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Fernando Guilherme Neves Gueiros
M.·.M.·.
Or de Paulista - PE
De tudo isto fica para mim a indagação ou dúvida:
A MAÇONARIA ACOVARDOU-SE OU... ACOVARDARAM-SE OS MAÇONS?
Fosse como fosse, a maçonaria especulativa de Anderson teve uma expansão espetacular. Eram 63 lojas em 1723 e 126 em 1733. A grande Loja da Irlanda foi fundada em 1725 e a da Escócia em 1736. A partir da década de 1730, as Índias Britânicas, Antilhas e colônias americanas tinham lojas, Ela penetrou na França em 1725 e a Loja do Grande Oriente formou-se em 1733, tendo por Grão-Mestre Philippe d'Orléans, o duque de Chartre. Às vésperas da Revolução Francesa (1789), contavam 600 lojas na França.
Este fenômeno merece um estudo profundo por parte de historiadores sociais, pois os paradoxos abundam. Os maçons sacralizaram uma profissão, no momento em que o capitalismo estava extinguindo os últimos vestígios de sacralidade no trabalho. Eles dignificaram os estamentos feudais nos graus (aprendiz, companheiro e mestre) quando esta ordem social estava em vias de desintegração. Ela permitiu a convivência de diferentes classes e de católicos e protestantes, permitiu aos deístas não engajados em igrejas uma atmosfera propícia e, aos amantes de belas cerimônias, um reencontro.
Estaria a aristocracia francesa cometendo suicídio político no séc. XVIII, freqüentando ou legitimando uma organização que claramente defendia idéias liberais e racionalistas?
A Maçonaria não publicava material no século XVIII. Mas o que apareceu posteriormente (ritos, adereços, símbolos) nos dá alguma idéia de suas práticas e crenças: a herança judaico-cristã valorizada, um pouco de Cabala numa “base cristã” e vestígios de hermetismo e alquimia. Um entrelaçamento constante com doutrinas, ritos e crenças rosacrucianas. Nos principados germânicos, os maçons teceram a moderna lenda sobre os templários, chegando a envolver o rei da Prússia, Frederico Guilherme II, em uma das organizações. A grande flexibilidade organizacional permitiu a acomodação de várias tendências ritualísticas.
Mas havia quem se ressentisse de uma espiritualidade superficial como André Miguel Ramsay, secretário de Fénelon, que pronunciou um discurso em 1737, na Loja Provincial da Inglaterra, em Paris, da qual era orador e grande chanceler, que contava a história da ordem e instigava a constituição de graus superiores. Martines de Pasqually, nascido em 1728, de pais judeus convertidos em Grenoble, fundou em 1758, a Ordem dos Cavalheiros Maçons "Elus Cohens de L'UNIVERSE" e expôs sua doutrina no "Tratado de Reintegração dos seres", de evidente base judaica.
Seu discípulo Saint-Martin exerceu profunda influência nos meios esotéricos do séc. XIX. E por fim, não podemos esquecer-nos de Cagliostro, ou melhor, Giuseppe Balsama, nascido em Palermo. Teve uma vida movimentada viajando pelo Egito, Malta, Grécia, Espanha e Inglaterra, onde teria se tornado maçom em 1777, na Loja da Esperança, em Londres. Depois disso, Cagliostro transformou-se no grande Copta e foi visto por toda parte na Europa Ocidental, ensinando, curando e iniciando pessoas no Ritual Egípcio. Tornou-se rico. Na década de 1780, em Paris, ele se envolveu com o Cardeal Rohan e o caso do colar de Maria Antonieta. Ele esteve na Bastilha e foi banido, retirando-se para Londres, onde escreveu um panfleto, "Carta ao povo francês". Nele, dizia que não voltaria a Paris antes que a Bastilha fosse demolida e transformada em passeio público. Depois de ter sido banido em diversas cidades, ele se dirigiu a Roma em 1789, sendo preso e processado pela Inquisição, que lançou um livreto difamatório sobre sua vida, morrendo em 1795 nos porões do Castelo de San Leo.
Como é sabido membros do clero anglicano, bem como cardeais e bispos católicos, pertenceram a Lojas maçônicas.
Volto para representar que já em 1189, o Concílio de Rouen condenava as Confrarias de Pedreiros. Em 1326, o concílio de Avignon renovou a condenação e mencionou o deplorável costume de usar palavras e signos secretos. A condenação da Sorbonne, já mencionada, ampliara o alvo: sapateiros, seleiros, alfaiates e chapeleiros. Em 1738, o papa Clemente XII promulgou uma bula ameaçando com a excomunhão os católicos que aderissem à maçonaria. Dois eram os motivos: a organização franqueara as portas a todas as religiões e o juramento do segredo. Consta o fato que o papa morreu dois anos depois, o que aumentou a curiosidade popular sobre a organização.
Na Inglaterra, depois do Ato de Tolerância Religiosa (1689), os filósofos prosseguiram suas investigações sob o confortável guarda-chuva do deísmo. Diz-se com certa nota de antagonismo maçônico, que Adam Smith, em "A riqueza das Nações", louvou o interesse esclarecido (egoísmo), enquanto prestava homenagens ao Supremo Arquiteto, sem perceber claramente que o mandamento cristão - amai-vos uns aos outros - transformava-se em "comprai-vos uns aos outros". (John Milbank - Teologia e Teoria Social).
Já na França, o processo foi bem diferente. Devido ao peso da Igreja na formação social, os filósofos não tiveram alternativas senão atacar a "Igreja infame e as superstições". Disso disseram alguns, que o vago deísmo de Voltaire transformou-se no franco ateísmo de Holbach, La Mettrie e Helvétius.
Mas, voltemos para a data de 07/02/1717 quando Jean Desaguliers reúne quatro lojas metropolitanas para discutir a estrutura maçônica (Inglaterra) e que faria nascer a GRANDE LOJA DA INGLATERRA.
Juntamente com Anderson, Desaguliers, que fugira da França após a quebra do Edito de Nantes, começara a tecer os ditames da unificação das diversas Lojas Maçônicas, nascendo todos os atributos, que particularmente denomino como os dogmas religiosos impostos então pelas ascendências Anglicanas existentes. Tornara-se a Maçonaria Universal, a ser Londrina e de forma Teísta, que só veria a mudar após para o mundo com o cisma Francês havido em 1725, que afora não mais aceitar este teísmo, também se insurgia contra o mando ditatorial Britânico de tal forma a vir a criar o GRANDE ORIENTE DE FRANÇA.
Corria o pensamento Francês do que podemos chamar de "laicismo" contemporâneo (Rejeição do clericalismo, isto é, da influência do clero na vida pública fora do âmbito da Igreja; secularismo anticlerical), hoje tão reverberado em todas as nações.
Confrontando com tudo isto, vejo que não somente a maçonaria de hoje, não se deixou levar pelo laicismo, como deveria ser, como se tornou também apolítica, o que para mim, afora ser um erro fundamental não condiz com as necessidades do aperfeiçoamento do homem e da humanidade, pois não podemos deixar de considerar que o "homo sapiens" é de natureza política, desde o primeiro momento que se sentou ao redor de uma fogueira para traçar os destinos de seu povo, quer seja para viver sob um líder ou no pensar na forma de como seria o caçar do amanhã, para então obter seus alimentos.
Volto a relembrar que as ingerências da Igreja Anglicana já são bem notórias por ocasião da "fundação" da Maçonaria Especulativa desde os primórdios de 24.06.1717, e que ingerências maiores veriam acontecer quase que descaracterizando a maçonaria no seu âmago.
Nesta época os mentores maiores eram todos Anglicanos, por exemplo, Rev. Anglicanos: James Anderson, George Payne, Jean Théophile Desaguliers (este poderíamos chamar o pai da Maçonaria Especulativa) e por fim Anthony Sayer (primeiro Grão Mestre eleito - de fato foi aclamado - e que foram poucos os eleitos). Não há por se discutir as fortes influências religiosas dada aos mentores.
Esta influência como veremos a frente nesta dissertação tornou-se evidente em mudanças feitas nos Regulamentos de Payne (1720), na Constituição de Anderson de 1723 que eram os básicos regulamentos e Constituição da Maçonaria Inglesa.
Vemos já na mudança da antiga Constituição muitos dos pontos que eram basicamente deístas, tornarem-se Constituição de 1815, reformada, pontos básicos teísta e dogmáticos cristãos. Por outra, onde era chamada a atenção de que todos os membros da Maçonaria, tanto para os maiores cargos de Loja, quanto para os dos Grãos Mestrados, inclusive Grão Mestre, deveriam passar obrigatoriamente por uma eleição e os candidatos já terem sido Veneráreis de suas Lojas, nesta terceira reformulação põe isto a desconhecimento.
Passa-se então por cima destas exigências estabelecidas, e já sob fortes influências e domínios de uma nobiliarquia inglesa, a promoverem através de um Conselho Nobiliárquico a eleição dos cargos do Grão Mestrado Inglês.
Façamos um pequeno hiato histórico sobre as coisas da Igreja Anglicana versus Maçonaria, e passemos para as influências da Casa Real Inglesa sobre a Maçonaria Britânica |