Liberdade e Coerência


Por: Valéria Marques de Oliveira

Col do Irm Paulo Amaral

“É perigoso ser unilateral, mesmo na bondade”, esta é uma frase que faz muito sentido para aqueles que trilham um caminho espiritual visando, principalmente, uma integração de todos os aspectos da natureza humana, ao invés de um caminho sedimentado em apenas um de seus pólos.

Um ser humano é antes de tudo constituído de vários aspectos, que por não estarem alinhados em uma única direção, se movimentam em completa desarmonia e em sentidos totalmente opostos, nos acarretando grandes conflitos e sofrimentos.

Por isto, é muito importante deixarmos coagular em nossa consciência aquela parte menos bela de nós, para que ela se torne visível e possamos, a partir daí, lidar com ela de maneira objetiva, e isto pode ser realizado através de um trabalho sincero de auto-observação e profunda reflexão.

Enquanto não trouxermos para a consciência aquela parte de nós que está oculta por não assumi-la como sendo nossa, viveremos destinados a uma completa incoerência, onde os movimentos internos derivados de nossos pensamentos e emoções se externalizam sem nenhuma direção definida e precisa.

É necessário lidar sempre com a nossa verdadeira realidade, com aquela parte de nosso destino que nos cabe cumprir, e isto deve ocorrer sem nenhum tipo de auto-engano, para que possamos adquirir uma liberdade interna capaz de se expressar em todas as circunstâncias de nossas vidas, sem medos, dúvidas ou hipocrisia mas, ao contrário, de forma autêntica e íntegra com nossas diferentes facetas.

Jung escreveu: “Nosso princípio interior é: Deus et Homo. Deus necessita do homem a fim de tornar-se consciente, da mesma maneira como precisa da limitação no tempo e no espaço. Sejamos, pois, sua limitação no tempo e no espaço, um tabernáculo (templo) terrestre”.
Acredito que nossa maior incoerência surge da nossa dificuldade de digerir uma boa dose de nossa própria realidade e, devido a esta dificuldade, nos tornamos vítimas de nossas próprias fantasias. Sentimos algo que não nos pertence, nos protegemos de inimigos que não existem, na maioria das vezes, e caminhamos sem um rumo certo e sem um propósito bem definido. Às vezes não estabelecemos um limite para nosso templo terrestre e, em conseqüência, permitimos que ele seja invadido por diversos tipos de paixões, limitando, desta forma, nosso Deus interno.

Na reconciliação conosco e aceitação humilde de nossa condição de seres imperfeitos é que nos tornaremos capazes para expressar, sem perigos, nossa genuína bondade já que, neste caso, não incorreremos numa unilateralidade mas, ao contrário, estaremos realizando uma integração e alcançando a vivência da totalidade de nosso Ser.