Samaúma - Portal Maçônico

 

 

 

 






*Grande Secretário de Relações Exteriores do GOSC
Campos Novos - SC
O Prumo 137

“DOGMA: Ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa, e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema”
“LIBERDADE DE PENSAMENTO: Direito do indivíduo de externar suas opiniões e crenças”

(Dicionário do Aurélio)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dogma ou Liberdade de Pensamento?


 

Irm Edson Ubaldo*

 

 

A Maçonaria traz como divisa a trilogia LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE. Dela se orgulha e dela faz seu apanágio diante da sociedade civil, erigindo-se em guardiã dos princípios democráticos. Conforme consta de suas cartas constitutivas, de seus regulamentos e de seus rituais, declara combater a tirania, a superstição, a ignorância, o obscurantismo, enfim, todas as formas de radicalismo retrógrado. Forçoso, pois, reconhecer que nós, maçons, somos homens livres. E porque somos livres, é natural que repudiemos todo e qualquer dogma, porque o dogma é incompatível com a liberdade de pensamento, segundo se conclui das definições acima, tiradas do mais prestigiado dicionário brasileiro da língua portuguesa.

Será que é assim mesmo? Diante da letra fria de nossos postulados, também é forçoso reconhecer que, em verdade, somos muito mais dogmáticos do que livres pensadores. Nossa pregação se ressente de um exame mais profundo da realidade. Livre em sua essência, a doutrina maçônica dogmatizou-se por força de intervenção de alguns líderes ansiosos por tomar o poder e manter sob sua obediência a grande massa de obreiros que aceitou a iniciação em nome da liberdade. Os antigos maçons viviam sob leis não escritas, guiados unicamente pela consciência de que os homens devem ser livres, iguais e fraternos. Esses princípios não escritos foram codificados por iniciativa do pastor anglicano James Anderson e seus companheiros, através das conhecidas “Constituições de 1723”.

Nada de mais haveria se essas famosas “Constituições” tivessem se limitado a transcrever os princípios morais seguidos pelos maçons. Mas não foi isso o que aconteceu. Seguramente influenciado por suas convicções religiosas e pelos interesses políticos próprios e de seus companheiros, Anderson aproveitou a oportunidade para inserir na nova regulamentação uma série de temas de natureza religiosa, contrariando assim um dos mais caros postulados maçônicos: a liberdade de crença e de pensamento. Não contente com isso, acrescentou prescrições verdadeiramente atentatórias à dignidade humana, como, por exemplo, a exclusão discriminatória contra as mulheres e os deficientes físicos.

Tudo bem, dir-se-á. Anderson não criou leis, mas apenas fez enunciados sobre os quais, segundo ele e seus companheiros, acenatar-se-ia, dali em diante, a nova maçonaria, de cunho especulativo, já sem quase nada a ver com a ordem operativa. De fato assim foi, mas em seguida — sempre pelo interesse de manter o poder — as diversas obediências que foram surgindo passaram a fundamentar
suas cartas constitutivas nos antigos landmarks, sem contudo especificá-los. Logo apareceram estudiosos e doutrinadores, em especial norte-americanos, formulando listas de landmarks com base nos enunciados de Anderson, quase sempre mantendo as normas de caráter religioso. Ou seja: a maçonaria dogmatizou-se. Espertamente, porém, a Grande Loja Unida da Inglaterra, que se considera uma espécie de Vaticano ou de Meca da Maçonaria Universal, jamais definiu quais são os “antigos landmarks”, a eles se referindo de modo genérico e elástico.

Enquanto as grandes potências européias — que constituem o contingente mais significativo da Maçonaria — não dão maior importância a essa questão, as obediências das Américas não resistem ao perigoso canto da sereia.

Com isso conseguimos transformar uma instituição nascida e organizada pela liberdade e para a liberdade, numa agremiação manietada por dogmas e tabus diversos que o iniciado está proibido de discutir e discordar. Quando um cidadão pleiteia o ingresso e se lhe pergunta por quê pretende ser maçom, seu apresentante justifica o pedido declarando ser ele “livre e de bons costumes”. Depois de iniciado, porém, estará a braços com alguns dogmas, perdendo assim parte de sua liberdade de pensamento. As vezes — o que é mais grave — perde também os bons costumes por não ter conseguido assimilar os bons ensinamentos nos quais a Ordem, apesar dos dogmas, é fecunda. Malgré-tout, quase sempre continua em atividade, com danos incalculáveis para a instituição, porque ao lado da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, pregamos também a Tolerância, em geral de mão única, porque os maus podem continuar maus, cabendo aos bons tolerá-los.

Enfim, parece que somos mais livres antes do que depois do ingresso, quando devia ser o contrário, pois a história da Ordem Maçônica se confunde com a história da conquista da Liberdade. Justamente por isso é que os Veneráveis das antigas Lojas (depois transformados em Grão-Mestres pela reformulação de Anderson) não davam ordens aos demais membros. Apenas mostravam o caminho, sugeriam, aconselhavam, pois tratava-se de uma sociedade de homens livres, à semelhança dos nossos caciques, que apenas lideram as tribos, mas jamais dão ordens aos índios, porque estes também são homens livres.

Talvez — e por certo — tenha chegado a hora de nos livrarmos dos dogmas — alguns perigosos, outros inúteis, uns poucos simplesmente vergonhosos —, reassumindo a plenitude do livre pensamento que tanto pregamos e pouco praticamos.