MAÇONS

 

 



Abraham Lincoln,
O Salvador da Raça Negra


 

Henry Thomas

 

 

Já traçamos a evolução gradual da liberdade religiosa, social e política na raça humana. Vimos as várias nações emergindo de um estado de selvajaria e uns visos de civilização. Cá e lá, é certo, notamos estadistas que viveram séculos atrasados, que represaram a maré do progresso com as barreiras do pensamento medieval e que procuraram levar os homens avante pelo expediente louco de dirigir-lhes os pés para a frente sem tirar os olhos do passado. Esses estadistas reacionários restauraram a monarquia em meio à democracia, a superstição no meio da cultura, a desconfiança e a dissimulação no seio da paz. Mas vimos como, apesar desses cegos guiando cegos, a humanidade conseguiu, como um todo homogêneo, tomar a direção da maior justiça, mais dilatada tolerância e mais claras idéias.

Até aqui nos concentramos sobre o cenário asiático e europeu. Sigamos agora a enxurrada ocidental da civilização e atravessemos o Atlântico para os Estados Unidos.

Durante muitos anos os insensatos escritores do mundo têm caçoado dos Estados Unidos. Criticaram a vulgaridade dos americanos, sua rudeza, sua falta de maneiras elegantes da Europa
em suma, sua selvajaria primitiva, comparada com a aristocrática cultura do Velho Mundo. Sob muitos aspectos, essa critica é justificada. No entanto, não é um sinal de vulgaridade européia a maneira por que os europeus ridicularizam a vulgaridade americana? Entrando no mato, os americanos tiveram de trabalhar em mangas de camisa. Careciam de tempo de folga para adquirir a cultura de seus primos europeus, mas também não tiveram tempo de adquirir muitos dos seus vícios.

Durante a maior parte do século XVIII, os americanos cuidaram de negócios que lhes diziam respeito, enquanto os europeus tratavam dos assuntos de todo o mundo. Os americanos eram menos polidos, mas mais pacíficos que os europeus. Na Inglaterra, Kipling escreveu frases esquisitamente cinzeladas sobre a glória da guerra. Na América, Walt Whitman escreveu grosseiros poemas sobre a fraternidade humana.

No decurso do século XVIII, os Estados Unidos foram a menos agressiva de todas as nações poderosas do mundo. Os americanos tiveram suas brigas, é verdade, e pelo menos em duas ocasiões, na Guerra Mexicana e na Guerra Espanhola, foram culpados de um vergonhoso lapso de militarismo por amor à conquista. E’ porque nenhuma nação ainda despiu totalmente a selvajaria da selva. Entretanto, fora dessas ocasionais demonstrações de irrazoável egoísmo, os americanos constituíram uma nação amante da paz.

Sofreram, porém, da enfermidade da escravatura; e ao tentar purgar o país dessa doença, foram involuntariamente levados a uma das mais trágicas e mais desumanas guerras de toda a História.

E’ inútil, naturalmente, recuar os passos da história e cogitar o que poderia ter acontecido se tal ou qual coisa não tivesse ocorrido. A Guerra Civil, dizem-nos, podia ter sido evitada. Mas, claro que sim! Qualquer guerra podia ter sido evitada se os protagonistas principais fossem outros. Mas, humanos como eram, e sujeitos à paixão ilimitada e à visão limitadíssima dos seres humanos, fizeram da história o que ela é e não o que desejaríamos que fosse. O passado é um livro concluído. Não há crítica que, hoje, possa alterar uma sílaba desse livro. O aforismo papal de que “seja o que for, está certo” pode ser considerado verdadeiro quando aplicado ao passado. Fosse o que fosse, teve de ser. A Guerra Civil não podia ter sido evitada nos Estados Unidos de 1861. Essa guerra, contudo, como todas as outras guerras do passado, escreveu um aviso de sangue para as nações do futuro. E o aviso é este — algumas guerras podem ser inevitáveis, mas uma guerra não é nunca necessária para o progresso do gênero humano. A escravidão nos Estados Unidos poderia ter sido abolida sem a efusão de sangue da Guerra Civil.

A fim de que possamos compreender claramente este fato, examinemos a origem e o progresso da escravatura na América.

Quando Colombo chegou à América pela primeira vez, vinha em busca de três coisas: ouro, almas humanas para batizar e corpos humanos para vender como escravos. Os espanhóis que o acompanharam procuraram escravizar os índios. Mas os índios não agüentaram o peso do trabalho. E assim, citando Van Loon, “um padre de bom coração (Las Casas) sugeriu que trouxessem negros da África” para tomarem o lugar dos escravos Indígenas. O negro chegou à América muito cedo. Em 1620, os peregrinos pais do homem branco desembarcaram em Plymouth, Massachusetts, e os pais peregrinos do homem preto foram desembarcados em Jamestown, na Virgínia.

Os estados setentrionais logo se cansaram da escravidão. Massachusetts aboliu-a em 1783. Vários outros estados seguiram o exemplo de Massachusetts logo depois dessa data. Os nortistas perceberam, como os sulistas haveriam de perceber dentro de pouco tempo, que a escravidão era mais cara que a liberdade. Benjamim Franklin viu isto. “O trabalho dos escravos”, disse, “nunca poderá ser tão barato aqui como o trabalho do obreiro na Grã Bretanha. Qualquer um pode verificar isso. Anotemos o juro do capital empregado na compra do escravo, o seguro ou risco de sua vida, a roupa e a alimentação, as despesas com as doenças e a perda de tempo, as perdas por negligencia (negligencia natural ao homem que não se beneficia com sua dedicação e diligência), despesas com um feitor para mantê-lo no trabalho e os furtos cometidos de tempos em tempos (porque todo escravo é ladrão, pela natureza da própria escravidão) e comparemos a soma total com os ordenados de um trabalhador em lã ou ferro na Inglaterra; veremos que a mão-de-obra é muito mais barata lá do que o trabalho dos negros aqui.”

Em outras palavras, a escravatura não compensava. E estava empobrecendo o sul. Estava empobrecendo todos os países em que era admitida. As nações européias viram isto e uma apos outra foram desistindo da escravidão. Por volta de 1860 era uma instituição morta em quase todos os países do mundo e uma Instituição moribunda até nos Estados Unidos. Em 1833, a Grã. Bretanha libertara os escravos em todas as suas possessões. O México libertara-os em 1827; a França, em 1848; Portugal, em 1858. Cinco anos depois, até o Czar Alexandre emancipou os servos da Rússia. O Sul, também, acabaria tomando essa decisão não porque a escravatura fosse moralmente má, mas porque o era economicamente. Não era necessário batizar a liberdade recém-nascida do negro americano com o sangue de um milhão de homens. A Guerra Civil foi uma tragédia desnecessária.

Mas, de acordo com o caráter dos tempos, a Guerra Civil dificilmente poderia ter sido evitada. Até os maiores estadistas da América faziam tudo que lhes era possível para provocá-la. E pena é que o fizessem, absolutamente inadvertidos. O principal entre esses estadistas foi um homem de nobre caráter mas de visão estreita: Abraão Lincoln. Foi um vulto grande e patético. Sua falta de sabedoria muito contribuiu para precipitar a guerra. Sua rara coragem levou-a a um fim nobre.

Nenhum dramaturgo criou enredo mais trágico que a vida de Lincoln. Um dos homens mais ambiciosos da história fracassou em quase tudo que empreendeu; e quando obtinha êxito, achava-o mais amargo do que o fracasso. A única mulher que ele amou, morreu; e a mulher com quem casou ansiava mais por vê-lo famoso do que feliz. Disputou um lugar no congresso e duas vezes foi derrotado. Entrou no comércio e faliu - Buscou ser nomeado para o Ministério do Interior dos Estados Unidos e foi rejeitado. Quis ser vice-presidente e perdeu. Finalmente elevado à presidência, foi impelido a principiar uma guerra feroz, embora sempre tivesse sido amante da paz. Dedicado à família, duas vezes Inclinou a cabeça sobre os túmulos de seus filhos. Um morreu na infância e o outro aos doze anos, quando Lincoln já era presidente. Essa tragédia, acrescentada ao fardo da guerra, quase ultrapassou sua capacidade de sofrer. Finalmente, em 1865, o destino lhe ofereceu a primeira taça de alegria sem mistura de tristeza. A guerra acabou e Lincoln triunfara. Mas no momento em que levava a taça aos lábios, foi baleado. O seu assassínio teve lugar cinco dias apenas depois da rendição do General Lee.

Com a vida de Lincoln, os deuses mostraram aos dramaturgos da terra como escrever uma verdadeira tragédia.

Eu disse que a falta de sabedoria de Abraão Lincoln fez muito para a eclosão da Guerra Civil. Deixem-me explicar o que quero dizer. Conquanto Lincoln fosse um dos maiores estadistas do mundo, era político, acima de tudo. Interessava-se pelo bem-estar da raça humana mas interessava-se muito mais pelo progresso de suas próprias ambições. Além disso, não era um pensador criador. Tinha idéias antiquadas. Se sofresse uma ofensa pessoal, estaria disposto a brigar. Se observasse um mal nacional, quereria Ir à guerra para saná-lo. Não via outro modo. A violência era a única arma que, segundo lhe haviam ensinado, se podia opor à injustiça. Carecia de paciência — isto é, a previsão serena que marcou a sabedoria de homens como Buda, Confúcio e Tolstoi.

Via o mal da escravatura, mas não podia ver que era um mal moribundo. No remoinho de suas campanhas políticas não tivera nem tempo nem inclinação para desenvolver um conhecimento geral da vida. Na sua ânsia de ser eleito para a Casa Branca, não conseguiu perceber que sua eleição significaria guerra certa entre o Norte e o Sul.

Dos quatro candidatos presidenciais de 1860 só Lincoln fazia alarde de uma política agressiva contra a escravatura. Douglas, seu principal adversário, acreditava que a questão seria final. mente resolvida no Sul sem interferência alguma da parte do Norte. Douglas tinha visão mais vasta, mas dos dois, Lincoln era o político mais hábil.

Se Douglas fosse eleito para presidente, não teria havido guerra, a escravidão morreria de morte natural e Lincoln teria passado pela história como homem menos famoso e mais feliz. Assim como sucedeu, sua estreita visão e sua ambição pessoal levaram a morte e a devastação ao país, a infelicidade e a morte para ele e nenhum bem se produziu, como teria acontecido se o sacrifício trágico da guerra não fosse feito.

Quando Lincoln correu para a presidência, os estados sulinos ameaçaram separar-se se sua eleição se realizasse. Quando foi eleito, cumpriram a ameaça.

A história da Guerra Civil é tão conhecida que é Inútil metê-la aqui, por inteiro. Lincoln se opunha à escravidão. No entanto, não foi à guerra para libertar os escravos. Seu único objetivo, a princípio, era trazer de volta os Estados rebeldes para a União

— isto é, desfazer o mal que sua eleição produzira. Não foi senão dois anos depois do começo da guerra que a escravidão se tornou um ponto de disputa. Lincoln o adotou a fim de levantar o moral da nação e atrair as simpatias das nações neutras da Europa. Enquanto o Norte combateu por motivos políticos, a Europa permaneceu desinteressada. Com efeito, muitas das nações neutras insistiam que os Estados Unidos, tendo se separado da Inglaterra, não tinham direito de impedir a Confederação, que procurava separar-se dos Estados Unidos. Mas quando, a l~ de janeiro de 1863, Lincoln proclamou que estava combatendo para tornar a América segura para o negro, levantou a consciência mundial assim como Wilson, em 1917, o fez quando proclamou que estava combatendo para salvar o mundo para a Democracia.

Até um certo ponto, portanto, a proclamação da emancipação da Europa como a consciência do próprio Lincoln. Transformou um hábil político num grande homem. Agora, estava consagrado a uma grande causa. Estava transfigurado, quase à sua revelia, num dos salvadores do gênero humano -

Contudo, a guerra, apesar do novo objetivo, continuou impopular. Todas as guerras são impopulares; se os historiadores contassem só a verdade, ninguém as consideraria como atos nobres e corajosos. As deserções, tanto no Norte como no Sul, eram assustadoras. O povinho não queria batalhar. Foi necessário do negro produziu o efeito desejado - Não só ergueu a consciência recorrer à força. Os homens eram arrancados às suas famílias e obrigados a lutar contra sua vontade. Para aumentar a injustiça desse sistema de sacrifício humano obrigatório, os ricos foram isentados de servir. Pela importância de algumas centenas de dólares podiam contratar outros homens para morrer em seu lugar. Isso atirou todo o peso da chacina aos ombros dos pobres. Era uma desumana medida de guerra e despertou muitos ressentimentos da parte dos que não podiam alugar um substituto para morrer - Por todo o país houve graves conflitos contra essa providência. Em Nova York, esses distúrbios duraram vários dias e milhares de pessoas foram mortas.

Entre as mais significativas batalhas da Guerra Civil está essa luta dos cidadãos contra o recrutamento - No entanto, muitos historiadores silenciaram a respeito - Não é nem agradável nem proveitoso dizer a verdade inteira a respeito da guerra.

A Guerra Civil foi uma tragédia, uma horrorosa tragédia. Enobreceu o caráter de Lincoln, mas a que preço! As mesmas paixões despertadas pela guerra resultaram na sua morte. E então o país caiu numa orgia de corrupção política e social. E isso foi naturalíssimo. A nova geração viu acontecer a mesma coisa durante o regime Harding, depois da Grande Guerra. Toda guerra mina o padrão de ética das nações que dela participam. Os vícios da paz transformam-se em virtudes da guerra; e quando a luta termina, os vícios continuam sendo as características dominantes do país durante os anos que se seguem. O cinismo, a desonestidade, a brutalidade e o assassínio são as quatro pedras fundamentais sobre que as civilizações são construídas depois de cada grande guerra. No fim da Guerra de Secessão, Lincoln aconselhou sua nação a agir “sem malícia com ninguém, e com caridade para todos”. Essas belas palavras são grandes e imortais. O diabo é que as pronunciou cinco anos atrasado.

Examinemos alguns dos fios que entravam no estofo do caráter de Lincoln. ele se ergue como um dos mais típicos representantes da raça humana. Foi um produto da terra e do sol, homem de grande ambição e de simpatia mundial, curiosa mescla de vulgaridade e nobreza, estupidez e sabedoria, crueldade e amor. Era um campônio nos trajes, mas um verdadeiro príncipe ao falar. Não se encolhia diante de ninguém — exceto da esposa. Manhoso na política, era escrupulosamente honesto em tudo mais.

Era homem de mente ordinária e extraordinária vontade de vencer. Era um da plebe. Olhava-a como o afeto de um irmão. Entretanto, para consolidar sua carreira, mandou 750 000 irmãos à morte.

Lincoln foi um símbolo da grandeza e da tragédia da raça humana.