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Conferencia pronunciada pelo ilustre Irmão Dr. Brazílio Celestino de Oliveira, então Secretario do Interior e Justiça, na sessão solene realizada a 8 de novembro de 1956, pela ARLS Lauro Müller Nº 7, comemorativa do 93º aniversário do seu patrono e na qual se inaugurou o seu retrato.

Lauro Müller
Uma Gloriosa Figura da República


Irm Brazílio Celestino de Oliveira

 

Não desejando deixar passar sem uma homenagem especial a data que assinala o transcurso de mais um aniversário de nascimento do eminente patrício e nosso inolvidável conterrâneo, dr. Lauro Severiano Müller, convidou-nos o digno Venerável desta Augusta Loja Simbólica a pronunciar, no templo maçônico que porta o nome de tão ilustre e benemérito cidadão, uma conferência sobre a sua vida na história do país e deste Estado.

Aceitamos prazerosamente a incumbência, honrosa para nós, lastimando apenas que a escassez de tempo não nos tenha permitido recorrer a fontes eruditas, de onde pudéssemos extrair dados mais completos e conhecimentos mais profundos sobre a personalidade excepcional do grande brasileiro, cuja vida pública, repleta de rasgos proeminentes, é uma afirmação da pureza dos costumes políticos e do caráter do homem público de sua época.

Senhores,

Logo após a Independência do Brasil, em curso o ano de 1824, graças à visão administrativa do jovem imperador D. Pedro 1, era fundada, na província do Rio Grande do Sul, a Colônia de São Leopoldo, formada de imigrantes vindos da Alemanha. Poucos anos depois, em 1828, aportava à província de Santa Catarina, desembarcando na Ilha de Desterro, outra leva de agricultores da mesma procedência, seguida de outras novas levas, aqui chegadas em 1829 e 1830.

Localizados meses após a chegada em São José, nas mediações da capital, foram depois esses imigrantes transportados para a Colônia de São Pedro, fundada pelo então governador da província, Francisco de Albuquerque Melo.

Dentre os imigrantes que povoaram a nova Colônia de São Pedro, figuravam Johann Müller e sua esposa, Anna Maria, com seus cinco filhos. Um dos filhos desse humilde casal alemão, de nome Peter,
mudou-se, mais tarde, para São José, em busca de maiores facilidades para a edificação de sua nova existência em pátria estranha. Em São José, Peter desposou Ana Michels, como ele, alemã e filha de imigrantes. Insatisfeito no meio em que vivia, sonhando um futuro melhor para si e para os seus descendentes, Pedro Müller — como se tornou largamente conhecido — transferiu seu domicílio para Itajaí, onde se estabeleceu com uma pequena e modesta loja comercial.

Mais rapidamente que a fortuna com que sonhara, aumentara-lhe a descendência: quatro rapazes e duas meninas. Dentre os primeiros, o menino magro, alto, muito ágil e de aspecto doentio, que se chamou Lauro Severiano Müller, e que deveria, muitos anos mais tarde, ser um nome de grande ressonância no Brasil e no estrangeiro.

Relata o escritor catarinense Marcos Konder, num interessante ensaio biográfico de Lauro Müller, que o velho Pedro Müller e sua esposa Ana Míchels, pela sua extrema bondade e lhaneza de trato que dispensavam a todos quantos se lhes achegavam, caboclos ou alemães, ricos ou pobres, acabaram cativando aquela população de pequenos agricultores e humildes pescadores das margens do Rio Itajaí. De tal forma se afeiçoara a todos o bondoso e prestativo imigrante, que se tornara “compadre” de muita gente, hospedando, invariavelmente, no seu lar modesto e são, políticos e pessoas de destaque social na época, que transitassem pela cidade. Em reconhecimento a tão notórias virtudes, amigos de prestígio fizeram-no juiz de paz.

Em Itajaí, onde nasceu, Lauro MÜller fez também os seus primeiros estudos, revelando, desde muito cedo, dotes de inteligência e sagacidade, admirado pelos seus colegas pela facilidade com que aprendia as rudimentares lições do mestre-escola.

Nada teve de extraordinária a sua infância, sabendo-se apenas que, como todos os meninos de sua idade, adorava banhar-se nas águas do grande rio, participando de alegres pescadas, principalmente de bagres, pelos quais, durante toda a vida, manifestou especial predileção e aprendera capoeiragem com um mameluco popular, de nome Desidério, que se tornara famoso na região na arte de “passar rasteiras”.

Chegada à adolescência, Lauro tornou-se impaciente para traçar rumos à própria vida. Assim foi que, embarcando no porto de sua terra natal, de onde jamais safra, desembarcou, de tamancos, no Rio, dirigindo-se para casa de seu tio, residente em Niterói, que imediatamente lhe conseguiu um emprego de caixeiro numa loja comercial de um português, na capital do Império.

O jovem catarinense, porém, aproveitava melhor o seu tempo com leituras de jornais e almanaques, a tudo devorando na sua imensa sede de aprender. Vendo o bondoso tio que o sobrinho preferia a companhia dos livros ao modesto trabalho de balcão de loja, procurou encaminhá-lo de acordo com as suas próprias inclinações.

Desta forma, em 1882, Lauro Müller, sem o mínimo pistolão, sem recomendação de quem quer que seja, assentou praça, voluntariamente, no Corpo de Alunos da Escola Militar, onde concluiu o curso preparatório, demonstrando, segundo os seus autorizados biógrafos, brilhante aproveitamento, mas devido à sua natureza doentia, pouquíssima inclinação para os exercícios militares.

Em 1885, como Alferes-Aluno, devido à enfermidade, desliga-se da Companhia em que estava destacado, para vir convalescer no seu estado natal, aqui ficando às ordens do governador da província.

Foi esse, ao que parece, o seu primeiro contato com a política, na qual haveria de revelar-se, mais tarde, consumado senhor.

Melhorando o seu estado de saúde, regressa Lauro à corte, concluindo os cursos de artilharia e do Estado Maior.

Em 1888 era já engenheiro militar e promovido a 2º Tenente do Exército Imperial.

Segundo notícia que temos, nesse mesmo ano, depois de aderir com entusiasmo à pregação republicana de seu querido mestre, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, que pontificava na cátedra da Escola Militar, Lauro Müller procura, na iniciação maçônica, o campo onde pudesse fazer medrar o seu sonho de lutador democrático.

As Lojas Maçônicas, unidas sob a obediência suprema do Grande Oriente do Brasil, a serviço dos seus imperecíveis ideais libertários, mostravam, àquela época, excepcional atividade.

Tivera eficaz participação a Maçonaria Brasileira na luta pela libertação do país do jugo português, consumada com a proclamação da Independência, e Lauro conhecia a filiação maçônica de José Bonifácio, Gonçalves Ledo e do próprio Imperador. A Independência era a coroação de longas lutas travadas no país e de desesperados surtos revolucionários, cujo preço fora o sacrifício generoso de preciosas vidas de compatriotas nossos, muitos dos quais abnegados maçons.

A Lei Áurea, que extinguira em todo o país a escravidão, lavando do continente americano a vergonhosa mancha, fora, incontestavelmente, trabalho pertinaz inspirado nos ideais da Sublime Ordem.

Estava agora para nascer a República, e para a sua efetivação, maçons ilustres como Benjamin Constant, Ruy, Deodoro, se empenhavam a fundo.

Na sua farda de oficial do Exército, Lauro Müller, no dia 15 de novembro de 1889, a cavalo, em companhia do Tenente Adolfo Pena, descia de São Cristóvão, madrugada alta, para transmitir ao Marechal Deodoro a disposição da brigada de depor o Ministério Ouro Preto, no auge da crise política, ou proclamar a República.

Destruído o regime pela proclamação da República, foi Lauro Müller nomeado governador provisório de seu Estado natal.

Em Santa Catarina, formara-se uma Junta Governativa composta dos Coronéis Raulino Horn, Rego Barros e dr. Alexandre Bayma, que aclamara governador provisório o Cel. Raulino Horn.

Das mãos desse venerando republicano, recebeu Lauro o governo do Estado, em 2 de dezembro de 1889. À testa da administração pública, ainda no verdor dos anos, pôs Lauro Müller em evidência o seu tino de estadista, procurando ajustar a nova administração ao regime republicano.

Desde cedo fazia praça das sublimes lições aprendidas com Benjamin Constant e dos princípios maçônicos, implantando absoluta austeridade na gestão dos negócios de Estado, dando exemplos de bondade, compreensão e tolerância e agindo sempre dentro dos melhores costumes politicos.

Conta-se que, no seu curto governo, ninguém foi demitido das funções e empregos públicos que exercia no regime anterior.

Eleito deputado à Constituinte de 91, colaborou na feitura da nova Constituição Republicana, participando da Comissão dos 21, incumbida de examinar o projeto de autoria de Ruy, que se transformou na mais liberal Constituição do mundo.

Promulgada a Lei Magna do país, em 24 de fevereiro desse mesmo ano, já em junho era Lauro eleito pelo Congresso para Governador Constitucional de Santa Catarina.

Ainda desta feita, foi curta a sua permanência à frente do governo de seu Estado natal. Havendo apoiado o golpe de estado desferido por Deodoro, que dissolveu o Parlamento, sofreu cerrada oposição de seus coestaduanos.

Espírito eminentemente tolerante, generoso e desprendido, não quis Lauro que fosse derramado sangue de seus conterrâneos, surpreendendo a amigos e adversários com a sua renúncia ao governo.

Anulada por Floriano a dissolução do Parlamento, decretada por Deodoro, volta Lauro Müller a exercer a representação federal do seu Estado.

A revolta de 1893 vai encontrar Lauro servindo no 5º Distrito Militar, com sede em Curitiba.

Na histórica Lapa, onde teve atuação destacada, embora rude e
injustamente criticada pelos seus adversários políticos, encontra velhos amigos de Santa Catarina, entre os quais Hercílio Luz.

Passado o incêndio revolucionário, nomeia Floriano o Coronel Moreira Cezar, de triste memória, governador militar de Santa Catarina. Horrorosas vindictas foram exercidas nesse negro período de nossa história, no Paraná e em nosso Estado.

Embora tardiamente, coube a Lauro, sempre generoso e tolerante, influir sobre Moreira Cezar para que moderasse a sua sanha sanguinária, que custara a vida a tantos ilustres catarinenses, entre os quais cumpre nomear o Marechal Gama d’Eça, Barão de Batovi, Elesbão Pinto da Luz, Tobias Becker e outros.

Em 1897, voltava Lauro Müller a Santa Catarina para fundar o Partido Republicano Catarinense, e em 1899, elegia-se como Presidente do partido, Senador da República, depois de harmonizar os seus conterrâneos, profundamente divididos pelas cruentas lutas de 1893.

Dizia-se de Lauro Müller que não era homem de brigas. Realmente, o seu temperamento dócil e compreensivo não se compadecia com as lutas e a violência.

Narra Marcos Konder que Lauro Müller costumava dizer que “engolia sapos”, expressão agora novamente atualizada, para significar o desgosto com que deve o politico submeter-se a certas situações em benefício da paz e da harmonia nas hostes partidárias, ou para não se indispor com o Poder Central, sempre tão poderoso na Federação Brasileira.

Em agosto de 1903, era novamente eleito Governador do seu Estado, apenas exercendo o cargo pelo curto espaço de 48 dias, posto que fora convidado pelo presidente Rodrigues Alves para o Ministério da Viação e Obras Públicas.

Do que foi a sua brilhante atuação à frente daquele Ministério não há nenhuma necessidade de menção especial, eis que a história, pode-se dizer, é dos nossos dias.

Foi justamente a época áurea da República.

Soubera Rodrigues Alves escolher com perfeição os seus mais diretos auxiliares. Lauro Müller, na pasta da viação, Oswaldo Cruz na da Saúde, Pereira Passos, na Prefeitura da Capital Federal, Paulo de Frontin e tantos outros ilustres brasileiros, são nomes que engrandeceram o mais fecundo dos governos republicanos que jamais tivemos, Sob a orientação clarividente desses homens, o Rio de Janeiro tornou-se uma atraente capital, com seus cais acostáveis, abundância de água, a febre amarela banida dos seus domínios e aberta a Avenida Central.

Lauro Müller revelava-se mais uma vez o administrador de visão, dinâmico e operoso, mas sobretudo de insuperável probidade.

Deixando o Ministério, visita a Europa, onde é recebido carinhosamente pelos chefes de Estado de várias nações, especialmente pelo Imperador da Alemanha, Guilherme II, que presta ao ilustre filho de imigrantes calorosas homenagens.

De regresso do Velho Mundo, assume Lauro Müller a sua cadeira de Senador, empenhando-se, logo a seguir, na memorável campanha cívica pela sucessão presidencial.

Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, o primeiro representando o militarismo e o segundo o civilismo, disputavam as preferências do eleitorado.

Conta-se que Lauro Müller, a princípio, mostrara-se inclinado a apoiar a candidatura popular do genial Baiano, mas, depois, receando que a vitória de Hermes, candidato oficial, conferisse a Pinheiro Machado, virtual senhor da política federal, maior soma de prestígio, com o risco de perseguições em Santa Catarina, acabou dando o seu apoio à candidatura do Marechal.

Foi Lauro Müller, no governo de Hermes da Fonseca, nomeado Ministro das Relações Exteriores, em substituição ao eminente diplomata Barão do Rio Branco, que falecera.

“Sucedo-o sem substituí-lo», disse ao tomar posse do novo posto que a República lhe destinava.
Incontestavelmente brilhante foi a sua gestão no Itamarati, continuando a ação marcante de Rio Branco, e concluindo a última questão de limites com a República do Uruguai pelo domínio da Lagoa Mirim.

Pode-se afirmar que Lauro Müller consolidou os laços de amizade com todas as Repúblicas do
hemisfério.

Wenceslau Braz, sucessor de Hermes, manteve Lauro à frente do Ministério do Exterior.

Pouco depois, a guerra européia, a primeira conflagração mundial.

Os Impérios Centrais, Alemanha e Austria-Hungria, deflagram a terrível hecatombe.

Invadido o pequeno Reino da Bélgica, que se porta heroicamente, protesta o Governo Brasileiro contra a violação da soberania da terra do Rei Alberto.

No seu delírio de conquistar o mundo, a Marinha do Kaiser torpedeia navios brasileiros e o Governo da República rompe as suas relações com os poderosos e agressivos Impérios Centrais.

“Quem nasceu no Brasil é brasileiro, ou é traidor”, era expressão de Lauro Müller que respondia, patrioticamente, às suspeitas que contra a sua pessoa levantavam os seus ferrenhos adversários, apontando o seu nome e a sua origem alemães.

Amargurado pela injusta campanha que se fazia na imprensa do país contra a sua permanência no Ministério do Exterior, renuncia Lauro Müller ao cargo que tanto dignificara, e volta, triste e resignado, à cadeira de Senador, que lhe conferira o povo de seu Estado.

Estava por terminar em Santa Catarina o seu mandato de Governador o General Felipe Schmidt, primo-irmão de Lauro Müller, que também sofrera, por idêntico motivo, tenaz campanha de seus adversários.

Vem Lauro a Florianópolis presidir a Convenção do Partido Republicano. Era seu candidato à sucessão de Schmidt o dr. Abdon Batista, político em Joinville e de largo prestígio em todo o Norte do Estado.

Mas, outra corrente - parece que mais poderosa -, sustentava a candidatura do dr. Hercílio Pedro da Luz.

Percebendo Lauro Müller que não contava com a maioria dos convencionais e que seu prestígio passava para as mãos de Hercílio Luz, aceitou uma fórmula conciliatória que, se lhe evitava a derrota dentro do Partido, não lhe assegurava mais a chefia política no Estado.

Foi assim que surgiu a chapa:

Lauro Müller para governador e Hercílio Luz para vice.

Mais uma vez foi de pouca duração o governo de Lauro Müller.

“O alemãozinho de Santa Catarina”, como costumava chamá-lo ironicamente, mas cheio de admiração e respeito por ele, Pinheiro Machado, o seu rival já morto, — deu mostra, ainda uma vez, do seu espírito de renúncia.

Lauro renunciava ao governo, efetivando-se nele o vice Hercílio Luz.

Assim, em 30 de julho de 1926, em estado de pobreza, o homem que fora por diversas vezes governador de seu Estado, Ministro de Viação e das Relações Exteriores, Deputado e Senador em numerosas legislaturas, num edificante exemplo da sua proverbial probidade, fechava os olhos para sempre.

A sua vida pública foi um padrão de dignidade e de lisura.

O seu espírito esteve sempre profundamente vinculado aos nobres ideais republicanos, e até o dia de sua morte, Lauro Müller foi, discretamente, sem ostentação, o maçom perfeito, inteiramente voltado ao bem da Pátria, que tanto engrandeceu, e da Humanidade a que serviu com tanta generosidade.

Estou certo de que foi o maior dos catarinenses e, sem dúvida, um dos maiores brasileiros, e o seu nome, que pronunciamos com veneração e respeito, há de ser um facho luminoso a clarear o caminho das gerações futuras.

Homenageando-lhe a memória, na data aniversária de seu nascimento, ocorrido há 93 anos atrás, esta Loja Maçônica, que adotou o seu ilustre nome, tendo-o como seu patrono e inspirador, rende um preito de admiração e reconhecimento a uma das mais gloriosas figuras da República.