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Alberto Ricardo Schmidt Patier*
Irineu Evangelista de Sousa, Barão
e Visconde (com grandeza) de Mauá, já nasceu com uma
estrela na testa. Ele é considerado o pai da Indústria
Nacional e a ele devemos, além do incremento dos negócios
brasileiros em nível nacional e internacional, o desenvolvimento
dos transportes por rodovia, ferrovia e pelos grandes rios do País.
Foi também ele que criou o sistema bancário brasileiro
que, em certo período, chegou a controlar toda avida econômica
da república do Uruguai. Ao longo de toda asua vida, Mauá
cultivou uma vontade inabalável de se expandir. Chegou a
movimentar em seus negócios mais dinheiro que o orçamento
do império. Em meados do século passado, era dono
de 10 das 12 maiores empresas brasileiras. As outras duas eram estatais.
Guardada aproporção do tamanho da economia da época,
pode se dizer que, se Antônio Ermírio de Morais vivesse
no II Império, teria sido, em comparação com
Mauá, um empresário de modestas pretensões.
Resenha
Filho de um estancieiro gaúcho assassinado numa querela de
terras, vivia Irineu Evangelista em Arroio Grande com parentes maternos,
que não tinham condições de lhe oferecer um
futuro de grandes perspectivas. Enfrentou a orfandade como engraxate,
além de prestar outros pequenos serviços. Seria o
tio materno, José Batista de Carvalho, Capitão de
um navio que transportava charque do sul para os armazéns
do Rio de Janeiro, que mudaria inteiramente o destino de Irineu.
Com o consentimento da mãe, seguiu para acapital do Império,
onde o tio já tinha acertado um emprego para ele na sede
dos grandes negócios de João Rodrigues Pereira de
Almeida.
Aos 12 anos foi promovido a caixeiro na principal loja daquele empresário.
Até hoje não se sabe onde e como aprendeu a ler e
escrever. Cinco anos mais tarde, seu patrão faliu. Juntou
então os credores e lhes ofereceu tudo o que possuía,
inclusive a belíssima casa em que morava e as jóias
de esposa. O título imperial de Barão de Ubá
era uma clara indicação que João Rodrigues
Pereira de Almeida não era um empresário qualquer.
Talvez por isso, o maior de seus credores, o poderosíssimo
empresário britânico Richard Carruthers, não
aceitou o oferecimento: "Lar é sagrado! Guardai a casa
e as jóias" todos os demais credores seguiram seu exemplo.
À tarde, o falido visitou o credor acompanhado de Irineu:
"Em troca de sua bondade" disse-lhe - "apresento-lhe
o melhor de meus empregados!"
O inglês gostou de Irineu: deu-lhe trabalho em seu escritório
e, à noite, ensinava-lhe inglês e contabilidade. A
nova experiência de trabalho iria, uma vez mais, alterar radicalmente
o rumo de sua vida, porque o emprego na empresa de Carruthers representaria
para ele o passaporte de entrada para um clube fechado: a Maçonaria.
Mauá escreveria mais tarde: "Tudo que há de bom
em mim e tudo que fui capaz de realizar provém das lições
inspiradas em minha convivência com este senhor (Carruthers)".
Ao ser aceito na Maçonaria, Irineu ganhava outra dimensão
aos olhos de Carruthers. Não havia como negar que ele gostava
desse jovem brasileiro mais do que dos próprios filhos. Para
um escocês avarento, que apreciava muito as manifestações
sentimentais, tal constatação era algo extraordinário.
Claro que isso não surgiu de uma forma gratuita. O esforço
de anos de trabalho, a total dedicação ao ensino do
Mestre e até o mesmo sotaque britânico com que Irineu
passou a pronunciar até sua Própria Língua
Materna, fez dele, aos olhos do patrão, um valor que os próprio
filhos não souberam inspira-lhe.
Nisto Carruthers foi contagiado por um mundo brasileiro em que as
relações pessoais importavam mais do que as próprias
leis. Em um dia qualquer do final do ano de 1835, Carruthers reuniu
os empregados da empresa para lhes dizer que estava retirando-se
dos negócios para descansar em sua terra natal. Tal atitude
implicava em escolher alguém para continuar os negócios.
O escolhido foi Irineu Evangelista de Sousa. Aquele foi o grande
presente de aniversário para o contador que completará
22 anos no dia 28 de Dezembro, três dias antes de receber
uma incumbência que faria que deixasse de ser Irineu Evangelista
de Sousa para se projetar como futuro Barão e Visconde de
Mauá.
Irineu, Prosperou, enriqueceu-se, casou-se e foi feliz, mas continuou
a estudar e a sonhar com o progresso do Brasil. Assim partiu para
aEuropa, em visita aseu antigo patrão. Estudou as indústrias
européias e voltou disposto a aplicar esse ensinamentos no
Brasil.
Mauá instalou a primeira companhia de fundição
em Ponta de Areia para construções navais; inaugurou,
no Rio de Janeiro, a iluminação a gás em substituição
aos lampiões de óleo de peixe; fundou a primeira estrada
de ferro, entre Mauá e a Raiz da Serra rumo a Petrópolis.
Nessa ocasião recebeu o título de Barão de
Mauá, e a locomotiva da composição foi chamada
"Baroneza" em homenagem à sua esposa. Bem mais
tarde foi construída aestrada de ferro de cremalheira que
galgava aSerra de Petrópolis.
Foi igualmente Mauá que fundou vários bancos entre
eles aquele que se tornaria o Banco do Brasil. Quando Dom Pedro
II resolveu instalar no Vale do Amazonas uma companhia de navegação
para aexportação de produtos da região, o único
brasileiro capaz de levar adiante o projeto, era Mauá. Por
iniciativa dele, outras companhias passaram a explorar a navegação
no Rio Amazonas.
O maior sonho de Mauá era contudo a comunicação
do Brasil com o Mundo por cabo submarino. Entretanto não
foi a ele que o Imperador confiou essa inovação. Somente
depois que as tentativas oficiais falharam, é que o monarca
entregou à incumbência aMauá.
Como deputado, tratou na Câmara de questões comercias,
defendendo diversas medidas tendentes a beneficiar a indústria
do País. Recebeu, então, do Imperador o título
de Visconde. Seu escudo tinha o formato tradicional, mas ao invés
dos leões, castelos e outros símbolos heráldicos
costumeiros, preencheu o espaço com os troféus que
foram fruto de seu trabalho. O escudo era dividido em dois campos.
Na parte superior mandou gravar sobre um fundo de jalne uma locomotiva
avapor, de sable, deslizando sobre trilhos do mesmo esmalte. Na
metade inferior, em prata, um navio a vapor contra um fundo em blau,
compondo a bordadura, quatro lampiões a gás em jalne
com chama em goles. Para completar o conjunto, uma coroa de Visconde
(com grandeza) encimando o escudo e, sobreposto a tudo, um listel
contendo a divisa LABOR INPROBUS OMNIA VINCIT (O Trabalho Honrado
Supera Todos os Obstáculos).
Mauá, liberal antiescravocrata, foi muito combatido pelos
proprietários de terras e políticos conservadores
nos quais se apoiava o II Império. Quando passou a expandir
seus negócios em escala planetária , com dezessete
empresas e seis países, aí sim saltaram sobre ele
os grandes adversários,: banqueiros internacionais, ditadores
latino-americanos, políticos do partido conservador e figuras
da sociedade passaram a fazer parte da luta diária do Visconde
numa história que se confunde com a própria formação
de um País que já então assustava seus vizinhos.
Um dos poucos Membro s do Partido Conservador que mantinha boas
relações com Mauá era Caxias, embora esta estivesse
para tanto, duas fortes razões. Uma delas consistia no fato
de ser Maçom como Irineu Evangelista. A outra tinha fundamentos
mais de ordem prática. Com o dinheiro de Mauá ia comprando
armas e cavalos, bem como contratando soldados para suas muitas
campanhas na região do Prata e do Paraguai. Era também
com Mauá que Caxias estudava com muita atenção
os cenários das guerras que estavam em seu plano. Enquanto
construía para aMarinha poderosas Belonaves, Caxias preferia
vapores leves, capazes de transportar, com rapidez, as tropas de
uma margem a outra dos grandes rios da região platina.
Embora, pelas leis da época, fosse obrigado a liquidar muita
de suas empresas, continuou rico até o fim de sua vida. Ironicamente
seu ocaso coincidiu com o fim do Império, ao longo do qual,
mesmo remando contra acorrente, protagonizou uma aventura empresarial
sem paralelo em qualquer outro momento de nossa História.
A saga desse modernizador obstinado já foi descoberta pelo
Cinema, além de inspirar várias biografias.
A mais recente MAUÁ O EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO-,
de Jorge Caldeira, e que serviu de base para apresente resenha,
liderou durante dezenas de semanas, as listas dos livros mais vendidos.
Foram igualmente bem acolhidas as biografias sobre Mauá publicadas
por Edgard de Castro Rabelo e Alberto de Faria que, no entanto,
se limitam em apontar Mauá como exemplo ser seguido pelas
novas gerações, quando o verdadeiro problema consiste
em repensá-lo, tal como sugere Lídia Besouchet. Segundo
ela, o Visconde foi um homem de seu tempo num Brasil anacrômico.
"Ninguém mais do que ele lutou contra aestagnação,
contra apasmaceira imperial, contra arotina sedentária(...)".
Toda agrandeza de Mauá está, por conseqüência,
em Ter sido, até a exasperação, um tipo de
homem de que seu tempo era carente- um empreendedor, um homem de
empresa.
Nessa reavaliação feita por Lídia Besouchet
falta, contudo, um aspecto importante que deve ser atribuído
ao fato de Ter sido Maçom: a constatação de
Ter trabalhado mais para os outros- isto é, para o Brasil-
do que para si próprio. É, contudo, forçoso
reconhecer que os benefícios coletivos que resultaram de
sua ação foram indiretos, embora inevitáveis.
Se convém em não exaltá-lo em demasia, não
há como negar que Mauá foi muito mais que um homem
de seu tempo, por sempre Ter ido além do que parecia possível.
Ele era e sobretudo um empreendedor, um criador de teorias que somente
em nosso tempo vêm tomando corpo e consciência.
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