|
Ir. João da Cruz Payão
A
14 de junho de 1933 morria no Rio de Janeiro Mário Behring
... Não fora a desassombrada atuação
de Mário Behring, a Maçonaria brasileira estaria hoje
circunscrita a um círculo regional, fugiria ao caráter
de regularidade que confere existência legal à Sublime
Ordem e seria reconhecida no mundo, apenas por outras potências
igualmente não regulares. A obra de Mário Behring,
se já foi reconhecida, ainda não foi convenientemente
divulgada.
Coerência, desambição, tolerância
aliada a grande decisão, marcaram a trajetória de
Mário Behring por este mundo.
Exemplo de sua coerência foi a recusa, em
1903, de sua eleição para Membro Efetivo do Grande
Capítulo do Rito Francês Moderno por sua crença
num Ser Supremo, Criador, incriado, bem como na vida, prolongando-se
após a morte.
De novo, em 1921, tendo sido eleito Grão-Mestre
Adjunto do Grande Oriente, não aceitou o
cargo de Lugar-Tenente Comendador do Supremo Conselho do Grau 33
pois era de opinião que os dois Altos Corpos eram independentes,
conquanto aceitassem a estranha simbiose.
Mário Behring veio ao mundo na cidade mineira
de Ponte Nova, a 27 de janeiro de 1876.
Formou-se em Engenharia e, dotado de invulgar inteligência.
com rara harmonia trabalhada, possuía invejáveis dotes
de oratória e grande poder de persuasão, conseqüentemente,
de liderança.
Foi escritor e jornalista, sendo por muitos anos
redator do “Imparcial", tendo criado as revistas “Kosmos”
e “Cinearte”, ambas no Rio de Janeiro, para onde havia
se transferido, em 1901, depois de exercer, por alguns anos, sua
profissão de engenheiro em Ponte Nova.
No Rio prestou concurso para o quadro de funcionários
da Biblioteca Nacional, logrando conquistar o primeiro lugar vindo
a exercer o cargo de chefe da Secção de Manuscritos.
Em 1924 viria a ser nomeado diretor daquela Casa, posto no qual
muito se destacou.
No Grande Oriente do Brasil foi instado por outros
Irmãos e por eles indicado para fazer parte da Comissão
de Redação do Boletim Oficial.
Foi eleito Grande Secretário Adjunto em 1906
e, em 1907, elaborou o Projeto de Constituição daquela
Potência Maçônica, Constituição
nesse mesmo ano promulgada.
Em 1908 foi eleito Grande Orador do Conselho Geral
da Ordem, órgão criado por sua iniciativa, e nesse
cargo permaneceu até 1917 por reeleições sucessivas.
De 1909 a 1912 exerceu, por duas vezes, durante
longos períodos, o cargo de Grande Secretário interino.
Em 1919 foi eleito Grande Chanceler e, em 1921,
Grão-Mestre-Adjunto, vindo a exercer, por duas vezes, o cargo
de Grão-Mestre, em caráter interino.
Em 1922 foi eleito Grão-Mestre do Grande
Oriente do Brasil, para o período de 28-06-22 a 13-07-25,
investindo-se no cargo na data prevista, recebendo-o do Irmão
Tomás Cavalcante de Albuquerque.
No Supremo Conselho do Grau 33, igualmente, Mário
Behring ocupou os mais altos postos.
Em 1907 foi escolhido seu Membro Efetivo e eleito
Ministro-de-Estado, cargo para o qual viria a ser reeleito.
Em 1922 foi eleito por 5 anos para o elevado cargo
de Soberano Grande Comendador e, ao final desse mandato, veio a
alcançar a reeleição, ocasião em que
foi agraciado com o título de Soberano Grande Comendador
“ad vitam”.
Mário Behring, além de Venerável
de sua loja-mãe, a “União Cosmopolita”,
foi também de várias às quais se filiou, e
ainda foi fundador de inúmeras outras.
Mário Behring, não transigindo jamais
com a irregularidade, viria a ser, sempre, o agente da regularização
das entidades maçônicas por onde passou.
O ilustre Irmão, ao ser iniciado em 1898,
o foi em loja do Rito Francês Moderno, irregular àquela
época.
Mais tarde, na qualidade de Ministro-de-Estado do
Suprem Conselho do Grau 33, Mário Behring haveria de iniciar
gestões no sentido de sanar essa irregularidade vindo a conseguir,
finalmente.
O episódio da cisão com o Grande Oriente
do Brasil, em que Mário Behring exerceu o papel central,
ao contrário do que possa parecer, veio garantir a unidade
da Maçonaria brasileira. Foi mais uma prova do seu apego
ao princípio da regularidade, que confere legitimidade ao
órgão maçônico, mediante sua subordinação
e enquadramento à Constituição, leis e regulamentos
que regem a Ordem.
Releva notar que, em 1927, ano da cisão,
o Supremo Conselho para o Brasil era constituído por 27 membros.
O Grande Oriente do Brasil fora fundado em 1831,
trabalhando no Rito Francês Moderno e o Supremo Conselho do
Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, em 1832, com Carta
Patente fornecida pelo Supremo Conselho Confederado dos Países
Baixos.
Os dois Altos Corpos maçônicos brasileiros
ligaram-se por Tratado de 1864, concertando-se, então, que
o eleito para o cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente acumularia
também o de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho.
Igualmente, o Grão-Mestre Adjunto acumularia o cargo de Lugar-Tenente
Comendador do Supremo Conselho.
Ora, os dois corpos são distintos e regidos
por Governos independentes e são muitas as razões
que exigem tal separação. Contudo, estranhamente,
a situação não regular perdurou por muitos
anos.
Em vários Congressos Internacionais a questão
foi objeto de consideração e a Maçonaria brasileira
foi alertada do perigo dessa organização poder arrastar
o Supremo Conselho à irregularidade. Tal advertência
se repetiu no Congresso de Lausanne de 1921 ao qual, compareceu
Mário Behring, na qualidade de Grão-Mestre Adjunto.
Mário Behring fez sentir isso ao Grande Oriente
do Brasil e, partir desse ano, (1921) fez-se separação
dos dois Altos Corpos cada um elegendo, separadamente, seus dignitários
máximos.
Em 1925, ao final de seu mandato, Mário Behring
entrega o cargo ao novo Grão-Mestre, Vicente Saraiva de Carvalho
Neiva mantendo-se como Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho
para o qual fora eleito até 1927.
Em 1926, Mário Behring celebrou, com o novo
Grão-Mestre Tratado restabelecendo a separação
dos dois Altos Corpos, afastando o risco da declaração
de irregularidade. Tal ato veio também garantir a unidade
da Maçonaria brasileira por assegurar a manutenção
da soberania de ambos os Altos Corpos.
Com o falecimento de Vicente Neiva, veio a sucedê-lo
o Ir. Octávio Kelly.
Em 17 de julho de 1927, o Supremo Conselho, sob
a Presidência de Mário Behring, julgara necessário
expedir o “Manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil”,
denunciando a Confederação com
Grande Oriente do Brasil, por lhe ser prejudicial.
O Grão-Mestre Octávio KeIly, contudo,
em sessão de 20-07-27, com base na Constituição
do Grande Oriente do Brasil, denunciou o Tratado de 1926, sob o
proresto de Mário Behring, declarando ainda que, de acordo
com as deliberações do Supremo Conselho, publicaria
decreto denunciando o Tratado de 1864, em vigor entre os dois Altos
Corpos.
Ao final da leitura, Mário Behring cobriu
o Templo, declarando que os dois Altos Corpos ficavam completamente
desligados. Acompanharam-no, então 24 dos 27 Membros do Supremo
Conselho.
Em 03-08-27, por Decreto Nº 7, Supremo Conselho
do Grau 33 declarou irregular o Grande Oriente do Brasil, decisão
que viria a ser taticamente corroborada em 1929, quando, no Congresso
de Paris, os 27 Supremos Conselhos Confederados confirmaram e proclamaram,
por unanimidade, a legitimidade e regularidade do Supremo Conselho
presidido por Mário Behring. A partir dai, muitas lojas desligaram-se
do Grande Oriente e reuniram-se na Grande Loja e outras se fundaram
obedientes à nova Potência.
Há vidas que se caracterizam, realmente por
um sentido de missão na Terra. A vida de Mário Behring
foi assim. A grande obra de sua preciosa vida foi a regularização
da Maçonaria brasileira e sua comunhão perene com
a Maçonaria universal.
Cumprida sua missão, chamou-o o Grande Arquiteto
do Universo e Mário Behring retornou ao Oriente Eterno, em
14 de junho de 1933.
Mário Behring amou a responsabilidade e nunca
recusou postos ou cargos senão por coerência com os
princípios maçônicos que obedecia. O zelo pela
situação legal da Ordem foi uma constante em sua existência.
Seus sólidos conhecimentos das leis: seus dotes de oratória,
aos quais sempre deu o melhor emprego, a defesa intransigente do
Direito Civil e do Maçônico, levaram à crença
que ele era um advogado, antes que um engenheiro.
Combateu a tirania com todas as suas forças
e, por sua lealdade, se colocou, sempre, com desassombro, na defesa
da Ordem Maçônica e de seus membros isoladamente. Uma
ambição apenas, só uma ambição
alimentou, a da regularidade maçônica!
Foram traços marcantes de seu caráter
a coragem moral, a obstinação na consecução
de seus ideais, a firmeza de atitudes, a ponderação
e a calma diante de situações difíceis.
Maçom convicto, exemplar chefe de família,
cidadão de reto procedimento, Mário Behring é um exemplo a ser seguido.
Sua vida deve servir de inspiração
a quantos se propuseram ser artistas da Sublime Arte, a Arte de
burilar o perfil da humanidade!
|