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Papus *
Não nos basta conhecer o resumo da história
dos diferentes Ritos. Precisamos penetrar mais fundo no seu conhecimento
e dar aos interessados pela Maçonaria uma idéia do
caráter de seus Ritos sob o ponto de vista da tradição.
Primeiro que tudo, advertimos os leitores contra
os estudos feitos pelos clericais. Já temos falado de sua
tendência em confundirem o Iluminismo e a Maçonaria. Partindo
de uma idéia preconcebida - a intervenção de
Satã nas Lojas - os escritores ligados ao clericalismo tem
entremeado a analise dos rituais maçônicos com subentendidos
e reflexões pessoais os mais grotescos. Com a aparência de
análise imparcial, glosam de quando em quando um pequeno comentário
destinado a extraviar o leitor confiante. Procedendo assim, permanecem
em seu papel, que conhecemos pessoalmente, por experiência.
Vamos analisar as transformações do
ritual, lançando uma vista geral sobre a sua evolução
histórica.
O primeiro ritual
maçônico unindo os maçons do Espírito
aos da Matéria, foi composto por Irmãos Iluminados
da Rosa-Cruz, dos quais os mais conhecidos são Roberto Fludd
e Elias Ashmole. ( * )
Chave
dos graus simbólicos
APRENDIZ
Os três
primeiros graus foram estabelecidos sobre o ciclo quaternário
aplicado ao decenário, isto e, sobre a quadratura hermética
do circulo universal.
O grau de Aprendiz devia descobrir, ensinar e revelar
o primeiro quadrante do circulo; o grau de Companheiro, o segundo
quadrante, e o grau de Mestre, os dois últimos quadrantes
e o centro.
A significação atribuída pelo
revelador a cada grau deriva diretamente da significação
total do circulo e de sua adaptação particular. Assim,
a adaptação do círculo se refere ao movimento
da Terra sobre si mesma. O primeiro quadrante do círculo
descrevera simbolicamente a partida da noite, das seis às nove horas;
o segundo quadrante, a ascensão das nove horas ao meio-dia;
e os dois últimos quadrantes, a descida para a noite, ou
do meio-dia à tarde.
Neste caso, o Aprendiz será o homem da manhã
ou do sol ascendente; o Companheiro, o homem do meio-dia ou do sol
meridiano, e o Mestre o homem do sol poente.
Se a adaptação do circulo se refere
à marcha aparente do Sol durante o ano, os seus quadrantes
corresponderão as estações e representarão,
respectivamente, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno.
O Aprendiz será então, o grão que brota; o
Companheiro, a planta que floresce; o Mestre, a planta que frutifica
e o fruto que cai para gerar novas plantas para a frutificação
liberadora dos grãos nele contidos.
Cada uma destas adaptações pode ser
aplicada tanto ao mundo físico, como ao moral ou espiritual.
Portanto, compreende-se como os verdadeiros Iluminados podiam realmente
guiar os profanos chamados a Iniciação, para a luz
da verdade, para esta luz que ilumina todo homem procedente deste
mundo", para o vivente Verbo divino.
Mas para isso era preciso que a chave fundamental
e hermética dos Graus e da sua adaptação fosse
conservada por uma universalidade oculta. Tal era o papel que estava
reservado aos Rosa-Cruzes e aos Iniciados judeus-cristãos.
Eles possuem estas chaves, de que os escritores puramente
maçônicos não verão senão adaptações,
e o presente trabalho, embora muito resumido, abrira sobre este
assunto os olhos daqueles que tem olhos para ver.
Sob o ponto
de vista alquímico, os três primeiros graus representavam
a preparação da obra: os trabalhos do Aprendiz figuravam
os trabalhos materiais; os do Companheiro simbolizavam a busca do
verdadeiro fogo filosófico, e os do Mestre correspondiam
a colocação no athanor (
** ) do mercúrio
filosofico, e a produção da cor negra, da qual devem sair
as cores brilhantes.
Com efeito, e preciso não se aperceber das
idéias e trabalhos dos Rosas-Cruzes hermetistas para não
ver que verdadeiros ocultistas estabeleceram seus quadros iniciáticos
segundo as regras estritas da adaptação de princípios,
e que a vingança de um pretenso espoliado desempenhará
apenas um papel secundário no mister.
Vindo do círculo do mundo profano, o Aprendiz
voltará Para ali mais tarde, no estado de Mestre, após
haver adquirido a Iniciação. Assim é figurado
o caduceu hermético que da a chave real dos Graus simbólicos.
Martines de Pasqually conhecia-a, como todo Iluminado,
pois dividiu sua Iniciação pelo quadrante do circulo.
Só se pode passar de um plano para outro
atravessando o reino da obscuridade e da morte; tal é o primeiro
ensino que indicam ao futuro Iniciado a "câmara de reflexões"
e os seus símbolos.
O Iniciado nada pode empreender sozinho sob pena
de graves acidentes; deve, pois, contar, com o concurso de guias
visíveis que já passaram pela experiência. Tal
e o ensinamento que se desdobra dos discursos e interrogações
de que participara o futuro Aprendiz, desde sua entrada em Loja.
Mas os ensinamentos
orais não terão nenhum valor sem a experiência
pessoal; tal e o objetivo das viagens e provas dos diferentes Graus.
COMPANHEIRO
O Aprendiz crê
sem mudar de plano. Ele passa dos trabalhos materiais aos trabalhos
concernentes as forças astrais. Aprende a manejar os instrumentos
que permitem transformar a matéria sob o efeito das forças
físicas manejadas pela inteligência. Aprende também
que alem das forças físicas existem forças
de ordem mais elevada, figuradas pelo resplendor da estrela; são
as forças astrais que se lhe faz pressentir, sem as nomear,
pela visão da estrela flamígera.
O Aprendiz se toma, assim, Companheiro, sendo então
instruído nos elementos da história da tradição.
MESTRE
O Companheiro
que vai tornar-se Mestre, deve preparar-se para mudar de plano.
Passará, pois, pelo reino da obscuridade e da morte; mas desta vez
passará sozinho e sem ter necessidade de guia; fara conscientemente
o que fazia inconscientemente na câmara de reflexões.
Mas ele recebera
antes a chave dos três Graus e de suas relações,
encerrada na Lenda de Hiram e de seus três assassinos. Como
demonstramos precedentemente ( *** ), a adaptação
solar da lenda não passa da adaptação de um
principio bem mais geral: a rotação do circulo no
quaternário, com suas fases de evolução e involução.
Mas o que e preciso fixar por um instante e que o Iniciado não
vai somente ouvir esta lenda; ele vai vivê-la, tornando-se
o personagem principal de sua reprodução.
Aqui apareceu
um processo bem notável, posto, em prática por Ashmole,
que compôs o Grau de Mestre em 1649 (os de Aprendiz e de Companheiro
foram compostos respectivamente em 1646 e 1648). Para ensinar ao
Iniciado a história da tradição de uma maneira verdadeiramente
útil, vai-se-lhe fazer revivê-la. Tal será a
chave dos Graus ulteriores e de seus rituais. Tal e a constatação
que é necessário ter-se sempre em mente ao tratar de reformar
os rituais visando adaptá-los a novas épocas, mas sem se
afastar de seus princípios constitutivos. |