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Irm Edson Ubaldo*
A Maçonaria
traz como divisa a trilogia LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE.
Dela se orgulha e dela faz seu apanágio diante da sociedade
civil, erigindo-se em guardiã dos princípios democráticos.
Conforme consta de suas cartas constitutivas, de seus regulamentos
e de seus rituais, declara combater a tirania, a superstição,
a ignorância, o obscurantismo, enfim, todas as formas de radicalismo
retrógrado. Forçoso, pois, reconhecer que nós,
maçons, somos homens livres. E porque somos livres, é
natural que repudiemos todo e qualquer dogma, porque o dogma é
incompatível com a liberdade de pensamento, segundo se conclui
das definições acima, tiradas do mais prestigiado
dicionário brasileiro da língua portuguesa.
Será
que é assim mesmo? Diante da letra fria de nossos postulados,
também é forçoso reconhecer que, em verdade,
somos muito mais dogmáticos do que livres pensadores. Nossa
pregação se ressente de um exame mais profundo da
realidade. Livre em sua essência, a doutrina maçônica
dogmatizou-se por força de intervenção de alguns
líderes ansiosos por tomar o poder e manter sob sua obediência
a grande massa de obreiros que aceitou a iniciação
em nome da liberdade. Os antigos maçons viviam sob leis não
escritas, guiados unicamente pela consciência de que os homens
devem ser livres, iguais e fraternos. Esses princípios não
escritos foram codificados por iniciativa do pastor anglicano James
Anderson e seus companheiros, através das conhecidas “Constituições
de 1723”.
Nada de mais
haveria se essas famosas “Constituições”
tivessem se limitado a transcrever os princípios morais seguidos
pelos maçons. Mas não foi isso o que aconteceu. Seguramente
influenciado por suas convicções religiosas e pelos
interesses políticos próprios e de seus companheiros,
Anderson aproveitou a oportunidade para inserir na nova regulamentação
uma série de temas de natureza religiosa, contrariando assim
um dos mais caros postulados maçônicos: a liberdade
de crença e de pensamento. Não contente com isso,
acrescentou prescrições verdadeiramente atentatórias
à dignidade humana, como, por exemplo, a exclusão
discriminatória contra as mulheres e os deficientes físicos.
Tudo bem, dir-se-á.
Anderson não criou leis, mas apenas fez enunciados sobre
os quais, segundo ele e seus companheiros, acenatar-se-ia, dali
em diante, a nova maçonaria, de cunho especulativo, já
sem quase nada a ver com a ordem operativa. De fato assim foi, mas
em seguida — sempre pelo interesse de manter o poder —
as diversas obediências que foram surgindo passaram a fundamentar
suas cartas constitutivas nos antigos landmarks, sem contudo especificá-los.
Logo apareceram estudiosos e doutrinadores, em especial norte-americanos,
formulando listas de landmarks com base nos enunciados de Anderson,
quase sempre mantendo as normas de caráter religioso. Ou
seja: a maçonaria dogmatizou-se. Espertamente, porém,
a Grande Loja Unida da Inglaterra, que se considera uma espécie
de Vaticano ou de Meca da Maçonaria Universal, jamais definiu
quais são os “antigos landmarks”, a eles se referindo
de modo genérico e elástico.
Enquanto as
grandes potências européias — que constituem
o contingente mais significativo da Maçonaria — não
dão maior importância a essa questão, as obediências
das Américas não resistem ao perigoso canto da sereia.
Com isso conseguimos
transformar uma instituição nascida e organizada pela
liberdade e para a liberdade, numa agremiação manietada
por dogmas e tabus diversos que o iniciado está proibido
de discutir e discordar. Quando um cidadão pleiteia o ingresso
e se lhe pergunta por quê pretende ser maçom, seu apresentante
justifica o pedido declarando ser ele “livre e de bons costumes”.
Depois de iniciado, porém, estará a braços
com alguns dogmas, perdendo assim parte de sua liberdade de pensamento.
As vezes — o que é mais grave — perde também
os bons costumes por não ter conseguido assimilar os bons
ensinamentos nos quais a Ordem, apesar dos dogmas, é fecunda.
Malgré-tout, quase sempre continua em atividade, com danos
incalculáveis para a instituição, porque ao
lado da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, pregamos também
a Tolerância, em geral de mão única, porque
os maus podem continuar maus, cabendo aos bons tolerá-los.
Enfim, parece
que somos mais livres antes do que depois do ingresso, quando devia
ser o contrário, pois a história da Ordem Maçônica
se confunde com a história da conquista da Liberdade. Justamente
por isso é que os Veneráveis das antigas Lojas (depois
transformados em Grão-Mestres pela reformulação
de Anderson) não davam ordens aos demais membros. Apenas
mostravam o caminho, sugeriam, aconselhavam, pois tratava-se de
uma sociedade de homens livres, à semelhança dos nossos
caciques, que apenas lideram as tribos, mas jamais dão ordens
aos índios, porque estes também são homens
livres.
Talvez —
e por certo — tenha chegado a hora de nos livrarmos dos dogmas
— alguns perigosos, outros inúteis, uns poucos simplesmente
vergonhosos —, reassumindo a plenitude do livre pensamento
que tanto pregamos e pouco praticamos. |