quando Simão Bolívar declarou a independência
da Venezuela, a Santa Aliança preparou-se para esmagar a
nova República sul-americana. O presidente Monroe dos Estados
Unidos, porém, declarou que "a América consideraria
qualquer tentativa da parte das potências aliadas de estender
seu sistema (de opressão imperial) a qualquer porção
do hemisfério ocidental como perigosa para nossa paz e segurança"
e "com manifestação de disposição
inamistosa para com os Estados Unidos".A Santa Aliança atentou
para as palavras da Doutrina de Monroe e limitou seu terrorismo
aos paises indefesos da Europa.O propósito principal
da Santa Aliança era tornar o mundo seguro para a autocracia.
Seu lema era: "Dividir para governar". Um dos países
que mais tragicamente sofreu às mãos dos bandidos
auto-santificados e que chamavam a si mesmos os salvadores da Europa,
foi a Itália. Este país tinha sido retalhado em uma
porção de principados e distribuídos entre
os membros da casa real austríaca (a família Habsburgo).
Mas o sangue da raça, como a água que se move, sempre
procura se reunir num canal único. Quanto mais oprimidos
eram os italianos, e quanto mais divididos, tanto mais ardentemente
desejavam a restauração da solidariedade nacional.
Para a mente prática dos estadistas da Europa, a unificação
da Itália parecia ser um sonho mau. Não assim, porém,
para Mazzini. Porque nas suas veias corria o sangue dos profetas.
Para ele essa idéia não valia menos que uma religião.
Mentalmente via não só a Itália, como todo
o mundo, reunido numa única família de espíritos
livres e adorando um deus único - o Deus do Amor.Nascido em Gênova,
em 1805, aos doze anos se interessou pelos problemas políticos
de seu país. Estava caminhando pela Stradd Nuova de Génova,
com sua mãe, quando passou por um grupo de refugiados que
fora derrotado num levante revolucionário e que procurava
auxílio para poderem ir para - a Espanha. "Naquele dia",
escreveu ele, "se apresentou pela primeira vez em meu espírito
uma idéia confusa - não direi de pátria ou
liberdade - mas uma idéia de que nós, italianos, podíamos
e portanto devíamos lutar pela liberdade de nossas terras.
Eu já fora inconscientemente educado na adoração
da igualdade pelos princípios democráticos de meus
pais, cuja atitude era a mesma tanto para os graúdos como
para os humildes. Fosse qual fosse a posição do individuo,
eles só consideravam o homem e procuravam apenas o homem
honesto".Enquanto esteve na universidade,
raramente se juntava às diversões dos outros estudantes.
Sombrio e absorto, parecia "uma pessoa subitamente envelhecida".
Nessa época, sempre se vestia de preto, imaginando-se de
luto pelo seu infeliz país. Reunindo em torno de si um circulo
de amigos de mesmas idéias, contrabandeou livros proibidos
e gastou muito tempo na discussão de idéias proibidas.
Até ai o seu interesse pela liberdade foi principalmente
acadêmico. Como Goethe, era um rebelde literário, não
político. Fundou um jornal radical, escreveu um ensaio heterodoxo
sobre Dante e procurou, em geral, provocar uma revolução
Intelectual na Itália.Mas sentiu os males de sua
nação, fundo demais, para permanecer toda a vida um
cruzado abstrato da justiça. Logo depois de se formar pela
universidade, aliou-se aos Carbonari (a sociedade secreta dos queimadores
de carvão) que estavam procurando revolucionar a Itália
contra a tirania dos austríacos.Mazzini não continuou
muito tempo membro dos carbonários. Achou que os lideres
eram muito ocupados com suas tolas iniciações e pouco
se importavam com o verdadeiro trabalho -a libertação
do país. Não tinha interesse pelas cerimônias
e nunca foi chamado para auxiliá-los em suas atividades.
No entanto, foi preso por suspeito (em 1830) porque, como declarou
o governador de Gênova, "era um jovem de talento, muito
amante de passeios solitários à noite e habitualmente
discreto a respeito do assunto de suas meditações,
e o governo não gostava dos jovens de talento, cujas divagações
tivessem por objetivo assunto desconhecido".Esse era o começo
de quase meio século de prisões, exílios e
outras perseguições que ele aceitou alegremente como
recompensa pelo seu amor à humanidade.Foi levado para uma fortaleza
que dava para o mar - e isso, ele nos conta, era um grande consolo.
"O céu e o mar - dois símbolos do infinito e,
exceto os Alpes, as coisas mais sublimes da natureza - estavam diante
de mim sempre que me aproximasse de minha pequena janela gradeada."
Aí teve tempo suficiente para continuar suas solitárias
e silenciosas meditações e traçar os planos
para a Europa liberta e unida. Viu que a sociedade dos Carbonários
não faria nada. Não gostava nem do seu segredo nem
das suas cerimônias. Queria lutar às claras. Por isso
se decidiu a formar uma nova sociedade, logo que estivesse livre
- uma sociedade de jovens que se interessassem por vigorosa ação,
não por cerimoniais ocas. Esta nova associação
dos espíritos livres - a Jovem Itália deveria ter
tríplice propósito: unir a Itália, transformá-la
numa República e fazer da Europa uma federação
de estados iguais e livres.Em 1831, em fevereiro, Mazzini
foi posto em liberdade, mas disseram-lhe que devia abandonar o país.
Foi para a França. Aí, também, descobriu que
não queriam homens que amassem a liberdade. Foi expulso da
França e refugiou-se na Suíça. Começara
a sua longa e triste peregrinação.
Da Suíça foi
para a Córsega. Aí tentou organizar uma rebelião
contra a Santa Aliança. Delicado por natureza, tinha grande
horror pela efusão de sangue. Detestava a violência.
"As grandes revoluções", escreveu no seu
manifesto da Jovem Itália, "são obra mais de
princípios do que de baionetas... A cega força bruta
pode criar vencedores, vitimas e mártires; mas a tirania
resulta de seu triunfo." No entanto, não foi bastante
forte para confiar, como Gandhi, na espada de uma idéia avassaladora.
Teve de recorrer às armas materiais e foi derrotado pelas
armas mais fortes dos tiranos. Consegui unir a Itália, mas
o país se fez um reino unido, não uma república. |