FRANCISCO ARIZA
Tradução: Sérgio K. Jerez
Resumindo, em realidade tudo isso se refere a uma transmissão de caráter sagrado efetuada da tradição judia para a Ordem maçônica, o que equivale a uma autêntica "paternidade espiritual". Seja como for, o legado da cosmologia greco–romana unida à espiritualidade cristã, deu como resultado a criação da catedral gótica, edificada pelos grêmios de construtores. Uma catedral, ou um monastério, é um compêndio de sabedoria; nela, gravada na pedra, se materializam todas as ciências e todas as artes, assim como os diferentes episódios bíblicos que fazem a história da tradição judaico–cristã. Ali aparecem os diversos reinos da natureza, o mineral, o vegetal, o animal e o humano, da mesma forma que as hierarquias angelicais que circundam o trono onde mora a deidade.
Tudo isso converte a catedral, em um livro de imagens e símbolos herméticos reveladores da estrutura sutil e espiritual do cosmos. Essas colunas que se elevam verticalmente até outro espaço, unindo a parte inferior (a terra) à superior (o céu), esses arcos e abobadas que se assemelham a cristalizações dos movimentos circulares gerados pelos astros, essa luz solar que ao penetrar através do colorido policromado dos vitrais se transforma em um fogo sutil que a tudo inunda; todo isso, dizemos, nos permite reconhecer a existência de um espaço e um tempo sagrados e significativos. Este conjunto de equilíbrios, módulos e formas harmoniosas (que por refletir a Beleza da inteligência divina se constitui em "resplendor do verdadeiro", como diria Platão) se gera a partir de um ponto central, que, por sua vez, é o "traço" de um eixo vertical invisível, mas cuja presença é onipresente em todo o templo.
Este ponto central não é senão o "nó vital" que promove a coesão do edifício inteiro, e para onde conflui e se expande, como se tratasse de uma respiração, toda a estrutura do mesmo. Tal "nó vital" era bem conhecido pelos mestres de obra, que viam seu reflexo no umbigo, sede simbólica do "centro vital" do templo–corpo humano. Essa estrutura do cosmos–catedral, imperceptível aos sentidos comuns, se percebe graças à intuição intelectual e às formas visíveis do céu e da terra, que estão simbolizadas pela abóboda e pela base quadrangular ou retangular, respectivamente. Daí que a Maçonaria conceba o cosmos como uma obra arquitetônica e, a divindade, como o Grande Arquiteto do Universo, também chamada Espírito da Construção Universal em outras tradições.
Perto das catedrais em construção se encontravam as oficinas ou lojas, nas quais se traçavam e desenhavam os planos, se repartiam as obrigações, se falava dos detalhes da obra, e se celebravam os ritos e cerimônias de iniciação. Estas oficinas eram autênticos centros de ensino tradicional onde, além das técnicas do ofício, se transmitiam os conhecimentos cosmogônicos. Realmente, nas oficinas maçônicas se conjugavam a arte e a ciência, a prática e a teoria, seguindo assim o famoso adágio escolástico segundo o qual a "ciência sem arte não é nada".
Cada Loja ou oficina estava sob a autoridade de um mestre arquiteto, que tinha a suas ordens os oficiais companheiros (divididos em sub-graus e funções), que por seu lado vigiavam e dirigiam os trabalhos dos aprendizes. Esta estrutura ternária e hierarquizada de aprendiz, companheiro e mestre se encontra com os mesmos ou diferentes nomes unanimemente repartida em todas as organizações iniciáticas e esotéricas, pois tal hierarquia expressa um modelo do processo iniciático íntegro, que reproduz exatamente o desenvolvimento cosmogônico das "trevas à luz", do "caos à ordem".
Um dos poucos testemunhos que se conservaram dos desenhos realizados pelos maçons operativos é o álbum do arquiteto francês Villard de Honnecourt, ao qual pertence também o traçado de um labirinto, cuja forma é idêntica à de todos os labirintos iniciáticos: uma série de dobras concêntricas que conduzem, depois de um longo trajeto que começa na periferia, ao centro do próprio labirinto, ou ponto de contato com o eixo vertical por onde se produz a comunicação com os estados superiores e a "saída" definitiva do cosmos, ou seja, dos limites determinados pelo tempo –e seu porvir cíclico– e o espaço.
Junto aos maçons operativos encontramos os sábios alquimistas e astrólogos, perfeitos conhecedores das ciências da natureza aplicadas como símbolos vivos do processo iniciático e regenerador. Eles dotaram a catedral de numerosos símbolos baseados nas correspondências e analogias entre o macro e os microcosmos, o céu e a terra, a divindade e o homem, considerando-se os legítimos herdeiros da ciência sagrada de Hermes Trismegisto. A "pedra bruta" que os maçons poliam e talhavam para a construção, representava, como já dissemos, o mesmo que a "matéria caótica" dos alquimistas: uma imagem da substância plástica indiferenciada na qual estão contidas, em estado não desenvolvido e potencial, todas as possibilidades de manifestação de um mundo ou de um ser. A pedra estava viva, não era simples matéria inerte, e ao mesmo tempo, sua dureza e estabilidade simbolizavam a imutabilidade e firmeza do Espírito. Em tudo isso, um detalhe não deve passar desapercebido: os alquimistas tinham a Santiago, o Mayor, como santo padroeiro, que junto com São João Evangelista (padroeiro dos maçons) e São Pedro (fundador da Igreja), assistiu aos mistérios da Transfiguração de Cristo no Monte Tabor. A partir de então, um "laço" fundamentado em um "Segredo" devia unir, acima das diferenças formais, a todos aqueles que estavam sob a proteção desses santos cristãos, uma mostra do que foram as fraternais relações que se viviam durante as edificações das igrejas–catedrais. Essa fraternidade entre alquimistas e maçons deveria perdurar ainda até o século XVIII.
A liberdade de movimento de que gozavam os maçons francos, facilitaria os intercâmbios de conhecimentos com outros grêmios de artesãos, dentre os quais se destaca a chamada Companheirismo, que agrupava diversos ofícios (entre eles os entalhadores de pedra e escultores), e que, da mesma forma que os maçons, tinham seus graus e segredos de iniciação.
Dessa forma, esses intercâmbios se deram com as diversas ordens monásticas e cavalheirescas. Não há que se fazer, portanto, um excessivo esforço de imaginação para formar-se uma idéia do clima espiritual que se respirava naquela fecunda e luminosa época. Poder-se-ia dizer, sem temor de exagerar, que ali o saber não tinha fronteiras. E mais: a cordial convivência existente entre as organizações iniciáticas e esotéricas, e aquelas de caráter religioso e exotérico testemunhavam o vigor e a saúde da tradição.
Os cavaleiros templários, esses monges guerreiros que eram também construtores e cujas regras foram inspiradas por São Bernardo, mantinham sob sua proteção numerosas lojas maçônicas. E isso não deve passar inadvertido, pois quando esta organização do esoterismo cristão desapareceu como tal em circunstâncias sangrentas (devido a um acordo do sinistro rei francês Felipe, o Formoso com o Papa Clemente V), essas mesmas lojas, sobretudo as da Inglaterra e Escócia, acolheram em seu seio muitos dos templários sobreviventes, que traziam consigo certos conhecimentos iniciáticos de sua Ordem que acabariam por integrar-se definitivamente na estrutura simbólica e ritual da Maçonaria . Digamos que dentre essas lojas merece destaque a Grande Loja Real de Edimburgo, fundada pelo rei Robert Bruce, que se opôs à extinção da Ordem do Templo combatendo ao lado dos templários.
É significativo que o ano de constituição da Ordem Real da Escócia seja o de 1314 (ano em que se extinguiu a Ordem dos Templários), e que esta teve como Loja Mãe a Ordem Heredom de Kilwinning, cujos alguns dos rituais eram de inspiração templária. E esta palavra, heredom, significa "herança", que é a mesma recebida pelos templários. Não existem documentos escritos que atestem a realidade dessa herança simbólica, ainda que seja evidente que ela aconteceu. Por tratar-se de transferências sagradas estas têm lugar primeiramente no plano estritamente espiritual e metafísico, concretizando-se no âmbito humano por mediação de individualidades (pouco importa, neste caso, que sejam conhecidas ou anônimas) que as realizam de maneira efetiva.
Um fio sutil e luminoso une o mundo superior ao inferior, e o inferior ao superior, e a manutenção dessa comunicação é uma das principais funções que sempre tiveram as organizações tradicionais e iniciáticas. Recordemos, neste sentido, que a palavra "tradição" procede do latim tradere, que significa "transmitir" (e por extensão, herança), e transmissão de uma verdade, voltamos a repetir, que remonta às próprias origens da humanidade, e que todas as civilizações consideraram como a fonte de seu saber e cultura. Essencialmente, os templários transmitiram à Maçonaria a idéia da edificação do templo espiritual "que não é feito por mãos de homem" segundo a mensagem evangélica. Tal idéia ficou materializada com a criação de certos altos graus, complementares ao mestrado, de procedência templária.
Um dos mais notáveis, por sua riqueza simbólica , é o grau de Royal Arch do Rito Inglês de Emulação. A Ordem do Temple (ou do Templo), em seu núcleo mais interno era de essência johannica (da mesma forma que a Maçonaria), pois se inspirava nos mistérios contidos no Evangelho e no Apocalipse de São João. Dessa forma, os "Cavaleiros de Cristo" tinham como uma de suas principais missões a proteção do Santo Sepulcro e a manutenção das relações com a "Terra Santa", ou seja, com o "Centro Supremo" ou "Centro do Mundo". Com o desaparecimento do Templo, a Maçonaria tradicional (e aqui enfatizamos o "tradicional"), do mesmo modo que a Ordem hermética da Rosa–Cruz, continuaria mantendo para o Ocidente os vínculos com essa "Terra Santa", também chamada em outras culturas de "Terra dos Imortais" ou "Terra dos Bem-aventurados".
Durante o Renascimento encontramos a mesma ausência de documentos escritos sobre as relações que o hermetismo cristão e alquímico manteve com a Maçonaria. Graças à recuperação da filosofia platônica, impulsionada na Itália por Marsilio Ficino e Pico da Mirándola, se assiste, nessa época, a um novo ressurgimento da tradição e do saber hermético, onde há que se incluir a Magia Natural e a Cabala cristã. Livros como De Harmonia Mundi de Francesco Giorgi, a Cabala Denudata de J. Reuchlin, a Mônada Hieroglífica de John Dee, e a Filosofia Oculta de Cornélio Agripa, entre tantos outros, exerceram uma grande influência nos círculos herméticos de toda a Europa. Em tudo isso há algo importante a assinalar: devido à fraternidade que se criou no período Medieval entre os agrupamentos herméticos e os grêmios de construtores, era perfeitamente normal que em uma época como o Renascimento – onde o suporte de uma civilização tradicional estava já bastante debilitado – esses vínculos se fortaleceram com o fim de salvaguardar os valores da tradição e da doutrina. |