Fernando
Henrique Becker Silva *
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A História
da cidade de Blumenau, sempre esteve, intimamente, ligada com a
Maçonaria:- às vésperas da Primavera de 1850,
o maçom Hermann Blumenau, Doutor em Filosofia, pela Academia
Real Ludovico (23.03.1846), fundou a colônia que leva seu
nome.
Filho
de Karl Friedrich Blumenau e Christine Sophie Kegel, Hermann Bruno
Otto Blumenau nasceu em 26 de dezembro de 1819, em Hasselfeld, na
Alemanha. Faleceu quase oitenta anos depois, em 30 de outubro de
1899, na cidade alemã de Braunschweig.
Quanto
à sua vida maçônica, entretanto, perdura ainda
bastante discussão:
Segundo Kurt PROBER (1)
(1988, p. Z – 40), Dr. Blumenau foi iniciado em 1845, na Loja
"CARL ZUR GEKROENTEN SAEULE”, de Brunsviga (sic), na
Alemanha.
Para Carlos Alberto de MELO (1982, p.303), o colonizador alemão
foi iniciado em 1845, mas na "VEREINIGTE FREIMAURERLOGE"
da cidade de Erlangen. (2)
Já
Ursula e Ulrich MUNCHHOV (1984) anotam:
"O
Arquivo da cidade de Erlangen guarda um documento escrito por seu
próprio punho: 'Hermann Blumenau, agricultor, residente às
margens do Rio Itajaí, no Brasil', datada de Erlangen, 9
de fevereiro de 1849, no qual pede admissão na Erlanger Freimaurerloge
(Loja Maçônica de Erlangen). Uma anotação
a lápis, Nº 632: eliminado 1863, prova que foi aceito
como membro. É mister lembrar aqui que principalmente em
Hamburgo, estava a sede dos armadores e comerciantes que apoiavam
os planos de Blumenau. A maçonaria desempenhava um papel
relevante como congregação de pessoas ligadas à
economia, artes, ciências, além das barreiras profissionais
e sociais".
Ou
seja, segundo estes últimos, o Dr. Blumenau teria sido iniciado
na Maçonaria somente após sua primeira viagem ao Brasil,
em 1846. Nada obstante, é certo que ao vir para o Brasil
pela primeira vez, o sagaz colonizador trazia consigo uma carta
de recomendação do também maçom alemão
Alexander von Humboldt.
Conforme
anotação no documento encontrado por Ursula e Ulrich
MUNCHHOV, o Dr. Blumenau teria sido eliminado da "Vereinigte
Freimaurerloge" em 1863, provavelmente por falta de freqüência
e de pagamento - afinal, ele estava no Brasil.
Ocorre
que a pequena vila do Sul do Brasil foi crescendo e se desenvolvendo,
surgindo assim a necessidade de escoamento da sua produção.
Dr. Blumenau, desejando promover a comercialização
dos produtos coloniais e divulgar o potencial de sua colônia
no Velho Mundo, decidiu ofertar seus produtos no mercado alemão,
cuja principal porta de entrada era a cidade portuária de
Hamburgo. Lá, em contato com os grandes barões do
comércio - em sua grande maioria maçons - acabou sendo
convidado a regularizar-se naquele Or. Desta forma, acabou ingressando
na Loja "ABSALOM ZU DEN DREI NESSELN", Nº 1, a mais
antiga Loja da Maçonaria moderna da Alemanha (1737), pertencente
à "GROPEM LOGE VON HAMBURG" (Grandes Lojas de Hamburgo).
E
na condição de maçom, Blumenau angariaria bastante
apoio dos hamburgueses para a Colônia, conforme destaca STEFIFENS:
"Unterstützt wurde Blumenau in Deutschland hauptsächlich
von den Hamburgern, die sich aus einer Kolonisation in Brasilien
einen Aufschwung ihres Handels mit Südamerika versprachen”.
(3)
O
Ir. José GONÇALVES, membro da Academia Catarinense
Maçônica de Letras, numa peca de arquitetura intitulada
"O Doutor Blumenau e a Maçonaria Blumenauense"
traz detalhes do período em que se deu o ingresso do importante
maçom na Loja de Hamburgo:
“No
ano de 1865, o fundador viajou para a Alemanha já com a idade
de 46 anos”. “Deixou a colônia sob a administração
de seu notável colaborador Hermann Wendenburg”.
Foi
nesta ocasião e nos anos que se seguiram, enquanto ele permanecia
na Alemanha fazendo o trabalho de aliciamento de novos imigrantes,
que Hermann Blumenau pôde desenvolver seus estudos e realizar-se
maçom na autenticidade. Regularizou sua situação
de aprendiz maçam na Loja de Hamburgo, a Apsalon nº
3 e a mesma freqüentou durante quase quatro anos, isto é,
até retornar a Blumenau no dia 23 de novembro de 1869, trazendo
consigo, além da condição de Mestre ou talvez
de Mestre instalado, sua esposa Berta (nascida Repsold) e seu primogênito
Pedro Hermann. Seu casamento ocorreu em 21 de março de 1867".
E
como estava estabelecido no Brasil, o Dr. Blumenau teve permissão
para fundar em terras tropicais uma Loja Maçônica.
Assim, por volta de 1870 e junto de outros maçons que moravam
no povoado, fundou a "ZURFRIEDENSPALME”. (4)
O
Ir. José GONÇALVES (1978, p. 143), esclarece as origens
desta Irmandade:
"(
... ) conclui-se que, a loja teria existido a partir ou até
antes de 1870, mas em forma de uma associação de maçons
que se reuniam, habitualmente em ambientes diversos, secretamente,
quando praticavam os rituais maçônicos e desenvolviam
os estudos filosóficos, assim como também seriam,
tais reuniões, para estreitar os laços de amizade
que uniam essas personalidades, cuja cultura e inteligência
estavam muito acima do nível intelectual da grande maioria
da população formada por imigrantes e descendentes
destes, cuja principal atividade era o da agricultura. Sentindo,
por isso mesmo, necessidade de palestras, diálogos, troca
de idéias de sentido mais elevado, dentro de um nível
de cultura que os identificava, eles resolveram promover a fundação
da comunidade maçônica, sem todavia conseguir oficializar
a existência de uma loja regular, senão muitos anos
mais tarde. Nas reuniões que passaram a realizar periodicamente,
muitos assuntos devem ter sido debatidos, todos do maior interesse
da novel colônia, assim como os passos que deveriam ser dados
para oficializar a existência da primeira loja maçônica
em Blumenau".
A
Loja oficiava de acordo com o rito de Schroeder, e desenvolvia seus
trabalhos, numa antiga casa de colono, situada à Rua 1tajahy,
no bairro Vorstadt, que seria posteriormente um asilo de anciãos,
e depois, serviria como residência (Rua Itajaí, nº
516 ) (5)
E
assim a Irmandade acompanhava o caminhar manso (mas não necessariamente
tranqüilo) do progresso da pequena vila germânica. Seus
membros participavam ativamente dos principais acontecimentos locais,
profanos ou não, como foi o caso da grande enchente de 1880,
conforme conta a professora Edith KORMANN (1994, p. 145):
"Um
fato que marcou Blumenau após a grande enchente de 1880,
foi o auxílio recebido da Loja Maçônica "Zur
Eintracht" (Concórdia) de Porto Alegre da quantia de
2:667$000, quantia esta agradecida pela Comissão de Socorro
integrada pelo Padre Jacobs-Vigário, Wilhelm Scheeffer, Heinrich
Probst, Louis Sachtleben, P F Faust, Julius Baumgarten, Franz Lungershausen,
Doutor Blumenau, Dr. Fritz Mueller e Viktor Gaertner, em carta de
2 de janeiro de 1881”.
Já
Carlos Alberto de MELO (1982, p. 303) elenca os nomes dos OObr.
que viram a instalação do Município (6):
“Em
1883, quando da instalação do Município de
Blumenau, a Loja
Maçônica Zur Friedenspalme tinha como membros ativos
os seguintes irmãos: Hermann Bruno Otto Blumenau, Wilhelrn
Scheeffer, Friederich van Ockel, F Bockelmann, Luiz Altenburg Sênior,
Gustavo Salinger e Pedro Feddersen, dentre outros". (MELO,
p.303)
O
Ir.Wilhelm Scheeffer, na ocasião, assumia como Juiz de paz.
A
Loja, no entanto, não estava oficialmente regularizada, o
que causava certo desconforto ao Dr. Blumenau, conforme deixa claro
em uma carta endereçada aos seus IIr. Scheeffer, Saltinger,
Altemburg, e Lungershausen, datada de 4 de agosto de 1884 (apresentada
pelo Ir. José GONÇALVES, 1978, p. 145):
"(
... ) Tendo em vista as irregularidades verificados entre os nossos
irmãos de Joinville, Rio de Janeiro e Hamburgo e que diga-se
de passagem, foram bastante desagradáveis, não acho
aconselhável, conveiente e acho até certo ponto ilegal
e de mau sentido político, se a nossa Loja não se
filiar ao Grande Oriente do Brasil, o país em que queremos
ou teremos de viver, para filiar-se a uma ordem maçônica
do exterior. Os motivos deste meu modo de Pensar, já tive
oportunidade de expressar verbalmente a todos, não sendo
mais necessário repetir aqui em pormenores.
Além do mais, eu sou de opinião de que nossa loja
não seja considerada brasileira nem alemã, mas sim,
uma loja teuto-brasileira e que essas características sejam
oficializadas através dos timbres dos carimbos e dos selos,
utilizando-se as denominações simultâneas de
'Palma da Paz' e 'Friedenspalme'.
Na
vida comum, existem preconceitos e lados especiais que a gente não
deveria ferir, assim como existem fatos de somenos importâncias
que a gente não devia deixar de lado, em se tratando de fazer
o bem e evitar de fazer o mal. As pessoas cultas e esclarecidas,
dotadas de experiência, aceitam os homens sejam eles maçons
ou não, como eles de fato são e não como eles
poderiam ou deveriam ser. - Saudações tríplices
e fraternais. Assinado - Hermann Bruno Otto Blumenau"
Em
15 de agosto de 1884, Dr. Blumenau retornou definitivamente para
a Alemanha, tendo, a partir daí, trabalhado para a regularização
da Loja "Zur Friedenspalme" junto às Grandes Lojas
de Hamburgo, tendo sido exarada, em 24 de junho de 1885 (7),
a Carta Magna de Reconhecimento pelas Grandes Lojas de Hamburgo.
Estava oficialmente fundada a Loja Maçônico "ZUR
FRIEDENSPALME".
Manfred
STEFFENS (p. 77) anota que: "Das Hamburger Logenblatt vom,
Juli 1885 vermerkt, dab sich in Blumenau vor kurzem eine Loge, Zur
Friedenspalme' konstituiert habe und dab ihr Meister vom Stuhl,
Wilhelm Scheeffer, beauftragt worden sei, die Loge im Auftrag der
Groben Loge von Hamburg zu installieren und zu eröffnen".
(8)
Encontra-se
no Arquivo Histórico Prof. José Ferreira da Silva,
a original de uma carta (9)
datada de 1º de outubro de 1885, assinada pelos IIr. W. Scheefer
e Gustav Salinger, e endereçada ao Sr. Ottokar Dörffel,
da cidade de Joinville, convidando-o para participar da instalação
da Loja "Zur Friedenspalme" em 10 de novembro daquele
ano.
Por
fim, em carta endereçada ao Ir.-.Frederico von Ocket, datada
de 1º de dezembro de 1885, o Dr. Blumenau informava-o: "Grandes
novidades não tenho para lhe contar sobre os progressos e
inovações em nossa colônia, já que isso
deve ter sido informado pelos srs. Scheidemantel e o Diretor Stutzer.
Fora isso, a novidade que tenho é a de que a nossa Loja 'Friedenspalme'
já foi instalada e também reconhecida pelas Grandes
Lojas de Hamburgo". (GONÇALVES, 1978, p. 146)

A
primeira Loja Maçônica de Blumenau, que teve em suas
fileiras outras figuras ilustres como o Pastor Oswaldo Hesse, funcionou
até meados de 1900, quando encerrou seus trabalhos. Os Calendários
Maçônicos fazem menção à Loja
"Zur Friedenspalme" até o ano de 1901, quando teria
finalmente abatido colunas.
A
PLAQUETA COMEMORATIVA
Com
a morte do Dr. Blumenau, em 30 de outubro de 1899, em Braunschweig,
Alemanha, foi encomendada uma plaqueta de bronze (78gr; 55x88mm)
a MAX VON KAWACZYNSKI, cunhada em Berlim, numa homenagem póstuma
ao maçom fundador da cidade.
Há
controvérsias se quem encomendara a medalha teriam sido os
maçons da colônia Blumenau, ou membros da Fraternidade
Maçônica Irmãos da Colônia'', em Berlim.
Meio
século mais tarde, quando dos preparativos da festa dos 100
anos de fundação da cidade de Blumenau, foi nomeado
o Frei Ernesto Emmendoerfer
como
presidente da Subcomissão do Livro do Centenário de
Blumenau. O clérigo, avesso à Maçonaria, mandou
o Sr. Frederico Kilian cortar aquela plaqueta, abstraindo as evidências
de que Dr. Hermann Blumenau, (com justiça) tão elogiado
nas páginas da obra, era maçom.
Um
dos exemplares da relíquia pode ser encontrado no Museu do
Grande Oriente do Brasil, no Or.do Rio de Janeiro. No acervo do
Museu da Família Colonial de Blumenau, pode ser encontrado
um molde de gesso da plaqueta, sob número de registro 91.411. |