Irm
Brazílio Celestino de Oliveira
Não
desejando deixar passar sem uma homenagem especial a data que assinala
o transcurso de mais um aniversário de nascimento do eminente
patrício e nosso inolvidável conterrâneo, dr.
Lauro Severiano Müller, convidou-nos o digno Venerável
desta Augusta Loja Simbólica a pronunciar, no templo maçônico
que porta o nome de tão ilustre e benemérito cidadão,
uma conferência sobre a sua vida na história do país
e deste Estado.
Aceitamos prazerosamente
a incumbência, honrosa para nós, lastimando apenas
que a escassez de tempo não nos tenha permitido recorrer
a fontes eruditas, de onde pudéssemos extrair dados mais
completos e conhecimentos mais profundos sobre a personalidade excepcional
do grande brasileiro, cuja vida pública, repleta de rasgos
proeminentes, é uma afirmação da pureza dos
costumes políticos e do caráter do homem público
de sua época.
Senhores,
Logo após
a Independência do Brasil, em curso o ano de 1824, graças
à visão administrativa do jovem imperador D. Pedro
1, era fundada, na província do Rio Grande do Sul, a Colônia
de São Leopoldo, formada de imigrantes vindos da Alemanha.
Poucos anos depois, em 1828, aportava à província
de Santa Catarina, desembarcando na Ilha de Desterro, outra leva
de agricultores da mesma procedência, seguida de outras novas
levas, aqui chegadas em 1829 e 1830.
Localizados
meses após a chegada em São José, nas mediações
da capital, foram depois esses imigrantes transportados para a Colônia
de São Pedro, fundada pelo então governador da província,
Francisco de Albuquerque Melo.
Dentre os imigrantes
que povoaram a nova Colônia de São Pedro, figuravam
Johann Müller e sua esposa, Anna Maria, com seus cinco filhos.
Um dos filhos desse humilde casal alemão, de nome Peter,
mudou-se, mais tarde, para São José, em busca de maiores
facilidades para a edificação de sua nova existência
em pátria estranha. Em São José, Peter desposou
Ana Michels, como ele, alemã e filha de imigrantes. Insatisfeito
no meio em que vivia, sonhando um futuro melhor para si e para os
seus descendentes, Pedro Müller — como se tornou largamente
conhecido — transferiu seu domicílio para Itajaí,
onde se estabeleceu com uma pequena e modesta loja comercial.
Mais rapidamente
que a fortuna com que sonhara, aumentara-lhe a descendência:
quatro rapazes e duas meninas. Dentre os primeiros, o menino magro,
alto, muito ágil e de aspecto doentio, que se chamou Lauro
Severiano Müller, e que deveria, muitos anos mais tarde, ser
um nome de grande ressonância no Brasil e no estrangeiro.
Relata o escritor
catarinense Marcos Konder, num interessante ensaio biográfico
de Lauro Müller, que o velho Pedro Müller e sua esposa
Ana Míchels, pela sua extrema bondade e lhaneza de trato
que dispensavam a todos quantos se lhes achegavam, caboclos ou alemães,
ricos ou pobres, acabaram cativando aquela população
de pequenos agricultores e humildes pescadores das margens do Rio
Itajaí. De tal forma se afeiçoara a todos o bondoso
e prestativo imigrante, que se tornara “compadre” de
muita gente, hospedando, invariavelmente, no seu lar modesto e são,
políticos e pessoas de destaque social na época, que
transitassem pela cidade. Em reconhecimento a tão notórias
virtudes, amigos de prestígio fizeram-no juiz de paz.
Em Itajaí,
onde nasceu, Lauro MÜller fez também os seus primeiros
estudos, revelando, desde muito cedo, dotes de inteligência
e sagacidade, admirado pelos seus colegas pela facilidade com que
aprendia as rudimentares lições do mestre-escola.
Nada teve de
extraordinária a sua infância, sabendo-se apenas que,
como todos os meninos de sua idade, adorava banhar-se nas águas
do grande rio, participando de alegres pescadas, principalmente
de bagres, pelos quais, durante toda a vida, manifestou especial
predileção e aprendera capoeiragem com um mameluco
popular, de nome Desidério, que se tornara famoso na região
na arte de “passar rasteiras”.
Chegada à
adolescência, Lauro tornou-se impaciente para traçar
rumos à própria vida. Assim foi que, embarcando no
porto de sua terra natal, de onde jamais safra, desembarcou, de
tamancos, no Rio, dirigindo-se para casa de seu tio, residente em
Niterói, que imediatamente lhe conseguiu um emprego de caixeiro
numa loja comercial de um português, na capital do Império.
O jovem catarinense,
porém, aproveitava melhor o seu tempo com leituras de jornais
e almanaques, a tudo devorando na sua imensa sede de aprender. Vendo
o bondoso tio que o sobrinho preferia a companhia dos livros ao
modesto trabalho de balcão de loja, procurou encaminhá-lo
de acordo com as suas próprias inclinações.
Desta forma,
em 1882, Lauro Müller, sem o mínimo pistolão,
sem recomendação de quem quer que seja, assentou praça,
voluntariamente, no Corpo de Alunos da Escola Militar, onde concluiu
o curso preparatório, demonstrando, segundo os seus autorizados
biógrafos, brilhante aproveitamento, mas devido à
sua natureza doentia, pouquíssima inclinação
para os exercícios militares.
Em 1885, como
Alferes-Aluno, devido à enfermidade, desliga-se da Companhia
em que estava destacado, para vir convalescer no seu estado natal,
aqui ficando às ordens do governador da província.
Foi esse, ao
que parece, o seu primeiro contato com a política, na qual
haveria de revelar-se, mais tarde, consumado senhor.
Melhorando o
seu estado de saúde, regressa Lauro à corte, concluindo
os cursos de artilharia e do Estado Maior.
Em 1888 era
já engenheiro militar e promovido a 2º Tenente do Exército
Imperial.
Segundo notícia
que temos, nesse mesmo ano, depois de aderir com entusiasmo à
pregação republicana de seu querido mestre, Benjamin
Constant Botelho de Magalhães, que pontificava na cátedra
da Escola Militar, Lauro Müller procura, na iniciação
maçônica, o campo onde pudesse fazer medrar o seu sonho
de lutador democrático.
As Lojas Maçônicas,
unidas sob a obediência suprema do Grande Oriente do Brasil,
a serviço dos seus imperecíveis ideais libertários,
mostravam, àquela época, excepcional atividade.
Tivera eficaz
participação a Maçonaria Brasileira na luta
pela libertação do país do jugo português,
consumada com a proclamação da Independência,
e Lauro conhecia a filiação maçônica
de José Bonifácio, Gonçalves Ledo e do próprio
Imperador. A Independência era a coroação de
longas lutas travadas no país e de desesperados surtos revolucionários,
cujo preço fora o sacrifício generoso de preciosas
vidas de compatriotas nossos, muitos dos quais abnegados maçons.
A Lei Áurea,
que extinguira em todo o país a escravidão, lavando
do continente americano a vergonhosa mancha, fora, incontestavelmente,
trabalho pertinaz inspirado nos ideais da Sublime Ordem.
Estava agora
para nascer a República, e para a sua efetivação,
maçons ilustres como Benjamin Constant, Ruy, Deodoro, se
empenhavam a fundo.
Na sua farda
de oficial do Exército, Lauro Müller, no dia 15 de novembro
de 1889, a cavalo, em companhia do Tenente Adolfo Pena, descia de
São Cristóvão, madrugada alta, para transmitir
ao Marechal Deodoro a disposição da brigada de depor
o Ministério Ouro Preto, no auge da crise política,
ou proclamar a República.
Destruído
o regime pela proclamação da República, foi
Lauro Müller nomeado governador provisório de seu Estado
natal.
Em Santa Catarina,
formara-se uma Junta Governativa composta dos Coronéis Raulino
Horn, Rego Barros e dr. Alexandre Bayma, que aclamara governador
provisório o Cel. Raulino Horn.
Das mãos
desse venerando republicano, recebeu Lauro o governo do Estado,
em 2 de dezembro de 1889. À testa da administração
pública, ainda no verdor dos anos, pôs Lauro Müller
em evidência o seu tino de estadista, procurando ajustar a
nova administração ao regime republicano.
Desde cedo fazia
praça das sublimes lições aprendidas com Benjamin
Constant e dos princípios maçônicos, implantando
absoluta austeridade na gestão dos negócios de Estado,
dando exemplos de bondade, compreensão e tolerância
e agindo sempre dentro dos melhores costumes politicos.
Conta-se que,
no seu curto governo, ninguém foi demitido das funções
e empregos públicos que exercia no regime anterior.
Eleito deputado à Constituinte de 91, colaborou na feitura da nova Constituição
Republicana, participando da Comissão dos 21, incumbida de
examinar o projeto de autoria de Ruy, que se transformou na mais
liberal Constituição do mundo.
Promulgada a
Lei Magna do país, em 24 de fevereiro desse mesmo ano, já em junho era Lauro eleito pelo Congresso para Governador Constitucional
de Santa Catarina.
Ainda desta
feita, foi curta a sua permanência à frente do governo
de seu Estado natal. Havendo apoiado o golpe de estado desferido
por Deodoro, que dissolveu o Parlamento, sofreu cerrada oposição
de seus coestaduanos.
Espírito
eminentemente tolerante, generoso e desprendido, não quis
Lauro que fosse derramado sangue de seus conterrâneos, surpreendendo
a amigos e adversários com a sua renúncia ao governo.
Anulada por
Floriano a dissolução do Parlamento, decretada por
Deodoro, volta Lauro Müller a exercer a representação
federal do seu Estado.
A revolta de
1893 vai encontrar Lauro servindo no 5º Distrito Militar, com
sede em Curitiba.
Na histórica
Lapa, onde teve atuação destacada, embora rude e
injustamente criticada pelos seus adversários políticos,
encontra velhos amigos de Santa Catarina, entre os quais Hercílio
Luz.
Passado o incêndio
revolucionário, nomeia Floriano o Coronel Moreira Cezar,
de triste memória, governador militar de Santa Catarina.
Horrorosas vindictas foram exercidas nesse negro período
de nossa história, no Paraná e em nosso Estado.
Embora tardiamente,
coube a Lauro, sempre generoso e tolerante, influir sobre Moreira
Cezar para que moderasse a sua sanha sanguinária, que custara
a vida a tantos ilustres catarinenses, entre os quais cumpre nomear
o Marechal Gama d’Eça, Barão de Batovi, Elesbão
Pinto da Luz, Tobias Becker e outros.
Em 1897, voltava
Lauro Müller a Santa Catarina para fundar o Partido Republicano
Catarinense, e em 1899, elegia-se como Presidente do partido, Senador
da República, depois de harmonizar os seus conterrâneos,
profundamente divididos pelas cruentas lutas de 1893.
Dizia-se de
Lauro Müller que não era homem de brigas. Realmente,
o seu temperamento dócil e compreensivo não se compadecia
com as lutas e a violência.
Narra Marcos
Konder que Lauro Müller costumava dizer que “engolia
sapos”, expressão agora novamente atualizada, para
significar o desgosto com que deve o politico submeter-se a certas
situações em benefício da paz e da harmonia
nas hostes partidárias, ou para não se indispor com
o Poder Central, sempre tão poderoso na Federação
Brasileira.
Em agosto de
1903, era novamente eleito Governador do seu Estado, apenas exercendo
o cargo pelo curto espaço de 48 dias, posto que fora convidado
pelo presidente Rodrigues Alves para o Ministério da Viação
e Obras Públicas.
Do que foi a
sua brilhante atuação à frente daquele Ministério
não há nenhuma necessidade de menção
especial, eis que a história, pode-se dizer, é dos
nossos dias.
Foi justamente
a época áurea da República.
Soubera Rodrigues
Alves escolher com perfeição os seus mais diretos
auxiliares. Lauro Müller, na pasta da viação,
Oswaldo Cruz na da Saúde, Pereira Passos, na Prefeitura da
Capital Federal, Paulo de Frontin e tantos outros ilustres brasileiros,
são nomes que engrandeceram o mais fecundo dos governos republicanos
que jamais tivemos, Sob a orientação clarividente
desses homens, o Rio de Janeiro tornou-se uma atraente capital,
com seus cais acostáveis, abundância de água,
a febre amarela banida dos seus domínios e aberta a Avenida
Central.
Lauro Müller
revelava-se mais uma vez o administrador de visão, dinâmico
e operoso, mas sobretudo de insuperável probidade.
Deixando o Ministério,
visita a Europa, onde é recebido carinhosamente pelos chefes
de Estado de várias nações, especialmente pelo
Imperador da Alemanha, Guilherme II, que presta ao ilustre filho
de imigrantes calorosas homenagens.
De regresso
do Velho Mundo, assume Lauro Müller a sua cadeira de Senador,
empenhando-se, logo a seguir, na memorável campanha cívica
pela sucessão presidencial.
Hermes da Fonseca
e Rui Barbosa, o primeiro representando o militarismo e o segundo
o civilismo, disputavam as preferências do eleitorado.
Conta-se que
Lauro Müller, a princípio, mostrara-se inclinado a apoiar
a candidatura popular do genial Baiano, mas, depois, receando que
a vitória de Hermes, candidato oficial, conferisse a Pinheiro
Machado, virtual senhor da política federal, maior soma de
prestígio, com o risco de perseguições em Santa
Catarina, acabou dando o seu apoio à candidatura do Marechal.
Foi Lauro Müller,
no governo de Hermes da Fonseca, nomeado Ministro das Relações
Exteriores, em substituição ao eminente diplomata
Barão do Rio Branco, que falecera.
“Sucedo-o
sem substituí-lo», disse ao tomar posse do novo posto
que a República lhe destinava.
Incontestavelmente brilhante foi a sua gestão no Itamarati,
continuando a ação marcante de Rio Branco, e concluindo
a última questão de limites com a República
do Uruguai pelo domínio da Lagoa Mirim.
Pode-se afirmar
que Lauro Müller consolidou os laços de amizade com
todas as Repúblicas do
hemisfério.
Wenceslau Braz,
sucessor de Hermes, manteve Lauro à frente do Ministério
do Exterior.
Pouco depois,
a guerra européia, a primeira conflagração
mundial.
Os Impérios
Centrais, Alemanha e Austria-Hungria, deflagram a terrível
hecatombe.
Invadido o pequeno
Reino da Bélgica, que se porta heroicamente, protesta o Governo
Brasileiro contra a violação da soberania da terra
do Rei Alberto.
No seu delírio
de conquistar o mundo, a Marinha do Kaiser torpedeia navios brasileiros
e o Governo da República rompe as suas relações
com os poderosos e agressivos Impérios Centrais.
“Quem
nasceu no Brasil é brasileiro, ou é traidor”,
era expressão de Lauro Müller que respondia, patrioticamente,
às suspeitas que contra a sua pessoa levantavam os seus ferrenhos
adversários, apontando o seu nome e a sua origem alemães.
Amargurado pela
injusta campanha que se fazia na imprensa do país contra
a sua permanência no Ministério do Exterior, renuncia
Lauro Müller ao cargo que tanto dignificara, e volta, triste
e resignado, à cadeira de Senador, que lhe conferira o povo
de seu Estado.
Estava por terminar
em Santa Catarina o seu mandato de Governador o General Felipe Schmidt,
primo-irmão de Lauro Müller, que também sofrera,
por idêntico motivo, tenaz campanha de seus adversários.
Vem Lauro a
Florianópolis presidir a Convenção do Partido
Republicano. Era seu candidato à sucessão de Schmidt
o dr. Abdon Batista, político em Joinville e de largo prestígio
em todo o Norte do Estado.
Mas, outra corrente
- parece que mais poderosa -, sustentava a candidatura do dr. Hercílio
Pedro da Luz.
Percebendo Lauro
Müller que não contava com a maioria dos convencionais
e que seu prestígio passava para as mãos de Hercílio
Luz, aceitou uma fórmula conciliatória que, se lhe
evitava a derrota dentro do Partido, não lhe assegurava mais
a chefia política no Estado.
Foi assim que
surgiu a chapa:
Lauro Müller
para governador e Hercílio Luz para vice.
Mais uma vez
foi de pouca duração o governo de Lauro Müller.
“O alemãozinho
de Santa Catarina”, como costumava chamá-lo ironicamente,
mas cheio de admiração e respeito por ele, Pinheiro
Machado, o seu rival já morto, — deu mostra, ainda
uma vez, do seu espírito de renúncia.
Lauro renunciava
ao governo, efetivando-se nele o vice Hercílio Luz.
Assim, em 30
de julho de 1926, em estado de pobreza, o homem que fora por diversas
vezes governador de seu Estado, Ministro de Viação
e das Relações Exteriores, Deputado e Senador em numerosas
legislaturas, num edificante exemplo da sua proverbial probidade,
fechava os olhos para sempre.
A sua vida pública
foi um padrão de dignidade e de lisura.
O seu espírito
esteve sempre profundamente vinculado aos nobres ideais republicanos,
e até o dia de sua morte, Lauro Müller foi, discretamente,
sem ostentação, o maçom perfeito, inteiramente
voltado ao bem da Pátria, que tanto engrandeceu, e da Humanidade
a que serviu com tanta generosidade.
Estou certo
de que foi o maior dos catarinenses e, sem dúvida, um dos
maiores brasileiros, e o seu nome, que pronunciamos com veneração
e respeito, há de ser um facho luminoso a clarear o caminho
das gerações futuras.
Homenageando-lhe
a memória, na data aniversária de seu nascimento,
ocorrido há 93 anos atrás, esta Loja Maçônica,
que adotou o seu ilustre nome, tendo-o como seu patrono e inspirador,
rende um preito de admiração e reconhecimento a uma
das mais gloriosas figuras da República.
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