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"Artigo Publicado no BOLETIM DO GOB
n° 22 de 09.12.97, extraído na íntegra devido a sua grande importância".

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HERÓI OU BANDIDO?


Excertos do discurso de Peter Taçon-assessor Especial do UNICEF Para Assuntos do Menor - Jornal do UNICEF-Brasília -Abril/Maio/85.

O menino de rua é um problema de todos. Problema estrutural, fruto da trama econômica internacional, em que se veêm enredados os países em desenvolvimento. Uma ordem econômica crescentemente injusta.

NÃO podemos aceitar mais declarações vazias, não cumpridas, feitas em nome de nossas crianças.
NÃO podemos aceitar o internamento como solução, pois ele cria mais indivíduos marginalizados.
NÃO podemos mais aceitar o mau trato institucional, nem o abuso físico sobre essas crianças.
NÃO podemos mais aceitar a exploração sexual do menor.
NÃO podemos mais aceitar a brutalidade policial, nem os desaparecimentos inexplicados.

Os meninos mais pobres já sofreram demasiadamente - muitos condenados à morte, alguns a "viver".

Para que tipo de "vida" vale salvar essas vítimas?
Para que salvar um menino, se não se dará a ele uma infância?
Para que sobreviver até a idade escolar, se não terá acesso a escola?
Para que aprender a brincar, se o trabalho extenuante é o seu único futuro?
Para que formar um corpo jovem que o abuso sexual e a exploração vão arruinar em poucos anos?
Para que a beleza, se a violência e morte o esperam pela frente?
Para que formar vidas para o desemprego e a marginalidade?
Podemos escolher: saldar a dívida externa (dívida econômica) ou esta dívida interna, dívida profunda, mais enraizada que a história.
Diz-se que o menino de rua é perigoso. Talvez sejamos mais perigosos do que ele. Suas palavras, seus olhos sujos e seu mau cheiro são reflexos da nossa própria negação em reivindicar os seus direitos básicos.
Sua mendicância, seus roubos e expedientes são as únicas oportunidades que têm para que devolvamos a eles o que lhes é de direito desde o início dos tempos.
Seus pés descalços, sua roupa rasgada testemunham nossa ignorância e nosso descaso, denunciam a urgência de encontrarmos soluções concretas.
Ainda que a sua sobrevivência, em condições por vezes insuportáveis, seja tida pela sociedade como uma doença contagiosa, ele é, na realidade, um verdadeiro ato de heroísmo, mais um exemplo vivo da luta pela sobrevivência