|
Henry
Thomas
Já
traçamos a evolução gradual da liberdade religiosa,
social e política na raça humana. Vimos as várias
nações emergindo de um estado de selvajaria e uns
visos de civilização. Cá e lá, é
certo, notamos estadistas que viveram séculos atrasados,
que represaram a maré do progresso com as barreiras do pensamento
medieval e que procuraram levar os homens avante pelo expediente
louco de dirigir-lhes os pés para a frente sem tirar os olhos
do passado. Esses estadistas reacionários restauraram a monarquia
em meio à democracia, a superstição no meio
da cultura, a desconfiança e a dissimulação
no seio da paz. Mas vimos como, apesar desses cegos guiando cegos,
a humanidade conseguiu, como um todo homogêneo, tomar a direção
da maior justiça, mais dilatada tolerância e mais claras
idéias.
Até
aqui nos concentramos sobre o cenário asiático e europeu.
Sigamos agora a enxurrada ocidental da civilização
e atravessemos o Atlântico para os Estados Unidos.
Durante
muitos anos os insensatos escritores do mundo têm caçoado
dos Estados Unidos. Criticaram a vulgaridade dos americanos, sua
rudeza, sua falta de maneiras elegantes da Europa
em suma, sua selvajaria primitiva, comparada com a aristocrática
cultura do Velho Mundo. Sob muitos aspectos, essa critica é
justificada. No entanto, não é um sinal de vulgaridade
européia a maneira por que os europeus ridicularizam a vulgaridade
americana? Entrando no mato, os americanos tiveram de trabalhar
em mangas de camisa. Careciam de tempo de folga para adquirir a
cultura de seus primos europeus, mas também não tiveram
tempo de adquirir muitos dos seus vícios.
Durante
a maior parte do século XVIII, os americanos cuidaram de
negócios que lhes diziam respeito, enquanto os europeus tratavam
dos assuntos de todo o mundo. Os americanos eram menos polidos,
mas mais pacíficos que os europeus. Na Inglaterra, Kipling
escreveu frases esquisitamente cinzeladas sobre a glória
da guerra. Na América, Walt Whitman escreveu grosseiros poemas
sobre a fraternidade humana.
No
decurso do século XVIII, os Estados Unidos foram a menos
agressiva de todas as nações poderosas do mundo. Os
americanos tiveram suas brigas, é verdade, e pelo menos em
duas ocasiões, na Guerra Mexicana e na Guerra Espanhola,
foram culpados de um vergonhoso lapso de militarismo por amor à
conquista. E’ porque nenhuma nação ainda despiu
totalmente a selvajaria da selva. Entretanto, fora dessas ocasionais
demonstrações de irrazoável egoísmo,
os americanos constituíram uma nação amante
da paz.
Sofreram,
porém, da enfermidade da escravatura; e ao tentar purgar
o país dessa doença, foram involuntariamente levados
a uma das mais trágicas e mais desumanas guerras de toda
a História.
E’
inútil, naturalmente, recuar os passos da história
e cogitar o que poderia ter acontecido se tal ou qual coisa não
tivesse ocorrido. A Guerra Civil, dizem-nos, podia ter sido evitada.
Mas, claro que sim! Qualquer guerra podia ter sido evitada se os
protagonistas principais fossem outros. Mas, humanos como eram,
e sujeitos à paixão ilimitada e à visão
limitadíssima dos seres humanos, fizeram da história
o que ela é e não o que desejaríamos que fosse.
O passado é um livro concluído. Não há
crítica que, hoje, possa alterar uma sílaba desse
livro. O aforismo papal de que “seja o que for, está
certo” pode ser considerado verdadeiro quando aplicado ao
passado. Fosse o que fosse, teve de ser. A Guerra Civil não
podia ter sido evitada nos Estados Unidos de 1861. Essa guerra,
contudo, como todas as outras guerras do passado, escreveu um aviso
de sangue para as nações do futuro. E o aviso é
este — algumas guerras podem ser inevitáveis, mas uma
guerra não é nunca necessária para o progresso
do gênero humano. A escravidão nos Estados Unidos poderia
ter sido abolida sem a efusão de sangue da Guerra Civil.
A
fim de que possamos compreender claramente este fato, examinemos
a origem e o progresso da escravatura na América.
Quando
Colombo chegou à América pela primeira vez, vinha
em busca de três coisas: ouro, almas humanas para batizar
e corpos humanos para vender como escravos. Os espanhóis
que o acompanharam procuraram escravizar os índios. Mas os
índios não agüentaram o peso do trabalho. E assim,
citando Van Loon, “um padre de bom coração (Las
Casas) sugeriu que trouxessem negros da África” para
tomarem o lugar dos escravos Indígenas. O negro chegou à
América muito cedo. Em 1620, os peregrinos pais do homem
branco desembarcaram em Plymouth, Massachusetts, e os pais peregrinos
do homem preto foram desembarcados em Jamestown, na Virgínia.
Os
estados setentrionais logo se cansaram da escravidão. Massachusetts
aboliu-a em 1783. Vários outros estados seguiram o exemplo
de Massachusetts logo depois dessa data. Os nortistas perceberam,
como os sulistas haveriam de perceber dentro de pouco tempo, que
a escravidão era mais cara que a liberdade. Benjamim Franklin
viu isto. “O trabalho dos escravos”, disse, “nunca
poderá ser tão barato aqui como o trabalho do obreiro
na Grã Bretanha. Qualquer um pode verificar isso. Anotemos
o juro do capital empregado na compra do escravo, o seguro ou risco
de sua vida, a roupa e a alimentação, as despesas
com as doenças e a perda de tempo, as perdas por negligencia
(negligencia natural ao homem que não se beneficia com sua
dedicação e diligência), despesas com um feitor
para mantê-lo no trabalho e os furtos cometidos de tempos
em tempos (porque todo escravo é ladrão, pela natureza
da própria escravidão) e comparemos a soma total com
os ordenados de um trabalhador em lã ou ferro na Inglaterra;
veremos que a mão-de-obra é muito mais barata lá
do que o trabalho dos negros aqui.”
Em
outras palavras, a escravatura não compensava. E estava empobrecendo
o sul. Estava empobrecendo todos os países em que era admitida.
As nações européias viram isto e uma apos outra
foram desistindo da escravidão. Por volta de 1860 era uma
instituição morta em quase todos os países
do mundo e uma Instituição moribunda até nos
Estados Unidos. Em 1833, a Grã. Bretanha libertara os escravos
em todas as suas possessões. O México libertara-os
em 1827; a França, em 1848; Portugal, em 1858. Cinco anos
depois, até o Czar Alexandre emancipou os servos da Rússia.
O Sul, também, acabaria tomando essa decisão não
porque a escravatura fosse moralmente má, mas porque o era
economicamente. Não era necessário batizar a liberdade
recém-nascida do negro americano com o sangue de um milhão
de homens. A Guerra Civil foi uma tragédia desnecessária.
Mas,
de acordo com o caráter dos tempos, a Guerra Civil dificilmente
poderia ter sido evitada. Até os maiores estadistas da América
faziam tudo que lhes era possível para provocá-la.
E pena é que o fizessem, absolutamente inadvertidos. O principal
entre esses estadistas foi um homem de nobre caráter mas
de visão estreita: Abraão Lincoln. Foi um vulto grande
e patético. Sua falta de sabedoria muito contribuiu para
precipitar a guerra. Sua rara coragem levou-a a um fim nobre.
Nenhum
dramaturgo criou enredo mais trágico que a vida de Lincoln.
Um dos homens mais ambiciosos da história fracassou em quase
tudo que empreendeu; e quando obtinha êxito, achava-o mais
amargo do que o fracasso. A única mulher que ele amou, morreu;
e a mulher com quem casou ansiava mais por vê-lo famoso do
que feliz. Disputou um lugar no congresso e duas vezes foi derrotado.
Entrou no comércio e faliu - Buscou ser nomeado para o Ministério
do Interior dos Estados Unidos e foi rejeitado. Quis ser vice-presidente
e perdeu. Finalmente elevado à presidência, foi impelido
a principiar uma guerra feroz, embora sempre tivesse sido amante
da paz. Dedicado à família, duas vezes Inclinou a
cabeça sobre os túmulos de seus filhos. Um morreu
na infância e o outro aos doze anos, quando Lincoln já
era presidente. Essa tragédia, acrescentada ao fardo da guerra,
quase ultrapassou sua capacidade de sofrer. Finalmente, em 1865,
o destino lhe ofereceu a primeira taça de alegria sem mistura
de tristeza. A guerra acabou e Lincoln triunfara. Mas no momento
em que levava a taça aos lábios, foi baleado. O seu
assassínio teve lugar cinco dias apenas depois da rendição
do General Lee.
Com
a vida de Lincoln, os deuses mostraram aos dramaturgos da terra
como escrever uma verdadeira tragédia.
Eu
disse que a falta de sabedoria de Abraão Lincoln fez muito
para a eclosão da Guerra Civil. Deixem-me explicar o que
quero dizer. Conquanto Lincoln fosse um dos maiores estadistas do
mundo, era político, acima de tudo. Interessava-se pelo bem-estar
da raça humana mas interessava-se muito mais pelo progresso
de suas próprias ambições. Além disso,
não era um pensador criador. Tinha idéias antiquadas.
Se sofresse uma ofensa pessoal, estaria disposto a brigar. Se observasse
um mal nacional, quereria Ir à guerra para saná-lo.
Não via outro modo. A violência era a única
arma que, segundo lhe haviam ensinado, se podia opor à injustiça.
Carecia de paciência — isto é, a previsão
serena que marcou a sabedoria de homens como Buda, Confúcio
e Tolstoi.
Via
o mal da escravatura, mas não podia ver que era um mal moribundo.
No remoinho de suas campanhas políticas não tivera
nem tempo nem inclinação para desenvolver um conhecimento
geral da vida. Na sua ânsia de ser eleito para a Casa Branca,
não conseguiu perceber que sua eleição significaria
guerra certa entre o Norte e o Sul.
Dos
quatro candidatos presidenciais de 1860 só Lincoln fazia
alarde de uma política agressiva contra a escravatura. Douglas,
seu principal adversário, acreditava que a questão
seria final. mente resolvida no Sul sem interferência alguma
da parte do Norte. Douglas tinha visão mais vasta, mas dos
dois, Lincoln era o político mais hábil.
Se
Douglas fosse eleito para presidente, não teria havido guerra,
a escravidão morreria de morte natural e Lincoln teria passado
pela história como homem menos famoso e mais feliz. Assim
como sucedeu, sua estreita visão e sua ambição
pessoal levaram a morte e a devastação ao país,
a infelicidade e a morte para ele e nenhum bem se produziu, como
teria acontecido se o sacrifício trágico da guerra
não fosse feito.
Quando
Lincoln correu para a presidência, os estados sulinos ameaçaram
separar-se se sua eleição se realizasse. Quando foi
eleito, cumpriram a ameaça.
A
história da Guerra Civil é tão conhecida que
é Inútil metê-la aqui, por inteiro. Lincoln
se opunha à escravidão. No entanto, não foi
à guerra para libertar os escravos. Seu único objetivo,
a princípio, era trazer de volta os Estados rebeldes para
a União
—
isto é, desfazer o mal que sua eleição produzira.
Não foi senão dois anos depois do começo da
guerra que a escravidão se tornou um ponto de disputa. Lincoln
o adotou a fim de levantar o moral da nação e atrair
as simpatias das nações neutras da Europa. Enquanto
o Norte combateu por motivos políticos, a Europa permaneceu
desinteressada. Com efeito, muitas das nações neutras
insistiam que os Estados Unidos, tendo se separado da Inglaterra,
não tinham direito de impedir a Confederação,
que procurava separar-se dos Estados Unidos. Mas quando, a l~ de
janeiro de 1863, Lincoln proclamou que estava combatendo para tornar
a América segura para o negro, levantou a consciência
mundial assim como Wilson, em 1917, o fez quando proclamou que estava
combatendo para salvar o mundo para a Democracia.
Até
um certo ponto, portanto, a proclamação da emancipação
da Europa como a consciência do próprio Lincoln. Transformou
um hábil político num grande homem. Agora, estava
consagrado a uma grande causa. Estava transfigurado, quase à
sua revelia, num dos salvadores do gênero humano -
Contudo,
a guerra, apesar do novo objetivo, continuou impopular. Todas as
guerras são impopulares; se os historiadores contassem só
a verdade, ninguém as consideraria como atos nobres e corajosos.
As deserções, tanto no Norte como no Sul, eram assustadoras.
O povinho não queria batalhar. Foi necessário do negro
produziu o efeito desejado - Não só ergueu a consciência
recorrer à força. Os homens eram arrancados às
suas famílias e obrigados a lutar contra sua vontade. Para
aumentar a injustiça desse sistema de sacrifício humano
obrigatório, os ricos foram isentados de servir. Pela importância
de algumas centenas de dólares podiam contratar outros homens
para morrer em seu lugar. Isso atirou todo o peso da chacina aos
ombros dos pobres. Era uma desumana medida de guerra e despertou
muitos ressentimentos da parte dos que não podiam alugar
um substituto para morrer - Por todo o país houve graves
conflitos contra essa providência. Em Nova York, esses distúrbios
duraram vários dias e milhares de pessoas foram mortas.
Entre
as mais significativas batalhas da Guerra Civil está essa
luta dos cidadãos contra o recrutamento - No entanto, muitos
historiadores silenciaram a respeito - Não é nem agradável
nem proveitoso dizer a verdade inteira a respeito da guerra.
A
Guerra Civil foi uma tragédia, uma horrorosa tragédia.
Enobreceu o caráter de Lincoln, mas a que preço! As
mesmas paixões despertadas pela guerra resultaram na sua
morte. E então o país caiu numa orgia de corrupção
política e social. E isso foi naturalíssimo. A nova
geração viu acontecer a mesma coisa durante o regime
Harding, depois da Grande Guerra. Toda guerra mina o padrão
de ética das nações que dela participam. Os
vícios da paz transformam-se em virtudes da guerra; e quando
a luta termina, os vícios continuam sendo as características
dominantes do país durante os anos que se seguem. O cinismo,
a desonestidade, a brutalidade e o assassínio são
as quatro pedras fundamentais sobre que as civilizações
são construídas depois de cada grande guerra. No fim
da Guerra de Secessão, Lincoln aconselhou sua nação
a agir “sem malícia com ninguém, e com caridade
para todos”. Essas belas palavras são grandes e imortais.
O diabo é que as pronunciou cinco anos atrasado.
Examinemos
alguns dos fios que entravam no estofo do caráter de Lincoln.
ele se ergue como um dos mais típicos representantes da raça
humana. Foi um produto da terra e do sol, homem de grande ambição
e de simpatia mundial, curiosa mescla de vulgaridade e nobreza,
estupidez e sabedoria, crueldade e amor. Era um campônio nos
trajes, mas um verdadeiro príncipe ao falar. Não se
encolhia diante de ninguém — exceto da esposa. Manhoso
na política, era escrupulosamente honesto em tudo mais.
Era
homem de mente ordinária e extraordinária vontade
de vencer. Era um da plebe. Olhava-a como o afeto de um irmão.
Entretanto, para consolidar sua carreira, mandou 750 000 irmãos
à morte.
Lincoln foi um símbolo da grandeza e da tragédia da
raça humana. |