|
Por: Einar Adalsteinsson
No espinhoso
caminho para o despertar espiritual foi estabelecido que o discípulo
seja crucificado entre os pólos de duas forças opostas,
como se diz. De um lado ele tem que lutar por sua elevação
nesta trilha pelos objetivos espirituais, mas por mais que empreenda
esforços muito conscientes, nunca alcançará
sua meta porque a própria meta é inacessível
e está além de qualquer esforço humano.
Por outro lado,
existe a esperança da Graça Divina, o auxílio
místico do alto, além de todos os esforços
- além mesmo da mais sutil esperança - aquela que
devasta as mansões da alma, quando esta se ajusta para adentrar
a psique humana. Entretanto, até que aquela efetiva varredura
venha do céu, temos que cuidar da nossa limpeza psicológica,
atentando para o fato de que a experiência mística
é diferente de entrarmos em nossas humildes casas, enquanto
não tivermos limpo, pelo menos, as maiores pilhas de lixo
mental e emocional acumuladas no subconsciente durante muitas vidas.
O propósito deste artigo é tocar em determinados pontos
que podem ajudar-nos nessa limpeza interna.
Estamos falando
da psique de um ser humano comum, prestes a iniciar o caminho interno
em direção à unidade mística. A maioria
de nós está embaraçada no mundo externo que,
em muitos casos, parece ser totalmente exigente. Mas todos nós
temos, pelo menos, uma vaga experiência de um outro mundo,
o nosso próprio mundo interno, conquanto este seja mais confuso
sobre sua natureza e relação com o mundo externo.
Levando em consideração as esmagadoras exigências
do nosso meio ambiente com relação às nossas
vidas, assim como a nossa educação, que quase sempre
está ligada aos problemas do dia-a-dia, estamos acostumados
a usar métodos do mundo material para resolver problemas
do mundo interno, com resultados questionáveis. Podemos exemplificar
isto claramente quando examinamos os problemas das pessoas hoje
em dia.
Entretanto,
existem pessoas - e sempre existiram - que descobriram as regras
e leis que governam o domínio interno e que aprenderam a
fazer uso desse conhecimento na transformação interna,
com vistas a uma vida mais feliz e mais plena, a uma felicidade
que não acaba jamais e a uma realização que
é intocada por circunstâncias externas. Avancemos alguns
passos na direção dessa fábrica de magias da
vida e vejamos se podemos aprender algo sobre a arte de viver.
Como já
mencionamos, existem leis que governam o mundo interno, diferentes
daquelas que regulam o mundo externo. Esta é a primeira mensagem
importante que captamos daqueles homens sábios. Exemplos:
para modificar o mundo externo, temos que usar energia e força
de vontade. Se tentarmos usar essa mesma força de vontade
para forçar uma mudança interna, o resultado será
um conflito interno, desarmonia e tensão.
Para instalar
ordem no mundo externo são necessários: pensamento,
raciocínio, comparação e planejamento. Se usarmos
os mesmos métodos no mundo interno, o resultado será
contradição, medo e desapontamento. Poucos pensariam
em aplicar amor quando estivessem construindo uma
máquina ou cavando uma vala. Os sábios nos dizem que
o amor, no mundo interno, opera milagres, e sua influência
pode mesmo alcançar longínquas galáxias.
O mundo externo
é governado por leis de tempo e espaço, porque todas
as coisas são compostas e interagem entre si, dentro do tempo
e do espaço. No mundo interno não existe tempo nem
espaço. Apenas uma única e indivisível totalidade,
onde os eventos acontecem espontaneamente, de momento em momento,
sem uma interação linear.
O elemento básico
dessas vistas internas se encontra no enunciado da Unidade, da realidade
interna. Essa unidade manifesta-se na experiência mística
como um fato real. Mas pode-se facilmente incorporá-la à
vida diária e comprovar seu valor. Alguns podem pensar que
essas idéias contêm somente proposições
infundadas, mas para mim, a visão interna da unidade é
absolutamente consoante com o raciocínio humano, conquanto
a Unidade mesma esteja fora e além de qualquer
razão.
Quando chegamos
aos métodos práticos para a arrumação
interna, temos de escolher um modelo de pensamento com o qual vamos
trabalhar. O modelo empregado aqui foi tomado em parte da psicologia
do subconsciente, em parte do antigo e do moderno misticismo e,
também, dos ensinamentos de místicos contemporâneos,
como Krishnamurti.
Eis aqui algumas
proposições desse modelo:
* A consciência é a base da realidade, bem como o elemento
básico de todos os humanos. A consciência é
una, mas se manifesta como centros separados de egos nos indivíduos.
* A consciência
opera em camadas ou campos, mostrando crescente separatismo em relação
a cada camada externa (considerando forma e matéria). Finalmente,
a consciência é uma só.
* A consciência
do homem está dividida em :
a) consciência de vigília;
b) estado subconsciente e
c) um estado unificado de consciência.
Os estados de
vigília e subconsciente contêm sua individualidade,
incluindo o Karma .
* Todas as formas
externas - o Universo manifestado em sua totalidade - têm
seus fundamentos na consciência indivisível e se manifestam,
no tempo e no espaço, através dos estados de vigília
e subconsciente.
* Qualquer incidente
é parte da ordem absoluta e contém um significado
universal. Não existe sorte.
* O Karma acumulado
de cada pessoa está localizado no seu subconsciente e se
manifesta na consciência de vigília como eventos externos,
portanto, sujeitos às leis de tempo e espaço.
* Os mundos
externo e interno são manifestações da mesma
realidade. Tudo o que existe fora existe dentro também.
* As relações
interpessoais estão sempre em perfeita harmonia com os objetivos
maiores do Universo, não importa quão conflituosas
possam parecer ao mundo externo. Esta harmonia absoluta dos objetivos
do reino interno é chamada de amor no mundo externo.
O valor que
essa visão interna tem, além das visões comuns
da nossa civilização atual, repousa na sua compatibilidade
com o complicado padrão da alma humana e é mais útil
na arrumação da psique humana. Examinemos mais de
perto a utilização prática da visão
espiritual na vida diária.
É da natureza humana dissecar o mundo em coisas e eventos
ou em espaço e tempo. De outra forma, seríamos incapazes
de viver no mundo. Espaço e tempo contêm os opostos
da dualidade e, portanto, de conflito externo. Vemos isto por toda
parte na Natureza, onde há uma coisa natural e, de fato,
uma parte necessária da evolução e da própria
vida, próprio da realidade objetiva, manifestar harmonia
no mundo externo, como podemos ver na absoluta perfeição
de uma rosa.
Na psique dos
humanos, o conflito é como um corpo estranho. Está
lá somente porque são aplicados métodos mentais
às realidades internas. A mente produz uma ilusão
de tempo e espaço internos, isto é, coisas e eventos
internos, da mesma forma que o aplica ao mundo externo e ainda os
joga uns contra os outros.
A harmonização
interna vê e compreende a natureza da dualidade externa e
a unidade interna sem misturá-las. Apenas imaginar como a
consciência funciona já resultará na correção
dos erros internos, porque, então, o conflito interno acabará
por si mesmo. Quando compreendemos que a
consciência que quer modificar o que somos, é a mesma
consciência que se deve modificar, sabemos que há algo
errado com a atitude de mudar. A harmonização interior,
naturalmente, serve para que alguém saiba como realmente
é e, ao mesmo tempo, como é o mundo, mas antes temos
que nos
livrar das ilusões mentais, isto é, confrontar, sinceramente,
como somos e como é o mundo.
É verdade
que não podemos vestir tal entendimento nas roupagens de
conceitos e palavras. As mentes espiritualizadas mais elevadas sempre
tentaram dividir essa sabedoria da unidade com aqueles que estavam
dispostos a ouvir e pensar sobre o assunto.
Tudo é
exatamente como deveria ser. O que parece ser uma enorme injustiça
na arena externa, torna-se compatível no interior, quando
o significado real é visto através do entendimento
interno. Tal vislumbre interno ou harmonia que, por vezes chamamos
de visão interior (insight), é o amor incondicional
que nunca julga nem toma partido. Tudo é impregnado de significado
ou propósito e, no mais íntimo centro do Universo,
este significado é um e o mesmo para todas as coisas e para
todos os incidentes. A meta de todo empenho espiritual é
aproximar-se da Verdade Una, inata neste Universo maravilhoso, discernir
o significado único que se manifesta em cada parte sua e
seguir o progresso da criação com o Criador.
Os problemas
são, essencialmente, apenas desacordos mentais internos.
Eles são o resultado dos nossos desejos de que as coisas
sejam diferentes do que, em verdade, são. Todos os problemas
podem ser resolvidos pela modificação da nossa atitude
em relação a eles, aceitando as coisas como elas são.
Desta forma, os problemas tornam-se tarefas, carregadas de significado
ou propósito. A percepção do significado inerente
dos eventos e a aceitação interna sempre são
simultâneas. Reconciliar-se com a vida é compreende-la
e compreender a vida é estar contente com ela. Amor e compreensão,
sempre andam de mãos dadas porque, em verdade, eles são
a mesma coisa.
A maioria dos
problemas tem sua origem nos relacionamentos humanos. Por esta razão
é muito útil que se examine a fundo os complicados
processos das relações humanas. Da mesma forma que
a determinação ou a força não tem a
mínima utilidade nos reinos internos da consciência,
nos
relacionamentos humanos elas atuam com toda a propriedade. Aqui
os problemas são um pouco mais complicados, tendo em vista
que precisamos discernir entre a harmonia interna e a rendição
ou o perdão externos. Reagir à vontade dos outros
não é uma demonstração de boa vontade
mas de
estupidez. A única marca dos feitos de alguém é
a sua própria compreensão do amor, porque este estado
o faz abster-se de julgar as ações alheias; isto acontece
apenas quando existem compreensão e compaixão profundas
e internas.
O primeiro princípio
básico do relacionamento é a absoluta sacralização
da auto determinação. Jamais deveríamos controlar
uma outra pessoa e nunca render-nos às tentativas de alguém
que nos queira controlar. Esta sugestão não é
facilmente aceita porque atinge inúmeros setores do relacionamento
humano. Vamos, então, examinar o complexo de propriedade.
Possuir é uma escravidão dupla. Primeiro, existe a
tendência a reter ou manipular a propriedade e segundo, o
proprietário é manipulado ou possuído pela
propriedade e, portanto, não é livre. Possuir uma
outra pessoa é, desta forma, uma violência em relação
à vítima e em relação a si próprio.
Esta propriedade assume diferentes máscaras que vão
desde o estado máximo de estar enamorado com sua necessidade
inata de concordar e servir, até a maior tirania.
No campo da
manipulação existem variedades infinitas que, normalmente,
navegam sob uma falsa bandeira. Poder-se-ia aqui citar inúmeras
tendências como a pregação da mensagens especiais,
de doutrinas e dogmas religiosos, assim como a moderna epidemia
de presentear, e todo o alvoroço em torno da caridade, que
geralmente está direcionada ao próprio sujeito e,
até mesmo, sem a aquiescência do objeto. Pode-se mencionar,
também, invejas e ciúmes, que são apenas sintomas
de grande possessividade e agressividade. A coisa mais importante
a conscientizar é que a possessividade é uma atitude
mental não um ato e, portanto, de difícil julgamento
no mundo externo.
Dar é ganhar - tomar é perder. Aqui estamos falando
de valores internos, mas é bom saber que o que está
dentro, cedo ou tarde será refletido fora. Generosidade interna
trará prosperidade externa e, conseqüentemente, avareza
trará, certamente, carência e pobreza. A excessiva
atitude de propriedade precisa que se examine. Possuir significa
domínio ou controle, que é, de fato, uma parte normal
e honesta das relações humanas na vida do dia-a-dia.
É normal que cada pessoa controle seu próprio corpo,
objetos pessoais, etc. É, também, normal, que alguém
seja escolhido para um cargo de chefia no trabalho, para administrar
uma empresa, uma organização ou ser eleito para um
cargo político. Em todos esses casos, a chave está
na atitude posterior daquele que foi escolhido. É que há
um senso de responsabilidade ou uma tendência à dominação?
Aquele que se sente como responsável pelas propriedades de
alguém, seja de Deus, da Natureza ou da Humanidade, este
alcança a proximidade da liberdade. No lugar da possessividade
há um sentimento de responsabilidade. O que não deve
haver é o sentimento de estar carregando um peso: aquele
do cumprimento de obrigações. Porque se houver, ainda
existe o peso da possessividade; isto deve ser devidamente reconhecido.
Fé incondicional
na vida é a chave para a liberdade. Confiar em Deus é
a sinal de um homem verdadeiramente religioso, não baseado
em crenças ou necessitando ser convencido. Este último
vive na ilusão da convicção cega, enquanto
o verdadeiro crente estará sempre receptivo a tudo o que
encontra na vida, sem preconceitos ou expectativas. Encontrará
pessoas e eventos sem temor, mas totalmente atento e pronto para
reagir no momento exato. Confiar é viajar sem medo no mar
tempestuoso da vida. Libertar-se do ego é a única
forma de vivenciar a real liberdade. Não existe liberdade
externa, no sentido comum da palavra, mas liberdade interna, que
significa ser totalmente independente das condições
internas e externas e que resultará na liberdade externa.
Toda dependência, tanto interna quanto externa é devida
a condicionamentos internos. Você tem direito a bem poucas
escolhas na arena da vida diária, mas você sempre poderá
escolher como vai viver os incidentes da vida de momento em momento.
Todas as reações que se originam no passado são
limitadas e dependentes, mas se você enfrenta todos os eventos
com atenção plena e boa vontade, algo novo e criativo
acontece e isto corrige todas as ações.
A libertação
do Karma não ocorre pela substituição do mau
pelo bom Karma, mas pela queima de todo Karma no fogo da compreensão
e do amor. A isto podemos chamar harmonia interna Nada queima no
inferno com exceção da obstinação!
Theologia Germanica. |