Uma Visão Recente da Cidade de Paraty e a Maçonaria


Frederico Guilherme Costa
Agosto de 2000

Tenho-me preocupado muito com o tema Paraty e a Maçonaria. Em artigo publicado no informativo "O PELICANO" (setembro/outubro/novembro de 1995), intitulado "PARATY, A MAÇONARIA E UMA NOVA TENTATIVA, AINDA MAIS CONTROVERTIDA, DE INICIAR O ALFERES TIRADENTES", dizia que não era possível precisar a data da fundação de Parati, mas que ao findar o século XVI já havia um pequeno núcleo, criado pelos paulistas de São Vicente, em uma elevação perto da Praia do Pontal.

Informei também, que Parati foi elevada a vila e separada de Angra dos Reis no ano de 1660, sendo que no início do século XVIII, quando as Minas das Gerais começaram a produzir para a Metrópole portuguesa, era pelo caminho de Parati que os valores chegavam, por mar, até o porto do Rio de Janeiro onde eram embarcados para Portugal, pois era grande a preocupação com os descaminhos do ouro.
Com relação à Maçonaria, destaquei, naquele artigo, as esquinas da Rua do Comércio com a Rua da Cadeia e a Rua Dona Geralda com a Rua da Ferraria, detalhando os três cunhais de pedra formando um triângulo imaginário, demonstrando a presença da Maçonaria na cidade, estabelecida em 1823.

Finalmente, foi esclarecido que a Loja de Parati, conhecida até hoje com o nome, supostamente o mesmo, de União e Beleza, logo destacou-se politicamente e ainda deixou marcas da sua influência na decoração geométrica presente nos cunhais e sob as cimalhas de várias fachadas, como nos dois sobrados entre a Rua da Praia e Ferraria e nos três sobrados da Rua Dona Geralda, em frente à Praça da Matriz, esquina com a Rua da Capela.

O objetivo daquele artigo era derrubar a absurda hipótese do Tiradentes ter sido iniciado (sic) em Parati, quando de suas viagens ao Rio de Janeiro, pois a Loja Maçônica da cidade de Paraty só foi fundada em 1823, 31 anos depois da morte do Alferes. Ainda que prevaleça o entendimento de que a Loja Maçônica, instalou-se em 1834, apenas ratifica a impossibilidade da descabida iniciação do alferes na citada Loja.

Posteriormente, em 1997, em visita àquela cidade tive acesso a uma publicação oficial, com apoio cultural da Secretaria de Turismo e Cultura de Paraty e da Associação Comercial e Industrial de Paraty intitulada "CIDADE HISTÓRICA E ARQUITETURA COLONIAL", onde se informa que a cidade teria sido construída por maçons no século XVI, tendo um formato geométrico e por isto apelidada de "cidade dentro do esquadro".

Como pesquisador e historiador não pude concordar com a idéia de que este nosso magnífico patrimônio histórico do século XVI tivesse sido fundado pela Maçonaria, pois esta só é mencionada no território brasileiro, em caráter emergencial e irregular, na Bahia, com a Cavaleiros da Luz, em julho de 1797. Consequentemente, não poderia ter fundado a cidade de Paraty no século XVI. Se o critério fosse o da regularidade, teríamos de tratar da Loja Reunião, fundada em 1801, 4 anos ainda mais à frente da Loja baiana. Novo artigo foi enviado para ser publicado na nossa coluna na revista maçônica "A Trolha", esclarecendo estes aspectos históricos.

No mês de maio de 2000, "navegava" na Internet quando me deparei com o " site" http://www.terra.com.br/paratii/maconaria.htm da Loja União e Beleza Nº 88 de Paraty, fundada em 05 de agosto de 1983. Apaixonado por Paraty e pela maçonaria, logo "mergulhei" naquela página.

Qual não foi a minha surpresa ao encontrar as seguintes considerações do ilustre presidente do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, Diuner José de Mello, aparentemente endossadas pela prestigiosa Loja União e Beleza:
" LUVAS NEGRAS SE REUNIAM NO CEMITÉRIO INDIGENA

Na pesquisa oral, Diuner ouviu de moradores antigos a versão narrada por um ex-escravo chamado Sebastião (pessoa a quem o pesquisador conheceu quando criança) de que homens trajados de preto e usando luvas negras se reuniam na Toca do Caçununga.

Pesquisando, descobrimos que os membros do Clube dos Luvas Negras, que eram os justiceiros da Maçonaria (sic) e encarregados de julgar os Irmãos faltosos, se reuniam em lugares ermos, de preferência nos cemitérios onde os defuntos não poderiam testemunhar nada. Curiosamente, na década de 70, num trabalho de arqueologia, descobriu-se que a Toca do Caçununga, uma gruta de pedra afastada da cidade, que é um Sambaqui, era um cemitério indígena.
E faz uma revelação surpreendente: Consta que Sílvio Romero, o grande historiador brasileiro, que foi Juiz de Direito em Paraty, era membro do Clube das Luvas Negras, talvez como presidente. Sabe-se que nos escombros da casa onde ele morou foram encontrados um avental de Maçom, as luvas negras e a espada" .

Como diria o esquartejador, vamos por partes:
Parece temerário, associar a maçonaria a uma suposta sociedade promotora de "justiçamentos" em nome da Arte Real. Este tipo de entendimento tem sido utilizado pelos inimigos tradicionais da maçonaria.

O eminente historiador, presidente do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, não desconhece, com certeza, os argumentos condenatórios à maçonaria promovidos, desde a sua fundação moderna, justamente pela forma simbólica do seu "juramento", muito parecido com aquele exigido pelo Direito Inglês pelos idos dos séculos XVII e XVIII: O perjúrio deveria ter queimadas as entranhas, atiradas ao mar, etc.
Tenho como acertado que Sílvio Romero foi um brilhante historiador, mas da literatura brasileira. Igualmente filósofo, sociólogo e grande polemista. Deste modo, ponho, academicamente, em dúvida, que este brasileiro maior, nascido em Lagarto, SE, em 1851 e falecido no Rio de Janeiro, em 1914, pudesse ter sido membro do tal Clube das Luvas Negras, cujos membros se reuniam no cemitério indígena para assassinar os perjuros da maçonaria!

Uma afirmação de tal envergadura não estará, evidentemente, desprovida do necessário suporte heurístico. Certamente o ilustre presidente do Instituto Histórico e Artístico de Paraty reuniu outras evidências, além do depoimento, igualmente importante, de um ex-escravo.

Sendo profano, o pesquisador não está obrigado a saber a cor das luvas de um maçom, mas o obreiro da Arte Real achará no mínimo estranho associar a espada e o avental a um par de luvas negras.

Não tenho conhecimento até a presente data da qualidade maçônica de Silvio Romero. Gostaria de tê-la como certa, o que de sobremodo engrandeceria a nossa Instituição. Do mesmo modo, enquanto pesquisador da maçonaria, especialmente no século XIX, jamais ouvi falar nesta sociedade chamada de "Luvas Negras". Compreendo que uma sociedade de assassinos não nos legaria testamento por escrito, mas é desejável que novas fontes além das citadas sejam apresentadas.

Faço estas considerações dentro do rigor acadêmico. Meu objetivo, que não passará desapercebido pelo autor das considerações aqui discutidas, é contribuir com a Loja União e Beleza na conscientização de que o verdadeiro historiador está permanentemente acumulando informações, enriquecendo-as com novas fontes, cabendo aos que se dedicam ao estudo sério da historiografia maçônica repudiar tudo aquilo que pareça incoerente.

Por mais tentador que possa parecer é preciso resistir à idéia de romancear o tema, que deve ser tratado de maneira séria pelos que verdadeiramente admiram a Maçonaria. Temos a obrigação, enquanto maçons, de averiguar as fontes e as informações. Esquecido, este importante detalhe, permitiremos que num momento futuro, uma vez lidas as nossas declarações, possa se colocar em dúvida a própria Instituição.