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Irm Pedro Demo *
Na maçonaria, Deus sempre foi fonte de harmonia e discórdia, desde os tempos operativos. As Constituições de Anderson retratam vivamente este ambiente conturbado, ao sugerir a fórmula deísta de crença, referência não denominada a um ser supremo, evitando-se qualquer tipo de confronto, pois a fraternidade irrestrita seria argumento maior.
Pode haver neste gesto imensa sabedoria, tipicamente evangélica, quando se rejeitam tradições fundamentalistas que fazem da religião motivo maior de massacre entre os seres humanos. Seguindo modo maçônico de ler os Evangelhos, em particular sob a égide de Tiago e João (não de Pedro), ressalta-se que Jesus não fundou "uma religião", que depois viraria "romana", mas uma comunidade do amor, cuja novidade maior era amar não só o próximo, mas igualmente o inimigo.
Ainda, sendo fraternidade um dos landmarks mais profundos, tudo que separa não pode ser maçônico, nem mesmo Deus. Em parte esta foi a argumentação francesa de 1877, quando se instituiu o Rito Moderno, que proscreve a referência a Deus; em parte foi resultado do racionalismo laico da época, que transformou a maçonaria em "missionária do liberalismo". De modo geral, porém, em particular na tradição inglesa, Deus continua referência central da maçonaria, aparecendo com clareza nos rituais de iniciação. Ao analisar a "Prestonian Lecture" ("Prestonian Lecture" é resultado da retomada, pela Loja Quatuor Coronati de Londres, da tradição de Preston (fim do século XVIII e começo do século XIX) em torno da formação ("instrução") maçônica, em quatro volumes, nos quais se publicam "preleções" de autores consagrados sobre assuntos centrais da maçonaria, em geral no plano da espiritualidade maçônica), vemos a "proeminência do Grande Arquiteto na maçonaria", com o objetivo de salientar o papel que este tipo de posição detém na Ordem, apesar das sempre possíveis e intermináveis querelas de fundo.
Os textos descrevem, para iniciar, que o profano apresenta-se com ar triste e desarrumado, hesitante à porta fechada do templo, mal calçado e cego. Quer ser admitido na fraternidade, privilégio negado no mundo lá fora. Para ultrapassar o limiar do templo, forças humanas apenas não bastam. É indispensável recorrer ao auxílio de Deus.
Encontra 12 nomes para o Grande Arquiteto, apresentados aos iniciandos no decorrer das cerimônias. "Não é coincidência que as primeiras palavras do candidato, na loja, invocam o nome do Grande Arquiteto duas vezes. À primeira pergunta para testar sua maturidade e responsabilidade como homem de idade madura, responde 'Eu sou', sem saber que 'Eu sou' é um dos nomes do Grande Arquiteto.
No livro do Êxodo relata-se a ocasião marcante quando o grande líder Moisés pela primeira vez foi confrontado pelo Todo Poderoso aos pés do monte Horeb, na forma de arbusto em chamas, com as palavras: 'Assim deveis dizer aos filhos de Israel: Eu Sou foi quem me mandou a vós'.
Em seguida, antes que o candidato enfrente a segunda pergunta, toma consciência de uma invocação poderosa, e estando cego, seu foco de atenção se torna ainda mais fino. O capelão pronuncia o título 'Todo poderoso Pai' e 'Supremo Governador do Universo', que indica a eminência suprema e um absoluto pré-requisito de aceitação das implicações, antes que a cerimônia possa prosseguir. (Esta nomenclatura não coincide plenamente com o R.E.A.A. porque, provavelmente, os textos remetem ao Rito de York.)
O candidato está para desvelar as belezas da verdadeira divindade não propriamente por sua própria edificação ou benefício, mas primariamente para a honra e glória de seu Santo Nome. Então vem a segunda pergunta: 'Em quem depositais vossa confiança?'. 'Em Deus', responde. Assim, nos primeiros três minutos da recepção de um candidato, cinco nomes do Grande Arquiteto emergem: Eu Sou; Pai todo poderoso; Supremo Governador; O Santo Nome; e Deus.
O sexto não ocorre antes da Obrigação, quando o candidato repete que está na presença do Grande Arquiteto. Finalmente, nos deveres depois da iniciação, o sétimo nome, Criador, é invocado, com a injunção firme de 'nunca mencionar Seu nome a não ser com temor e reverência, que são devidos por parte da criatura ao Criador'.
No Segundo Grau, é chamado de Senhor, e nas obrigações, o Grande Geômetra. No Terceiro Grau, é o Regulador do Universo; na obrigação, O Mais Alto, e nos deveres, O Senhor da Vida. Esses doze nomes do Ser Divino descrevem, cada um, um ponto de vista, mas em nenhum lugar a franco-maçonaria oferece uma definição da natureza ou atributos de Deus. Deixa tais matérias para cada indivíduo formatar como achar melhor".(grifo meu)
O que há de mais próprio no tratamento maçônico de Deus não é seu aparecimento em doze nomes diversos, mas modo suave de referência, norteado pela idéia aglutinadora dos irmãos. Deus da maçonaria precisa ser motivo de congraçamento, não de desunião, em perspectiva das mais evangélicas. Não se tenta provar a existência de Deus, pois se presume que os candidatos já possuem crença própria. Mas, mesmo não definindo a concepção de Deus, alguns atributos são assumidos, em particular a paternidade de Deus, do que segue a irmandade irrestrita de todos. "Por sua constituição, a maçonaria descansa em Deus, vive em Deus, e busca levar os homens a Deus".
Tudo na maçonaria, cada lição, cada leitura desde o primeiro passo até ao último degrau, assume a proeminência de Deus. Sem Deus não há significado e missão entre os homens". Durante as cerimônias, por vezes extensas, usa-se raramente o nome de Deus, preferindo alternativas como Grande Arquiteto do Universo, que remete à noção de Criador. Esta alusão é muito anterior ao tempo especulativo. Na segunda versão mais antiga do manuscrito Constitutions of Masonry (Cook Manuscript, de 1410), aparece o prefácio contendo oração que começa: "Graças a Deus nosso glorioso Pai, Fundador e Formador do Céu e de todas as coisas nele...". Outra referência antiga ao Grande Arquiteto vem de um livro escrito por J.V. Andreae, em 1623: "O melhor lógico é Deus, a quem nunca falta habilidade de concluir; ele fala - existe; ele quer - está de pé; ele sopra - cai; ele respira - vive. Suas palavras são verdadeiras - mesmo sem prova, seu conselho regula sem comando, por isso ninguém pode prever seu fim, a não ser que construa em Deus e se aprendermos aqui embaixo pelo compasso, bússola, esquadro e prumo, nunca devemos perder de vista o limite dento do qual Deus nos enquadrou". Cabe lembrar a Letra G, associada ao nome sagrado de Deus em hebreu. Em cirílico e sueco chama-se GAD, em alemão Gott, em inglês God - tudo derivado do prenome persa Goda, e que significa "ele mesmo".
Em Preston, "em nada a maçonaria é mais sensível do que no modo como trata nossa atitude para com Deus, que é tanto o sentido quanto o mistério da vida", embora evite intrometer-se, sobretudo direcionar, nossa vida íntima. Preocupa-se mais em arquitetar atitude de reverência da criatura para com seu Criador, reconhecendo nossa incompletude, sem exigir, porém, apego a transcendências específicas. O maçom é profundamente "religioso", embora não possa, em Loja, professar religião específica.
A maçonaria defende a "religiosidade", não "uma religião". Enquanto a religiosidade (ou espiritualidade) representa necessidade humana essencial, histórica e arqueologicamente rastreáveis, as religiões específicas acenam para o lado institucional de cada uma delas, com suas hierarquias, dogmas, ritos e burocracias. Contenta-se com a fé em Ser Supremo, sem exigir detalhe definitório, certa de que esta referência ultrapassa o intelecto e atinge instintos e sentimentos profundos. Por sua origem, assinala de preferência a arquitetura do universo, que insinua o Criador, tanto no lado mais positivo da ordem das coisas, quanto também no lado penoso da vida humana, que nos impõe mistérios e incompletudes.
Isto seria mais profundo que qualquer debate, mais intrínseco que qualquer divergência. "Duas sugestões implícitas permaneceram, todavia: que continuemos a rezar e que continuemos a pensar sobre a proeminência do Grande Arquiteto não só na maçonaria, mas em nossas vidas. Pois, viver em Seu Mundo sem dar-se conta do significado deste mundo, é como vaguear dentro de uma livraria sem tocar nos livros. E a resposta do indivíduo para esses chamados da maçonaria é apressada pelo uso de símbolos ilustrativos: o Grande Desígnio; a determinação da prestação de contas sem escrúpulo ou reserva; reservar aos próximos todo ofício nobre que a justiça ou misericórdia possa ter requerido".
Esta última citação poderia surpreender, talvez mesmo desgostar a irmãos que não vêem o templo como lugar de oração. Se olharmos nossas sessões ordinárias, "rezar" é o que menos poderia ocorrer, a não ser em resquícios perdidos cá e lá, quando se pede proteção ao Grande Arquiteto e ao padroeiro São João.
Predomina ambiente de clube esclarecido, iluminista, de tendência burocrática. É comum na Inglaterra e maçonarias vinculadas, nas quais não existiram querelas mais ostensivas em torno do deísmo maçônico, amparado na Reforma protestante (que foi prevalecente no evento de 1717).
O livre arbítrio tornou-se base da postura religiosa, liberta de autoridade dogmática ou infalível. Ao olhar mais crítico pode surpreender a diferença gritante entre as cerimônias de iniciação, imponentemente "religiosas", e as sessões ordinárias. Estas são terrivelmente "ordinárias". Os textos analisam as iniciações, não as sessões ordinárias e, por isso, compreensivelmente, considera que é preciso continuar a rezar. É fundamental, porém, repudiar o dogma. Tudo que a maçonaria requer é que se afirme, com simplicidade e humildade, em quem colocamos nossa confiança na vida e na morte. Na prática, Deus possui inúmeras facetas e todas podem ser respeitadas. Este respeito fraternal pode ser visto como pedra de toque da espiritualidade maçônica, também porque resgata seu lado evangélico primordial: Deus é menos entidade específica, do que a reunião dos irmãos.
O deísmo reconhece o Ser Supremo, mas evita nomeá-lo, porque o ser limitado não poderia, a rigor, definir o que seria, por definição, indefinível. Por exemplo, um Deus eterno, uno e trino, como dizem os cristãos, apresenta Deus específico, no qual nem todos estariam dispostos a crer. No colégio de irmãos, poderia ser motivo de desavença irrecuperável, em particular se esta crença se revestir da noção de "povo eleito", sob a pretensão de aos outros não só evangelizar, como principalmente exterminar. Deus exterminador, vingativo é algo comum em religiões institucionais. Isto seria totalmente impróprio na maçonaria, cuja base é, nesta acepção, evangélica em seu âmago: a presença de Deus está principalmente nos irmãos reunidos.
O autor diz claramente: "Assim, evitando interpretações dogmáticas do Grande Arquiteto, a maçonaria capacita, no chão de uma loja, que homens de todas as raças e credos se encontrem sob terreno comum e façam suas devoções ao Criador que não é nem Deus, nem Alá, nem Brama, nem Adi-Budha, nem Jeová - mas que é cada um e todos esses". A fraternidade irrestrita é a religiosidade mais caracteristicamente maçônica, estando acima de religiões particulares.
Referindo-se a texto da Quarterly Communication da Grande Loja (1981), o autor assinala a parte em que se diz: "Não pode ser asseverado com força demasiada que a Maçonaria não é nem uma religião, nem um substituto para religião. A Maçonaria procura inculcar em seus membros padrão de conduta e comportamento que crê ser aceitável a todos os credos, mas dedicadamente refreia intervir no campo do dogma ou teologia. A Maçonaria, portanto, não é competidora com religião, embora na esfera da conduta humana possa-se esperar que seu ensinamento seja complementar ao da religião. Por outro lado, seu requerimento básico de que cada membro da Ordem creia num Supremo Ser e o acento posto sobre seu dever para com Ele serão suficiente evidência para todos, em especial para persistentes preconceituosos de que a maçonaria é suporte da religião, já que exige tanto que o homem tenha alguma forma de crença religiosa antes de ser admitido como maçom, quanto espera dela, se admitido, que continue praticando sua religião". |