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Joaquim Gervásio
de Figueiredo 33º
O título
desta palestra pode sugerir a idéia de que existem duas categorias
de pessoas: as que vivem profundamente e as que vivem superficialmente.
E realmente é assim.
No famoso livrinho Aos Pés do Mestre, o Mestre as classificou
de maneira muito simples e sintética em "as pessoas
que sabem e as que não sabem". E acrescentou: "e
o conhecimento é o que importa possuir... o conhecimento
do Plano de Deus em relação aos homens, e esse Plano
é a Evolução. Quando o homem o tiver visto,
e de fato o conhecer, não poderá deixar de cooperar
nele, com ele se unificando, tal a sua glória e beleza. Assim,
pelo fato de possuir o conhecimento, ele está ao lado de
Deus, firme no bem e resistente ao mal, trabalhando pela evolução
e não com fins egoístas".
Notemos que o Mestre não se referiu ali apenas ao conhecimento
teórico do Plano, mas frisou o seu conhecimento de fato,
consciente, que leva o indivíduo a aplicá-lo na vida
prática, a adotá-lo como norma de sua conduta interna
e externa em relação ao Plano de Deus. Se teoricamente
o conhece, mas o omite na prática, também essa pessoa
pode ser classificada entre "as que não sabem",
isto é, entre os ignorantes que vivem superficialmente.
Essas duas categorias formam as duas grandes e perpétuas
correntes que polarizam as mentes humanas em todo o mundo. De um
lado estão representadas pelo egoísmo, o materialismo,
a superstição religiosa e o negativismo filosófico;
e do outro, pelo altruísmo, o espiritualismo esclarecido
e o misticismo. Figurando graficamente essas duas correntes, e primeira
traça uma linha horizontal, e a segunda, uma vertical, as
quais se cruzam na vida humana, mas não ainda perpendicularmente,
de sorte a formarem perfeitos ângulos retos entre si. Formariam
então uma cruz perfeita e dinâmica, uma cruz svastika
por exemplo, símbolo de equilíbrio e coordenação
construtivos no conjunto da vida humana, como o é na vida
cósmica.
Não podemos
definir essas correntes como sendo uma do Bem e a outra do Mal,
mas, antes, como expressões dos eternos pólos opostos
da Natureza: o pólo positivo, representando o Espírito
e a Vida, e o pólo negativo, representando a Matéria
e a Forma, e cujo equilíbrio se busca em todo o universo.
Em outros termos, são perpétuas forças centrífugas
cósmicas atuando do centro para a periferia e as centrípetas
atuando da periferia para o centro, cuja equiponderância,
mercê da interferência corretora da poderosa Lei do
Karma, mantém em equilíbrio todos os mundos e o ritmo
evolutivo da Vida e da Forma em todos eles.
Se essas correntes
se equilibram na vida cósmica, o mesmo não ocorre
na vida da humanidade, onde primam mais pelo desequilíbrio
e o caos. A tendência instintiva do homem comum é lançar-se
cegamente a uma dessas correntes e opor-se diametralmente à
outra, criando assim posições extremas e antagônicas.
Se toma o rumo horizontal, gera os cépticos, os exclusivistas,
os demolidores, os enfatuados dominadores de consciência.
Se toma o rumo vertical, prolifera os fanáticos, os crédulos,
os utopistas, os pseudo-salvadores e mártires, tão
radicais quanto os primeiros.
Qual o resultado
desse cego extremismo? Ambos esses grupos sofrem supondo-se felizes,
e fazem outros sofrerem julgando torná-los mais felizes.
E com isso não cessam de gerar uma mesma e interminável
cadeia cármica de servidão e sofrimento para o mundo.
Tal foi o quadro
doloroso que o compassivo Gautama Buda descrobiu no momento de sua
suprema Iluminação, e que ele resumiu nas suas famosas
Quatro Verdades, que são: a existência universal de
sofrimento; a causa do sofrimento, radicada no desejo; a extinção
do sofrimento mediante a extinção do desejo; e caminho
para a extinção do desejo, e portanto, de sofrimento.
Então anunciou o seu Nobre Óctuplo Caminho, o "Dourado
Caminho do Meio Termo", o qual consiste e: Reta Crença,
Reto Pensar, Reto Falar, Reto Agir, Retos Meios de Subsistência,
Reto Esforço, Reta Memória e Reta Concentração.
Reta Crença
também é interpretada como Reta Visão das coisas.
Desse primeiro passo dependem todos os outros, pois, como bem dizia
Giordano Bruno, se abotoarmos errado o primeiro botão de
nosso colete, todos os demais botões entrarão em casa
errada. Esta Visão se entende também por correto Discernimento,
o qual o budista considera corresponder à abertura das portas
da mente.
Destarte, o Óctuplo Caminho que, em última análise, é
uma fórmula muito feliz e sábia para ensinar todos
os homens a reajustarem sua conduta interna e externa à operação
natural e imutável de leis universais, foi a grande Mensagem
que a Luz da Ásia legou indistintamente a todas as classes
sociais de todos os tempos. Tal é o Dharma, a Lei, destinado
a fazer que os homens vivam em profundidade, segundo os mandatos
de seu Ego e não de seus sentidos. Citando palavras de C.
Jinarajadasa, "uma das mais maravilhosas concepções
que o Senhor Buda deu, é que a lei moral é exatamente
a mesma que qualquer lei física. Quando proclamava que 'o
ódio não cessa com o ódio, mas apenas com o
amor', Ele não proferia um belo ideal, mas fazia um enunciado
científico das leis do universo, visível e invisível.
Numerosos pensadores ocidentais hodiernos, que são profundamente
influenciados pelas concepções científicas,
começam a compreender que no Budismo se enuncia um tipo de
vida que está de perfeito acordo com a ciência".
No Óctuplo
Caminho a Reta Visão é, pois, o primeiro passo na
caminhada para a Perfeição, que conduz ao Reino da
Felicidade, é o farol a clarear a Senda que serpenteia ao
longo das densas trevas que de todos os lados envolvem a Alma peregrinando
para o Eterno. É a luz meridiana a dissipar com seus potentes
raios as nuvens que obscurecem as tateantes passadas do fatigado
caminhante, perdido na escarpada estrada do entendimento da Vida.
Para nós,
teosofistas, Reta Visão consiste em tomarmos consciência
do Plano do Logos para o seu Universo e das leis do desenvolvimento
desse Plano. Adquirir essa Visão e agir dentro de sua faixa
significa viver mais nas profundidades da vida do que em sua superfície.
Corresponde a "agir pela perpendicular", segundo a alegórica
linguagem dos maçons. Eqüivale a viver sabiamente, como
manda o provérbio bíblico, pois "a Sabedoria
de Deus dirige suave e poderosamente todas as coisas".
A face da Terra
passou a mudar mais rapidamente desde a metade do século
passado, quando o materialismo científico atingiu o seu clímax
e sua arrogante crista começou a ser dobrada pelas torrentes
de espiritualismo oriundas da Ásia, Europa e América,
rompendo muralhas de negativismos, dogmatismos e superstições.
Despontaram então os fenômenos espiritistas, as investigações
psíquicas, traduções e comentários da
filosofia oriental e a magnífica obra de divulgação
teosófica iniciada por H. P. Blavatsky, à qual vieram
juntar-se outras figuras eminentes no pensamento e na cultura, e
que culminou com a fundação da Sociedade Teosófica,
a maior dádiva de todos os tempos oferecida ao mundo pela
Hierarquia Oculta. Operou-se desde então uma notável
metamorfose na mentalidade científica, religiosa, política
e social em todo o mundo culto. Essa metamorfose se estende já
a todos os quadrantes do planeta, e podemos estar certos de que
não deterá a sua marcha, mas irá se ampliando
e aprofundando mais e mais no futuro e iluminando de mais coloridas
esperanças os ainda turvos horizontes da espécie humana.
Entre as camadas
espirituais que se tem beneficiado desse poderoso influxo renovador,
cumpre-nos destacar o Misticismo, cujo renascimento auspicioso se
pode constatar em toda a parte, não obstante as vozes e ações
em contrário de setores reacionários que, embalados
pela sua mente concreta, estreita, preferem vegetar à sombra
do passado. A guerra que, em alguns setores, se teima em mover contra
o surto do Misticismo, nos traz à lembrança a triste
recordação das implacáveis e cruéis
perseguições que no passado, do século IV a.C.
ao século V d.C., se moveram contra os Antigos Mistérios
e Religiões, culminando com o assassinato da brilhante neoplatonista
Hipatia, quando então a Idade Média estendeu o seu
manto negro sobre o Ocidente, que dominou durante pesados mil anos.
A onda devastadora
levou de roldão também os primitivos gnósticos
cristãos, o Neoplatonismo, sem falar da destruição
da florescente Escola de Pitágoras e de outras brilhantes
sociedades secretas. De sorte que da Igreja cristã primitiva,
fundada e mantida até o terceiro século sob o signo
de Iniciados como Paulo de Tarso, João Evangelista, Clemente
de Alexandria, Orígenes e outros luminares, só restam
as pompas do culto externo que desde então a dominam.
Felizmente
o pior já passou, e se bem que ainda nos debatemos nas obras
de um Kali Yuga, idade negra, não subsistem hoje condições
para o ressurgimento de tão cruéis perseguições
e sectarismos. Aqueles que ainda zombam do Misticismo só
demonstram, com isso, que não o estudaram, e se o estudaram,
não o entenderam, e para os que percebem e sentem outras
expressões de vida, esses pregam no deserto.
Mas o que é
o Misticismo? Passemos a palavra ao ilustre teósofo Rohit
Mehta, em seu livro The Creative Silence, páginas 4 e 5:
"Misticismo
implica uma direta - ou clara - percepção da Verdade.
Em todas as épocas, são os Místicos que tem
sido os regeneradores da humanidade. Quando quer que haja uma decadência
da Retidão, um novo impulso de Misticismo tem surgido invariavelmente,
para trazer uma nova inspiração para a vida do povo.
Hoje em dia, em meio das trevas envolventes, causadas pelo egoísmo
do homem no emprego de poderes colocados pela ciência física
à sua disposição, tem havido aqui e ali um
novo raio de Misticismo, tanto no Oriente como no Ocidente. Com
efeito, a nova corrente religiosa do mundo segue a direção
do Misticismo. Há atualmente um acrescido interesse pela
Vedanta hindu e pelo Budismo Zen, ambos destacados exemplos do Misticismo
filosófico e religioso. O século vinte tem sido o
de reaparição de numerosos místicos, grandes
e pequenos, em todo o mundo. E é o novo raio de Misticismo
trazido por estes homens e mulheres espirituais do mundo o que nos
enche de esperanças no tocante ao futuro da civilização
humana.
"Escrevendo
sobre o papel dos Místicos escreve o Sr. C. Jinarajadasa
em sua obra Nature of Mysticism: 'Misticismo é o aroma da
floração em terras tropicais, que somente se abre
quando o sol se recolhe e depois perfuma a atmosfera até
um rapto extasiante. Longe do tumulto das ações, além
mesmo donde os pensamentos podem viver, o místico sente o
perfume da vida e faz de seu coração um cálice
para captar esse perfume e oferecê-lo a Deus e ao Homem. Felizes
são os homens de que o mundo tenha sempre místicos,
pois os místicos são os filhos de Deus, que não
conhecem idade, cantam o nascer do sol na escuridão da noite,
e vêem a visão da Ascensão do Homem na tragédia
de sua Crucificação".
E acrescenta
Rohit Mehta:
"Ver a ascenção do Homem na tragédia da
sua crucificação, eis, realmente, a grande contribuição
do Misticismo em todas as épocas. No meio das frustrações
e tragédias da vida, o homem necessita da mensagem do Misticismo,
mais do que nunca. É assim que os ensinamentos contidos na
Voz do Silêncio são os mais apropriados ao homem moderno,
que evidentemente está em busca de uma alma".
Entre as obras
magistrais que H. P. B. legou ao mundo para lhe dar uma visão
do imenso e maravilhoso Plano de Deus e do papel que dentro dele
cabe a cada ser humano, parece-nos que a última e menor delas,
A Voz do Silêncio, que no conteúdo e no estilo pode
figurar como a flor da literatura teosófica, condensa a quintessência
da Teosofia, concernente ao desenvolvimento e aperfeiçoamento
do Eu Espiritual no homem. Sua primeira edição apareceu
em 1889, com a Chave da Teosofia (também um resumo), e portanto,
dois anos antes do passamento de H. P. B., havendo sido, assim,
sua última dádiva ao mundo, que, por isso, resume
toda a sua filosofia de vida. É uma tradução
sua, feita de cor e acrescida de anotações também
suas, de certos fragmentos do misterioso Livro dos Preceitos de
Ouro, ligado ao sábio budista Aryasanga, uma eminente encarnação
anterior do atual Mestre Djwal Khul, segundo relata Leadbeater em
Plasticas sobre el Sendero de Ocultismo, volume II, onde os interessados
encontrarão informes mais detalhados sobre este particular.
Segundo palavras
de H. P. B., esse relatório espiritual "destina-se ao
uso diário dos Lanus (Discípulos) - aqueles que desejam
palmilhar a Senda do Desenvolvimento Espiritual". Conquanto
ignoremos se entre nós há ou não discípulos,
na acepção teosófica do termo, pelo menos uma
modesta aspiração espiritual parece unir-nos todos
nós, qual seja o desejo de "palmilhar a Senda do Desenvolvimento
Espiritual". Daí o havermos escolhido esse livrinho
para fonte inspiradora desta descolorida palestra, com vistas a
uma vivência mais profunda e intensa daquilo que intelectualmente
aprendemos.
Preliminarmente, Voz do Silêncio é uma pura expressão
do Budismo Esotérico, vale dizer, filosófico, que
se pratica no Tibete, China e Japão, ou da Escola budista
Mahayana, o Grande Caminho. Tanto que, segundo o bikku Arya Asanga,
autor de uma edição sua, Jubileu de Ouro de 1939,
Adyar, o estudo do Budismo Zen do Dr. Suzuki, a maior autoridade
contemporânea na matéria, pode bem ajudar a melhor
compreender este livrinho. Ora, o Budismo Esotérico, por
sua transcendência, não está ao alcance de toda
a gente sem o devido preparo, e daí, talvez, o declarar H.
P. B. que tais ensinamentos se destinam ao uso diário dos
Lanus; o contrário, supomos, do Óctuplo Caminho, que
se destina a todos os indivíduos de boa vontade.
Continua Clique na gravura colocada na coluna à esquerda.
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