cabecalho Samaúma
 

 

 

 

 

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O Autor

* Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
Mestre Instalado e
Conselheiro do GOEG
Membro da ARLS Adelino Ferreira Machado
Oriente de Hidrolândia
Goiáis
Fones: (062) 997l-0046 e 3255-l402
E-mail:
anestorporfirio@gmail.com

 

 

 

 

SOLIDARIEDADE É UMA COISA, FILANTROPIA É OUTRA

 

 

 

 

Irm ANESTOR PORFÍRIO DA SILVA*

 

 

 

 

 

A desigualdade social, a doença, a orfandade, o abandono de incapazes, a falta de ação do Poder Público em certas áreas de sua estrita competência, são causas, entre outras, que motivam e levam as pessoas sensíveis ao bem a se unirem e se organizarem com o fim de prestar ajuda assistencial àqueles que, em tais circunstâncias, se encontrem necessitados e sem amparo.
O maçom, por sua honra e, por que não dizer, pela dignidade da ordem a que pertence, pelo compromisso solene que assumiu, pela palavra empenhada e até pelo juramento que, de livre vontade, foi por ele prestado quando de sua iniciação, tem, por dever e obrigação a prática constante tanto da solidariedade quanto da filantropia.
Mas, afinal, o quê vem a ser solidariedade, beneficência, filantropia? Numa análise superficial parecem ter o mesmo significado, representarem a mesma coisa, mas, não. Conceitualmente, se identificam apenas em um ponto: qualquer das três é meio pelo qual se presta ajuda a alguém.
Lexicógrafos renomados definem “solidariedade” como sendo qualidade de solidário - sentimento de cooperação despertado pela identificação, companheirismo, amizade – manifestação desse sentimento - ajuda – compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas pelas outras etc.
Já a “filantropia” é amor à humanidade – sentimento que leva a ajudar as pessoas, independentemente de quaisquer motivações políticas ou religiosas – humanitarismo. Filantropia é ação continuada de doar dinheiro ou outros bens a favor de instituições ou pessoas que desenvolvam atividades de grande mérito social.  É encarada por muitos como uma forma de ajudar e, ao mesmo tempo, guiar o desenvolvimento e a mudança social sem que se recorra à intervenção estatal, muitas vezes, contribuindo por essa via em substituição da má política pública nas áreas social, cultural ou de desenvolvimento científico. Não consiste, pois, na prática de simples ajuda a esta ou àquela pessoa necessitada como ocorre na solidariedade. A filantropia vai além.  Em alguns países é ela a principal provedora de recursos à investigação científica e ao financiamento das universidades e instituições acadêmicas. O que leva as pessoas a praticarem a filantropia é a vontade de ajudar, é o amor ao próximo não importando quem ele é, que idade tem, do que necessita, onde se encontra, o que faz, como vive etc. Seu lema é “ajudar sem olhar a quem.”   
Por outro lado, envolvendo solidariedade e filantropia em seu conceito, temos a “beneficência” que, por si só, se define como sendo “qualidade de beneficente – ato de beneficiar – prática de obras de caridade – filantropia – inclinação à prática do bem – ação de fazer bem a alguém seja pela identificação de companheirismo, amizade ou não”.
Como se depreende, no ofício da solidariedade a ajuda é de caráter mútuo, sempre que houver necessidade e falta de recursos para superá-la. Ela se desenvolve de individuo para indivíduo por um espaço de tempo limitado até que a dificuldade, também de natureza transitória, seja superada e a motivação que leva alguém a exercê-la é o sentimento de cooperação a membros de grupos que se formam por sentimento afetivo, por companheirismo ou por amizade. Seu lema é “ajudar hoje para, se precisar, ser ajudado amanhã.”
Era costume das Guildas (sociedades de pedreiros livres), que existiram ao tempo da chamada maçonaria operativa, a promoção de arrecadação de contribuições dos que podiam ofertá-las para socorrer os seus congregados em momentos de profunda dificuldade. Figuravam entre esses congregados os pedreiros, os artífices, os forjadores de metal, serviçais, enfim, todos os seus associados. Em caso de absoluta necessidade a mencionada proteção se estendia às viúvas e aos filhos dos associados falecidos.  Foi do costume dessa prática solidária entre os construtores medievais organizados em associações, que a maçonaria adotou como parte obrigatória de sua ritualística o tronco de solidariedade ou de beneficência.
TRONCO
A palavra “tronco” tem sua origem no idioma francês “tronc” com dois significados: tronco de árvore e caixa de esmolas. O nome primitivo em maçonaria era “Tronco da Viúva”, ou seja, caixa de madeira (Baú) para guardar as esmolas ofertadas à viúva (vocábulo usado pelos maçons referindo-se à maçonaria como sua mãe viúva). Entre os registros da história da maçonaria até então pesquisados não foi encontrada nenhuma anotação que possibilite esclarecer a partir de quando o “Tronco da Viúva” passou a ser denominado de Tronco de Solidariedade ou de Beneficência.
Hoje em dia, o Tronco de Solidariedade ou de Beneficência não representa apenas a coleta de esmolas. Ele tem significado muito mais elevado para os maçons. Ele circula em Loja pelas mãos do Irmão Hospitaleiro, que tem aos seus cuidados os Irmãos doentes e necessitados. Em seu caminho ele repete o mesmo giro do Saco de Propostas e Informações, passando por cada irmão presente como se estivesse a dizer-lhe para não desperdiçar a oportunidade de ser solidário, posto que, ao doarmos algo a um irmão que de nós esteja necessitando é estarmos caminhando em direção à divindade, usando o gesto de ajudar como meio de alimentar a alma e propiciando condições para remoção de dificuldades, para soluções de problemas, para restabelecimento do bem-estar e para realização da vontade de alguém que sofre em razão do infortúnio e da falta de recursos. Para tanto, as Lojas devem formar um fundo mediante a aplicação das arrecadações do Tronco de Solidariedade ou de Beneficência em poupança bancária conjunta aberta em nome do Irmão Hospitaleiro e do Venerável ou do Tesoureiro para os recursos serem utilizados em eventuais e inesperadas urgências.
O HOSPITALEIRO
O Irmão que se acha investido neste cargo é a quem compete as atribuições de fazer circular o Tronco da Solidariedade ou de Beneficência e arrecadar óbolos durante as sessões. A Jóia que esse Irmão conduz é o símbolo de uma bolsa cujo significado é o do lugar onde os Irmãos devem depositar suas contribuições. Por ser de sua responsabilidade manter-se sempre informado sobre as condições de saúde dos demais Irmãos, é o hospitaleiro o membro da Loja que, preferencialmente, deve ocupar o cargo de presidente da Comissão de Beneficência.
DESTINO DO TRONCO
As administrações das Lojas devem ter em mente que o Tronco de Solidariedade ou de Beneficência se destina a uma única finalidade, ou seja, a prática da solidariedade que é o socorro a irmãos necessitados, suas viúvas e órfãos. Isto deve ser cumprido em primeiro lugar, não devendo tal recurso ser destinado a instituições de caridade como orfanatos, abrigos, asilos, hospitais, creches etc.. A ajuda prestada a instituições assistenciais como as aqui mencionadas é prática de filantropia cuja motivação é o amor à humanidade. Por meio do receptor dos recursos (a entidade filantrópica) a pessoa assistida, muitas vezes, nem é identificada pela maçonaria, o que nada tem a ver com a solidariedade que é ajuda mútua motivada por sentimento de companheirismo, amizade ou parentesco.
Propostas de Irmãos para que a Loja destine a arrecadação do Tronco de determinada sessão a instituição ou pessoa não pertencente à família maçônica, devem ser analisadas com muito critério e, se forem atendidas, não devemos nunca desfazer de toda a reserva já conseguida, visto que, em primeiro lugar, conforme já foi dito, o Tronco de Solidariedade ou de Beneficência se destina ao socorro de Irmãos necessitados e de viúvas e filhos carentes de Irmãos que pertenciam ao Quadro de Obreiros da Loja. Em segundo plano, estão os necessitados não pertencentes à maçonaria, que também não podem deixar de receber ajuda maçônica quando baterem em nossas portas. A estas pessoas temos igualmente o compromisso legal e maçônico de prestar a nossa ajuda ainda que, para tanto, tenhamos que nos valer excepcionalmente de parte do dinheiro arrecadado através do próprio Tronco.
Ainda há uma questão que merece enfoque. Em razão dos valores arrecadados pelo Tronco de Solidariedade ou de Beneficência não pertencerem do patrimônio da Loja, constitui erro grave o seu uso indevido como, por exemplo, na reforma do Templo, de asilos, de creches, aquisição de mobiliários, materiais ou pagamento de despesas que nada têm a ver com o exercício da solidariedade.
Quanto à filantropia, que também é uma das finalidades da maçonaria, os recursos destinados à sua prática podem advir de várias fontes, dentre outras:
a) arrecadação extra e voluntária entre os Irmãos do Quadro da Loja;
b) promoções e eventos patrocinados pela Loja (sorteios, bingos, rifas, bailes, almoços etc.).
Desde os primórdios tempos de existência da maçonaria não se encontram registros que demonstrem a utilização do Tronco para fins filantrópicos. Pelo contrário, tudo o que se lê a respeito, a conclusão a que se chega é de que os recursos arrecadados através do Tronco sempre se destinaram à ajuda mútua entre os maçons e seus dependentes. Mas, hoje em dia, isto não se verifica porque a distorcida interpretação que se faz de solidariedade e filantropia tem feito a maioria das Lojas incorrer no mesmo erro ao praticar filantropia com recursos destinados a socorrer irmãos carentes, que estejam vivendo momentos ruins, de difícil solução, o que, sem dúvida, vem contribuindo para que a maçonaria perca parte ainda maior de sua própria identidade.
Louvável é a atitude dos obreiros que têm vontade de ajudar e este mérito é indiscutível, desde que na prática, não se esqueçam de si próprios, não desprezem a ajuda mútua ainda considerada como o cumprimento de um dever incondicional, o que se justifica pelo fato de a “solidariedade” ser até hoje mantida nos postulados universais da Ordem Maçônica como uma de suas principais finalidades

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