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Excertos do discurso de Peter Taçon-assessor Especial
do UNICEF Para Assuntos do Menor -
Jornal do UNICEF-Brasília -Abril/Maio/85.
O
menino de rua é um problema de todos. Problema estrutural,
fruto da trama econômica internacional, em que se
veêm enredados os países em desenvolvimento.
Uma ordem econômica crescentemente injusta.
NÃO
podemos aceitar mais declarações vazias, não
cumpridas, feitas em nome de nossas crianças.
NÃO podemos aceitar o internamento como solução,
pois ele cria mais indivíduos marginalizados.
NÃO podemos mais aceitar o mau trato institucional,
nem o abuso físico sobre essas crianças.
NÃO podemos mais aceitar a exploração
sexual do menor.
NÃO podemos mais aceitar a brutalidade policial,
nem os desaparecimentos inexplicados.
Os
meninos mais pobres já sofreram demasiadamente -
muitos condenados à morte, alguns a "viver".
Para
que tipo de "vida" vale salvar essas vítimas?
Para que salvar um menino, se não se dará
a ele uma infância?
Para que sobreviver até a idade escolar, se não
terá acesso a escola?
Para que aprender a brincar, se o trabalho extenuante é
o seu único futuro?
Para que formar um corpo jovem que o abuso sexual e a exploração
vão arruinar em poucos anos?
Para que a beleza, se a violência e morte o esperam
pela frente?
Para que formar vidas para o desemprego e a marginalidade?
Podemos escolher: saldar a dívida externa (dívida
econômica) ou esta dívida interna, dívida
profunda, mais enraizada que a história.
Diz-se que o menino de rua é perigoso. Talvez sejamos
mais perigosos do que ele. Suas palavras, seus olhos sujos
e seu mau cheiro são reflexos da nossa própria
negação em reivindicar os seus direitos básicos.
Sua mendicância, seus roubos e expedientes são
as únicas oportunidades que têm para que devolvamos
a eles o que lhes é de direito desde o início
dos tempos.
Seus pés descalços, sua roupa rasgada testemunham
nossa ignorância e nosso descaso, denunciam a urgência
de encontrarmos soluções concretas.
Ainda que a sua sobrevivência, em condições
por vezes insuportáveis, seja tida pela sociedade
como uma doença contagiosa, ele é, na realidade,
um verdadeiro ato de heroísmo, mais um exemplo vivo
da luta pela sobrevivência
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