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* Foi Membro da Sociedade Teosófica, já falecido, escritor, autor do Dicionário de Maçonaria, editado pela Editora Pensamento, São Paulo-SP.

Este artigo foi publicado originalmente na revista "O Teosofista" de julho-setembro/1967.



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Viver em Profundidade

Parte I


 

Joaquim Gervásio de Figueiredo 33º


O título desta palestra pode sugerir a idéia de que existem duas categorias de pessoas: as que vivem profundamente e as que vivem superficialmente. E realmente é assim.

No famoso livrinho Aos Pés do Mestre, o Mestre as classificou de maneira muito simples e sintética em "as pessoas que sabem e as que não sabem". E acrescentou: "e o conhecimento é o que importa possuir... o conhecimento do Plano de Deus em relação aos homens, e esse Plano é a Evolução. Quando o homem o tiver visto, e de fato o conhecer, não poderá deixar de cooperar nele, com ele se unificando, tal a sua glória e beleza. Assim, pelo fato de possuir o conhecimento, ele está ao lado de Deus, firme no bem e resistente ao mal, trabalhando pela evolução e não com fins egoístas".

Notemos que o Mestre não se referiu ali apenas ao conhecimento teórico do Plano, mas frisou o seu conhecimento de fato, consciente, que leva o indivíduo a aplicá-lo na vida prática, a adotá-lo como norma de sua conduta interna e externa em relação ao Plano de Deus. Se teoricamente o conhece, mas o omite na prática, também essa pessoa pode ser classificada entre "as que não sabem", isto é, entre os ignorantes que vivem superficialmente.

Essas duas categorias formam as duas grandes e perpétuas correntes que polarizam as mentes humanas em todo o mundo. De um lado estão representadas pelo egoísmo, o materialismo, a superstição religiosa e o negativismo filosófico; e do outro, pelo altruísmo, o espiritualismo esclarecido e o misticismo. Figurando graficamente essas duas correntes, e primeira traça uma linha horizontal, e a segunda, uma vertical, as quais se cruzam na vida humana, mas não ainda perpendicularmente, de sorte a formarem perfeitos ângulos retos entre si. Formariam então uma cruz perfeita e dinâmica, uma cruz svastika por exemplo, símbolo de equilíbrio e coordenação construtivos no conjunto da vida humana, como o é na vida cósmica.

Não podemos definir essas correntes como sendo uma do Bem e a outra do Mal, mas, antes, como expressões dos eternos pólos opostos da Natureza: o pólo positivo, representando o Espírito e a Vida, e o pólo negativo, representando a Matéria e a Forma, e cujo equilíbrio se busca em todo o universo. Em outros termos, são perpétuas forças centrífugas cósmicas atuando do centro para a periferia e as centrípetas atuando da periferia para o centro, cuja equiponderância, mercê da interferência corretora da poderosa Lei do Karma, mantém em equilíbrio todos os mundos e o ritmo evolutivo da Vida e da Forma em todos eles.

Se essas correntes se equilibram na vida cósmica, o mesmo não ocorre na vida da humanidade, onde primam mais pelo desequilíbrio e o caos. A tendência instintiva do homem comum é lançar-se cegamente a uma dessas correntes e opor-se diametralmente à outra, criando assim posições extremas e antagônicas. Se toma o rumo horizontal, gera os cépticos, os exclusivistas, os demolidores, os enfatuados dominadores de consciência. Se toma o rumo vertical, prolifera os fanáticos, os crédulos, os utopistas, os pseudo-salvadores e mártires, tão radicais quanto os primeiros.

Qual o resultado desse cego extremismo? Ambos esses grupos sofrem supondo-se felizes, e fazem outros sofrerem julgando torná-los mais felizes. E com isso não cessam de gerar uma mesma e interminável cadeia cármica de servidão e sofrimento para o mundo.

Tal foi o quadro doloroso que o compassivo Gautama Buda descrobiu no momento de sua suprema Iluminação, e que ele resumiu nas suas famosas Quatro Verdades, que são: a existência universal de sofrimento; a causa do sofrimento, radicada no desejo; a extinção do sofrimento mediante a extinção do desejo; e caminho para a extinção do desejo, e portanto, de sofrimento. Então anunciou o seu Nobre Óctuplo Caminho, o "Dourado Caminho do Meio Termo", o qual consiste e: Reta Crença, Reto Pensar, Reto Falar, Reto Agir, Retos Meios de Subsistência, Reto Esforço, Reta Memória e Reta Concentração.

Reta Crença também é interpretada como Reta Visão das coisas. Desse primeiro passo dependem todos os outros, pois, como bem dizia Giordano Bruno, se abotoarmos errado o primeiro botão de nosso colete, todos os demais botões entrarão em casa errada. Esta Visão se entende também por correto Discernimento, o qual o budista considera corresponder à abertura das portas da mente.

Destarte, o Óctuplo Caminho que, em última análise, é uma fórmula muito feliz e sábia para ensinar todos os homens a reajustarem sua conduta interna e externa à operação natural e imutável de leis universais, foi a grande Mensagem que a Luz da Ásia legou indistintamente a todas as classes sociais de todos os tempos. Tal é o Dharma, a Lei, destinado a fazer que os homens vivam em profundidade, segundo os mandatos de seu Ego e não de seus sentidos. Citando palavras de C. Jinarajadasa, "uma das mais maravilhosas concepções que o Senhor Buda deu, é que a lei moral é exatamente a mesma que qualquer lei física. Quando proclamava que 'o ódio não cessa com o ódio, mas apenas com o amor', Ele não proferia um belo ideal, mas fazia um enunciado científico das leis do universo, visível e invisível. Numerosos pensadores ocidentais hodiernos, que são profundamente influenciados pelas concepções científicas, começam a compreender que no Budismo se enuncia um tipo de vida que está de perfeito acordo com a ciência".

No Óctuplo Caminho a Reta Visão é, pois, o primeiro passo na caminhada para a Perfeição, que conduz ao Reino da Felicidade, é o farol a clarear a Senda que serpenteia ao longo das densas trevas que de todos os lados envolvem a Alma peregrinando para o Eterno. É a luz meridiana a dissipar com seus potentes raios as nuvens que obscurecem as tateantes passadas do fatigado caminhante, perdido na escarpada estrada do entendimento da Vida.

Para nós, teosofistas, Reta Visão consiste em tomarmos consciência do Plano do Logos para o seu Universo e das leis do desenvolvimento desse Plano. Adquirir essa Visão e agir dentro de sua faixa significa viver mais nas profundidades da vida do que em sua superfície. Corresponde a "agir pela perpendicular", segundo a alegórica linguagem dos maçons. Eqüivale a viver sabiamente, como manda o provérbio bíblico, pois "a Sabedoria de Deus dirige suave e poderosamente todas as coisas".

A face da Terra passou a mudar mais rapidamente desde a metade do século passado, quando o materialismo científico atingiu o seu clímax e sua arrogante crista começou a ser dobrada pelas torrentes de espiritualismo oriundas da Ásia, Europa e América, rompendo muralhas de negativismos, dogmatismos e superstições. Despontaram então os fenômenos espiritistas, as investigações psíquicas, traduções e comentários da filosofia oriental e a magnífica obra de divulgação teosófica iniciada por H. P. Blavatsky, à qual vieram juntar-se outras figuras eminentes no pensamento e na cultura, e que culminou com a fundação da Sociedade Teosófica, a maior dádiva de todos os tempos oferecida ao mundo pela Hierarquia Oculta. Operou-se desde então uma notável metamorfose na mentalidade científica, religiosa, política e social em todo o mundo culto. Essa metamorfose se estende já a todos os quadrantes do planeta, e podemos estar certos de que não deterá a sua marcha, mas irá se ampliando e aprofundando mais e mais no futuro e iluminando de mais coloridas esperanças os ainda turvos horizontes da espécie humana.

Entre as camadas espirituais que se tem beneficiado desse poderoso influxo renovador, cumpre-nos destacar o Misticismo, cujo renascimento auspicioso se pode constatar em toda a parte, não obstante as vozes e ações em contrário de setores reacionários que, embalados pela sua mente concreta, estreita, preferem vegetar à sombra do passado. A guerra que, em alguns setores, se teima em mover contra o surto do Misticismo, nos traz à lembrança a triste recordação das implacáveis e cruéis perseguições que no passado, do século IV a.C. ao século V d.C., se moveram contra os Antigos Mistérios e Religiões, culminando com o assassinato da brilhante neoplatonista Hipatia, quando então a Idade Média estendeu o seu manto negro sobre o Ocidente, que dominou durante pesados mil anos.

A onda devastadora levou de roldão também os primitivos gnósticos cristãos, o Neoplatonismo, sem falar da destruição da florescente Escola de Pitágoras e de outras brilhantes sociedades secretas. De sorte que da Igreja cristã primitiva, fundada e mantida até o terceiro século sob o signo de Iniciados como Paulo de Tarso, João Evangelista, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros luminares, só restam as pompas do culto externo que desde então a dominam.

Felizmente o pior já passou, e se bem que ainda nos debatemos nas obras de um Kali Yuga, idade negra, não subsistem hoje condições para o ressurgimento de tão cruéis perseguições e sectarismos. Aqueles que ainda zombam do Misticismo só demonstram, com isso, que não o estudaram, e se o estudaram, não o entenderam, e para os que percebem e sentem outras expressões de vida, esses pregam no deserto.

Mas o que é o Misticismo? Passemos a palavra ao ilustre teósofo Rohit Mehta, em seu livro The Creative Silence, páginas 4 e 5:

"Misticismo implica uma direta - ou clara - percepção da Verdade. Em todas as épocas, são os Místicos que tem sido os regeneradores da humanidade. Quando quer que haja uma decadência da Retidão, um novo impulso de Misticismo tem surgido invariavelmente, para trazer uma nova inspiração para a vida do povo. Hoje em dia, em meio das trevas envolventes, causadas pelo egoísmo do homem no emprego de poderes colocados pela ciência física à sua disposição, tem havido aqui e ali um novo raio de Misticismo, tanto no Oriente como no Ocidente. Com efeito, a nova corrente religiosa do mundo segue a direção do Misticismo. Há atualmente um acrescido interesse pela Vedanta hindu e pelo Budismo Zen, ambos destacados exemplos do Misticismo filosófico e religioso. O século vinte tem sido o de reaparição de numerosos místicos, grandes e pequenos, em todo o mundo. E é o novo raio de Misticismo trazido por estes homens e mulheres espirituais do mundo o que nos enche de esperanças no tocante ao futuro da civilização humana.

"Escrevendo sobre o papel dos Místicos escreve o Sr. C. Jinarajadasa em sua obra Nature of Mysticism: 'Misticismo é o aroma da floração em terras tropicais, que somente se abre quando o sol se recolhe e depois perfuma a atmosfera até um rapto extasiante. Longe do tumulto das ações, além mesmo donde os pensamentos podem viver, o místico sente o perfume da vida e faz de seu coração um cálice para captar esse perfume e oferecê-lo a Deus e ao Homem. Felizes são os homens de que o mundo tenha sempre místicos, pois os místicos são os filhos de Deus, que não conhecem idade, cantam o nascer do sol na escuridão da noite, e vêem a visão da Ascensão do Homem na tragédia de sua Crucificação".

E acrescenta Rohit Mehta:
"Ver a ascenção do Homem na tragédia da sua crucificação, eis, realmente, a grande contribuição do Misticismo em todas as épocas. No meio das frustrações e tragédias da vida, o homem necessita da mensagem do Misticismo, mais do que nunca. É assim que os ensinamentos contidos na Voz do Silêncio são os mais apropriados ao homem moderno, que evidentemente está em busca de uma alma".

Entre as obras magistrais que H. P. B. legou ao mundo para lhe dar uma visão do imenso e maravilhoso Plano de Deus e do papel que dentro dele cabe a cada ser humano, parece-nos que a última e menor delas, A Voz do Silêncio, que no conteúdo e no estilo pode figurar como a flor da literatura teosófica, condensa a quintessência da Teosofia, concernente ao desenvolvimento e aperfeiçoamento do Eu Espiritual no homem. Sua primeira edição apareceu em 1889, com a Chave da Teosofia (também um resumo), e portanto, dois anos antes do passamento de H. P. B., havendo sido, assim, sua última dádiva ao mundo, que, por isso, resume toda a sua filosofia de vida. É uma tradução sua, feita de cor e acrescida de anotações também suas, de certos fragmentos do misterioso Livro dos Preceitos de Ouro, ligado ao sábio budista Aryasanga, uma eminente encarnação anterior do atual Mestre Djwal Khul, segundo relata Leadbeater em Plasticas sobre el Sendero de Ocultismo, volume II, onde os interessados encontrarão informes mais detalhados sobre este particular.

Segundo palavras de H. P. B., esse relatório espiritual "destina-se ao uso diário dos Lanus (Discípulos) - aqueles que desejam palmilhar a Senda do Desenvolvimento Espiritual". Conquanto ignoremos se entre nós há ou não discípulos, na acepção teosófica do termo, pelo menos uma modesta aspiração espiritual parece unir-nos todos nós, qual seja o desejo de "palmilhar a Senda do Desenvolvimento Espiritual". Daí o havermos escolhido esse livrinho para fonte inspiradora desta descolorida palestra, com vistas a uma vivência mais profunda e intensa daquilo que intelectualmente aprendemos.
Preliminarmente, Voz do Silêncio é uma pura expressão do Budismo Esotérico, vale dizer, filosófico, que se pratica no Tibete, China e Japão, ou da Escola budista Mahayana, o Grande Caminho. Tanto que, segundo o bikku Arya Asanga, autor de uma edição sua, Jubileu de Ouro de 1939, Adyar, o estudo do Budismo Zen do Dr. Suzuki, a maior autoridade contemporânea na matéria, pode bem ajudar a melhor compreender este livrinho. Ora, o Budismo Esotérico, por sua transcendência, não está ao alcance de toda a gente sem o devido preparo, e daí, talvez, o declarar H. P. B. que tais ensinamentos se destinam ao uso diário dos Lanus; o contrário, supomos, do Óctuplo Caminho, que se destina a todos os indivíduos de boa vontade.

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