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Parte II

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Vida Religiosa e a Religião.
Parte I

 

 

Do Texto Representativo da Obra de Krishnamurt
Enviado por ick em qui, 10/03/2005

 

 

E temos que discutir sobre a vida religiosa e a religião.

Essa é uma questão muito complexa.

Os seres humanos vêm buscando alguma coisa que esteja além do mundo físico, além da existência diária do sofrimento, dor ou prazer.

Têm buscado algo transcendente, primeiro nas nuvens, sendo o trovão a voz de deus.

Depois, cultuaram árvores, pedras – e os aldeões que vivem longe desta feia e detestável cidade ainda veneram pedras, árvores, pequenas imagens.

O homem deseja saber se existe alguma coisa sagrada e, então, chega o sacerdote e diz:
"Vou-lhe mostrar" – é exatamente o que faz o guru.

Os sacerdotes do Ocidente possuem seus rituais, frases de repetição, roupas ornamentadas e o culto a imagens.

E os daqui também têm suas próprias imagens.

Há os que não acreditam em nada disso;
são ateus e se dizem humanitaristas.

Mas os que ouvem a este que fala querem descobrir se há algo fora do tempo, além do pensamento.

Vamos, portanto, investigar juntos, exercitar nosso cérebro, nossa razão, nossa lógica para averiguar o que é religião, o que é vida religiosa e se é possível viver uma vida religiosa neste mundo moderno.

Investiguemos, por conseguinte, para descobrir o que, de fato e verdadeiramente, é a vida religiosa.

E só podemos descobrir isso quando compreendemos o que são as religiões e as descartamos totalmente – não quando pertencemos a uma religião, a uma organização, um guru ou determinada autoridade que se diz espiritual.

Não há autoridades espirituais;
esse é um dos crimes que cometemos: inventar um mediador entre nós e a verdade.

Quando indagamos o que é religião, nessa própria indagação já estamos vivendo religiosamente;
não no fim dela.

No processo mesmo de olhar, observar, discutir, duvidar, objetar, não ter crença nem fé, nessa própria investigação já estamos levando uma vida religiosa.

Vamos fazer isso agora.

Tratando-se de assunto religioso, parece que perdem a razão, a lógica, o bom senso.

Precisamos, portanto, ser lógicos, racionais, descrentes, indagadores em relação a tudo que o homem criou - deuses, salvadores, gurus e toda sua autoridade;
precisamos eliminar, completamente, tudo isso.

Nada disso é religião;
é apenas a autoridade que alguns poucos assumem.
Nós é que lhes conferimos autoridade.

Já notaram que, sempre que há desordem social e política nas relações humanas, aparece um déspota, um ditador?

Temos recentes exemplos disso.

Sempre que há desordem em nossa vida, criamos uma autoridade;
somos responsáveis pela autoridade e existem pessoas prontas a aceitar essa autoridade.

Sempre que há medo, inevitavelmente o homem procura um meio de se proteger, de se manter em segurança, uma vez que ele se sente atemorizado.

E é por causa desse medo que inventamos deuses.

Por causa desse medo é que inventamos os rituais e todo esse circo a que damos o nome de religião.

Todos os templos neste país, todas as igrejas e mesquitas, tudo isso foi o pensamento que criou.

Podem afirmar que há uma revelação sem jamais duvidarem de tal coisa.

Mas ponham em dúvida essa revelação.

Acontece que aceitam;
se usarem, contudo, a lógica, a razão, o bom senso, perceberão como acumulam superstições - e nada disso, obviamente, é religião.

Será que podem descartar tudo isso para descobrir a essência da religião, qual é a mente, o cérebro, capaz de viver religiosamente?

Será que podem, como seres humanos cheios de temor, viver sem inventar nada, sem criar ilusões, e enfrentar o medo?

O medo psicológico pode desaparecer completamente quando ficamos com ele, sem fugir dele, dando a ele total atenção.

É como lançar um jato de luz sobre o medo, um forte jorro de luz;
o medo se extingue por completo.

E, quando não há medo, já não há mais deuses, já não mais rituais, pois tudo isso se torna desnecessário, estúpido.

As coisas que o pensamento inventa nada têm que ver com religião, pois o pensamento não passa de um processo material resultante da experiência, do conhecimento e da memória.

É o pensamento que inventa todo o palavrório e estrutura das religiões organizadas, que já perderam totalmente a significação.

Será que, voluntariamente, podem rejeitar tudo isso sem esperar por uma recompensa?

Será que querem fazer isso?

Se fizerem, então ninguém mais perguntará o que é religião.

E haverá alguma coisa que ultrapasse o tempo e o pensamento?

Podem fazer essa pergunta mas, se o pensamento inventar que existe algo transcendente, isso ainda constitui um processo material.
O pensamento é um processo material que acumula o conhecimento nas células cerebrais.

O orador não é cientista, mas podem ver isso, em si mesmos, podem observar em seu próprio cérebro a atividade do pensamento.

Desse modo, se puderem desfazer-se de tudo isso voluntariamente, sem oposição nem resistência, nesse caso, inevitavelmente, indagarão:
existirá algo que esteja além do tempo e do espaço?

Haverá algo jamais visto antes por qualquer outro homem?

Haverá algo imensamente sagrado?

Haverá algo jamais tocado pelo cérebro?