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Henry Thomas
1
É interessante observar Lincoln procurando
realizar sua grandeza. Mas é muito mais interessante observar
o espetáculo de Tolstoi a renunciar à grandeza. Lincoln
subiu do povo por causa de sua coragem suprema. Tolstoi desceu voluntariamente
ao povo por causa de sua infinita gentileza. Tolstoi, como
Buda, provinha de uma antiga família de príncipes.
Um de seus antepassados fora íntimo companheiro de Pedro
o Grande. Nascido em Yasnaya Poliana (Vale do Sol) em 1828, perdeu
a mãe aos dois anos e o pai aos nove. Juntamente com dois irmãos e duas irmãs, foi confiado
aos cuidados de uma parenta distante, a "tia" Tatiana.
Essa mulher tinha duas grandes virtudes, "serenidade e amor",
e um vício enorme: inclinação para se associar
a peregrinos energúmenos que ela considerava místicos
e santos.
Escutando as histórias desses peregrinos,
Tolstoi cedo adquiriu gosto pela metafísica e nunca pode
se livrar inteiramente dela. No fim de sua vida, era dado a sonhar
de dia e a especulações místicas que por vezes
anuviaram o vigor de um dos esplêndidos intelectos do século
XIX.
Na escola, foi aluno muito bronco. Seus professores costumavam dizer,
dos três irmãos Tolstoi: "Sérgio tem vontade
e capacidade; Dmitri tem vontade mas falta?lhe a capacidade; a Leon
faltam as duas qualidades."
Mas considerava
a vida muito seriamente. Aos cinco anos, já chegara à
conclusão de que a vida "não é um período
de divertimento, mas uma tarefa muito pesada". Aos dezesseis
perdeu a fé na igreja (grega) ortodoxa. Depois, seguiu-se
um período de vagabundagem filosófica através
do "deserto da adolescência", como ele o chamava.
Passando da religião ao agnosticismo e do agnosticismo ao
niilismo (não crer em coisa alguma) intelectual, chegou finalmente
à beira do desespero. Tinha, nessa época, dezenove
anos.
Sua infelicidade
era em grande parte devida à feiúra física.
Tinha fome de admiração. "Quero ser conhecido
por todos, ama. do por todos", escreveu em seu diário.
No entanto, acreditava que não havia felicidade na terra
para quem fosse pouco atraente como ele. Na verdade, seu rosto era
feio como o de um gorila - olhinhos afundados, testa baixa, lábios
grossos, nariz grandes e enormes orelhas. Possuía o espírito
de Ariel no corpo de Caliban. E assim, para esquecer todo seu aspecto
repulsivo, decidiu acabar com a vida.
Felizmente, porém, mudou de idéia
e procurou temporário esquecimento na dissipação,
em vez do olvido permanente na morte.
E então, um dia, descobriu Rousseau.
Essa descoberta
foi exatamente o tônico de que necessitava na ocasião.
Reconciliou-o com a própria lealdade e abriu?lhe os olhos
à beleza da natureza. Rejeitara a religião da igreja.
Adotou então a religião de Rousseau. Adorou-o como
a um deus. Usava um medalhão com o retrato dele, pendurado
no pescoço, como se fosse uma imagem sagrada.
Inspirado pela
filosofia de Rousseau, escreveu sua primeira novela, Um Senhor Russo.
Tratava do problema que o ocuparia toda a vida - o eterno conflito
entre o ideal do profeta e a indiferença do público.
O herói da novela, o Príncipe Nekhludov, saíra
da Universidade a fim de auxiliar seus conterrâneos. Mas,
como a maioria dos homens abandonados, os camponeses de Nekhludov
preferem continuar no caminho que trilhavam. Podem compreender um
tirano que bate neles, mas dificilmente sabem que fazer com um patrão
que se mostra bondoso. Afastam-se dele, ridicularizam-no, olham
com suspeita para o auxílio oferecido, consideram-no espião,
patife, louco - tudo, menos um homem desejoso de se fazer amigo
deles.
Nekhludov é
derrotado. Senta-se ao piano e toca as teclas. Não tem talento
para a música. Mas sua imaginação concretiza
a canção que seus dedos inábeis não
podem tocar. Ouve um coro, uma orquestra... O passado e o futuro
misturam-se numa realização triunfante de seu sonho.
Com a vista
mental, vê os camponeses, os mujiques, não apenas em
toda a sua feiúra, mas com todas as suas qualidades amáveis.
Perdoa-os pela sua ignorância, sua preguiça, sua obstinação,
sua hipocrisia, sua falta de confiança. Porque agora não
só olha para eles como dentro deles. Vê seus sofrimentos,
sua paciência, sua alegria, sua resignação pela
vida e a coragem com que enfrentam a morte.
- E' bonito
- murmura. E embora recusem sua ajuda, compreende-os e simpatiza
com eles. Porque são todos irmãos, ele e são
camponeses, carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue - um bando
de mujiques indefesos vivendo, trabalhando e morrendo sob o chicote
do senhor impiedoso, o Destino.
2
Em 1851, Tolstoi jogara seu dinheiro fora, fugindo para o Cáucaso
a fim de se livrar dos credores. Alistou-se no exército,
onde o irmão já era oficial.
Aos dezenove
anos Tolstoi cortejara a morte. Agora, aos vinte e três, acreditava
firmemente na vida. Deixou para trás as dúvidas filosóficas
e a opressão do senso do pecado. Mais uma vez se interessou
pelo misticismo - e pelas mulheres formosas. Como o jovem Fausto,
aceitou o mundo e achou que era divertido usá?lo como brinquedo.
Para que as experiências fossem boas bastava que lhe aumentassem
o prazer. "Nada é mau", escreveu nos Cossacos.
"Divertir-se a gente com uma menina bonita não é
um pecado. E' apenas sinal de boa saúde."
Saturou-se da
beleza das montanhas, brigou, jogou, amou e criou obras-primas de
realismo poético. Contos infantis, histórias de guerra,
novelas sobre cossacos, ensaios, cartas - toda uma enchente, saiu
de sua pena em rápida sucessão.
Absorvido em sua obra literária, pouca atenção
deu aos deveres militares. Amava muito a criação para
encontrar interesse na destruição. Embora ainda se
orgulhasse do uniforme, com suas bonitas medalhas e seus botões
de latão, já estava começando a ver a guerra
nas suas verdadeiras cores. Em A Invasão, escrita aos vinte
e quatro anos, soltou seu,primeiro grito de protesto contra o militarismo:
"E' impossível,
então, os homens viverem em paz, neste mundo tão cheio
de beleza, sob este céu imensuravelmente estrelado - Como
podem, num lugar como este, alimentar sentimentos de ódio
e vingança e o desejo de destruir seus semelhantes - Tudo
que há de mau no coração humano deve desaparecer
ao toque da natureza, essa expressão imediata do belo e do
bom."
Até aí, nas suas manobras militares,
vira apenas a imagem da guerra e não os combates. Em 1853,
porém, a Rússia abriu hostilidades contra a Turquia
e Tolstoi foi chamado a dar "seu pedaço" pela maior
glória do czar.
A princípio
deixou-se levar pelo fervor do patriotismo. Como os outros jovens
de sua nação, tornou-se feroz de repente. Uma onda
de entusiasmo bárbaro e religioso passou por ele. Voltou
ao misticismo da meninice. Assassinou turcos e conversou com Deus.
Agradecia a ele sua bondade para com os russos e sua ira contra
os turcos. Agradecia especialmente a conservação de
sua vida na hora do perigo. Porque, mesmo no meio do combate, Tolstoi
sentia estranhamente que Deus o estava salvando para um grande objetivo.
A 5 de março de 1855, escrevia em seu diário:
"Cheguei a conceber uma grande idéia,
a exija realização me sinto capaz de dedicar toda
minha vida. Essa idéia é a fundação
de uma nova religião..."
A religião
da não-resistência, da fraternidade internacional,
da paz. Entrementes, porém, continuava matando seus irmãos
turcos por ordem do czar.
Dentro de pouco
tempo, todavia, sentiu-se intoxicado pelos assassínios. Durante
a guerra da Criméia escreveu três livros. O primeiro
é flamante de patriotismo. O segundo fala tristemente da
chacina mútua de seres humanos. No prefácio do terceiro
condena os dirigentes do mundo por transformarem seus súditos
em simples "carne para canhão".
Quanto mais considerava a guerra, mais nitidamente
a via em todo seu horror.
3
Em 1856, Tolstoi deu baixa no exército e voltou para S. Petersburgo
(Leningrado) . Sua reputação de soldado e escritor
precedia-o. Tornou-se, imediatamente, um "leão"
da moda literária. Os principais autores e artistas da cidade
receberam?no em seu círculo íntimo. Mas ele achou-os
um bando heterogêneo de esnobes. Consideravam-se os eleitos,
os super-homens intelectuais da época, a glória da
criação. Escreviam para a intelligentsia e consideravam
o resto do gênero humano como indigno de partilhar de suas
idéias exaltadas. Mas a atitude de Tolstoi era exatamente
oposta à deles. A literatura para ele era uma religião
- o santo evangelho da beleza e da sabedoria que devia se tornar
a propriedade comum de todos. Portanto, em vez de escrever para
entreter alguns poucos, escrevia para educar muitos. Escrevendo para
a gente comum, não tinha ilusões sobre a Inteligência
dos leitores. Estava perfeitamente a par do seu "lado bestial
e desprezível". Mas, como o Príncipe Nekhludov,
sentia que estavam instintivamente caminhando para a luz. Estavam
apenas esperando um guia, um mestre, um homem que lhes mostrasse
o caminho. "Vai ao povo e ensina?lhe o que ele quer... Procura
compreender?lhe as necessidades e ajuda-o a satisfazê-las.
"
Abriu uma escola para camponeses em Yasnaya Poliana.
Nessa escola procurou ser não o professor, mas um discípulo.
Porque assegurava que todos eles não eram mais que crianças
procurando pronunciar as primeiras sílabas do livro da vida.
A escola foi fechada pela polícia e Tolstoi
aconselhado a deixar os camponeses em paz com sua ignorância.
Vieram então meses de doença e desencorajamento. Os
dois irmãos morreram de tuberculose e Tolstoi suspeitou sofrer
também da mesma enfermidade. Perdeu a fé na "bondade,
em tudo". Mais uma vez começou a pensar no suicídio.
Desta vez foi salvo pela arte e pelo amor que dedicou
a uma rapariga de dezessete anos, Sofia Andreyevna Behrs.
Casou?se com
essa criança - tinha exatamente o dobro da idade dela - e
entrou então num período de desanuviada felicidade
que durou quase quinze anos. Usando de seu direito, a condessa Tolstoi
tornou-se, para empregar sua expressão, a "verdadeira
mulher do escritor". Escrevia o que ele ditava, estimulava-lhe
a fantasia, encorajava-o, tirava exaustivas cópias dos seus
manuscritos, e servia de modelo para alguns dos seus mais fascinantes
personagens.
Sob a influência
dessa felicidade, escreveu duas das suas maiores obras - o poema
épico do sofrimento universal (Guerra e Paz) e a tragédia
da paixão individual (Ana Karenina).
Mas não estava ainda satisfeito com sua obra. Queria fazer
algo melhor, algo mais nobre do que produzir novelas admiráveis.
Quando o Príncipe Andrei, herói de Guerra e Paz, jazia
ferido em Austerlitz, percebeu subitamente o senso íntimo
de pacifismo do mundo. Viu "o céu ilimitado que se estende
sobre os ultrajes e abjeções da terra" e ao vê-lo
encheu-se de indescritível alegria. Essa tranqüilidade
intima, essa luz que cá e lá rompe as trevas da vida,
era algo que Tolstoi ansiava por transmitir aos seus semelhantes.
E sentia que não o podia fazer por meio da sua arte.
Começou
a pensar numa outra espécie de arte - a arte de estabelecer
um laço de simpatia entre os homens. Queria levar o povo
à luz. Mas, qual seria essa luz" Perdera a fé
na igreja ortodoxa e (fora seu interesse temporário por Rousseau)
nada encontrar, que tomasse esse lugar.
Em busca da
verdadeira fé, voltou à igreja. Reexaminou seu, dogmas
e suas práticas. Durante três anos submeteu-se a toda,
as suas cerimônias. Mas foi inútil. Era um adepto muito
ardente de Cristo para ser um cristão convencional. Achou
que o ritual era não somente estúpido como escandaloso.
- "Estou convencido" disse, - "que os ensinamentos
da igreja são, em teoria, uma mentira ruim e astuciosa e,
na prática, um conjunto de grosseira superstições
e feitiçarias, sob o que o verdadeiro significado da doutrina
cristã desaparece absolutamente."
E assim se afastou
pela última vez da religião que fora fundada e apoiada
pelo amor e a paz e que agora sancionava a intolerância e
a guerra. Tornou-se profeta de uma nova religião - melhor
dito, interpretou de novo a religião esquecida de Buda, de
Isaías, de Confúcio, de Cristo. Essa religião,
de que ele esperava ser líder apagado, devia dispensar todos
os rituais, igrejas e sacerdotes. Seria baseada em poucos e simples
mandamentos: Não sejas inimigo de homem algum; nunca dês
expansão à tua cólera e nunca recorras à
violência. Essa deveria ser a fase negativa à doutrina.
Do lado positivo, sua religião era uma religião de
protesto. Protestava contra o luxo indolente dos ricos, a tirania
do Estado e a crueldade da igreja. Tornou-se "comunista, anarquista
e herege: em suma, verdadeiro discípulo de Cristo".
Estava disposto a desistir da fama, da posição, da
riqueza, da própria vida, se necessário, pelo bem
do gênero humano. Vestia túnica de camponês e
fazia relações com os humildes nos termo mais amistosos.
Rebaixava-se para conquistar. Desceu de seu aristocrático
isolamento para o nível comum da humanidade; e assim fazendo,
elevou a humanidade a novas alturas de grandeza moral.
O mundo ovacionou-o
como profeta. Mas a família considerava-o louco. Sua esposa
começou a temer que estivesse perdendo juízo. Seus
filhos bocejavam e davam-lhe as costas sempre que lhes falava da
fraternidade humana. Amar uma vida de tamanho desinteresse parecia-lhes
um sinal seguro de loucura. Ficava muito bem que ele se sacrificasse,
diziam, mas que direito tinha de sacrificar a família aos
ideais particulares - Tornou-se estranho em sua própria casa.
"Talvez não me dês crédito", escreveu
uma carta a um amigo, "mas não podes imaginar como estou
isolado, nem até que ponto meu verdadeiro eu é desprezado
tamanho desinteresse parecia-lhes um sinal seguro de loucura.
Entretanto, a despeito dessa tortura mental, ele
continuou com o trabalho de interpretar Cristo na linguagem do século
XIX. Cristo tentara estabelecer o reino de Deus. Tolstoi acreditava
no estabelecimento da democracia do Homem. Escreveu grande quantidade
de ensaios e histórias para ilustrar os princípios
da compaixão humana e a não?resistência ao mal.
Como prêmio, foi excomungado pela igreja (1901).
À medida
que envelhecia, uma nota nova e fantástica começou
a soar em seus ensinamentos. Arrancado aos seus semelhantes, aos
filhos e à esposa, começou a considerar todas as relações
humanas a uma luz peculiar, mística e extraterrena. Fez?se
asceta. Antes, condenara o adultério. Agora, aos 70 anos,
advogava a abstinência sexual completa. "Aquele que olha
a mulher - principalmente a esposa - com sensualidade, já
cometeu um adultério com ela." Há algo patético
nesse espetáculo dum velho a querer reconstruir o mundo à
imagem dos seus desejos impotentes. Foi mais longe, a ponto de recomendar
a extinção da humanidade pelo estabelecimento do celibato
absoluto! Mas, então, sua mente já ia resvalando.
O misticismo estava adquirindo completo domínio sobre seu
intelecto. Na última novela, Ressurreição,
põe a alma de um velho santo no corpo de um jovem pecador.
Nekhludov, herói desse livro, começa como um safardana
e acaba como mártir. Dentro de alguns anos esse homem comum
passa por uma transformação moral que o extraordinário
Tolstoi tardou uma vida para atingir.
Ressurreição é um dos mais
belos poemas de piedade do mundo. Mas é obra dum velho.
4
Tolstoi sobreviveu à própria grandeza. Durante os
últimos dez anos de sua vida, advogou um ideal social, político
e ético que só seria possível num mundo de
criaturas sobre humanas.
Enquanto o tempo passava, ele se ia tornando cada vez mais o filósofo
profundo e a criança simples. O derradeiro ato de sua vida,
como quase tudo o que fez durante sua carreira, foi uma, estranha
mistura de estupidez e sublimidade. A 28 de outubro de 1910, às
cinco horas da manhã, Tolstoi fugiu do abrigo do lar e foi
procurar paz no mato. Tinha, na ocasião dessa fuga, oitenta
e dois anos. Trajando uma blusa campônia, o rosto embelecido
pela idade e enrugado pelo sofrimento, vagueou sem rumo como Buda
pelas estradas do mundo. Buda deixara a casa em busca da vida, mas
Tolstoi fizera?o à procura da morte. Queria morrer em paz. Tendo dedicado a própria
vida à piedade, fugia agora à piedade da família.
Durante vários dias vagueou de aldeia em aldeia, e por fim
caiu à beira do caminho para não levantar mais. Ao
médico que o atendeu, disse: "Há na terra milhões
de seres humanos que sofrem. Por que pensa somente em mim?"
Num domingo, 20 de novembro de 1910, encontrou a paz que procurara
durante toda a vida. Foi pouco depois das seis da manhã que
seu corpo, zurzido pela dor, se entregou à "grande devolução
final" ? como dizia ? "Morte, bendita Morte".
Devotara a maior parte de sua vida ao ideal de um
mundo civilizado e sem guerras. Menos de quatro anos depois de sua
morte, o mundo chafurdou na mais selvagem guerra de todas as épocas. |