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Do Irm Ambrósio Peters
(
* )
Havia guildas de maçons
na época do rei Athelstan?
Estamos certos que sim.
Este rei - a Historia o confirma amplamente - foi um grande legislador,
um competente e organizado administrador, um exímio general
e também um incentivador da cultura. Suas leis e atos administrativos
atingiam todos os setores da sociedade. Legislou para todos os cidadãos,
civis, militares e eclesiásticos e organizou os serviços
públicos modelarmente.
Parece lógico concluir
que não poderia deixar de ter organizado, em associações
especificas, os numerosos talhadores de pedra do seu reino, os maçons,
colocando-as sob o controle de uma organização central
superior, ou seja, uma grande loja na expressão maçônica
dos dias atuais. Seriam essas as guildas dos maçons de que
fala tão claramente o Manuscrito Régio?
Para confirmar que as guildas
já não eram novidade no inicio do século X,
vejamos o que nos diz o grande historiador Will Durant (14) quando
fala da sua destruição apos a queda do Império
Romano do Ocidente: "Ao norte dos Alpes a destruição
dos antigos collegia foi presumivelmente mais completa do que na
Itália. Não obstante, encontramo-los mencionados nas
leis de Dagoberto (634), nas capitulares de Carlos Magno (779-789)
e nas ordenanças do arcebispo Hincmar, e Reims, (852)."
A Encyclopédia Britannica
confirma essas informações, acresce outras mais detalhadas
e diz que as guildas se desenvolveram em todos os paises da Europa,
mas que as primeiras noticias confirmadas nos vem da Inglaterra,
onde surgiram a partir do século IX, e que são
muito claras na segunda metade desse século, isto é,
no reinado de Alfredo, o Grande.
Que guildas eram essas de que falam historiadores e enciclopédias?
De benemerência, de maçons, de ofícios e artes
ou de mercadores?
Certamente nao se trata
das guildas de mercadores, pois estas urgiram na Inglaterra somente
apos a chegada dos normandos no século XI (1066). Estas guildas
resultaram do rapido crescimento as atividades industriais e comerciais,
que modificaram as relagoes
ercantis sob o dominio dos novos conquistadores.
Também nao se trata
de guildas de artes e oficios, pois de um modo geral estas resultaram
também do desenvolvimento do comércio e da industria.
Ademais, todas as fontes consultadas säo unanimes em informar
que as guildas de artes e oficios surgiram depois do século
XI, ao lado das guildas de mercadores.
Por exclusao, a unica classe
de trabalhadores com maior expressão na Inglaterra de Athelstan
e em condigoes sociais de formar guildas tao organizadas no inicio
do século X era a dos talhadores de pedra, os magons.
Will Durant (15) cita, entre
as muitas realizagöes administrativas de ordem interna de Alfredo,
uma que reputamos muito importante por dizer respeito ao tema de
que nos ocupamos: "Construiu ou reconstruiu cidades e vilas
e erigiu pavilhöes reais e ccimaras com pedra e madeira para
o seu crescente pessoal de governo."
Buscamos outro historiador
renomado, Mario Curtis Giordani (16), que também nos diz
do rei Alfredo: "No terreno rnilitar devemos mencionar a reorganizagao
do exército, a criagao de uma frota de guerra e a construgäo
de fortificagoes. (...) "Mandou reerguer as velhas fortificagoes
das cidades romanas, ..."
Estas citagoes coincidem com um excerto muito semelhante do Manuscrito
Régio que fala de Athelstan:
"Ele construiu para
ela
(a guilda dos maçons)
então sedes e abrigos
e altos templos de grande esplendor
Para alegra-lo dia e noite".
0 manuscrito Historias,
de Layamonr e de Peter, e outras de autor desconhecido do final
do século XI (17), nos informam que muitas guildas, tanto
grandes como pequenas, foram iniciadas por Athelstan, e associam
o rei com a construgao de igrejas no estilo saxonico e de pavilhoes
para reunioes, assembléias etc.
Considerando que as construgöes
eram de pedra talhada e madeira, deve ter havido uma intensa atividade
de talhadores de pedra nos trabalhos de construgao em geral, como
sedes de guildas, templos e fortificagöes ja durante o reinado
de Alfredo, o Grande, atividade que evidentemente se estendeu, como
veremos, aos reinados de seus sucessores imediatos, o filho Eduardo
e o neto Athelstan.
Eram essas guildas regulamentadas?
Entre os muitos manuscritos
que nos chegaram do reinado de Athelstan esta o Judicia Civitatis
Lundonie (18), importante porque é uma fonte primaria que
os historiadores nao costumam questionar. Esse é um conjunto
de leis e regulamentos também referidos por Nicola Aslan
( 19 ) e dele transcrevemos esta citagäo: "Cada mes os
membros da guilda reuniam-se num banquete no qual eram discutidos
seus interesses comuns, a observacäo dos estatutos e outras
questöes semelliantes. No caso da morte de um mernbro, cada
associado devia oferecer um pedago de bom päo para a salvagao
de sua alma e cantar cinquenta salmos no espago de um mes. Todos
os participantes nao deviam se f'iliar a nenhuma outra eram obrigados
a por em comum as suas afeigöes e os seus odios, a
vingar todo insulto feito a um de seus irmaos como se fora feito
a todos."
Do inicio do século
XII, quando o dominio normando mal completava meio século
e sua influencia na industria e comércio ainda nao se fizera
sentir totalmente, e portanto as guildas de oficios e artes e de
mercadores estavam ainda no inicio de sua organizagao,
temos os estatutos das fraternidades de Cambridge, Abbotsbury e
Exeter. Estes estatutos sao importantes porque formariam no futuro
o padräo dos regulamentos das guildas de oficios do continente
e, certamente, da futura Grande Loja de Londres.
A citagao de Aslan nao se
refere as guildas de benemerencia que existiram desde os primeiros
tempos do cristianismo, pois aquelas tinham como principal finalidade
providenciar um enterro decente aos seus associados, e ampara-los
na infelicidade ou na extrema penuria. A citagao nos fala de banquetes
e da discussäo de assuntos de interesse comum, o que nao condiz
com o modelo daquelas guildas, que eram de interesse geral das necessidades
pessoais e nao de uma classe em especial com interesses pecuniarios.
Portanto havia guildas no
reino da Inglaterra nos tempos daquele rei, e rnuitas, pequenas
e grandes, a ponto de se proibir aos associados de se filiarem a
mais de uma, o que supöe uma organizagäo com controles,
o que leva necessariamente a regulamentos e regulamen-
tos exigem assembléias para serem aprovados.
Os membros se reuniam mensalmente
num banquete, tinham estatutos, discutiam em conjunto os interesses
comuns, eram solidarios, fraternos e leais por principio, acertavam
em comum as suas divergencias. Eram tipicamente uma associagäo
de classe, o embriao
de uma loja magonica especulativa atual.
Em se tratando de guildas
da Idade Média e seus regulamentos, surgem imediatamente
a nossa mente os manuscritos medievais.
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