Irm Rizzardo da Camino (*)
Uma Iniciação
sempre traduz uma expectativa porque é um princípio,
e todo começo importa em fato novo.
Em Maçonaria
a Iniciação é a chave, o ponto de partida,
precedida, tão somente, pelos atos preparatórios...
O vocábulo
Iniciação não se apresenta isolado; deva-se
entender a palavra sob o aspecto filosófico, portanto ela
é compreendida como sendo entrar em iniciação
ou seja, ingressar num início.
Uma iniciação
não é um ato comum e tampouco exclusivo da Maçonaria
ou de outra Instituição paralela. A criança
é iniciada na escola quando ingressa no complexo (para ela)
mundo das letras e dos números, da escrita e da oralidade.
A puberdade envolve uma iniciação ao sexo; a maioridade,
a iniciação à vista.
A evolução
normal dos povos civilizados apresenta uma tendência para
a simplificação. A iniciação maçônica
de hoje difere muito da dos tempos iniciais, como acontece com os
processos miciáticos religiosos. O homem atual desenvolveu
o poder da síntese, deixando de lado as evoluções
desnecessárias. Questiona-se muito a respeito da validade
ou não deste comportamento que, atingindo a Igreja, lhe causou
certos transtornos.
O fator
que mantém as tradições e que apresenta a iniciação
maçônica como tradição do que era em
séculos passados, é o símbolo. A supressão
de certos atos, com a justificativa de modernizá-los, de
simplificá-los, de adaptá-los às circunstâncias
da atualidade, vem ferir a validade do símbolo. A Maçonaria
atual, modernizada, não abre mão de certos atos simbólicos
porque eles representam de modo compreensível todo um conjunto
de mistérios.
A revelação
não supre o valor do símbolo. O mistério permanece
e cada vez mais ele pode ser fortalecido e também ampliado,
renovado e recriado. A mística é a grande atração
para os maçons. Eles aceitam e mantêm a tradição.
Paralelamente
à iniciação, o iniciado deixa ou adquire hábitos,
jura e promete novas atitudes, novos comportamentos, nova filosofia
de vida. Podemos exemplificar com a iniciação do sacerdote
da Igreja que faz voto de celibato. Os Templários faziam
voto de pobreza.
Se fôssemos
verificar a respeito das variações iniciáticas
entre os povos, religiões, raças e posições
geográficas, nos perderíamos em um emaranhado de conceitos,
válidos todos eles quando questionados e quando recebida
a justificativa.
A criação
do homem, embora lendária, foi uma iniciação.
Juntado o pó com a água, feito o barro, concluída
a modelagem, veio o sopro divino e, ainda que surgindo adulto, o
primeiro homem símbolo teve um longo aprendizado. A sua posição
era cômoda porque nada tinha para deixar atrás ou de
lado. Tudo era princípio.
Houve,
sim, um voto. Apenas um: o de não comer dos frutos da Árvore
do Conhecimento.
Não
temos qualquer preocupação em duvidar desse princípio
da criação. Mesmo que tenha sido uma tradição
simbólica, início da saga hebraica, ele representa
um ponto de partida. Se, antes, já existia o ser humano -
os denominados "filhos da terra" - desses não temos
a história. Iremos nos defrontar com teorias, as mais credenciadas,
mas não poderemos sobre essas teorias construir nossa filosofia.
A Maçonaria acredita num princípio e aceita a tese
hebraica, porque obedece aos Landmarks, que são os 25 princípios
básicos de sua doutrina. A importância de estabelecer
critérios analíticos em torno desse princípio
não é vital. O posicionamento maçônico
atual é o de crer e aceitar a existência de um Deus
a quem denomina de Grande Arquiteto do Universo e da existência
de uma vida após a morte.
Portanto,
iniciação implica em aceitarmos um novo princípio.
com todas as injunções que o compõem, inclusive
com abrir mão de tudo o que era antes da iniciação.
Esta
secção, separando o passado do presente, não
é possível ocorrer no plano físico.
O iniciado,
ao deixar o Templo, ao retornar ao "mundo", esquece a
sua nova condição e readquire o comportamento que
tinha, isto paulatinamente, porque a "natureza não dá
saltos". O mundo então o recebe como ser mais aperfeiçoado.
Toda iniciacão se desenvolve no plano mental, espiritual
e místico.
Muitos
tendem a dar à Maçonaria um aspecto religioso e assim,
dentro das Lojas, formam-se correntes as mais diversas. O religioso,
de forma geral, tende a adaptar a Maçonaria aos seus princípios;
assim, sob o ponto de vista espírita, o maçom espírita
praticante construirá em sua iniciação um panorama
que não conflitue com sua crença. Porém, sem
afirmar que a Maçonaria é agnóstica, a religião,
embora extremamente necessária, não está incluída
na filosofia maçônica. Crer em Deus e numa vida futura
não implica em qualquer princípio religioso. A religião
fundamenta-se sempre, na fé. A Maçonaria prescinde
desta fé. O maçom religioso será, sempre, um
maçom compreensivo, embora os seus conhecimentos religiosos
possam frear a sua caminhada para o alto.
O religioso
crê no dualismo: Deus e Diabo. A Maçonaria aceita a
Deus como um Princípio, sem a preocupação de
perquirir sobre a origem deste Princípio, O homem, é
criatura; o Criador é Deus. O homem é eterno; a Eternidade
é Deus.
Temos,
portanto, na iniciação um aspecto curioso: trata-se
de uma Iniciação Maçônica e não
de uma iniciação religiosa. Uma iniciação
escolhida, aceita, experimental, e não uma iniciação
imposta. A religião pode ser seleção, mas genericamente
é imposta.
Nossos
pais, por exemplo, nos impõem um nome que devemos suportar
até a morte. Paralelamente, nossos pais nos dirigem para
uma religião: a religião deles. Na maturidade, o homem
pode escolher o seu próprio destino religioso, porém,
a influência do lar será a base de tudo. A Maçonaria
tem a faculdade de reconduzir o descrente para a sua crença
inicial.
A Maçonaria
aproxima o seu adepto a Deus. Ela o apresenta como uma obra perfeitamente
construída, adornada e acabada por um Grande Arquiteto. O
mistério se denomina, também, Deus. Para a Maçonaria
o Diabo nada é; ela aceita o dualismo como equilíbrio
de forças. O Diabo será apenas oposição,
descrença, desamor.
O homem
passa constantemente por iniciações. Nem sempre, são
iniciações conscientes.
A Iniciação
Maçônica, como vimos, é formada por um conjunto
de fatores. Inicialmente individual, para posteriormente integrar-se
a um grupo.
As iniciações
inconscientes resultam de uma evolução espiritual;
o que se processa no homem, dentro de seu universo, ainda não
está muito bem definido, mas existe. E a materialização
do "conhece-te a ti mesmo", da revelação
do grande mistério da Criação. Homem, quem
és?
A Maçonaria
dá muitas respostas, mas se torna necessário que o
candidato passe, efetivamente, por uma Iniciação.
A Maçonaria precisa com muita urgência, para sobreviver,
de iniciados, e não de elementos que passam por uma iniciação
sem que a morte se efetive. Para uma comparação, com
a finalidade de que haja compreensão maior, foi necessário
para Jesus que morresse para cumprir a sua missão de redimir
o homem. Sem uma morte, não haverá iniciação.
... Portanto,
em resumo, a Iniciação nada mais é do que a
aceitação da morte. Assim, esta morte perde o seu
aspecto trágico.
Quando
o homem se convencer de que a morte é redenção
e não castigo, não a temerá; a receberá
como Iniciação para uma nova aventura. Todos aqueles
que tiverem um amigo maçom e que forem propostos como candidatos
ao ingresso na Maçonaria, terão uma oportunidade única
e exclusiva. Sempre, contudo, que o candidato busque entender a
Iniciação.
Nos Estados
Unidos, onde a Maçonaria é levada a sério,
as Lojas distribuem aos candidatos um manual que serve de orientação.
Nós, brasileiros ainda temos tabu quanto ao ingresso na Ordem.
O candidato, já adentrando a Câmara das Reflexões,
ainda ignora o que seja a iniciação. Esta falha é
imperdoável.
Cabe
ao apresentador, ao padrinho esclarecer seu afilhado acerca do que
seja a iniciação maçônica. Obviamente
se esse mestre souber realmente da importância deste conhecimento.
O homem em núpcias prepara-se para a iniciação
do casamento, tendo já passado por um período de noivado.
O casamento indubitavelmente, é uma das fases mais importantes
tanto para c homem quanto para a mulher. Trata-se de uma iniciação
séria que cada vez menos é assim considerada, pois
assistimos a desfazimentos de casamento por motivos os mais fúteis
possíveis.
O importante
da iniciação do casamento é que se apresenta
contínua. Cada dia que passa surgem problemas que devem ser
solucionados, e isto perdura até o fim; não o fim
de um casamento mas o da vida.
Passado
o período de "mel", surgem os filhos e a grande
problemática do amadurecimento, o encaminhamento dos filhos
para a vida, as questões que.eles geram, as preocupações.
Depois, vem os netos, as enfermidades, a velhice. Muitas vezes o
casamento se interrompe com a morte da companheira, afastamento
permanente que causa traumas. Mesmo havendo separação,
prematura ou não, as funções geradas pelo casamento
não cessam; em caso de separação judicial,
subsiste a manutenção do outro cônjuge, dos
filhos menores e desamparados: uma continuidade trágica,
perturbadora, que traz, sempre, infelicidade.
Assim
é o maçom. A sua iniciação não
apresenta um ponto estanque; é contínua e permanente,
porque a cada dia que passa novas experiências surgem. Até
o fim, o fim da vida, o maçom prossegue nos atos misteriosos
e místicos da iniciação. O maçom é
para sempre, in eterno.
Temos
a iniciação profissional. No início entusiasta,
depois rotineira. Conforme a profissão, ela se apresenta
insossa, repetitiva, um castigo, tudo sempre igual: um patrão.
uma tarefa, sempre em busca da aposentadoria. Há profissões,
porém, que exigem progresso, atividade constante, e que dão
grande satisfação; como acontece nas pesquisas científicas.
A Maçonaria também possui essa parte: a grande busca,
a experiência, o próximo como elemento de trabalho
operativo. Essas iniciações são simultâneas:
religiosas, espiritualistas, científicas, operacionais, místicas,
enfim, um corolário de princípios que não cessa
prossegue até o fim da vida, desta vida.
Não
podemos fixar uma norma a respeito da iniciação; a
Maçonaria dispõe de tradição para realizar
iniciações formalmente iguais, revestidas de simbolismo
escolar. No entanto, nem a Maçonaria, nem as religiões,
nem a própria vida, iniciam alguém. A iniciação
é mística individual, pois ela se realiza dentro do
indivíduo. Se obedece a ritos rígidos, esses são
externos, daí que a cerimônia iniciática se
reveste de características fixas, enquanto a cerimônia
mística envolve a personalidade do iniciando e difere de
indivíduo para indivíduo. Com isto, surge a incógnita
da possibilidade ou não de encararmos uma iniciação
rotulada de atualizada ou moderna.
A iniciação,
seja qual for, será sempre paralela ao desenvolvimento espiritual
do indivíduo. Uma obra clássica não significa
antiga, de séculos passados. O clássico pode ser moderno
e atual; o que classifica é o lugar que encontra na sociedade.
Assim, podemos fixar uma iniciação clássica
como a aceita por uma maioria. Sempre, porém, ela será
atual no conceito do iniciando e não no conceito do iniciador.
A instrução
era feita, há cinqüenta anos atrás, de conformidade
com os métodos tradicionais; primeiramente, a alfabetização,
para depois, ano após ano, num trabalho de paciência
beneditina, incutir na mente do aluno o conhecimento previamente
programado, numa escala crescente para desenvolver o raciocínio
até atingir a universidade, onde a personalidade do mestre
passava a plasmar a cultura.
Hoje, a televisão se encarrega de tudo. Amanha, quem sabe,
a telepatia dará a orientação precisa e correta.
Portanto,
quando se cogita de entender o que seja uma iniciação,
deve-se atentar a todas as suas nuances e facetas, para, depois,
colher os resultados. Ë por este motivo que sempre alertamos:
o iniciado não é o que passa por uma iniciação,
mas o que inicia.
O segredo,
o grande segredo maçônico é o comportamento
do iniciando na Câmara das Reflexões, tão conhecida
pelos maçons e de certo modo um assunto esotérico,
ainda particular, de vendado de forma muito discreta numa linguagem
apropriada compreensão dos maçons, daqueles verdadeiramente
iniciados.
O candidato,
concluída a sindicância e aprovado pelo plenário,
sem voto divergente, é chamado. Esta chamada contém
muito misticismo. Dissera Jesus ao discípulo: "vem e
segue-me". O candidato, nesta altura já avisado de que
a sua entrada para a Maçonaria foi aceita, responde a chamada.
Ë muito importante ser chamado.
Na competição
atual, o homem busca alcançar um espaço; ele desbrava
caminhos, luta e nem sempre vence.
Porém,
na Maçonaria, quando menos espera, recebe o chamado, transmitido
pelo seu apresentador, seu padrinho. Esse chamado deve ser atendido?
O que passa pela mente do candidato? O atender o chamado significa
um ato de obediência. A obediência de modo geral, significa
submissão, ou seja, uma concordância tácita
de que tem disposição para ingressar em uma Instituição
que desconhece. O enigma deve ser decifrado e o homem, por ser desafiante,
ousado, impetuoso, passa a enfrentar o desconhecido. Ignora o nome
dos participantes da Instituição onde anuiu ingressar,
ignora a filosofia do grupo, os conceitos, a parte esotérica.
Porém, aceita e acompanha o padrinho até o Templo.
Atender
ao chamamento é o resultado do trabalho de preparação
que aludimos acima. Toda Loja, toda jurisdição maçônica
trabalhou com muito interesse para atrair o novo irmão que
irá beneficiar com a sua personalidade e presença
a fraternidade universal. É o retorno, o eco das vibrações
enviadas através da mente, da voz, das práticas, do
misticismo, do mistério. Se o chamamento for bem equacionado,
se as vibrações emanadas tiverem sido bem distribuídas,
indubitavelmente atingiram em cheio o candidato e ele não
poderá, de modo algum, negar o chamamento.
Não
será ele quem decide. A congregação é
que decidiu recebê-lo. E a fatalidade da preparação
a que ninguém escapa, a atração irresistível
em busca, inconsciente, da perfeição. Assim, o candidato
se entrega totalmente â iniciação. Aqui cesa.
a participação individual para dar lugar à
participação do grupo. |