PORTAL MAÇÔNICO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Liberdade Igualdade e Fraternidade


Ambrósio Peters


Os lemas de um modo geral são sentenças ou grupos de palavras que tentam exprimir ou simbolizar uma idéia, um sentimento ou um conjunto de aspirações de um grupo, de um partido, de uma religião, de um povo ou de uma nação. A respeito disso nos devemos sempre lembrar que as aspirações simbolizadas nos lemas nem sempre se realizam na vida real para todos os grupos que os idealizaram. Por vezes apenas alguns indivíduos chegam a perfeição idealizada, assim como poucos Maçons chegam ao verdadeiro ideal contido no lema Igualdade, Liberdade, Fraternidade pois sua realização está sujeita a fatores condicionantes individuais ou coletivos

Portanto o lema, ou o símbolo, "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" se constitui de um grupo de palavras que supostamente exprime as aspirações teóricas do povo maçônico e que, se atingidas, levariam a um alto grau de aperfeiçoamento de toda a Maçonaria, o que é evidentemente utópico, como a nosso ver o são todos os lemas.

A começar nem a própria universalidade do lema é atingida pois sua menção é rara nos países cujas Lojas não derivaram do Grande Oriente da França, e está especialmente ausente na literatura maçônica de língua inglesa e estranhamente também está ausente na literatura oficial do Grande Oriente da França.

Posto esse preambulo pensemos numa sucinta análise do conteúdo do nosso lema dividindo-a em duas partes: a teórica e a histórica. Os seus termos devem ser analisados separadamente pois eles representam, ou simbolizam, aspirações diferentes. Evitada a analise conjunta e definindo-os separadamente cremos que desapareerá o sentido contraditório vislumbrado por alguns irmãos participantes.

Assim definamos em primeiro lugar o termo Liberdade. Livre é o homem que não só não está impedido de agir ou se expressar dentro dos limites impostos pela sociedade organizada mas que tenha também a necessária capacidade física e intelectual para se autodeterminar. Dessa forma a liberdade é um direito social a ser exercido nos limites socialmente impostos, isto é, o direito de um termina onde começa o direito do outro. Uma liberdade irrestrita é evidentemente inadmissível, pois provocaria o caos social.

É pressuposto também que para exercer esse direito é necessário de liberdade socialmente restrita que o homem tenha um determinado grau de cultura que o permita situar-se convenientemente dentro de suas obrigações sociais ou seja, o homem deve estar apto a reconhecer os seus próprios limites de ação perante os ditames de sua sociedade.
Limites sociais corretos devem ser estabelecidos de tal forma que permitam ao homem desenvolver suas potencialidades e exercer sem óbices essas potencialidades sob qualquer aspecto, o moral, o social, o econômico, o político.

A Igualdade é sinônimo de justiça e equidade e refere-se ao relacionamento entre os indivíduos. A igualdade é portanto o direito que todos os homens tem de ser igual perante a lei, isto o é, terem todos os mesmos direitos fundamentais perante a sociedade. É o grau de Igualdade que define a dignidade da pessoa humana pois a desigualdade é fator de aviltamento. São as desigualdades sociais que perturbam o funcionamento normal da sociedade e são a causa de todas as revoluções e violências.
Fraternidade, como um sentimento, é o fator primordial da convivência harmoniosa, da paz, da concórdia. A fraternidade é o sentimento que apara as arestas causadas por falta de liberdade ou por desigualdades sociais. É um sentimento eminentemente maçônico.

Resumindo podemos dizer que liberdade é o direito de cada um de agir e se expressar sem óbices, de desenvolver e exercer as suas potencialidades individuais desde que respeitados os limites impostos pelas leis e determinações sociais: que igualdade é o direito de cada um de ter os mesmos direitos fundamentais de todos perante a sociedade em que vive; que fraternidade é a capacidade dos homens de viverem harmoniosamente em comunidade.

Liberdade e igualdade são aspirações pela quais luta, ou pelo menos o deveria, a Maçonaria e fraternidade é o sentimento básico cujo crescimento dentro do homem é o ideal da nossa Ordem. Na verdade livre, igual e fraterno são portanto as qualidades que definem o verdadeiro homem "livre e de bons costumes" de que falam nossos regulamentos.
Quanto a parte histórica cremos que dificilmente se chegará a uma conclusão ou a um consenso quanto a origem da trilogia "LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE"

A noticia de que tenha sido adotado pelo Grande Oriente da França no ano de 1848 pode ser correta pois nesse momento histórico a Maçonaria estava em grande evidencia política. A 25 de fevereiro de 1848 foi proclamada a II Republica e o ato solene dessa proclamação se realizou na sede da Prefeitura de Paris. Para o ato foram convidados dignitários do Grande Oriente da França, tendo sido recebidos com grande destaque. O orador oficial, saudando-os em nome das autoridades, disse solenemente "La Republicque est dans la Franc-Maçonnerie". Não haveria momento mais oportuno para oficializar a trilogia, apesar de não haver evidencias de que o tenha sido.

A II República teve vida efêmera pois já a 3 de fevereiro de 1852 se restaurava o Império. Este período de euforia foi aproveitado para construir a sede própria do Grande Oriente de França a Rua Cadet, onde se instalaria definitivamente no ano de 1853.

Não temos razões para duvidar daquela noticia do ano 1848 e nem o poderíamos porque não nos foi dado conhecer as referencias bibliográficas em que se baseou. Mas é evidente que dedicada as causas da II Republica e as atividades de construção de sua sede própria não havia clima para tratar da oficialização de uma simples trilogia que nenhuma influencia teria sobre sua estrutura nem sobre os seus projetos sociais.

Estranhamente também uma brochura publicada pelo Grande Oriente da França em 1979, contendo uma cronologia detalhada da sua historia desde o ano de 1725/26, quando se instalaram as primeiras lojas em Paris, até o ano de 1979 quando compareceram quinhentas lojas a uma Assembléia Geral Extraordinária, não faz a mínima referencia a trilogia. Nem a tradicional revista HUMANISME, órgão oficial daquele Grande Oriente, costuma dar destaque especial à trilogia,

Entre tantas informações importantes a respeito da Maçonaria na França aquela brochura traz sob o titulo geral "Une Societe Mysterieuse". subtítulo "Solidarité et Fraternité" uma definição destes dois termos e também do termo "egalité" que define como o direito de cada um. Este seria certamente um item apropriado para comentar, ou pelo menos citar a trilogia, mas apesar disso nenhuma referencia foi feita a ela.

Mas se esta trilogia se firmou na nossa tradição maçônica ou se, como vimos, seu sentido se adapta aos nossos princípios tradicionais, ela deve ter uma origem lógica na sua formação. E mesmo se ela tivesse sido oficializada no ano de 1848, ela já deveria fazer parte de nossa cultura informal tradicional antes daquele ano, possivelmente já desde os tempos do Imperador Napoleão I, pois lemas legítimos não se criam por decretos.
Diz o historiador Will Durant que , quando o Imperador Napoleão fazia sua vitoriosa campanha militar na Lombardia (1796/1797) sempre oferecia aos às cidades vencidas "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" acrescentando "e impostos". Em nome desse lema impôs um pesado tributo inclusive aos Estados da Igreja.

Quando já Imperador dos franceses, no intuito de convenientemente restabelecer relações normais com o Papado e com a hierarquia católica francesa, violentamente interrompidas pela Revolução, ele promoveu a assinatura de uma concordata (1805).

Diz o mesmo historiador que o Imperador Napoleão era céptico e tinha uma especial admiração pelos Iluninistas e que se sentia em desconforto perante si mesmo por causa daquele tratado. Então, apesar de não ser Maçom, mas sabendo que muitos iluministas se abrigavam nas Lojas Maçônicas, decidiu dar franco apoio ao Grande Oriente da França, tanto que em 1805 José Bonaparte, irmão mais velho do Imperador, foi proclamado seu Grão Mestre. E foi esse apoio que permitiu ao Grande Oriente da França retornar com vigor ao nível de suas atividades anterior à Revolução. (Todas estas informações constam da referida brochura)
Quando da eclosão da Revolução Francesa em 1789 contava o Grande Oriente da França com 635 Lojas, sendo 60 em Paris, 448 nas províncias, 40 nas colônias, 19 em outros países e 68 Lojas militares.

Com o desenrolar da Revolução enfrentou graves percalços, principalmente durante o período do Terror, e esteve em recesso de setembro de 1793 a julho de 1794. Esse recesso causou a desativação da maior parte das suas Lojas tanto em Paris como nas províncias. Em Paris se reduziram a 16. Cessado o período do Terror retomou lentamente a suas atividades.

Com a boa vontade de Imperador a partir de 1804 a recuperação foi tão vigorosa que já em 1814 o Grande Oriente de França atingira um momento de extraordinária pujança, pois se contavam em 905 as Lojas simbólicas, sendo 314 as dos graus superiores.

É licito pensar-se que o nosso lema "LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE" tenha começado a tornar-se habitual entre os Maçons do Grande Oriente da França já desde os primeiros anos do século XIX por influencia do próprio Imperador através do seu irmão o Grão Mestre José Bonaparte.

O Imperador, como filho da Revolução, pois era Jacobino fervoroso, deve ter absorvido os ideais revolucionários que num em primeiro tempo eram simplesmente "Liberdade e Propriedade", mais adiante "Liberdade e Igualdade", lema ao qual o ainda militar Napoleão acrescentaria "Fraternidade".

E se, como pensamos, os lemas são aspirações, talvez devamos concluir que "la mort" referido por participantes, não sendo uma aspiração mas uma ameaça, fosse mais um grito de guerra contra o Aristocracia e o Clero, os dois Estados que eram proprietários de um terço de todo o território francês e que espoliavam os 98% restantes da população, escravizando-a com o rigor de leis feudais.

A nosso ver não há duvida quanto a isso. O que os proletários e os camponeses franceses queriam era justamente o direito de ir e vir, o direito de escolher sua profissão, o direito de escolher sua religião, o direito de ser proprietários, em suma o direito de serem membros da humanidade, Tudo isso lhes era negado. Eles queriam a liberdade pois eram virtuais escravos, e a igualdade de direitos perante a lei.

A Maçonaria sofreu com a Revolução porque a absoluta maioria dos seus deputados estava entre o Clero e a Aristocracia e também porque se pronunciava a favor de uma monarquia constitucional (isto dito pelo próprio Grande Oriente), enquanto o terceiro Estado aspirava a republica.

Assim nos parece que a trilogia é de origem revolucionaria e que se introduziu na cultura maçônica através do Imperador Napoleão a partir do início do período napoleônico.