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No dia 9 de janeiro
de 1822.
Redigida por Joaquim Gonçalves Ledo.
"Senhor. - A saída de Vossa Alteza Real dos Estados
do Brasil será o fatal Decreto, que sanciona a independência
deste Reino! Exige, portanto a salvação da pátria
que Vossa Alteza Real suspenda a sua ida, até nova determinação
do soberano congresso".
"Tal é,
Senhor, a importante verdade, que o Senado da Câmara desta
cidade, impelido pela vontade do povo, que representa a muito alta
consideração de Vossa Alteza Real: cumpre demonstrá-la".
"O Brasil,
que em 1808 viu nascer nos vastos horizontes do Novo Mundo a primeira
Aurora da sua Liberdade - o Brasil, que em 1815 obteve a carta da
sua emancipação política, preciosa dádiva
de um Rei Benigno - o Brasil, finalmente, que em 1821, unido à
Mãe Pátria, filho tão valente, como fiel, quebrou
com ela os ferros do proscrito despotismo - recorda sempre com horror
os dias da sua escravidão recém-passada - teme perder
a liberdade mal segura, que tem principiado a gozar - e receia que
um futuro envenenado o precipite no estado antigo de suas desgraças".
"É
filho daquela recordação odiosa, daquele temor, e
deste receio o veneno que a opinião pública se apressou
a lançar na carta de lei do 1.o de outubro de 1821; porque
se lhe antojou que novo sistema de governos de junta provisória,
com generais das armas independentes delas, sujeitos ao governo
do Reino, e esta só responsável e às Cortes,
tende a dividir o Brasil e a desarmá-lo para reduzir ao antigo
estado de colônia, que só vis escravos podem tolerar,
e nunca um povo livre, que, se pugna pelo ser, nenhuma força
é capaz de o suplantar".
"É
filho das mesmas causas o veneno que a opinião pública
derramou sobre a carta de lei do mesmo dia, mês e ano, que
decretou a saída de Vossa Alteza Real; porque entendeu, que
este decreto tem por vista roubar ao Brasil o centro de sua unidade
política, única garantia da sua liberdade política,
única garantia da sua liberdade e ventura".
"É
filho das mesmas causas o dissabor, e o descontentamento, com que
o povo constitucional e fiel ouviu a moção de extinção
dos Tribunais deste Reino; porque desconfiou que Portugal aspira"
• reedificar
o império da sua superioridade antiga, impondo-lhe
• dura
lei da dependência, e arrogando-se todas as prerrogativas
de Mãe, como se durasse ainda o tempo da sua curatela extinta;
sem se lembrar que este filho, emancipado já, não
pode ser privado sem justiça da posse de direitos e prerrogativas,
que por legítima partilha lhe pertencem.
"É
filho da mesma causa o reparo e susto, com que o desconfiado Brasileiro
viu que no soberano congresso se principiaram a determinar negócios
do Brasil, sem que estivessem reunidos todos os deputados, contra
a declaração solene do mesmo soberano congresso, tantas
vezes ouvida com exaltado aplauso do povo Brasileiro; porque julgou
acabada de uma vez a consideração até então
politicamente usada com esta importante parte da Monarquia"
"Tal é,
Senhor, o grito da opinião pública nesta província.
Corramos as vistas ligeiramente sobre as outras; e que se pode esperar
da sua conduta?"
"Pernambuco,
guardando as matérias primas da independência, que
proclamou um dia, malograda por imatura, mas não extinta,
quem duvida que a levantará de novo, se um centro próximo
de união política a não prender?
"Minas,
principiou por atribuir-se um poder deliberativo que tem por fim
examinar os decretos das Cortes soberanas, e negar obediência
àqueles que julgar opostos aos seus interesses; já
deu acessos militares; trata-se de alterar a lei dos dízimos;
tem entrado, segundo dizem no projeto de cunhar moeda. - E que mais
faria uma província que se tivesse proclamado independente?"
"S. Paulo,
sobejamente manifestou os sentimentos livres que possui, nas políticas
instruções, que ditou aos seus ilustres deputados.
Ela aí corre a expressá-lo mais positivamente pela
voz de deputação, que se apressa em apresentar a V.
A. R. uma representação igual a deste povo!"
"O Rio
Grande do Sul, vai significar a V. A. R., que vive possuído
de sentimentos idênticos, pelo protesto desse honrado cidadão,
que vedes incorporado a nós!"
"Ah! Senhor,
e será possível que estas verdades sendo tão
públicas, estejam fora do conhecimento de V.A.R.?"
"Será
possível que, V. A. R. ignore, que um partido republicano,
mais ou menos forte, existe semeado aqui e ali, em muitas das províncias
do Brasil, por não dizer em todas elas? Acaso os cabeças,
que intervieram na explosão de 1817, expiraram já?
E se existem, e são espíritos fortes e poderosos,
como se crê que tenham mudado de opinião? Qual outra
lhes parecerá mais bem fundada que a sua? E não diz
uma fama pública ao parecer segura que nesta cidade mesma
um ramo deste partido reverdeceu com a esperança da saída
de V. A. R. que fez tentativas para crescer e ganhar forças,
e, que só desanimou à vista da opinião dominante
de que V. A. R. se deve demorar aqui para sustentar a união
da pátria?"
"Não
é notório e constante, que vasos de guerra estrangeiros
visitem em número que se faz notável, todos os portos
do Brasil? E não se diz que grande parte destes pertence
a uma nação livre que protege aquele partido, e que
outros são observados vigilantes de nações
empreendedoras?"
"Não
foi finalmente quando preparavam a sua constituição
política que a Polônia se viu talada pelas armas dos
êmulos de sua futura glória, e a Espanha por falta
de política perdeu a riqueza das suas Américas?"
. "E se
de tudo é resultado certo que a pátria está
em perigo!!! qual será o remédio também achado
que a salve? A opinião pública esta rainha do mundo
poderosa, que todos os negócios políticos governa
com acerto o ensina".
"Dê-se
ao Brasil um centro próximo de união e atividade,
dê-se-lhe uma parte do corpo legislativo, e um ramo do poder
executivo, com poderes competentes, amplos, fortes e liberais, e
tão bem ordenados, que formando um só poder executivo,
só umas Cortes e só um Rei, possam Portugal e Brasil.
fazer sempre uma família irmã, um só povo,
uma só nação, e um só Império.
'E não oferecem os governos liberais da Europa exemplos semelhantes?
Não é por este sistema divino que a Inglaterra conserva
unida a si a sua Irlanda?"
"Mas enquanto
não chega este remédio tão desejado, como necessário,
exige a salvação da pátria que V. A. R. viva
no Brasil, para.o conservar unido a Portugal. Ah! Senhor, se V.
A. R. nos deixa, a desunião é certa. O partido da
Independência, que não dorme, levantará o seu
império; e em tal desgraça, oh! que de horrores, e
de sangue, que terrvel cena aos olhos de todos se levanta!"
"Demorai-vos,
Senhor, entre nós até dar tempo que o soberano congresso
seja informado do último estado das coisas neste Reino, e
da opinião que nele reina. Dai tempo a que receba as representações
humildes deste povo constitucional e fiel unidas às demais
províncias. Daí tempo a que todas corram para este
centro de unidade; que se elas vierem, a pátria será
salva, aliás, sempre estará em perigo. Dai afagos
aos seus filhos do Brasil".
"Façamos
justiça à sua boa fé, e veremos que as cartas
de lei do L, de outubro de 1821, que a tantas desconfianças
tem dado causa, foram ditadas sobre o estado da opinião que
a esse tempo dominava neste Reino. Quase todas as províncias
declararam mui positivamente que nada queriam do governo do Rio
de Janeiro, e que só reconheceriam o de Lisboa. V. A. R.
o sabe, e V. A. R. mesmo foi obrigado a escrever para lá,
que não podia conservar-se aqui por falta de representação
política, mais limitada que a de qualquer capítão-general
do governo antigo. Apareceram além disto nesta cidade dias
aziagos!!! Correram vozes envenenadoras, que nem a pureza da conduta
V. A. R., à todas as luzes conhecidamente constitucional,
perdoaram. Desejou-se (sou homem de verdade, hei de dizê-lo),
desejou-se aqui e escreveu para lá, que V. A. R. saísse
do, Brasil".
"A vista
destes fatos, que são positivos e indubitáveis, que
outra idéia se podia então apresentar ao soberano
congresso, que não fosse a de mandar retirar do Brasil a
Augusta Pessoa de V. A. R.?"
"Mas hoje
que a opinião, dominante tem mudado e tem principiado a manifestar-se
com sentimentos, que os verdadeiros políticos possuíram
sempre; hoje que todos querem o governo de V. A. R. como remédio
único de salvação contra os partidos da independência;
hoje que se tem descoberto que aquelas declarações,
ou nasceram de cálculos precipitados, filhos da ocasião
e do ódio necessário, que todos as províncias
tinham ao governo do Rio de Janeiro pelos males que de cá
lhes, foram, ou tiveram talvez por verdadeiro fim abrir os primeiros
passos para uma premeditada independência absoluta; hoje,
finalmente, que todas vão caminhando para ela, mais ou menos,
é sem dúvida de esperar que o soberano congresso,
que só quer a salvação da pátria conceda
sem hesitar aos honrados Brasileiros o remédio de um centro
próximo de unidade e atividade que com justiça lhe
requerem".
"E como
se poderá negar ao Brasil tão justa pretensão?
Se Portugal acaba de manifestar aos Soberanos e Povos da Europa,
que entre as ponderosas e justificadas causas que produziram os
memoráveis acontecimentos, que ali tiveram lugar nos regeneradores
dias 24 de agosto e 15 de setembro de 1820, foi principal a orfandade,
em que se achava pela ausência de S. M. o Senhor Rei D. João
VI, por ser oonhecida por todos a impossibilidade de pôr em
marcha regular os negócios públicos e particulares
da monarquia achando-se colocado a duas mil léguas o centro
de seus movimentos: que razão existe para esperar que o Brasil,
padecendo os mesmos males, não busque mais tarde ou mais
cedo os mesmos remédios? E não será mais acertado
conceder-lhe já o que por força se lhe há de
dar?"
"Tais são,
Senhor, os votos deste povo: e protestando que vive animado da mais
sincera e ardente vontade de permanecer unido a Portugal, pelos
vínculos de um pacto social, que fazendo o bem geral de toda
a nação, faça o do Brasil por anéis
de condições em tudo iguais, roga a Vossa Alteza Real,
que Se digne de os acolher Benigno,,e anuir a eles, para que aqueles
vínculos mais e mais se estreitem, e se não quebrem...
por outra forma o ameaçado rompimento de independência
e anarquia parece certo e inevitável." |