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Irm Ary
Moreira Pinto
Vez por outra
chega em minhas mãos algum escrito em que o tema versa sobre
uma pretendida "Reforma" da Maçonaria Universal
mas, nunca, até agora, em Editorial, como neste número
de nossa revista maçônica preferida.
O Editorial
deve retratar o pensamento da direção e, em geral,
se afasta da polêmica, buscando uma posição
de equilíbrio entre o consenso e a contestação,
deixando espaço para o contraditório.
A prudência
é uma das virtudes que devem ornar a personalidade do Maçom
e ela nos ensina que a verdade não está nos extremos
e nem no meio, senão no meio do meio.
O Dicionário
Enciclopédico de La Masoneria, em seu tomo III, em sua "Introducción",
disserta:
"apesar de tudo que inventaram e projetaram para destruir tão
útil associação e para entorpecer sua ação
e sua atividade e para tornar suspeitas as suas tendências,
a verdade é que, constante e progressivamente se sustentou,
espalhou-se e desenvolveu-se, contribuindo sempre, durante o decorrer
dos tempos, ao aperfeiçoamento da vida social, fazendo sentir
muitas vezes sua saudável influência sobre a moral
pública e sobre a educação dos povos".
Fundada sobre
uma verdade eterna e sobre uma exigência imperiosa de nossa
natureza humana, soube vencer preocupações e erros
de toda a espécie, sem separar-se jamais de sua gloriosa
missão. Ela conduziu todos os seus associados ao exercício
da caridade e da beneficência, inspirando-os à abnegação
e a toda energia moral de que se necessita para consagrar-se a praticar
o bem; ensinou-lhes, também, sobre a verdade e com ela a
necessidade do cumprimento de todos os deveres; ela consolou os
aflitos e soube fazer voltar os extraviados ao caminho da virtude
e, por último, enxugou as lágrimas de muitas viúvas
e de muitos órfãos e fundou uma infinidade de instituições
benéficas de interesse geral.
É oportuno
lembrar que em todo o mundo a Maçonaria implantou escolas
e fundou o escotismo, o Lions, o Rotary, a Ordem DeMolay, afastou
tiranos do poder, lutou pela liberdade dos povos, tomou independentes
muitos países e libertou povos inteiros da escravidão
e tudo isso é de uma atualidade incontestável.
Em 195O, a Grande
Loja Unida da Inglaterra enviou uma carta à Grande Loja do
Uruguai na qual expõe o seu pensamento doutrinal sobre a
Ordem Maçônica, afirmando:
A Maçonaria não é um movimento filosófico
que admite qualquer orientação ou opinião.
A verdadeira Maçonaria é um culto para conservar e
entender a crença na existência de Deus, para ajudar
os Maçons a regularem a própria vida e a própria
conduta segundo os princípios da própria religião
monoteísta que exija a crença em Deus como Ser Supremo
e seja uma religião que tenha um livro sagrado sobre o qual
o Iniciado passa aprestar juramento à Ordem".
Ora, eu não
sou um homem religioso mas tenho fé profunda e inquebrantável
no espírito criador que chamamos Grande Arquiteto do Universo
e não estabelecerei polêmica sobre religião.
Creio ser Ele o criador de todas as coisas vivas e mortas nascidas
e por nascer, norteando-me pelo pensamento hermético.
Quando se fala
de especulação é necessário atermo-nos
a sua conceituação. Na Verdade, especulação
nada tem a ver com sonho e fantasia. "Especular" é
observar alguma coisa mentalmente. Existe, portanto, o objeto, algo
concreto para ser observado, não é um sonho, produto
do inconsciente, mas algo real. O termo vem de "specio",
significando "eu vejo" ou "eu olho".
No nosso caso
o especulativo é um idealista, voltado para o ideal maçônico
de fraternidade universal. A história humana, como diz Michel
Quoist, é uma grande liturgia começada na aurora dos
tempos e que só terá fim quando o último homem
der o seu último suspiro.
Os princípios
e finalidades da Maçonaria estão bem expressos ainda
no Dicionário Enciclopédico de Ia Masoneria, de que
me valho ainda mais uma vez:
Tem por objeto
a investigação da verdade, o estudo da moral e a prática
da solidariedade; trabalhar pelo crescimento material e moral e
pelo aperfeiçoamento intelectual e social da humanidade;
estender a todos os homens os laços fraternais que unem os
Maçons de todos os recantos do Globo e lutar incessantemente
contra a ignorância sob quaisquer de suas formas. "É
uma escola de apoio mútuo segundo consta de um notável
documento oficial cujo programa assim se resume. Viver honradamente;
obedecer às leis de seu país; praticar a justiça;
amar os seus semelhantes; trabalhar incessantemente para o bem estar
da humanidade e procurar alcançar a sua emancipação
por meios pacíficos e progressivos".
Afirmo e sustento
que não somos uma organização política
e nem devemos pretender sê-lo, nem apartidária nem
partidária; também não somos uma sociedade
filantrópica, embora pratiquemos a filantropia, seja por
razões políticas, seja por razões humanitárias
(lutas no passado contra a Igreja Católica, atendimento de
apelos de populações atingidas por calamidades); de
Auxílio Mútuo também não o somos, embora
nos ajudemos mutuamente nos casos de necessidade; espiritualistas
somos, não somos materialistas, é óbvio; de
formação de líderes o somos, senão especificamente,
pelo menos contribuímos para isso; de formação
cultural o somos, afinal, as instruções no Rito Escocês
Antigo e Aceito oferecem uma iniciação filosófica
aos Irmãos recebidos em nosso meio.
A verdadeira
missão do Maçom é buscar dentro de si o Mestre
Perfeito e, durante essa busca, atuar segundo a doutrina, os princípios
e normas maçônicas, tomando-se um cidadão digno
e útil à sua comunidade, voltando-se primeiro para
a pequena humanidade com que convive, sem pretender mudar o mundo
enquanto nem sequer conseguiu mudar a si mesmo.
É preciso,
é imperativo que o Maçom conheça a história,
o passado da Maçonaria Universal e que os atos gloriosos,
heróicos, dos Irmãos do passado lhe sirvam de emulação,
exemplos a serem seguidos, respeitando as contingências, vivendo
a realidade dos novos tempos.
Vandré
sabia cantar muito bem, mas não sabia fazer a hora, ele sabia
apenas cantar.
Os partidos
políticos, os governos, as Igrejas, todas as instituições
que se propõem a resolver os problemas sociais, por mais
poderosas que sejam, ainda não conseguiram resolvê-los
de forma definitiva nem satisfatória.
Por que a pressa?
Não somos revolucionários, somos Maçons!
A Maçonaria
não tem de mudar nada, nós, sim, devemos mudar, transformar-nos
em homens novos a partir da Iniciação, começo
e fim de toda transformação.
A Maçonaria
nunca proibiu que um Irmão implantasse uma escola, um hospital,
ou que se tomasse um missionário, um legionário da
Boa Vontade ou um voluntário sem fronteira.
A Maçonaria
deve ser o que é. A Ordem não pode estar voltada para
fatos circunstanciais. Seu olhar sereno deve pairar no horizonte
distante onde resplandece a luz que não cega e não
queima, onde se encontra o reino do amor e da plenitude.
Eu nada sei
e sei que nada sei, mas se eu vier a conhecer a verdade farei como
os Grandes iniciados, deixarei a Maçonaria e buscarei outra
escola; porém, jamais tentarei transformar a Maçonaria,
ela me basta.
Antes de terminar
quero dizer aos meus Irmãos que a Maçonaria é
a minha ideologia e que não conheço outra melhor,
embora ela não me contemple com cargos remunerados nem me
prometa a vida eterna.
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