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SIGNIFICADO E NECESSIDADE
DA ORAÇÃO

 

 


Coluna: Da Doutrina
Sob o comando do

Irm Antonio Carlos de Souza Godoi.
Or de Mogi Guaçu-SP

 

 

Mahatma Gandhi
(Da "Prédica sobre a oração", de M.Desai)
(Do "Discurso no Colégio Ramjas", Nova Delhi)

 

 

 

Estou contente por desejarem que lhes fale sobre o significado e a necessidade da oração. Acredito que a prece seja a alma e a essência da religião e que deve, portanto, ser o centro da vida humana, pois homem algum pode viver sem religião. Há alguns que, em seu egotismo racional, afirmam que não têm nada a ver com ela. É o mesmo que alguém afirmar que respira mas que não tem nariz.

Seja por intermédio da razão, do instinto ou por superstição, o homem vivencia alguma espécie de relação com o divino. Mesmo o agnóstico ou o mais convicto dos ateus reconhece a necessidade de um princípio moral, associando algo de bom à sua observância e de ruim à sua inobservância.

Bradlaugh, cujo ateísmo é bem conhecido, sempre insistiu em proclamar sua mais profunda convicção. Sofreu muito por dizer a verdade à sua maneira, mas isso o fazia feliz, dizia que a verdade é a recompensa de si mesma. Não que fosse insensível ao júbilo resultante da sua observância.

Essa alegria não é, em absoluto, material: origina-se da comunhão com o divino. Por isso afirmei que, mesmo que alguém negue a religião, não consegue viver sem ela. Passo agora ao segundo aspecto, que estabelece ser a oração o centro da vida humana e a parte mais vital da profissão de fé.

A prece tanto pode ser um pedido como, em seu sentido mais amplo, uma comunhão interior. Em ambos os casos o resultado final é idêntico. Mesmo quando se trata de uma súplica, esta deve pedir a limpeza e a purificação da alma, e sua libertação dos entraves da ignorância e do obscurantismo que a envolvem.

Aquele que está faminto pelo despertar do divino em si mesmo deve recolher-se em oração. Contudo, esta não é um mero exercício de palavras ditas e ouvidas; é uma mera repetição de fórmulas vazias. Qualquer repetição do Ramanama , por extensa que seja, é fútil se não for capaz de tocar a alma.

Numa prece, é melhor que haja um coração sem palavras do que palavras sem coração. A prece deve constituir-se numa resposta clara ao espírito faminto por ela. Tal como um homem com fome se compraz com alimento saboroso, uma alma que tem fome se compraz numa prece sincera.

Estou lhes transmitindo um pouco de experiência, minha e de meus companheiros, quando digo que aquele que experimentou a magia da oração pode atravessar vários dias sem alimento, mas nem um momento sequer sem orar. Porque sem isso não há paz interior.

Sendo assim, alguém poderia redargüir que deveríamos rezar todos os minutos de nossas vidas. Não há dúvida quanto a isso; mas nós, mortais errantes, que encontramos dificuldades em recolher-nos, por um momento que seja, dentro de nós mesmos para uma comunhão interior, achamos impossível permanecer em constante participação com o divino.

Determinamos, portanto, certos horários em que realizamos um sério esforço para nos livrarmos dos vínculos mundanos por um lapso de tempo; empenhamo-nos com seriedade para estar, por assim dizer, fora do corpo.

Vocês conhecem o hino de Surdas. É o clamor apaixonado de uma alma sedenta de união com o divino. Trata-se de um santo, pelos nossos padrões; mas ele mesmo considerava-se um pecador consumado.

Estava, espiritualmente, muitos quilômetros à nossa frente, mas sentia a separação do divino de modo tão agudo que lançou seu grito angustiado de horror e desespero. Falei da necessidade da oração e depois abordei sua essência.

Nascemos para servir a nossos semelhantes e não podemos fazê-lo de modo satisfatório se não estivermos bem despertos. Na eterna luta que assola o coração humano, travada entre os poderes da ignorância e os da luz; aquele que não possui a âncora mestra da oração será vítima dos poderes da obscuridade.

O homem que ora estará em paz consigo mesmo e com o mundo todo, enquanto aquele que, desprovido de uma alma devota, perambula pelas ocupações mundanas, será um infeliz e fará o mundo também infeliz. Portanto, além do significado que tem para a condição humana post-mortem¸ a oração é de um valor inestimável para o homem, neste mundo dos vivos. É o único meio de dar ordem, paz e repouso às nossas ações cotidianas.

Nós, moradores do ashram, que viemos para cá em busca da verdade e para persistirmos nela, professávamos a crença na eficácia da prece, embora nunca, até agora, a tivéssemos transformado numa questão vital. Não lhe dedicávamos a mesma atenção que aos outros assuntos. Despertei, certo dia, desse entorpecimento, e percebi que tinha sido desgraçadamente negligente para com meu dever nesse aspecto.

Sugeri, assim, rígidas medidas disciplinares - é preciso que façamos o melhor, para que o pior seja evitado; cuidemos do que é vital, e o restante cuidará de si próprio. Se endireitarmos um dos ângulos de um quadrado, os demais ângulos de endireitarão. Comecem seu dia com uma prece, fazendo-a de modo tão profundo que ela os acompanhe até a noite. Encerrem o dia com uma oração, para que tenham uma noite serena, livre de sonhos e de pesadelos. Não se preocupem com a sua forma.

Deixem que tome qualquer uma, desde que os coloque em comunhão com o divino. Porém, seja a forma qual for, não permitam que o espírito vague enquanto as palavras da prece vão sendo pronunciadas. Se formos tocados pelo que eu disse, não sentirão paz enquanto não tiverem feito com que os supervisores de seus alojamentos se empenhem na prece até converterem-na numa prática obrigatória. Restrições auto-impostas não significam uma coerção.

O homem que escolhe o caminho da não-restrição, isto é, a vida da auto-indulgência, será um escravo das paixões, ao passo que aquele que limita a si mesmo com regras e restrições se liberta. Tudo o que há no universo, incluindo o sol, a lua e as estrelas. obedece a certas leis. Sem essa influência restritiva o mundo não se manteria nem por um instante.

Vocês, cuja missão na vida é servir a seus semelhantes, se dilacerarão se não se auto-impuserem algum tipo de disciplina, e a prece é uma disciplina espiritual necessária. A disciplina e as restrições nos diferenciam dos brutos. Se quisermos ser humanos, caminhamos de cabeça erguida e não em quatro pés, é preciso que compreendamos e nos coloquemos sob uma disciplina e restrição voluntária.

Young India, 23/1/1930, p.25