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Ir José Geraldo da Silva
A palavra Cabala tem origem no vocábulo
hebraico “kibbel”, significando lição,
tradição, ensino. A Cabala é a tradição
esotérica e o conjunto das doutrinas secretas do judaísmo.
Esta ciência oculta foi recolhida nas Escrituras e devia ser
transmitida oralmente e nunca ser escrita, visando evitar que o
texto caísse sob as vistas dos profanos.
Os cabalistas datam as concepções
primordiais da Cabala de tempos primitivos - que remetem a Moisés
e até Abraão e Adão. Quanto aos verdadeiros
fundadores da Cabala, entretanto, são mencionados três
talmudistas: Rabino Ismael ben Ehsa (cerca de 130 d.C.); Rabino
Nechunjah ben Hakana (cerca de 75 d.C.) e, sobretudo, Simeon ben
Yohai (cerca de 150 d.C.), sendo este último apontado como
autor do famoso Zohar.
Acredita-se que os ensinamentos da Cabala começaram
de forma oral, que foi transmitida por Enoque aos seus descendentes,
sendo que, posteriormente, Moisés, para evitar que seus ensinamentos
se perdessem, comunicou-os aos setenta anciãos escolhidos,
e daí para frente de forma escrita.
Mas, ao serem escritos os ensinamentos cabalísticos,
foi utilizada a maneira mais simbólica possível, com
o intuito da não compreensão profana, mas tão
somente dos iniciados. Dois são os livros fundamentais da
Cabala: 1º o Sefer Yetsirah, ou Livro da Criação,
e o Zohar, ou Livro dos Esplendores.
A Cabala apareceu, na sua forma atual, por volta
do século XII, repetindo, continuando e completando o ensino
esotérico do Talmude. Na Bíblia temos os livros cabalísticos
de Ezequiel e do Apocalipse, que foram escritos de forma velada,
simbólica. A chave do seu ocultismo repousa, como a do Talmude,
sobre o valor dos números, a combinação das
22 letras do alfabeto hebraico e a força oculta do Tetragrama.
O ensino da Cabala esmera-se em dar com precisão
a definição da divindade vulgarmente denominada Deus,
em fixar-lhe os atributos e em estabelecer o processo das manifestações
do seu poder. A particularidade da Cabala é de repudiar toda
idéia de antropoformismo na definição da divindade,
de afastar toda possibilidade de figuração de Deus
que é Infinito, inacessível, incompreensível...
O Ser por excelência, o Verbo eterno conjugando-se, simultaneamente
ao presente, ao passado, ao futuro: Jeová, Aquele que foi,
que é, que será, Aquele cujo nome nunca deve ser pronunciado
porque o profano não compreenderia que o Deus Todo-Poderoso,
o Deus dos Exércitos não pudesse ter nenhum outro
nome a não ser o verbo Ser.
A Cabala descobre todos os mistérios da criação
neste simples nome, ao estudar o simbolismo representado pelas quatro
letras formando este nome assim dividido: IOD, HE, VAV~ HE (IHVH).
Este nome é aquele que encontramos no cume
de todas as iniciações, aquele que irradia no centro
do triângulo flamejante da Maçonaria.
A primeira letra, o IOD, figurada por uma vírgula
ou um ponto, representa o princípio original das coisas,
o ponto de partida da criação. Esta letra que ocupa
o décimo lugar no alfabeto hebraico, é representada
pelo número 10, ele mesmo composto do número um, unidade,
princípio, e do zero, representando o nada, por seu significado
e o Todo por sua forma. No IOD ou número 10, a unidade, origem
do Todo, alia-se ao Nada para formar o princípio inicial
da Criação, princípio gerador, princípio
masculino.
A segunda letra, o HE, quinta letra do alfabeto
hebraico, representa o número 5, equivalente à metade
do valor da primeira letra, 10. E o princípio inicial IOD
ou 10 que se fraciona em dois, e que se desdobra. Tal é a
origem do binário: masculino-feminino, ativo-passivo, positivo-negativo,
homem -mulher. A energia criadora masculina junta-se à matéria
fecunda feminina.
A terceira letra, VAV, ocupa o sexto lugar no alfabeto.
Resulta da ação geradora do IOD sobre o HE, ao princípio
masculino sobre o princípio feminino. E o filho, a resultante:
um mais cinco igual a seis.
A quarta letra representa um segundo HE, novo elemento
feminino, indispensável ao filho para possuir a faculdade
de se reproduzir e de perpetuar o Ser. E o grão que contém
em potência a geração futura e a possibilidade
de garantir a Eternidade.
JEHOVA, portanto, não é um nome, mas
o símbolo da Criação e da Eternidade, do SER
PERFEITO. Este nome não pode ser pronunciado a não
ser uma vez por ano, e soletrado letra por letra no Santo dos Santos,
pelo Sumo Sacerdote, Grão-Mestre da Arte Sacerdotal, no meio
do ruído das preces do povo profano.
Diz-nos Elifas Levi: “Todas as religiões dogmáticas
saíram da Cabala e para ela voltam. Tudo quanto existe de
científico e de grandioso nos sonhos religiosos de todos
os iluminados é tirado da Cabala. Todas as associações
maçônicas lhe devem os seus segredos e os seus símbolos”.
Paul Naudon assim escreveu:
“Nada permite de resto de situar, no tempo, a adoção,
pela Maçonaria dos sinais e símbolos que a Cabala
utiliza. A instituição não foi uma criação
espontânea; deriva em grande parte das associações
arquitetônicas que a precederam ou inspiraram, como os colégios
romanos, as associações monásticas, as guildas
etc. Sofreu, igualmente, largas influências dos maçons
aceitos cujo papel tornou-se progressivamente primordial com o declínio
do elemento profissional.
As preocupações filosóficas
desses maçons especulativos alquimistas, hermetistas, cabalistas,
rosa-cruzes e seus subsídios esotéricos vieram juntar-se
e completar os da Maçonaria. O fundamento de suas doutrinas
repousava sobre o mesmo princípio da Maçonaria: o
da imanência divina. O papel desses hermetistas foi importante
na transição entre a Maçonaria operativa e
a Maçonaria especulativa moderna. Mas a sua contribuição
com um simbolismo egípcio, hebraico e siríaco não
era mais que uma síntese que vinha integrar-se em um meio
amplamente preparado pelos mais eminentes pensadores da Idade Média
e da Renascença”.
O programa do grau de Aprendiz compreende os números
um, dois, três e quatro, donde os conceitos de unidade, de
binário, de ternário e de quaternário. O do
grau de Companheiro compreende quatro, cinco, seis e sete (tétrada
sagrada, quintessência, rosa mística, hexagrama, setenário).
O grau de Mestre estuda os números sete, oito, nove e dez
(tri-unidade setenária, ogdoada solar, Eneada ou árvore
dos Sefirot). Os dez Sefirot são dez emanações
do Deus único: dez reconduz a um...
Assim, a Cabala passa à Maçonaria seus ensinamentos
mais expressivos. |