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* Foi Membro da Sociedade Teosófica, já falecido, escritor, autor do Dicionário de Maçonaria, editado pela Editora Pensamento, São Paulo-SP.

Este artigo foi publicado originalmente na revista "O Teosofista" de julho-setembro/1967.



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Viver em Profundidade

Parte II


 

Joaquim Gervásio de Figueiredo 33º

Continuação

A Voz do Silêncio divide o Conhecimento em Doutrina da Cabeça ou dos Olhos, que é o conhecimento intelectual, e Doutrina do Coração, que é a sabedoria da Alma, a filosofia do auto-sacrifício em benefício dos mais fracos. Doutrina do Coração é o ensinamento fundamental do Budismo Esotérico e constitui o tema quase exclusivo da Voz do Silêncio, que visa, não a criação de frios Arhats, mas, sim, de compassivos Boddhisattvas. Logo de início ele dá a chave, a tônica, a filosofia de todos os seus ensinamentos, nestas duas curtas sentenças:
"A mente é a grande assassina do Real. Que o Discípulo mate a assassina".

Matar a mente! eis o fulcro, o eixo central em torno do qual giram os ensinamentos da Voz do Silêncio, pois onde fala a estridente voz da mente inferior não se pode ouvir nem mesmo soar a harmoniosa e límpida voz da Intuição, que todavia ressoa tanto mais poderosa quanto mais vazia se encontra a mente. Entenda-se, porém, que matar a mente não significa extirpá-la, eliminá-la de nossa natureza, tanto quanto não o significa a máxima matar o desejo. Mas significa fazer com que a mente deixe de ser agente, e sim simples instrumento; um instrumento dócil e maleável à nossa vontade. Significa transcendermos o foco superior e bem maior, que é o búdico. Significa abrirmos a mente e conhecermos suas possibilidades e limitações, explorando as primeiras e banindo as segundas, a ponto de conseguirmos realizar o ideal exposto quase no final do livro:
"...tens de sentir-te Todo-Pensamento, e contudo exilar todos os pensamentos de tua Alma".

Aparentemente, não há algo de paradoxal entre matar a mente e tornar-se Todo-Pensamento? E ainda, como tornar-se Todo-Pensamento e ao mesmo tempo exilar todos os pensamentos de tua Alma? A dúvida se desfaz ao compreendermos que no início do aprendizado a mente era o rajah (o rei) dos sentidos, Procurador de Pensamentos, o que cria a ilusão, e que no fim do aprendizado ela está reduzida a um mero e passivo veículo do pensamento abstrato, dimanante do Ego. Antes ela dominava soberana, mas agora obedece submissa ao raio proveniente de Alaya. E onde domina esse pensamento superior e mais poderoso, todos os demais cessam.

Como conseguirmos essa total reversão de nossa mente? Eis o grande enigma que o livrinho nos leva a deslindar ao longo do labiríntico caminho através de seus Três Fragmentos, denominados, respectivamente, as Três Salas, os Dois Caminhos e os Sete Portais, cada qual caracterizando e ainda definindo um ensinamento capital a realizar na via do Discipulado pelo aspirante que já percorreu triunfalmente os demais degraus do Óctuplo Caminho. Mas esses degraus talvez tenha ainda de recorrer acidentalmente, pois logo no limiar lhe adverte o Terceiro Fragmento: "Anima-te, Discípulo; tem em mente a regra de ouro".

As Três Salas se chamam, a primeira, a da Ignorância (Avidya); a segunda, a da Instrução (Probatória); a terceira , a da Sabedoria, e depois desta última se estendem "as águas sem praias de Akshara, a indestrutível Fonte da Onisciência; a região da plena Consciência Espiritual, além da qual não há mais perigo para quem a atingiu". Correspondem as Três Salas aos três estados ascendentes da Consciência, referidos por Patânjali como Jagrat (vigília), Svapna (sonho) e Sushupti (sono sem sonhos), e culminam no quarto estado, chamado o "Vale da Bem-aventurança" por H. P. B. e Turyia (sono sem sonhos) por Patânjali, e que a terminologia teosófica designa como o estado búdico da consciência, ou o Iniciado no Plano Búdico. Em cada uma dessas Salas alegóricas predomina uma das gunas ou atributos da Natureza: na primeira, Tamas (inércia), na segunda, Rajas (atividade, luta), e na terceira, Sattva (harmonia, equilíbrio), ao passo que no quarto há total transcendência sobre as gunas: o Iniciado as domina soberano em vez de estar a elas sujeito.

Relacionando-as com o espaço que nos envolve, a primeira Sala corresponde ao mundo físico, o mundo da ignorância, dominado pelo fogo fátuo dos sentidos, onde marca passos a maioria da humanidade ainda identificada com o seu corpo físico e onde a Alma eleita aprende a sua primeira lição de se dissociar do seu Não-Eu, condensado nesse corpo físico. A segunda Sala é o mundo astral, o trepidante e volátil reino da ilusão, onde impera "Mara", o prestidigitador rei dos sentidos psíquicos tentando fascinar os incautos. É alegoricamente a Sala da Aprendizagem, porque é onde cada Alma tem de travar a sua batalha decisiva entre o Eu e o Não-Eu, entre o seu Eu Superior e o seu eu inferior, até que triunfe e domine o primeiro. É o perigoso mundo do psiquismo em todas as sua gamas, onde a "Alma encontrará os botões da vida, mas embaixo de cada flor, uma serpente enrolada". Ganha a batalha, o aspirante ascende à Terceira Sala, a da Sabedoria, correspondente ao Mundo Mental superior, onde deparará com "aquele que lhe dará o ser", ou seja, com o Mestre que o preparará para ingressar, pela Iniciação, no "Vale da Bem-aventurança", o mundo búdico, para lograr tão estupenda façanha, adverte-lhe solenemente o Mestre: "Cerra teus sentidos à grande e terrível heresia da separatividade, que te afasta dos demais". É que nesse glorioso mundo impera soberana a consciência da unidade da Vida.

Todavia, em cada uma dessas Salas, que caracteriza um estado especial de consciência, o aspirante tem de realizar os três estados de consciência, já que cada estado tem uma lição a dar-lhe em cada mundo sucessivo e num nível progressivamente superior.

Em seu conjunto, os Três Fragmentos visam o desenvolvimento integral e harmônico da Alma; isoladamente, cada um deles focaliza uma fase e uma meta específicas, e por isso se chama um Caminho, até certo ponto completo e independente dos outros dois.

O primeiro Fragmento, o das Três Salas, visa especificamente o desenvolvimento e aperfeiçoamento da Concentração (Dhâranâ); é o Caminho Preparatório, da Negatividade e Libertação, correspondente ao Grau de Purificação dos Antigos Mistérios. É por excelência o Caminho da auto-dissociação sucessiva, através das Três Salas, do Não-Eu, do Eu e finalmente da própria idéia de dissociação. Torna-se então a cristalina "gota dentro do Oceano", que "imerge o Oceano dentro da gota" no "Reino da eterna Bem-aventurança".

O segundo Fragmento, o dos Dois Caminhos, tem por escopo o desenvolvimento e aperfeiçoamento da Meditação (Dhyâna), através da qual a Alma alcança a Visão e Descoberta do seu Caminho, o seu tipo, a sua tônica, a sua qualidade, o seu Raio, enfim, o seu Dharma, com o qual se deve identificar e unificar. Então, afastar-se de seu Caminho equivaleria a "afastar-se de si mesmo". Assim harmonizado consigo mesmo, o aspirante encontrará o seu Ego primeiro; depois, o seu Mestre, e finalmente, o seu Dhyani, o Espírito Solar. Jamais, porém, descobrirá o seu Caminho sem antes haver percorrido uma a uma as Três Salas preparatórias e ingressado no "Vale da Bem-aventurança". A escolha consiste em tornar-se um Arhat, e ingressar imediatamente nas delícias do Nirvana, ou converter-se num Boddhisattva, o qual prefere renunciar a esse Nirvana para ficar junto à cabeceira da humanidade sofredora e ajudá-la a atingi-lo primeiro, partilhando com ela as glórias de sua maravilhosa conquista.

O terceiro Fragmento, o dos Sete Portais ou Virtudes Transcendentais, objetiva o desenvolvimento e aperfeiçoamento da Contemplação ou Transe (Samadhi). Corresponde especificamente ao Caminho da Perfeição através das Iniciações até chegar "à outra margem da corrente", o estado de Arhat dos hindus e do Boddhisattva dos budistas, o qual no entanto, não se deve confundir com o Boddhisattva referido nas obras teosóficas. Entre os budistas designa um alto estado de consciência, e na literatura teosófica um alto cargo na Hierarquia Oculta do mundo. Mas a este estado só chega quem já passou pelas Três Salas e descobriu o seu Caminho, e por isso, logo no seu limiar, diz o Discípulo a seu Mestre: "Upadhya, está feita a escolha, estou sedento de Sabedoria ... Teu servo está pronto para tua orientação".

Daí em diante, uma a uma, lhe são entregues as sete chaves de ouro que lhe abrirão de par em par, sucessivamente, os Sete Portais que conduzem à Suprema Iluminação, e que compreendem as Seis Virtudes (Paramitas de perfeição) e mais a Sétima, que é da conquista da Sabedoria Espiritual. As seis virtudes são: Dana, a chave da caridade e amor imortais; Shila, a chave da harmonia nas palavras e ações; Kshanti, a chave da coragem e paciência, que nada pode perturbar; Virâga, a chave da indiferença total à dor e ao prazer; Virya, a chave da energia indomável, que abre caminho para a Verdade, e Dhyâna, a incessante contemplação do Eterno. Finalmente alcança Prajna, a Suprema Iluminação, e com ela a quarta Iniciação, a de Arhan ou Boddhisattva.

Ouvir a Voz do Silêncio é ouvir a suave e penetrante voz da Intuição, cuja chama de ouro só brilha quando a mente emudeceu e cessaram todos os seus pensamentos vadios. Procurar ouvir essa Voz e obedecê-la, mesmo em meio de tumultos e adversidades, é fechar a mente ao vozerio dos sentidos inferiores e mergulhar em seu interior para viver em profundidade, e portanto, mais intensamente. Nesta época de tanta fealdade e crueldade, se pudermos fazer da beleza e do amor a tônica de nossa vida, estaremos criando condições para que a Intuição brilhe através de nós e dos outros, e colaboraremos no Plano do Logos de aperfeiçoamento de seu universo. Poderemos mesmo entender melhor a linguagem silenciosa e colorida dos anjos, e com eles privar.

Eis porque teósofos cultos consideram a Voz do Silêncio a mensagem mais adequada a nossa época, a era da soberania da mente, porém em que esta se sente frustrada com os problemas por ela mesma criados. Esses problemas não podem ser resolvidos só pela mente, mas, sim, transcendendo-a e apelando para a Intuição. Qualquer que seja o nome que se lhe dê, a humanidade está à beira de atingir uma nova dimensão de compreensão, e essa compreensão não é da mente, mas de algo que a transcende. E é tão só à luz dessa compreensão que se podem resolver os problemas do homem. Essa nova compreensão marcará a era de uma Nova Civilização, com homens e mulheres de todo o mundo, dotados todos de uma mais clara e plena visão das coisas.

A Voz do Silêncio é, pois, o livro da Nova Compreensão, o livro de Buddhi, que só por si nos poderá ajudar a sentir e a viver mais profundamente a vida superior. Ele coloca ante os homens e mulheres de hoje uma filosofia da vida que os capacitará a rasgar o véu da mente e encarar as indizíveis belezas do Mundo Superior, que é também o nosso Mundo Interior.

Afinal, comparando o primeiro Caminho Preparatório, que é o da Negatividade do Não-Eu e da libertação, com o terceiro Caminho, o da Perfeição, achamos as seguintes correspondências, bem sugestivas:
1. As Três Salas preparatórias correspondem às três Iniciações posteriores, no Caminho de Perfeição.
2. Nas Salas, o aspirante se liberta progressivamente de seu milenar condicionamento às três gunas da Natureza: Tamas (inércia ou resistência), Rajas (atividade ou luta), Sattva (harmonia ou equilíbrio frios), e através das seis Paramitas (Virtudes transcendentais), desenvolve os três poderes da consciência: Vontade, Amor e Atividade criadora.
3. Os sete sons místicos no primeiro Caminho parecem relacionar-se com o despertar dos sete chacras, centros dinâmicos localizados no duplo etérico e que servem de canais entre certos centros do corpo astral e gânglios ou plexos nervosos do corpo físico. Correspondem ao desenvolvimento das Sete Virtudes Transcendentais, que no terceiro Caminho abrem os Sete Portais para o Aperfeiçoamento. (Vemos aqui uma analogia da abertura dos sete selos e do toque das sete trombetas, referidos no Apocalipse, um livro tido como iniciático pelos antigos Gnósticos).
4. Através das Três Salas o aspirante ingressa no Vale da Bem-aventurança com a mente inteiramente descondicionada dos fatores Tamas, Rajas e Sattva, e alcança o estado de Individualização ou Autoconsciência Espiritual. Enquanto que no Caminho da Perfeição, através das três Iniciações, atinge o estado de Prajna, o da Iluminação e Perfeição Espirituais.
5. No primeiro Caminho a tarefa do aspirante consiste em libertar-se dos fatores condicionantes da mente, e no terceiro Caminho sua tarefa é o desenvolvimento dos poderes inerentes ao seu Ego.
6. No Caminho inicial e preparatório, o aspirante deixa de ser "outra coisa", para, no Caminho final, ser "Aquilo que ele realmente é".
7. Entre esses dois Caminhos permanece o segundo, qual farol a devassar toda a natureza do aspirante e a iluminar seus passos nos demais Caminhos. É o da Visão esclarecida, que o leva a descobrir-se a si e ao seu Caminho; é o do Discernimento aguçado, que atua qual fiel equilibrador da balança, sempre oscilante entre o seu Eu Superior e o seu eu inferior. É o ponto de encruzilhada ou bifurcação dos dois Caminhos - o da Doutrina dos Olhos e da Doutrina do Coração - em que ele faz a sua grande escolha e opta pelo segundo.

Quando, enfim, ao longo da jornada, alcança sua Meta, torna-se Prajna, o Supremo Iluminado, o coroado com a imarcescível glória da Sabedoria Espiritual. Converte-se assim no Tathâgata. Aquele que segue as pegadas da Senda percorrida pelos Budas de Compaixão. Passa então a ser uma pedra viva na Muralha Protetora da sofredora humanidade. Muralha constituída pelos seus sempiternos Guardiães e, para isso renunciando às indescritíveis alegrias celestes e bem-aventuranças nirvânicas, que tal é o preço de sua heróica escolha. E então faz o seu supremo voto: "Enquanto todos os homens não se livrarem das tristezas e sofrimentos, não entrarei na Bem-aventurança do Nirvana".

E ao ouvir tão solene decisão, toda a Natureza em coro, segundo palavras finais do famoso livrinho, irrompe exultante, numa insonora aleluia:

Alegrai-vos, homens de Myalba (da Terra)!
Um peregrino regressou da outra margem.
Nasceu um novo Arhan!
Paz a todos os seres!