PORTAL MAÇÔNICO

 

 





( * ) Irm Ambrósio Peters.
A R L S "Os Templários"
GOB/Paraná
Or de Curitiba - PR.
Escritor, Historiador Filosofo e Livre Pensador.

Extraído do Livro
Maçonaria História e Filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

( 21) Provavelmente está aí a verdadeira origem do simbolismo da lera "G", inicial de Geometria em todos os principais idiomas do mundo ocidental

 

 

 

 

 

 

 

 

( 22 ) The Regius Poem. Editado por Masonic Service Association of North America Pg 11.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

( 23 ) Hamil J. M. in Short Talk Buletin nº 7 de julho de 1997. O Irm Hamil e membro da Loja Quattuor Coronati nº 2076

 

 

Os Antigos Deveres. - Parte II

Do Irm Ambrósio Peters ( * )

Não se deve portanto descartar a possibilidade de o autor desse documento ter conhecimento das informações contidas no citado documento de 1338, no qual pela primeira vez, depois de quatro séculos, apareceu equivocadamente o Príncipe Edwin como filho do Rei Athelstan. Há apenas um pequeno decurso histórico entre 1338 e 1389. O autor do Manuscrito Régio, certamente manuseando com mais cuidado as crônicas anglo-saxônicas, não acatou a informação de 1338, pela qual Athelstan teria tido filhos, pois que isso contradiz todas as crônicas anteriores.

Certamente crônicas anglo-saxônicas e as tradições eram também conhecidas das autoridades que ordenaram a pesquisa, a deduzir pela análise comparativa referida ao final da citação enciclopédica. Caberia aqui uma busca nos arquivos da Chancelaria Real relativos ao final do século XIV, onde certamente se obteriam preciosas informações adicionais.

Em favor desta tese está o que nos informa a Chambers's Encyclopédia sob o verbete Athelstan¸ onde nos diz que do seu reino foi preservado um considerável número de documentos oficiais, admiravelmente bem elaborados, cuja linguagem e formas mostram que havia então hábeis oficiais copistas junto a funcionários altamente treinados, dando a entender que a história do serviço público civil inglês ali começou.

Não obstante essa quase ligação histórica dos documentos do grupo Antigos Deveres com a história dos primeiros reis da Inglaterra, difundiu-se entre os maçons uma cerca descrença quanto ao seu valor histórico. Isto sucede certamente porque a esmagadora maioria dos pesquisadores se limita quase exclusivamente aos livros do restrito mundo literário maçônico, sem recorrer às bibliotecas não maçônicas, onde encontrariam subsídios históricos mais completos a respeito do Rei Athelstan e do seu legadocultural.

Há ainda a considerar que essa descrença em relação aos manuscritos e a todas as tradições históricas, tanto profanas como maçônicas, anteriores à invenção da imprensa por Gutemberg no século XV, tem outros ingredientes.

Antes da imprensa tipográfica a difusão de livros e manuscritos era feita por cópias manuais, uma a uma, e os copistas não raro acrescentavam aos textos originais não só suas próprias idéias como também o conteúdo de antigas baladas e tradições orais e velhas histórias e contos épicos cantados de cidade em cidade pelos menestréis e jograis.

Outras vezes, ainda, deixavam de copiar partes importantes para apressar o término de tarefa contratada a preço certo.

Nem poderia ser diferente no início da Era Moderna pois, não obstante a nova imprensa tipográfica, a história da humanidade continuava sendo alimentada por tradições orais, lendas e contos fantásticos que se mesclavam aos fatos reais, o que aos poucos foi sendo remediado ao final do século XVIII com o nascimento da Historiografia e da Arqueologia.


Essas eram circunstâncias dramáticas da Idade das Trevas, entre os séculos V e XI (Athelstan reinou no século X), quando os invasores vândalos, em suas incursões, e os reis em suas guerras pela disputa de territórios ou por motivos religiosos, constantemente incendiavam e destruíam completamente as cidades vencidas, com seus castelos, igrejas e mosteiros, sem poupar seus acervos de livros e manuscritos.

Isto era comum na época da Athelstan, quando dinamarqueses, saxões, normandos e viquingues disputavam a posse do solo da Inglaterra entre si ou com outros invasores. Em 927, por exemplo, Athelstan mandou destruir todas as fortalezas dinamarquesas de York, fortalezas que depois teve que reconstruir.

A Descoberta da imprensa foi secundada pelo desenvolvimento da Arqueologia e da Historiografia na preservação dos documentos, como também contribuiu para uma interpretação mais correta dos conteúdos básicos tradicionais da sabedoria humana contidos nos manuscritos antigos. Estas duas ciências foram fundamentais na interpretação das lendas e dos contos dos escritores da antigüidade. Os contos homéricos, por exemplo, antes considerados contos mitológicos tiveram sua veracidade histórica confirmada pelas descobertas arqueológicas levadas a efeito em 1868 por Schliemann (1822-1890).

A partir desse feito arqueológico começaram os historiadores a ver com mais atenção e menos descrença as lendas e os contos mitológicos respeitantes às cidades e às civilizações historicamente passadas.

Isto posto, tentemos analisar ligeiramente uns poucos pontos do Manuscrito Régio, para confirmar nossa certeza de que nem todo o seu conteúdo é lenda e que seu relato está baseado em fatos históricos corretos, embora a tradição lhes possa ter acrescido algumas fantasias.

Chamam nossa atenção dois personagens históricos, o matemático grego Euclides e o rei inglês Athelstan, assim como o fato de os vocábulos Geometria (Geometry), Maçonaria (Masonry) e Arte (Craft) serem sempre empregados como sinônimo.

Lemos logo no início do manuscrito que a Geometria, e portanto a Maçonaria, foi uma instituição fundada por Euclides, que a teria ensinado e difundido por todo o Egito, e em seguida também por toda parte. O relato sempre foi visto como pura fantasia e ainda o é habitualmente, mas nos parece merecer uma consideração mais atenta.

O grande matemático Euclides (450 - 380 a.C.) de fato residiu na Cidade de Alexandria, capital do Egito, junto à mais famosa biblioteca da antigüidade, a Biblioteca de Alexandria que, segundo os historiadores, chegou a reunir quinhentos mil volumes (ou rolos), um número verdadeiramente colossal mesmo para os padrões de hoje.

Ali ele fundou a Escola de Alexandria, anexa à grande biblioteca, na qual ensinava a Geometria. Esta escola foi freqüentada por todos os sábios do mundo conhecido de então, principalmente pelos grandes sábios da Grécia, que difundiram a Geometria por toda parte.

Euclides foi um dos maiores sábios do seu tempo e, em especial, foi o grande sistematizador dos princípios básicos da Geometria, criando métodos que não sofrem contestação há dois mil e trezentos anos e são ainda hoje utilizados nas escolas. Euclides era de fato muito mais um mestre do que um investigador.

Como nas construções se aplicam elementos de Geometria, esta se tornou sinônimos de Arte de Construir, ou de Arte ou de Maçonaria.(21) Concluíram os medievos que, sendo Euclides o pai da Geometria, foi também o fundador da Arte de Construir, da Arte da Maçonaria.

Diz o Manuscrito Régio:

"O Mestre Euclides desta forma fundou esta guilda da Geometria na terra do Egito. (...)
No Egito ele ensinou largamente
Em diversos lugares e por toda parte.
Muitos anos depois, eu o sei,
Antes que esta guilda chegasse a esta terra.
Esta guilda chegou à Inglaterra como lhes digo
Nos dias antigos do bom rei Athelstan".

Há aqui um fato histórico comprovado - Euclides e sua escola de Geometria - dando origem à lenda de que foi ele o fundador da Maçonaria.

Destacamos da citação o excerto "Antes que esta guilda chegasse a essa terra" que figura no original em inglês arcaico "Zer that the craft com ynto thys londe" e em inglês moderno "Ere that the craft came into this land" (zer = ere = before - antes), e em português. "antes que esta guilda chegou a esta terra.." O traslado para o inglês moderno foi feito pelo estudioso maçom Robert H. Baxter. ( 22 )

A expressão "... antes que chegasse a esta terra" parece indicar que a Maçonaria já estava na Inglaterra antes de chegar à terra onde houve a Grande Assembléia. Observe-se primeiro a menção à Inglaterra (England), que permite concluir que a história do manuscrito deve ser posterior ao período inicial do processo de unificação desse país, podendo situar-se perfeitamente no período histórico do reinado de Athelstan, 924 a 940, o primeiro a reinar sobre toda a Inglaterra.

Em segundo lugar, pode significar que o grande fato ocorreu em um território que não pertencia à Inglaterra quando a Maçonaria lá chegou, e somente havia dois territórios importantes nessas condições, a Escócia e a Nortúmbria. A Escócia somente seria anexada definitivamente em 937 e isso nos leva a Nortúmbria, ou à sua capital, York, anexada em 927 pelo rei Athelstan, quando a Inglaterra (Britannia) ainda se constituía só dos reinados reinados de Wessex e da Mércia.

Dessa forma, poderíamos dissecar provavelmente todos os manuscritos do grupo Antigos Deveres e encontrar sob seus textos muitas outras verdades históricas.

Como já vimos, os manuscritos Régio e de Coke não são certamente cópias um do outro. O mesmo não se pode dizer dos manuscritos que os seguiram, e a respeito notemos o seguinte excerto do artigo Masonic Charity:( 23 ). Existe hoje mais de uma centena de versões do século XVIII.

As mais antigas versões têm caráter claramente operativo, mas as tardias têm um conteúdo já fortemente especulativo". Esta observação do Irmão Hamill nos diz qua os manuscritos foram se adaptando aos novos rumos da Maçonaria Moderna e confirma que havia permanentes alterações no texto dos documentos.

Não se pode deicar de considerar o hiato histórico entre os dois primeiros manuscritos - o Régio, de 1389, e o de Coke, do início do século XV - e a provável primeira cópia, a do manuscrito G.L.-I, do final do século XVI (1583).

O Ir. S.C. Aston, nas considerações finais de sua pesquisa, aventa a hipóteses de que os dois primeiros manuscritos, ou cópias deles, ficaram guardados ou esquecidos nas bibliotecas dos mosteiros católicos ingleses.

Com a implantação do Anglicanismo, por Henrique VIII, esses mosteiros foram em sua maioria desativados por uma ordem do Parlamento datada de 1536, sugerida pelo primeiro ministro Cromwell e obviamente seus acervos de manuscritos e suas bibliotecas foram para as bibliotecas do governo ou pararam nas mãos de colecionadores particulares.

A trajétoria do Manuscrito Régio confirma esta última suposição, pois os seus sucessivos proprietários foram John Thomas, John Thayer, Ana Hart Thayer, Robert Scott, que em 1678 o vendeu ao Rei Carlos II, que o incorporou à biblioteca real (daí o nome Manuscrito Régio), cujo acervo foi doada em 1757 ao Museu Britânico.

Durante todo esse tempo, o manuscrito foi considerado um documento de pouco valor. Chegou a ser vendido por alguns shillings e foi recusado pela biblioteca da Universidade de Cambridge, até que em 1839 um não-maçom de nome J. O. Hallivel Phillips o identificou como um documento de interesse maçônico.

Se o documento foi ignorado pela Maçonaria até 1839, parece lógico concluir que não foi ele mas sim o Manuscrito de Coke a origem das cópias dos Antigos Deveres que circularam depois de 1583. Isto torna mais clara a origem da menção de Edwin, filho de Athelstan, no manuscrito G.L.-I, de 1583, cujo copista teve certamente acesso às informações de 1338 sobre a genealogia equivocada do Príncipe Edwin.

O ano de 1583 está muito próximo da data do primeiro registro de um maçom não operativo presente em uma loja maçônica, o ano de 1600.

O surgimento dos primeiros registros de um processo histórico - e o nascimento da Maçonaria Especulativa foi um processo histórico - assinala que ele já estava em andamento anteriormente. Assim, a cópia do manuscrito G.L.-I pode ter sido obra de um dos primeiros maçons especulativos.