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Do Irm Ambrósio Peters (
* )
As tradições se formam ao correr dos séculos
e se integram tão profundamente ao complexo dos usos, costumes
e crenças dos povos que nem leis, nem campanhas e nem quaisquer
outras ações as podem erradicar ou mesmo abrandá-las
de um momento para outro. Elas até podem desaparecer, ou
apenas se modificar e abrandar, mas sempre
no mesmo ritmo em que se formaram, lenta e progressivamente.
Por isso não se espere que a tradição cultural
antimaçônica, tão arraigada no mundo ocidental
cristão, venha a se modificar radicalmente ainda em nosso
tempo. Os mentores religiosos não estão nem de leve
interessados em que isso aconteça, por um motivo muito simples:
os papas do Catolicismo há mais de dois séculos e
meio condenam oficialmente a Maçonaria como inimiga da Igreja,
ou das igrejas cristãs. A tão propalada modificação
do Código do Direito Canônico na verdade não
modificou nada, pois a Igreja continua a excomungar os maçons.
É só ler os Estudos da CNBB - 66.
Sendo a Maçonaria exatamente a mesma dos tempos do Papa Clemente
XII, modificar agora a opinião equivocada oficial a seu respeito
seria o mesmo que admitir que os papas que no passado sempre a condenaram
estavam errados, uma hipótese inadmissível para uma
autoridade suprema que se considera infalível.
Conviver pacificamente com a Maçonaria seria para as igrejas
cristãs excepcionalmente fácil. Bastaria simplesmente
que suprimissem oficialmente de suas instruções aos
fiéis as restrições e as condenações,
como por exemplo, as contidas no opúsculo antes citado, cujas
declarações ainda estão em vigor, e onde está
escrito claramente que os maçons ainda continuam a ser excomungados.
O que na verdade as igrejas cristãs pretendem é que
a Maçonaria deixe de ser o que é e se adapte aos desejos
das autoridades eclesiásticas, de acordo com pensamentos
medievalistas que ainda vigoram, infelizmente. O que principalmente
incomoda essas autoridades é o sigilo, que gostariam ver
extinto, pois ele impede a intromissão em nossas lojas. O
opúsculo Estudos da CNDD-66 é bastante claro a esse
respeito ao propor o diálogo entre a Maçonaria e a
Igreja: "Mas um diálogo onde todos se apresentem abertamente,
sem esconder ou disfarçar nada, nem do seu ser nem dos seus
objetivos". Quem estaria escondendo o quê, se as iniciativas
de diálogo sempre partem da própria Igreja?
Vale acrescentar que as religiões cristãs não
católicas que se formaram a partir de dissidências
da Igreja Católica, e cujos primeiros pastores e ministros
certamente já haviam absorvido a danosa cultura antimaçônica,
com raras exceções, seguem a mesma atitude da Igreja
da qual se originaram.
Assim, qualquer movimento para erradicar das comunidades das igrejas
cristãs a cultura antimaçônica somente poderia
ser encetada a partir de superiores hierárquicos do Catolicismo
e de pastores ou dos ministros das demais religiões. É
sobejamente sabido que o contexto popular de um modo geral não
responde a argumentos e pregações lógicos,
mas apenas a apelos e pregações sentimentais de seus
dirigentes religiosos.
Entre os maçons, mesmo entre os que são cristãos,
essas condenações não surtem o efeito esperado
porque os iniciados cedo percebem, através do convívio
com os irmãos em suas lojas, que não há nelas
nada contra religião alguma. Assim as sanções
e as excomunhões caem no vazio e no ridículo. Isso
é comprovado pelo fato de uma alta percentagem dos cinco
milhões de maçons espalhados por toda a Terra serem
membros ativos de igrejas cristãs que condenam a Maçonaria.
Como teria começado essa cultura antimaçônica
e porque estaria ainda muito presente entre o povo cristão
nestes dias finais do segundo milênio?
O primeiro grande passo foi dado pelo Papa Clemente XII no ano de
1738, com sua constituição apostólica In Eminenti
Apostolatus Specula. Os motivos alegados no documento estão
na verdade simplesmente ligados a uma questão de poder civil,
pois não devemos nos esquecer que o papa era, e ainda se
considera assim, o rei dos Estados Pontifícios. Eles ocupavam,
durante todo o século XVIII, a parte central da Itália
atual. Portanto era civilmente um potentado absolutista, que defendia
seu poder com exércitos e manobras políticas e militares
que nada tinham a ver com a defesa da fé. Agia tal qual o
faziam todos os outros potentados. A Maçonaria foi olhada
por aquele papa simplesmente como um possível inimigo do
seu poder e não como inimigo da fé.
Ele condenou a Maçonaria porque outros soberanos já
o haviam feito, porque as suas reuniões secretas poderiam
pôr em perigo o Estado, já que se subtraiam ao poder
de vigilância policial; exigiam juramentos, o que Igreja considera
exclusividade sua; porque o segredo poderia afastar fiéis
do controle pessoal da Igreja e desviá-los da sua "santa
obediência"; e porque "todas essas suspeitas tornavam
os Maçons suspeitos de heresia". A todo este fictício
rol de suspeições está acrescentada esta coisa
muito estranha "...e por outras causas justas e razoáveis
por nós conhecidas", como se estivesse sendo escrito
"e qualquer outra causa que julgarmos conveniente".
Um édito do Cardeal Firrao, de janeiro de 1739, confirmou
a condenação esclarecendo que todos os que tivessem
relacionamento com as lojas maçônicas e com os maçons
pessoalmente seriam excomungados e condenados a morte com o confisco
de seus bens. Era a voz de uma Inquisição felizmente
já enfraquecida.
A condenação papal seguinte foi a constituição
apostólica Providas, do Papa Bento XV, de maio de 1751, que
reproduziu quase integralmente a de Clemente XII. Estas condenações
papais foram seguidas de muitas outras, todas reproduzindo as mesmas
condenações baseadas nas mesmas suspeitas de Clemente
XII. A presença do espírito da Inquisição
está claramente delineada nas atitudes da Igreja contra a
Maçonaria. Mas felizmente o seu poder já declinara
e não permitia mais executar hereges ou suspeitas de heresia.
As notícias dessas condenações papais se espalharam
rapidamente por todo o mundo ocidental cristão, e os eclesiásticos
do primeiro degrau da escala hierárquica, os vigários
e os curas, celeremente trataram de difamar os maçons e a
Maçonaria perante os fiéis de suas paróquias,
dizendo-os mancomunados com o diabo para destruir a Igreja e o Papado.
A mente popular assim insuflada deu asas à sua fantasia e
estabeleceu-se essa cultura antimaçônica tão
conhecida de todos. Muitos, ainda hoje, acreditam piamente que os
maçons ao serem iniciados entregam sua alma ao diabo assinando
com seu próprio sangue um terno de compromisso e outras tolices
mais desse jaez. São coisas tão ignorantes e tolas
que comprometem por demais o conceito de seriedade das autoridades
da Igreja ao não se empenharem decididamente em combatê-las.
Apesar das afirmações em contrário dos representantes
da Igreja, ainda hoje os maçons continuam sob excomunhão,
um resquício medieval que ninguém mais leva a sério,
que nenhum efeito mais produz e que de há muito deveria estar
abolido se as intenções de boa convivência fossem
realmente sérias.
Além das igrejas cristãs também nos países
do mundo ocidental onde imperou o Comunismo foi a Maçonaria
sempre tradicionalmente considerada inimigo público e drasticamente
abafada ou eliminada com o confisco de seus bens e a desapropriação
de suas sedes, com a prisão de seus membros e a eliminação
ou banimento de seus dirigentes. Os motivos alegados pelos governantes
são em tudo semelhantes aos alegados na bula In Eminenti...de
Clemente XII.
Parece haver consenso geral entre os ditadores de que aqueles que
se reúnem discreta ou secretamente devem estar presumivelmente
conspirando contra as autoridades, uma razão muito forte
em regimes ditatoriais. Houve entre esses países uma exceção
honrosa, Cuba, por motivos pessoais de seu mandante supremo, Fidel
Castro.
O Comunismo e as religiões cristãs têm sido
secundados pelos regimes totalitários, como o Nazismo e o
Fascismo, e as ditaduras pró-católicas como as do
Chile, de Portugal e da Espanha. Isso não ocorre nos meios
religiosos não teístas orientais, como no Hinduismo,
Budismo e outros, nem no Islamismo ou no Judaísmo, porque
neles não se estabeleceu uma cultura antimaçônica.
Como o comunismo e os regimes ditatoriais praticamente deixaram
de existir no mundo ocidental, e os governos democráticos
de um modo geral ignoram a existência da Maçonaria,
os problemas do relacionamento Maçonaria/Sociedade estão
atualmente restritos ao mundo do Cristianismo. Dessa forma, os fatos
de aversão à Maçonaria estão bem regionalizados
e delimitados ao Ocidente histórico, ou seja à Civilização
Ocidental Cristã.
Todas essas condenações à Maçonaria
foram deflagradas a partir da entrada da Maçonaria no continente
europeu no segundo quartel do século XVIII (1725-1750). Quando
ainda restrita à Inglaterra, que se subtraíra a influência
de Roma, ela floresceu com liberdade porque nesse país a
Inquisição não mais podia agir. Na Europa continental
esse profundo e forte sentimento de desconfiança e de oposição
à Maçonaria se fixou especialmente entre as pessoas
menos cultas, isto é, aquelas que aceitam com facilidade
e sem prévia análise racional crenças, crendices
e histórias fabulosas.
Estas pessoas menos cultas não estão apenas entre
os analfabetos. Podem ser encontradas em todas as camadas sociais
e em todos os níveis de instrução, desde os
alunos das escolas secundárias até os níveis
universitários mais avançados. Ser culto é
saber usar a razão, e nem todos os homens instruídos,
mesmo os de alto nível, sabem desenvolver a sua racionalidade
com respeito aos elementos de sua tradição cultural.
Para melhor compreender o sentido da expressão tradição
cultural a que nos referimos com certa freqüência, esclarecemos
que assim se compreende o conjunto dos conhecimentos, usos, costumes,
lendas e crenças que se transmitem e se ampliam de geração
em geração, tanto sustentados pelos grupos ou clãs
familiares como por associações civis e pararreligiosas,
mas principalmente pelos apelos de mandatários religiosos.
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