Por João Cabral de Mello e
Evaldo Cabral de Mello
O frei Joaquim
do Amor Divino Caneca (veja ilustração em óleo de T. Mário), condenado
à morte e vítima de equívocos, segundo historiador.
O frei Joaquim do Amor Divino Caneca, participante da "revolução
republicana" de 1817, da revolta contra a dissolução
da Assembléia determinada por d. Pedro I e da "separatista"
Confederação do Equador, em 1824, que ao ser executado
no ano seguinte teve o nome inscrito no martirológio brasileiro,
virou assunto dos irmãos Cabral de Mello: o poeta João
e o historiador Evaldo. O primeiro publicou, em 1984, o Auto do
Frade, uma espécie de roteiro cinematográfico ou texto
teatral, na verdade um protesto provocado pelos equívocos
em torno de Caneca, tão grandioso quanto incompreendido.
A incompreensão chegou ao ponto de darem o nome do mártir
a um presídio no Rio, mais um resultado triste da indiferença
e da ignorância de rotina, de acordo com o historiador Evaldo,
que de certa forma também escreveu um desagravo do conterrâneo
antigo e da memória pernambucana.
Trata-se de
um ensaio introdutório aos escritos políticos de Caneca,
num volume que será lançado pela Editora 34, dentro
da coleção Formadores do Brasil.
O ponto de partida
dos irmãos Cabral de Mello, portanto, é o mesmo: a
intriga movida pelos carrascos indiretos de Caneca, a partir do
Sudeste movido a interesses "totalitários", conforme
o historiador. Para Evaldo, "Caneca é mártir
do processo de independência do Nordeste" e não
um separatista, como aparece em enciclopédia. O termo torna-se
também anacrônico quando aplicado ao frei. A cortina
de acusações levantada a partir do Rio, com articulação
em Minas e São Paulo, acabou por envolver até mesmo
estudiosos nordestinos, como Oliveira Lima, num processo repetitivo.
"Ninguém
contesta a versão, seja de direita seja de esquerda",
diz. A idéia de Caneca para o Brasil era a da monarquia constitucional,
liberal, com "amplo reconhecimento dos poderes públicos".
Em seu estudo,
afirma que o separatismo, do qual Pernambuco, à sombra do
frei, ficou sob suspeita dos dirigentes monárquicos, "implica
a preexistência da nação e entre 1817 e 1824
a nação brasileira distava de estar constituída,
a não ser em sentido formal". Da mesma forma que o Rio
neutralizou os liberais fluminenses - Gonçalves Ledo e outros
-, liquidou coerentemente o sonho pernambucano de diálogo
com a Corte, de acordo com a reconstituição de Evaldo.
Esse diálogo, para usarmos um termo da hora, dependeria,
para Caneca, do comportamento da Corte, pois "se o Rio fizer
conosco, o que Deus não permita, o mesmo que Portugal fez
com o Brasil", os pernambucanos, "não tendo nascido
para escravos", jamais se sujeitariam, nas palavras do frei
citadas por Evaldo, "ao despotismo ministerial, qualquer que
ele fosse e pudesse reviver", mesmo que para isso tivessem
de recorrer às armas.
Erro - A intenção
separatista não está presente nos escritos de Caneca,
observa Evaldo. "O separatismo dos que promoveram 1817 só
poderia ser designado por tal a partir de duas qualificações:
primeiro, a de que se tratava de secessão não do Brasil,
mas do Reino Unido, que era a única construção
estatal então existente no Império lusitano; e, segundo,
que, em última análise, ele não passara de
um subproduto das circunstâncias a que se viu confrontada
a região. Já Armitage havia chamado a atenção
para o fato de que, tendo a elevação do Brasil a Reino
Unido resultado da preocupação da Coroa com que o
descontentamento na América Portuguesa a levasse a imitar
os vizinhos da América Espanhola, a medida fora bastante
para contentar a moderação do centro-sul, mas insuficiente
para satisfazer o Nordeste, onde as reivindicações
visavam também à adoção de instituições
representativas."
Conforme Evaldo,
para Caneca e seus companheiros, "escarmentados pelo fracasso
republicano de 1817, era evidente que a autonomia provincial tinha
prioridade sobre a forma de governo. Eles estavam, portanto, prontos
a entrarem num compromisso com o Rio, o qual, em troca da aceitação
do regime monárquico, daria amplas franquias às províncias".
O historiador corrige a história. "O que se chamava
então e se continuaria a chamar ao longo do Império,
utilizando um argumento ad terrorem, o republicanismo pernambucano,
poderia ser mais apropriadamente designado por autonomismo. Em 1817,
o federalismo norte-americano era uma doutrina para iniciados, mas
a tradição autonomista da província era passível
de sensibilizar uma população ainda embalada pelo
grande mito da restauração pernambucana." Nessa
direção, Pernambuco poderia ser liberal como a Bahia
totalitária, explica, colocando o pensamento político
de Caneca, antes um herói intelectual do que homem de ação,
no âmbito dos debates permanentes da formação
do País.
Mas o País
seguiu outro rumo. "A partir da independência, impunha-se
uma noção territorial de que o Brasil tinha sido fadado
a ser um país. Para os fluminenses, a concepção
era de um país grande, com potencial correspondente da arrecadação
tributária, sob regime centralizado." Além disso,
já estava presente a idéia de que, corja de xucros,
os brasileiros precisavam de mão pesada e forte. Ele cita
livremente Armitage, que assinalou "a diferença entre
o Sudeste e o Nordeste", nesse sentido como uma oposição
entre centralizadores totalitários e descentralizadores liberalizantes.
Evaldo acrescenta
que d. Pedro e a Corte "sabiam ser difícil fazer a independência
sem verniz brasileiro. Trouxeram o José Bonifácio,
pois, como esse verniz. Depois neutralizaram os liberais fluminenses
e se livraram dos Andradas". Caneca, filho de tanoeiro, descendente
de portugueses, com algum possível sangue indígena,
brilhante, publicista, educado pelos carmelitas, frade e padrinho
de uma prole de "afilhados", surpreendentemente culto,
ainda mais para quem só deixara a província pernambucana
quando fora levado preso para a Bahia, teve o fim conhecido. A sentença
era o enforcamento degradante. No entanto, como aqueles que deveriam
fazer o trabalho sujo se negassem a cumprir a determinação
legal, acabou recebendo a involuntária honra de levar uns
balaços a palo seco.
Evaldo reconstitui
o processo histórico que culminou com o fuzilamento. Seu
irmão consagrou a Caneca uma celebração do
dia de sua morte, encenando o cortejo, a procissão que foi
sua trajetória até o fim, como espetáculo diante
da população entoando em coro a oração
do sacrifício que nada tem de religioso. No entanto, de ambos
os textos emerge uma história que poderia ser incluída
no manual de infâmia perpetrado por Borges, com a ressalva
de que o personagem central é a personificação
da dignidade, a eterna vítima. O historiador lembra-se do
irmão, incomodado com a figura incompreendida de Caneca,
mas conta que só passou a se preocupar com ele para redigir
o ensaio introdutório aos seus textos políticos. Um
lembrete para os estudiosos da obra do autor de Pedra do Sono. É
sobre Mário Melo, autor de um artigo sobre Caneca que o poeta
descobrira no Instituto Arqueológico e Histórico do
Recife. "Uma figura folclórica", lembra Evaldo.
De qualquer modo, para o poeta, Melo falava da morte de Caneca num
texto redigido em medida cinematográfica.
Poder - Foi
a opção seguida no Auto do Frade, que começa
com o despertar de Caneca e termina com seu cadáver jogado
numa igreja. Como ocorre agora no ensaio de Evaldo, como ocorreu
em Morte e Vida Severina, a peça dedicada ao frei também
é uma elaboração a propósito do poder.
Em um dos poemas, temos Severino sendo transformado de trabalhador
de engenho em bagaço de cana, enquanto nascem outros Severinos.
Severino deixa de ser um retirante anônimo para dar nome à
tragédia nordestina, enquanto frei Caneca, passando pelo
processo de "dessacralização", com seus
paramentos retirados à maneira de uma excomunhão,
após o strip-tease imposto, transforma-se no chamado homem
comum, no indivíduo sem nome ou distinção,
num brasileiro apenas.
Como um retábulo,
o "auto" sugere movimento e paralisia, peso e leveza.
O ritmo lento do cerimonial de humilhação e morte
em contraste com a riqueza das idéias, dúvidas, esperanças
contidas nos discursos do frei e nos diálogos das gentes.
O sacrifício avança com as imagens anunciadas pelo
discurso. A paisagem recifense entra como elemento de sugestão
das possibilidades futuras, seus verdes, azuis e perguntas sobre
as quais Caneca medita em sua caminhada.
Agora, o estudo
histórico de outro Cabral junta-se a essa saga. Ambos recuperam
o mesmo personagem, num momento em que o assunto de família
vira emblematicamente tema nacional. O investigador, abrindo uma
clareira na história, o poeta, digno da profissão,
conferindo autonomia e eficácia ao recriar os movimentos
do real, conferindo-lhe a organicidade necessária para a
permanência no mito, expondo essa realidade ao entendimento
e à emoção. |