|
José Pedro Trevisan Novaretti*
A dificuldade
para conhecer a essência do pensamento pitagórico esta
no fato de não haver material escrito pelo próprio
Filósofo.
Pitágoras
foi um grande reformador, um grande espírito, que tentou
estabelecer uma nova ordem, inspirando-se nas leis imutáveis
da Natureza. Atribui-se a ele a frase: viver segundo a Natureza
é viver segundo os deuses.
A Escola Pitagórica era uma verdadeira escola científica
de iniciação na vida e buscava uma mudança
radical na conduta dos homens. Pitágoras dizia que, sem aspirações
elevadas, sem fé em algo supra-humano, a alma do homem cai
no materialismo e nos erros.
Sua vida, suas
idéias e instituições
Pitágoras
nasceu por volta de 590 a.C.. em Sidon na Fenícia. Com cerca
de 17 anos partiu para conhecer os países tidos na antiguidade
como os mais avançados nas ciências. Foi ao Egito,
onde permaneceu por cerca de 20 anos com sacerdotes de um verdadeiro
colé2io de sábios. Numa das invasões persas,
Pitágoras, junto com uma parte do colégio sacerdotal,
foi levado para a cidade da Babilônia. Permaneceu nesta linda
cidade dos Caldeus por 12 anos estudando novas ciências e
adquirindo grandes conhecimentos em astronomia e matemática.
Voltou para sua terra sonhando com um tipo de revolução
diferente daquelas que são obras de paixões e que
são promovidas por pessoas embrutecidas por regimes de crueldade
e servidão. Segundo seu pensamento, a ordem social estável
e frutífera só podia ser adquirida quando inspirada
na natureza. Ele livrou a Ciência Vital dos mitos criados
pelos sacerdotes egípcios,pois achava mais correto instruir
que enganar os homens. Pitágoras decidiu criar uma escola
onde somente homens e mulheres escolhidos por suas inteligências
e virtudes poderiam estudar.
Fundou o Instituto Pitagórico na região meridional
da Itália, nos arredores de Cróton, onde havia um
Museu que era um templo para estudos doutrinários; moradias
e dependências destinadas a exercícios, jogos e artes.
Chegou a contar, segundo Porfírio, com mais de 2 mil alunos,
que haviam renunciado à vida convencional e rotineira para
aproveitar as lições do divino mestre. No pórtico
da escola, que só podia ser atravessado pelo mérito,
estava escrito:
Para trás, profanos.
Os candidatos eram submetidos a provas difíceis. Durante
a primeira fase os jovens eram objeto de intensa observação
por parte dos mestres no que se referia a suas atitudes e suas palavras
para então passar por provas definitivas. Para se ter uma
idéia do tipo de provas devemos observar o exemplo dado por
Shuré, o autor que melhor traduziu o espírito pitagórico:
fazia-se o aspirante passar uma noite em uma caverna escura, onde
diziam haver monstros e fantasmas e somente aqueles que suportavam
esta prova podiam continuar.
A prova moral era mais séria. Bruscamente, sem preparação,
colocavam o neófito, pela manhã, em uma cela com uma
prancheta e ordenavam que buscasse o sentido de um dos símbolos
pitagóricos, como por exemplo o triângulo inscrito
no círculo. Lá ele era mantido por 12 horas com sua
prancheta, um frasco de água e um pedaço de pão.
Depois, era levado para uma sala com vários discípulos
e mestres reunidos e era submetido a brincadeiras e gozações.
Confuso e esfomeado, o candidato ouvia coisas como: "aqui está
o novo filósofo. Que semblante mais inspirado! Vamos, conte-nos
suas conclusões. Não nos oculte o que descobriu. Será
desta forma que meditarás sobre todos os símbolos
e quando tiverdes passado um mês sob este regime te tomarás
um grande sábio".
Durante todo o tempo o mestre observava atentamente a atitude e
a fisionomia do jovem, que devia, para continuar na escola, suportar
as provocações respondendo-as com palavras justas
e com humildade. Havia aqueles que choravam, os que se comportavam
cinicamente e ainda os que quebravam as pranchetas e ofendiam os
presentes. Estes, por não suportarem esta prova, eram despedidos
da escola e às vezes tornavam-se inimigos ferozes da ordem,
como Cylon, que será citado mais adiante. Esta prova era
sempre realizada, porque Pitágoras achava que o homem orgulhoso
era um fator de perturbação e discórdia, incapaz
de progredir no caminho da perfeição.
Uma vez admitido na ordem o novo adepto devia usar uma túnica
de linho branco, abster-se de comer carne, mesmo de aves e peixes,
e do uso de bebidas fermentadas. Passava então a estudar
matemática, cosmogonia, biologia, astronomia, música
e a realizar exercícios físicos, tudo com a finalidade
de conhecer e aplicar as leis harmônicas que regem o Universo
e compreender, assim, sua ligação com Deus. Na Bíblia
está escrito: "criou Deus pois o homem à sua
imagem, à imagem de Deus o criou..." (Gênesis,
1:27). Para Pitágoras Deus é o Cosmos, portanto o
homem é semelhante ao Cosmos.
Além disso, os mestres pregavam ~ seus alunos a fraternidade,
a tolerância e a razão. Perdoemos com antecipação,
diziam, aos que tenham intenção de nos ultrajar. O
homem iluminado não pode ter ressentimento contra o bastão
do cego que o toca. A modéstia era fundamental, tanto que
Pitágoras intitulava-se filósofo (amigo da sabedoria)
e não sábio, título que, para ele, só
caberia a Deus.
O ensinamento pitagórico era feito em duas fases, divididas
em 4 graus:
Preparação, Purificação, Perfeição
e Epifania ou Iluminação Interior. No início
os alunos eram submetidos à lei do silêncio e ficavam
sem fazer perguntas por longo tempo, quando então eram convidados
a expor. livremente, suas idéias, suas opiniões, suas
dúvidas e suas experiências. Aqueles considerados capazes
eram admitidos, somente então, nos estudos posteriores. Eventual-mente,
neófitos brilhantes, do ponto de vista de conhecimento e
virtudes, eram admitidos diretamente nos estudos superiores. Somente
neste estágio é que passavam a ter contato direto
com Pitágoras.
O dia do pitagórico ordenava-se da seguinte forma: ao sair
o sol os discípulos mais jovens cantavam hinos à natureza.
Eram realizadas danças lentas acompanhadas por acordes de
lira, com caráter sagrado. Depois se seguiam as abluções
e os estudos.
Ao meio dia a comida, que era composta de pão, figos, azeitonas
e mel. Durante à tarde, consagravam suas horas de ócio
a passeios, que favoreciam a meditação sobre estudos
da manhã.
Depois o banho, para repousar o corpo das fadigas. Pitágoras
dizia: a sabedoria ensina que convém pelo menos três
pessoas nos passei-os, não mais de dez à mesa e somente
uma ao banho.
O respeito à vida era fundamental, não se permitindo
nem a caça e nem a pesca. Transcorrido o dia, quando o sol
escondia-se no horizonte, iniciavam outros cânticos, agora
em homenagem aos mortos e, depois de uma ceia ligeira, reuniam-se
para escutar uma leitura que era comentada por um dos discípulos
mais velhos.
Aos chamados iniciados só era permitido ter poucos filhos,
pois segundo o mestre, o homem que possui família numerosa
não consegue cuidar de seu desenvolvimento espiritual e dos
filhos ao mesmo tempo.
Pitágoras ensinava que a saúde é uma condição
essencial, pois sem ela não há serenidade de espírito.
A filosofia, dizia, consiste no equilíbrio dos humores da
alma e na harmonia dos movimentos do corpo.
O sentido profundo da filosofia pitagórica tinha como idéia
essencial que Deus é todo harmonia e que a finalidade suprema
do homem é imitar a Deus. Por isso, dizia Pitágoras:
a sociedade humana, que também constitui uma unidade, deve
ser como uma imagem do Universo, um organismo harmonioso.
Estes princípios de harmonia e de ordem Pitágoras
procurou implantar na constituição do Estado, através
de uma assembléia arbitral constituída por cidadãos
iniciados por ele. Dizia que não podendo ter deuses por legisladores,
recorram pelo menos aos sábios. Segundo o filósofo
é muito frágil a ordem em uma nação
dirigida por cidadãos dominados por suas paixões egoístas.
Ele julgava que a maioria dos homens não sabe guiar-se pelos
ditames do bom sentido e, por isso, necessitam de um guia. No entanto,
ele não almejava obter aquela obediência passiva e
resignada, que mantém o embrutecimento dos povos, mas sim
uma disciplina consentida. Pitágoras mesmo dizia que mais
valia ser touro por um dia que ser boi a vida toda.
A reputação de Pitágoras crescia sem cessar,
a ponto de enviar seus discípulos a varias repúblicas,
inclusive à Grécia, para ajudar os legisladores daqueles
locais.
O providencial poder do filósofo, salvaguarda da prosperidade
e da tranqüilidade públicas, esperava-se, logicamente,
encontraria no povo fiéis partidários. Mas não
foi isto que ocorreu. Um certo Cylon, jovem rico e ambicioso, que
Pitágoras não quis admitir em sua escola, por ter
caráter violento e orgulhoso, tinha adquirido, devido a esta
negação, um ódio implacável pela Escola
Pitagórica e só pensava em vingar-se.
Assim, após tentar, sem sucesso, desacreditar o filósofo
publicamente, resolveu um dia invadir a escola com um grupo de homens
armados, destruindo tudo e matando a maioria das pessoas que lá
vivia. Pitágoras sobreviveu ao ataque e morreu com aproximadamente
90 anos, em Metaponto.
Depois disto, as ordens pitagóricas espalharam-se por várias
cidades da Itália e da Grécia e durante 3 séculos
propagaram os ensinamentos adquiridos. São considerados seus
herdeiros e discípulos: Lysis, Timeo de Locres, Heráclito,
Empédocles, Sócrates, Platão e outros.
Muitos foram os filósofos que se inspiraram em Pitágoras
mas a grandiosa obra que ele ousou empreender, ou seja, a regeneração
da espécie humana pela sua comunhão com a natureza,
continua ainda um desafio formoso e tentador para os idealistas
confiantes nos destinos elevados da humanidade e convencidos de
que a harmonia é a finalidade suprema da vida.
|