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Irm Milton Pires Corrêa*
Na Criação há uma sucessão de etapas que se regem por leis básicas, como a do Movimento, da Evolução, dos Ciclos, da Seleção, dos Contrários e muitas outras. Por isso alguns homens parecem trilhar caminhos tortuosos
O tempo estava esplêndido. Dali se avistava o riacho de águas límpidas deslizando entre pedras que os raios de sol tornavam amareladas. Um jovem, confortavelmente recostado em uma saliência do terreno, com o olhar curioso e penetrante, seguia a correnteza até que as águas atingissem, logo abaixo, a planície verdejante e então, livres do canal de rochas que estrangulava seu deslizar, espalhavam-se', libertas, pelo leito mais largo.
O olhar explorador corria para oeste, onde o sol já se preparava para mergulhar no horizonte; voltava-se para o norte, contemplando, emocionado, as altas montanhas azuladas; para o sul, embebecia-se com a planície imensa em que ondulava, pelas brisas primaveris, o trigal dourado.
No céu, sobranceira, senhora de sua majestade, planava uma águia como que fazendo a última inspeção do dia.
Na terra, o piar e arrulho de pássaros pareciam cantar vivas à beleza do dia prestes a se encerrar.
Deteve o olhar e passou a admirar aquela figura venerável sentada à sua frente. Um laço preto prendia, junto à nuca, os cabelos brancos e ondulados. A barba longa, chamuscada por mexas pretas, encobria o pescoço, do mesmo modo que o vasto bigode, unindo-se à barba, escondia a boca. No entanto, os olhos destacavam-se na face rosada e transmitiam confiança e amizade.
Avaliou o moço, o quanto aprendera e quanto tinha a aprender com esse homem, simples pastor, mas dono de conhecimentos admiráveis.
Respeitosamente, dirigiu-lhe a palavra:
- Mestre, olhando tanta beleza e tanta paz, torna-se difícil compreender porque o homem - senhor das coisas - comete tantos erros, tanta crueldade, trilha tantos caminhos tortuosos. Será que ele não consegue compreender que se deve banir o Mal, enterrá-lo nas profundezas, de tal sorte que só o Bem sobreviva?
O ancião olhou compassivamente para o jovem, com os olhos vivos sorrindo e numa voz pausada e amiga assim falou:
- Meu rapaz, você às vezes não presta atenção ao que eu digo ou então, o que é também muito ruim, não medita sobre minhas palavras. Procuro transmitir o pouco que sei, mas é necessário que as idéias sejam trabalhadas. Elas são o alimento do espírito, fazendo-o forte e sábio. Porém, do mesmo modo que o alimento que se ingere deve ser mastigado e digerido, também as idéias deverão ser meditadas, analisadas, confrontadas. Se quem as ouve, limitar-se puramente a armazená-las na memória, jamais servirão de alimento ao espírito.
É como os livros em uma biblioteca. Por mais abrangente e meticulosa que ela seja, de nada valerá se seus livros permanecerem na estante. Será preciso lê-los, discuti-los, entendê-los! As ferramentas de seu espírito serão a inteligência, a isenção de ânimo, a razão! Procure penetrar naquilo que lhe apresentam como verdade. Pondere! Imagine uma proposição contrária à que lhe é feita. Se não se convenceu, nem por isto jogue-a fora: deixe-a guardada num escaninho qualquer, pois pode ser que amanhã, com nova visão e com nova experiência, consiga descobrir o que antes não conseguira.
Você começa por afirmar que o homem é o senhor das coisas. Será mesmo, meu filho? Na Criação há uma sucessão de etapas que se regem por leis básicas, como a do Movimento, da Evolução, dos Ciclos, da Seleção, dos Contrários etc.
Tudo na vida se manifesta através do movimento, da vibração. Tudo tem seu momento de inspiração e de expiração. A vida é movimento e a morte é inércia. A vibração é o suceder do repouso, o movimento. Aquilo que É traz em si, latente, mas seguramente marcada, a tendência para transformar-se em algo superior. É a força do amor, vinda do Criador, que reclama a volta daquele Ser, para junto de Si.
E essa força para elevar-se está presente, como disse, em todas as coisas: sejam minerais, vegetais, animais ou hominais. Os minerais tendem a transformar-se em vegetais, estes em animais. Existem minerais preciosos, quer por seu valor, quer por sua utilidade. E veja: existem vegetais que nos dão madeira, lenho, abrigo; outros que nos dão alimentos, desde frutos saborosos até verduras e hortaliças. No entanto, outros, de menor significado, nos dão muito pouco, embora todos sejam necessários. Nota-se que há, na realidade, uma escala entre eles.
E você pensa que o mesmo não acontece com os animais? Não existem alguns que nos são caros, quer pela companhia que nos fazem, quer pela utilidade que deles usufruímos? E aqueles que só nos incomodam, como a cobra, o escorpião, o rato etc.? Mas lembre-se que estes também são necessários, que estão numa fase evolutiva e já ultrapassaram passos menores hoje ocupados talvez pelas amebas e outros seres com evolução incipiente.
Será que entre os homens é diferente? Note quantos seres têm surgido, cujas inteligências abrem caminho e trazem luzes para a Humanidade. Quantos homens notáveis têm trazido exemplos e ensinamentos maravilhosos! Mas nem todos têm percepção, ou melhor, nem todos atingiram aquele estado de evolução que lhes permita captar tão lindas mensagens.
"Os homens são iguais em essência, mas diferentes na potencialidade!". (1)
(1) Henrique José de Souza, "Eubiose".
Verifica-se que, dentro do sentido evolutivo, há uma subordinação do menos evoluído para o mais adiantado. Este, em razão de seu estado de consciência, tem uma ascendência sobre aquele.
E se é assim até este ponto em que podemos medir, apalpar, pesar, por que seria diferente no plano seguinte, no espiritual? Quantos Seres evoluídos estão empenhados na obra do Pai! Por acaso não estão Eles muito à frente de nós na escala ascensional? E nós não estamos subordinados, evolutivamente, a tais Seres?
Deste modo, responda-me, o homem é realmente senhor das coisas?
Perturbado com tais palavras, o jovem responde:
- Diante do que acabais de dizer e onde vejo bom senso e serenidade, reconheço a precipitação de minhas palavras iniciais. Noto que existe uma espécie de hierarquia unindo todos os seres!
O velho sorriu, mostrando seus pequenos e alvos dentes e, gentilmente, prosseguiu:
- De fato, meu pequeno, existe realmente uma Hierarquia entre todos os seres criados. E essa Hierarquia, se é bem patente dentro do plano que habitamos, mais ainda o é no plano espiritual. Quando o Absoluto manifestou-se deu início a todo o plano da Criação. Foi o início de nossas experiências. Depois, em decorrência da própria manifestação, tivemos o princípio da Polaridade, isto é, o Espírito (o Princípio Criador) em posição oposta à Matéria (o ato da manifestação). Aqui surgiram as Hierarquias Criadoras. A primeira, a do Raio Divino - o pólo espiritual - deu origem à do Raio Primordial - o pólo material -- e esta, por sua vez, criou os universos. Estas duas subdividiram-se em sete partes e cada uma destas partes com atribuições próprias. E por isto que se diz que o Absoluto manifesta-se de Forma Setenária. Deste modo, quando você nota diferenças entre as criaturas materiais, você, na verdade, está olhando quase a base de uma pirâmide. O vértice está no plano espiritual, mas a base é tão importante quanto o vértice!
Você lamenta os homens cometerem erros, maldades e trilharem caminhos tortuosos.
Diga-me: você tem segurança para apontar os erros cometidos por um homem? Você, conscientemente, poderá julgar as atitudes de um semelhante e afirmar que ele está errado? O que você sabe sobre seu trabalho, seu passado, sua vida, sua mente, seu espírito?
Você mesmo há pouco, afirmou que existe uma hierarquia entre os seres. É forçoso também reconhecer que aquele que estiver num grau evolutivo maior terá maior responsabilidade. E se assim é, não lhe parece justo que a falta do mais evoluído seja considerada mais grave do que a do outro? Não lhe parece acertado que aquele que errou responda por sua falta? Do mesmo modo, aquele que acertou, não merece uma consideração maior? Este vínculo que controla as reparações e os prêmios, é regido por uma lei natural: a Lei do Carma. Não é uma lei que só inflija castigos, pois, justa como todas as Leis Naturais, também reconhece os que conseguiram, graças ao esforço pessoal, ao trabalho denodado, ao amor por seus iguais, galgar um degrau na Escada da Perfeição.
Por esta Lei, você poderá compreender porque os homens trilham caminhos que a você parecem tortuosos. No entanto, nem tudo se prende unicamente à Lei do Carma. As Leis Naturais combinam-se para permitir ao Ser seu retorno ao Pai.
Se elas se combinam, não significa que imponham um caminho a ser percorrido. O Ser tem livre escolha para seguir à direita ou à esquerda. O que não poderá fazer, como já visto, é permanecer inerte, pois isto será antievolutivo, será a verdadeira morte. Lembre-se: a vida é movimento, é vibração! Poderá, pois, o Ser escolher o caminho íngreme e certamente pedregoso que conduz direto a um grau maior de Evolução. Poderá, também, escolher a senda mais amena, porém muito mais longa que, por igual, o levará ao mesmo destino.
A esta possibilidade de escolha, dá-se o nome de Livre Arbítrio. Mas atente bem para o que foi falado: a opção é quanto ao caminho e quanto ao tempo que se levará para percorrê-lo; não vale quanto ao destino final. Este já está determinado antes mesmo da Criação!
No entanto você chora quem escolhe a via tortuosa. Por quê? Se o caminho é mais longo, mais oportunidades de erro e, conseqüentemente, mais chances de conscientização desse erro, que se aprende. Apenas os que já tiveram a ventura de atingir um certo grau na escala evolucional é que terão condições de vislumbrar o caminho mais curto. É preciso que tenham o verdadeiro Amor e a verdadeira Consciência da Criação! Poucos, muito poucos, são estes felizardos. A maioria terá ainda que trilhar o caminho tortuoso. Esforcemo-nos para auxiliar os que necessitam de esclarecimentos, que estão ansiosos por uma ajuda amiga, sem dogmas, sem fanatismos!
Mas você, caro amigo, fala ainda em extirpar o Mal, deixando apenas o reino do Bem! Que tristeza se isso viesse a ocorrer! Não se espante! Não sou nenhum defensor do Mal e, certamente, o combato tanto quanto você o faz. Mas pense comigo: para que exista a parte de cima é imprescindível que exista a parte de baixo. Sem a escuridão não existiria a luz. Para que haja o infinito é preciso que haja o finito. O bom só existe em razão do mau. O Bem só é possível se existir o Mal!
Se você eliminasse qualquer um destes pontos o oposto também deixaria de ter razão de existir. Esta é uma outra Lei Natural: a Lei dos Opostos. Temos, deste modo, que o Bem e o Mal são, na verdade, duas ilusões que se completam, pois são manifestações de uma mesma origem! E vemos ainda que, embora devamos combater o Mal, ele é indispensável para o progredir do homem!
O jovem, sorrindo por dentro e por fora, por tantas informações que recebeu, disse:
- Mestre, envergonho-me de minhas palavras. Mal disse algumas sílabas e já cometi tantos enganos! Primeiro, pensei em lhe afirmar que iria procurar falar menos. Mas se o fizer, não é certo que irei privar-me de tão sábias instruções? O Mestre, bondosamente, não acabou de dizer-me que, errando, se aprende mais firmemente? E, afinal, teria sido meu erro um Mal ou um Bem? Mas prometo-lhe uma coisa: vou pensar cuidadosamente sobre tudo quanto ouvi hoje; vou analisar, tirar deduções, vou tentar nutrir meu Espírito!
O velho, também sorrindo por dentro e por fora, com os olhos brilhando e com a esperança de haver semeado em solo bom, olhou para o Sol que se escondia, para a águia que retornava ao ninho e dispôs-se a aguardar um novo dia.
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