|
João Marcos Varella
Este texto procura trazer ao conhecimento a obra de Fernando Pessoa
editada com o nome de Hyram, raramente referida pelos estudiosos
de sua produção.
Procuramos
demonstrar que sua edição foi um meio de seu editor
usar essa obra para, traindo o pensamento de Fernando Pessoa divulgar
suas idéias favoráveis à ditadura de Salazar.
É um confronto entre a defesa da liberdade de expressão
por Fernando Pessoa e a defesa de um governo "autoritário
e corporativista" na definição de seu principal
oponente. Comentários serão bem vindos para o e-mail
jvarella@amcham.com.br . Este texto foi inicialmente publicado pela
revista Minerva em 1999.
"As Associações
Secretas – Análise Serena e Minuciosa a um Projeto
de Lei apresentado ao Parlamento" é um texto de Fernando
Pessoa sobre a Maçonaria, publicado em 4/02/35. Esse texto
tem recebido diversas divulgações recentes, quer através
de livros, artigos ou também através da internet.
Nesse artigo Fernando Pessoa faz a defesa da liberdade de pensamento,
de expressão e de livre reunião. Destaca a perseguição
à Maçonaria na Alemanha nazista, na Itália
e na Espanha sob as ditaduras fascistas e combate o projeto de lei
que objetiva fazer o mesmo em Portugal
O nosso objetivo
é trazer algumas informações sobre as interessantes
circunstâncias em que esse artigo foi escrito, sobre suas
posteriores edições, assim como as reações
causadas.
Vamos ao contexto
histórico.
Os principais fatos que antecederam o artigo de 1935:
A Monarquia
em Portugal deu lugar à República em 1910. O golpe
de 1926 afastou o presidente Gomes da Costa e assumiu o poder o
Marechal de Exército Óscar Carmona que foi candidato
único a presidente em 1928 iniciando a ditadura militar.
Em 1929, passou a ter como chefe de governo Antonio de Oliveira
Salazar (1889 – 1970). Em 1933 foi promulgada uma Constituição
e criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado
(PVDE, a partir de 1945 chamada PIDE) ligada diretamente a Salazar.
Essa polícia tinha como objetivo "modernizar e reforçar
a capacidade de intervenção (preventiva e repressiva).
Também foi criado o Tribunal Militar Especial para julgar
crimes contra a segurança do Estado e também foram
criados os campos de concentração Tarrafal e Peniche.
Em 1934 Salazar lança a Ação Escolar Vanguarda,
organização da juventude promovida pelo Estado Novo
para a "formação político-ideológica"
dos jovens. Em 12/02/35, dias após a publicação
do artigo, Óscar Carmona foi reeleito mais uma vez como candidato
único.
As edições
do texto:
A primeira publicação do artigo de Fernando Pessoa
sobre as Associações Secretas foi no Diário
de Lisboa no dia 4/02/35. A segunda publicação sob
a forma de um opúsculo foi editada ainda em vida do autor
com o título "A Maçonaria vista por Fernando
Pessoa", e uma terceira edição com o título
"Defesa da Maçonaria", impressa no Porto, sem data,
provavelmente publicada pela própria Maçonaria.
A edição
mais importante do artigo está no livro de Fernando Pessoa
com o título de Hyram – Filosofia Religiosa e Ciências
Ocultas, publicado em 1953 na coleção coordenada por
Petrus. Petrus editou diversos livros de Fernando Pessoa pois este
publicou poucas obras em vida, só tendo o devido reconhecimento
muitos anos depois de sua morte. Petrus sempre acrescentou aos textos
seus próprios comentários, considerações,
notas, postfácio e essas edições ocorreram
sempre no período de Salazar
Petrus, pseudônimo
de Pedro Veiga (1910), autor de Os Modernistas Portugueses, de várias
obras jurídicas, escreveu ainda "A Destruição
da Cultura na Universidade do Porto Depois de 25 de Abril"
(1977).
No livro Hyram,
Petrus acrescenta ao artigo contra o projeto de lei outro artigo:
"A Ideologia Judaica e a Desintegração da Civilização
Cristã – A propósito do poeta judeu Eliezer
Kamenezky" que foi inicialmente publicado como prefácio
do livro de poemas Alma Errante, desse poeta, editado em Lisboa
em 1932. Neste artigo, (também publicado com o título
"Das Origens e Essência da Maçonaria e do seu
Contributo Judaico") Fernando Pessoa demonstra um profundo
conhecimento de Maçonaria e de seus graus superiores.
O contraditório
A esses dois artigos, onde fica evidente o conhecimento e o comprometimento
de Fernando Pessoa com a Maçonaria, Petrus acrescenta uma
série de outros, em oposição a Fernando Pessoa:
Primeiro texto:
"Chove no Templo", da autoria de José Cabral, autor
do projeto de lei que pretendia apenas regulamentar um velho preceito
do Código Penal Português (artigo 283) publicado como
carta ao editor do Diário de Lisboa, também publicado
no A Voz. Chama Fernando Pessoa de "mimoso anfíbio",
faz referência ao "Protocolo dos Sábios de Sion".
Afirma que a Maçonaria causa a ruína de todas as instituições
tradicionais, a derrocada de impérios poderosos, um desequilíbrio
político e que desse aglomerado de destroços surgiram
pela sua mão, as novas fórmulas políticas do
liberalismo e da democracia, a queda da monarquia e tantos outros
crimes.
Segundo texto
"Fernando Pessoa, um "raté qualquer" , publicado
no A Voz em 6/2/35, diz que o artigo foi encomendado porque a Maçonaria
se sentia ameaçada. (Raté significa roído por
ratos ou então malogrado).
Terceiro texto
"Na Tribuna Parlamentar" reproduz discurso de José
Cabral na Assembléia Parlamentar em 8/04/35. Deixa claro
que não fala expressamente da Maçonaria no projeto
de lei mas afirma que ela é a chave, o centro polarizador,
objeto da lei. "O que nos interessa é que se estabeleça
um regime jurídico que embora não extermine, torne
impossível que ela exerça as influências que
tem exercido e que pretende continuar a exercer". "Eu
sei de Estados que a não toleram. Estados de características
idênticas ao nosso: Estados fortes, autoritários, norteados
apenas pela noção firme do bem comum e, assim, sei
que a Maçonaria foi exterminada pelo Estado fascista, que
a declarou incompatível com a sua própria existência".
"Nós temos uma doutrina e somos uma força, disse
Salazar; e agora digo eu: Nós somos uma força e temos
uma doutrina, incompatíveis, dentro das mesmas fronteiras,
com a doutrina e com a força da Maçonaria". Desnecessário
comentar.
Quarto texto
"A Verdade sobre a Franco Maçonaria", da autoria
de Alfredo Augusto Lopes Pimenta (1882 – 1950), publicado
no A Voz em 7/02/35. No artigo procura demonstrar que ter a tolerância
como princípio é limitar a liberdade de pensar porque
lhe impõe o não pensar intolerantemente! Também
que Anderson e seus cúmplices (sic) teve como fim disfarçado
passar docemente da Franco-Maçonaria católica doutros
tempos para a égide do protestantismo. Alfredo Pimenta, membro
da Academia Portuguesa da História, conhecido pelo artigo
que escreveu em 1945 contra Roosevelt e por ter prefaciado a obra
de Mussolini em português "Testamento Político".
Quinto texto
"Mensagem Pró Maçonaria". Com ironia procura
refutar os argumentos de Fernando Pessoa em especial sua declaração
de que ele não era Maçom. Publicado em 5/02/35 no
A Voz, por F. de Souza, autor sobre o qual não obtivemos
informações.
Os artigos seguintes
publicados entre 7 e 27 de fevereiro de 1935 com o pseudônimo
de Malho (não nos foi possível identificar o autor):
Sexto texto
"O Papão Maçônico" foca o "risco"
de Portugal perder as colônias, caso se volte contra a Maçonaria.
Sétimo
texto "O Profano Ignorante" onde procura desprestigiar
a Maçonaria lembrando o caso do Ministro do Exercito Francês
General André acerca de uma questão polêmica
em 1904.
Oitavo texto
"O Jesuíta Maçonizante" quando relata como
Caballero de Puga em 1875 acabou com as lendas da fantasiosa história
da Maçonaria. Revela que a Maçonaria impulsionou o
Esperanto e conta ainda que Frederico II manteve os jesuítas
por interesse político nos seus domínios de religião
católica.
Nono texto "De
Whisky a Stawisky" Critica a comparação entre
Maçonaria e os cristãos primitivos e chama os maçons
de sequazes.
Décimo
texto "A União Espiritual" trata do conflito entre
Potências, critica a Maçonaria francesa por seguir
um "doutrinarismo voltairiano e ateu".
Décimo
primeiro texto "Mais União Espiritual" quando complementa
seus comentários.
Décimo
segundo e último artigo anexado tem o título "Maçonaria"
publicado no jornal A Pátria, do Porto com o pseudônimo
de Bruno, também por nós não identificado.
Relata a perseguição a um maçon em Lisboa em
1744 comentando: "Já sabemos quando foi. Quando será
o inicial da nova série?" Esse texto instiga claramente
a novas perseguições.
As palavras
de Petrus
Ao final, Petrus conclui com seus próprios comentários
"É inegável que esta obra, pela documentação
que reúne - e jazia perdida nos jornais do tempo, com poucas
probabilidades de voltar à vida das letras – contribui
para fazer luz sobre alguns aspectos, dos mais impenetráveis,
aliás, da complexa personalidade de Fernando Pessoa."
Na seqüência
passa a escrever contra a Maçonaria, deixando clara a sua
intenção quando agregou tantos textos contrários
ao artigo de Fernando Pessoa. "Faltou-lhe (à Maçonaria)
até o concurso da inteligência, que com seu brilho
e a sua fecundidade, até às instituições
caducas redoura de reflexos luminosos. A vida de intriga e de utilitários
interesses em que nas últimas décadas se empenharam
os seus apaziguados, teve como desiderato ou desiludir, ou afastar,
ou desinteressar dos seus fins, quantos, entre os novos, lhe podiam
dar uma alma incandescente. Aqui ou ali ainda se sente o seu comando.
Mas de quem parte? Da mediocridade impotente. E quem o transmite?
Essa mesma mediocridade. Temos, portanto, que em Portugal a Maçonaria
vive enquanto viverem uns sujeitos que a trazem no papo. E depois?
Depois, mais nada... Passou à história... A Maçonaria
foi grande enquanto teve a servi-la as maiores inteligências
de seu tempo... Hoje, no mundo perturbado, quando se faz o balanço
das forças subterrâneas que poderão deflagrar
– quem e quantos pensarão nas forças maçônicas,
domesticadas e egoístas? Possivelmente ninguém."
Por último,
conclui sobre Fernando Pessoa: "Jamais obra ou ensaio seu,
alcançou a celebridade que teve a veemente defesa da Maçonaria
que nas colunas dum dos jornais de maior responsabilidade do país
aparece firmada com seu nome, no próprio momento em que a
Assembléia Nacional tinha em discussão um projeto
de lei destinado a bani-la e que teve, como logo se vaticinou, mais
brado que efeito."
Conclusão
Concluímos que Petrus tinha a clara intenção
de usar o nome de Fernando Pessoa 18 anos após a sua morte
e ainda sob a ditadura de Salazar para manter a perseguição
à Maçonaria em Portugal, utilizando para tanto aquele
artigo de 1935. Agora Fernando Pessoa era reconhecido e havia a
oportunidade de divulgar doze artigos contra a Maçonaria.
Em 1928 Fernando
Pessoa escreveu "Interregno: Manifesto Político do Núcleo
de Ação Nacional" defendendo a ditadura salazarista.
Arrependeu-se e escreveu três textos de sátira ao Estado
Novo, contra o despotismo e o ultra nacionalismo. Nunca foi perdoado.
Em 21/05/1935
foi aprovada a Lei 1901 da Ilegalização de Sociedades
Secretas, entre as quais a Maçonaria.
Em 30/11/1935
morre Fernando Pessoa.
No Brasil, em
3 de outubro de 1941 Getulio Vargas publica o Decreto Lei 3688 –
Lei da Contravenção Penal, que em seu artigo 39 diz
"Participar de associação secreta de mais de
5 pessoas que se reúnem periodicamente sob compromisso de
ocultar à autoridade a existência, objetivo, organização
ou administração da associação: pena
prisão simples de 1 a 6 meses ou multa.
|