MAÇONS

 

 



A verdade - Junho/85



Mario Behring



Ir. João da Cruz Payão



A 14 de junho de 1933 morria no Rio de Janeiro Mário Behring ...

Não fora a desassombrada atuação de Mário Behring, a Maçonaria brasileira estaria hoje circunscrita a um círculo regional, fugiria ao caráter de regularidade que confere existência legal à Sublime Ordem e seria reconhecida no mundo, apenas por outras potências igualmente não regulares. A obra de Mário Behring, se já foi reconhecida, ainda não foi convenientemente divulgada.

Coerência, desambição, tolerância aliada a grande decisão, marcaram a trajetória de Mário Behring por este mundo.

Exemplo de sua coerência foi a recusa, em 1903, de sua eleição para Membro Efetivo do Grande Capítulo do Rito Francês Moderno por sua crença num Ser Supremo, Criador, incriado, bem como na vida, prolongando-se após a morte.

De novo, em 1921, tendo sido eleito Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente, não aceitou o cargo de Lugar-Tenente Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 pois era de opinião que os dois Altos Corpos eram independentes, conquanto aceitassem a estranha simbiose.

Mário Behring veio ao mundo na cidade mineira de Ponte Nova, a 27 de janeiro de 1876.

Formou-se em Engenharia e, dotado de invulgar inteligência. com rara harmonia trabalhada, possuía invejáveis dotes de oratória e grande poder de persuasão, conseqüentemente, de liderança.

Foi escritor e jornalista, sendo por muitos anos redator do “Imparcial", tendo criado as revistas “Kosmos” e “Cinearte”, ambas no Rio de Janeiro, para onde havia se transferido, em 1901, depois de exercer, por alguns anos, sua profissão de engenheiro em Ponte Nova.

No Rio prestou concurso para o quadro de funcionários da Biblioteca Nacional, logrando conquistar o primeiro lugar vindo a exercer o cargo de chefe da Secção de Manuscritos. Em 1924 viria a ser nomeado diretor daquela Casa, posto no qual muito se destacou.

No Grande Oriente do Brasil foi instado por outros Irmãos e por eles indicado para fazer parte da Comissão de Redação do Boletim Oficial.

Foi eleito Grande Secretário Adjunto em 1906 e, em 1907, elaborou o Projeto de Constituição daquela Potência Maçônica, Constituição nesse mesmo ano promulgada.

Em 1908 foi eleito Grande Orador do Conselho Geral da Ordem, órgão criado por sua iniciativa, e nesse cargo permaneceu até 1917 por reeleições sucessivas.

De 1909 a 1912 exerceu, por duas vezes, durante longos períodos, o cargo de Grande Secretário interino.

Em 1919 foi eleito Grande Chanceler e, em 1921, Grão-Mestre-Adjunto, vindo a exercer, por duas vezes, o cargo de Grão-Mestre, em caráter interino.

Em 1922 foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, para o período de 28-06-22 a 13-07-25, investindo-se no cargo na data prevista, recebendo-o do Irmão Tomás Cavalcante de Albuquerque.

No Supremo Conselho do Grau 33, igualmente, Mário Behring ocupou os mais altos postos.

Em 1907 foi escolhido seu Membro Efetivo e eleito Ministro-de-Estado, cargo para o qual viria a ser reeleito.

Em 1922 foi eleito por 5 anos para o elevado cargo de Soberano Grande Comendador e, ao final desse mandato, veio a alcançar a reeleição, ocasião em que foi agraciado com o título de Soberano Grande Comendador “ad vitam”.

Mário Behring, além de Venerável de sua loja-mãe, a “União Cosmopolita”, foi também de várias às quais se filiou, e ainda foi fundador de inúmeras outras.

Mário Behring, não transigindo jamais com a irregularidade, viria a ser, sempre, o agente da regularização das entidades maçônicas por onde passou.

O ilustre Irmão, ao ser iniciado em 1898, o foi em loja do Rito Francês Moderno, irregular àquela época.

Mais tarde, na qualidade de Ministro-de-Estado do Suprem Conselho do Grau 33, Mário Behring haveria de iniciar gestões no sentido de sanar essa irregularidade vindo a conseguir, finalmente.

O episódio da cisão com o Grande Oriente do Brasil, em que Mário Behring exerceu o papel central, ao contrário do que possa parecer, veio garantir a unidade da Maçonaria brasileira. Foi mais uma prova do seu apego ao princípio da regularidade, que confere legitimidade ao órgão maçônico, mediante sua subordinação e enquadramento à Constituição, leis e regulamentos que regem a Ordem.

Releva notar que, em 1927, ano da cisão, o Supremo Conselho para o Brasil era constituído por 27 membros.

O Grande Oriente do Brasil fora fundado em 1831, trabalhando no Rito Francês Moderno e o Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, em 1832, com Carta Patente fornecida pelo Supremo Conselho Confederado dos Países Baixos.

Os dois Altos Corpos maçônicos brasileiros ligaram-se por Tratado de 1864, concertando-se, então, que o eleito para o cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente acumularia também o de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho. Igualmente, o Grão-Mestre Adjunto acumularia o cargo de Lugar-Tenente Comendador do Supremo Conselho.

Ora, os dois corpos são distintos e regidos por Governos independentes e são muitas as razões que exigem tal separação. Contudo, estranhamente, a situação não regular perdurou por muitos anos.

Em vários Congressos Internacionais a questão foi objeto de consideração e a Maçonaria brasileira foi alertada do perigo dessa organização poder arrastar o Supremo Conselho à irregularidade. Tal advertência se repetiu no Congresso de Lausanne de 1921 ao qual, compareceu Mário Behring, na qualidade de Grão-Mestre Adjunto.

Mário Behring fez sentir isso ao Grande Oriente do Brasil e, partir desse ano, (1921) fez-se separação dos dois Altos Corpos cada um elegendo, separadamente, seus dignitários máximos.

Em 1925, ao final de seu mandato, Mário Behring entrega o cargo ao novo Grão-Mestre, Vicente Saraiva de Carvalho Neiva mantendo-se como Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho para o qual fora eleito até 1927.

Em 1926, Mário Behring celebrou, com o novo Grão-Mestre Tratado restabelecendo a separação dos dois Altos Corpos, afastando o risco da declaração de irregularidade. Tal ato veio também garantir a unidade da Maçonaria brasileira por assegurar a manutenção da soberania de ambos os Altos Corpos.

Com o falecimento de Vicente Neiva, veio a sucedê-lo o Ir. Octávio Kelly.

Em 17 de julho de 1927, o Supremo Conselho, sob a Presidência de Mário Behring, julgara necessário expedir o “Manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil”, denunciando a Confederação com
Grande Oriente do Brasil, por lhe ser prejudicial.

O Grão-Mestre Octávio KeIly, contudo, em sessão de 20-07-27, com base na Constituição do Grande Oriente do Brasil, denunciou o Tratado de 1926, sob o proresto de Mário Behring, declarando ainda que, de acordo com as deliberações do Supremo Conselho, publicaria decreto denunciando o Tratado de 1864, em vigor entre os dois Altos Corpos.

Ao final da leitura, Mário Behring cobriu o Templo, declarando que os dois Altos Corpos ficavam completamente desligados. Acompanharam-no, então 24 dos 27 Membros do Supremo Conselho.

Em 03-08-27, por Decreto Nº 7, Supremo Conselho do Grau 33 declarou irregular o Grande Oriente do Brasil, decisão que viria a ser taticamente corroborada em 1929, quando, no Congresso de Paris, os 27 Supremos Conselhos Confederados confirmaram e proclamaram, por unanimidade, a legitimidade e regularidade do Supremo Conselho presidido por Mário Behring. A partir dai, muitas lojas desligaram-se do Grande Oriente e reuniram-se na Grande Loja e outras se fundaram obedientes à nova Potência.

Há vidas que se caracterizam, realmente por um sentido de missão na Terra. A vida de Mário Behring foi assim. A grande obra de sua preciosa vida foi a regularização da Maçonaria brasileira e sua comunhão perene com a Maçonaria universal.

Cumprida sua missão, chamou-o o Grande Arquiteto do Universo e Mário Behring retornou ao Oriente Eterno, em 14 de junho de 1933.

Mário Behring amou a responsabilidade e nunca recusou postos ou cargos senão por coerência com os princípios maçônicos que obedecia. O zelo pela situação legal da Ordem foi uma constante em sua existência. Seus sólidos conhecimentos das leis: seus dotes de oratória, aos quais sempre deu o melhor emprego, a defesa intransigente do Direito Civil e do Maçônico, levaram à crença que ele era um advogado, antes que um engenheiro.

Combateu a tirania com todas as suas forças e, por sua lealdade, se colocou, sempre, com desassombro, na defesa da Ordem Maçônica e de seus membros isoladamente. Uma ambição apenas, só uma ambição alimentou, a da regularidade maçônica!

Foram traços marcantes de seu caráter a coragem moral, a obstinação na consecução de seus ideais, a firmeza de atitudes, a ponderação e a calma diante de situações difíceis.

Maçom convicto, exemplar chefe de família, cidadão de reto procedimento, Mário Behring é um exemplo a ser seguido.

Sua vida deve servir de inspiração a quantos se propuseram ser artistas da Sublime Arte, a Arte de burilar o perfil da humanidade!