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Do Irm Ambrósio Peters
(
* )
Não se deve portanto descartar a possibilidade
de o autor desse documento ter conhecimento das informações
contidas no citado documento de 1338, no qual pela primeira vez,
depois de quatro séculos, apareceu equivocadamente o Príncipe
Edwin como filho do Rei Athelstan. Há apenas um pequeno decurso
histórico entre 1338 e 1389. O autor do Manuscrito Régio,
certamente manuseando com mais cuidado as crônicas anglo-saxônicas,
não acatou a informação de 1338, pela qual
Athelstan teria tido filhos, pois que isso contradiz todas as crônicas
anteriores.
Certamente crônicas
anglo-saxônicas e as tradições eram também
conhecidas das autoridades que ordenaram a pesquisa, a deduzir pela
análise comparativa referida ao final da citação
enciclopédica. Caberia aqui uma busca nos arquivos da Chancelaria
Real relativos ao final do século XIV, onde certamente se
obteriam preciosas informações adicionais.
Em favor desta tese está
o que nos informa a Chambers's Encyclopédia sob o verbete
Athelstan¸ onde nos diz que do seu reino foi preservado um
considerável número de documentos oficiais, admiravelmente
bem elaborados, cuja linguagem e formas mostram que havia então
hábeis oficiais copistas junto a funcionários altamente
treinados, dando a entender que a história do serviço
público civil inglês ali começou.
Não obstante essa
quase ligação histórica dos documentos do grupo
Antigos Deveres com a história dos primeiros reis da Inglaterra,
difundiu-se entre os maçons uma cerca descrença quanto
ao seu valor histórico. Isto sucede certamente porque a esmagadora
maioria dos pesquisadores se limita quase exclusivamente aos livros
do restrito mundo literário maçônico, sem recorrer
às bibliotecas não maçônicas, onde encontrariam
subsídios históricos mais completos a respeito do
Rei Athelstan e do seu legadocultural.
Há ainda a considerar
que essa descrença em relação aos manuscritos
e a todas as tradições históricas, tanto profanas
como maçônicas, anteriores à invenção
da imprensa por Gutemberg no século XV, tem outros ingredientes.
Antes da imprensa tipográfica
a difusão de livros e manuscritos era feita por cópias
manuais, uma a uma, e os copistas não raro acrescentavam
aos textos originais não só suas próprias idéias
como também o conteúdo de antigas baladas e tradições
orais e velhas histórias e contos épicos cantados
de cidade em cidade pelos menestréis e jograis.
Outras vezes, ainda, deixavam
de copiar partes importantes para apressar o término de tarefa
contratada a preço certo.
Nem poderia ser diferente
no início da Era Moderna pois, não obstante a nova
imprensa tipográfica, a história da humanidade continuava
sendo alimentada por tradições orais, lendas e contos
fantásticos que se mesclavam aos fatos reais, o que aos poucos
foi sendo remediado ao final do século XVIII com o nascimento
da Historiografia e da Arqueologia.
Essas eram circunstâncias dramáticas da Idade das Trevas,
entre os séculos V e XI (Athelstan reinou no século
X), quando os invasores vândalos, em suas incursões,
e os reis em suas guerras pela disputa de territórios ou
por motivos religiosos, constantemente incendiavam e destruíam
completamente as cidades vencidas, com seus castelos, igrejas e
mosteiros, sem poupar seus acervos de livros e manuscritos.
Isto era comum na época da Athelstan, quando
dinamarqueses, saxões, normandos e viquingues disputavam
a posse do solo da Inglaterra entre si ou com outros invasores.
Em 927, por exemplo, Athelstan mandou destruir todas as fortalezas
dinamarquesas de York, fortalezas que depois teve que reconstruir.
A Descoberta da imprensa foi secundada pelo desenvolvimento
da Arqueologia e da Historiografia na preservação
dos documentos, como também contribuiu para uma interpretação
mais correta dos conteúdos básicos tradicionais da
sabedoria humana contidos nos manuscritos antigos. Estas duas ciências
foram fundamentais na interpretação das lendas e dos
contos dos escritores da antigüidade. Os contos homéricos,
por exemplo, antes considerados contos mitológicos tiveram
sua veracidade histórica confirmada pelas descobertas arqueológicas
levadas a efeito em 1868 por Schliemann (1822-1890).
A partir desse feito arqueológico começaram
os historiadores a ver com mais atenção e menos descrença
as lendas e os contos mitológicos respeitantes às
cidades e às civilizações historicamente passadas.
Isto posto, tentemos analisar ligeiramente uns
poucos pontos do Manuscrito Régio, para confirmar nossa certeza
de que nem todo o seu conteúdo é lenda e que seu relato
está baseado em fatos históricos corretos, embora
a tradição lhes possa ter acrescido algumas fantasias.
Chamam nossa atenção dois personagens
históricos, o matemático grego Euclides e o rei inglês
Athelstan, assim como o fato de os vocábulos Geometria (Geometry),
Maçonaria (Masonry) e Arte (Craft) serem sempre empregados
como sinônimo.
Lemos logo no início do manuscrito que
a Geometria, e portanto a Maçonaria, foi uma instituição
fundada por Euclides, que a teria ensinado e difundido por todo
o Egito, e em seguida também por toda parte. O relato sempre
foi visto como pura fantasia e ainda o é habitualmente, mas
nos parece merecer uma consideração mais atenta.
O grande matemático Euclides (450 - 380
a.C.) de fato residiu na Cidade de Alexandria, capital do Egito,
junto à mais famosa biblioteca da antigüidade, a Biblioteca
de Alexandria que, segundo os historiadores, chegou a reunir quinhentos
mil volumes (ou rolos), um número verdadeiramente colossal
mesmo para os padrões de hoje.
Ali ele fundou a Escola de Alexandria, anexa à
grande biblioteca, na qual ensinava a Geometria. Esta escola foi
freqüentada por todos os sábios do mundo conhecido de
então, principalmente pelos grandes sábios da Grécia,
que difundiram a Geometria por toda parte.
Euclides foi um dos maiores sábios do seu
tempo e, em especial, foi o grande sistematizador dos princípios
básicos da Geometria, criando métodos que não
sofrem contestação há dois mil e trezentos
anos e são ainda hoje utilizados nas escolas. Euclides era
de fato muito mais um mestre do que um investigador.
Como nas construções se aplicam
elementos de Geometria, esta se tornou sinônimos de Arte de
Construir, ou de Arte ou de Maçonaria.(21) Concluíram
os medievos que, sendo Euclides o pai da Geometria, foi também
o fundador da Arte de Construir, da Arte da Maçonaria.
Diz o Manuscrito Régio:
"O Mestre Euclides desta forma fundou esta
guilda da Geometria na terra do Egito. (...)
No Egito ele ensinou largamente
Em diversos lugares e por toda parte.
Muitos anos depois, eu o sei,
Antes que esta guilda chegasse a esta terra.
Esta guilda chegou à Inglaterra como lhes digo
Nos dias antigos do bom rei Athelstan".
Há aqui um fato histórico comprovado
- Euclides e sua escola de Geometria - dando origem à lenda
de que foi ele o fundador da Maçonaria.
Destacamos da citação o excerto
"Antes que esta guilda chegasse a essa terra" que figura
no original em inglês arcaico "Zer that the craft com
ynto thys londe" e em inglês moderno "Ere that the
craft came into this land" (zer = ere = before - antes), e
em português. "antes que esta guilda chegou a esta terra.."
O traslado para o inglês moderno foi feito pelo estudioso
maçom Robert H. Baxter. ( 22 )
A expressão "... antes que chegasse
a esta terra" parece indicar que a Maçonaria já
estava na Inglaterra antes de chegar à terra onde houve a
Grande Assembléia. Observe-se primeiro a menção
à Inglaterra (England), que permite concluir que a história
do manuscrito deve ser posterior ao período inicial do processo
de unificação desse país, podendo situar-se
perfeitamente no período histórico do reinado de Athelstan,
924 a 940, o primeiro a reinar sobre toda a Inglaterra.
Em segundo lugar, pode significar que o grande
fato ocorreu em um território que não pertencia à
Inglaterra quando a Maçonaria lá chegou, e somente
havia dois territórios importantes nessas condições,
a Escócia e a Nortúmbria. A Escócia somente
seria anexada definitivamente em 937 e isso nos leva a Nortúmbria,
ou à sua capital, York, anexada em 927 pelo rei Athelstan,
quando a Inglaterra (Britannia) ainda se constituía só
dos reinados reinados de Wessex e da Mércia.
Dessa forma, poderíamos dissecar provavelmente
todos os manuscritos do grupo Antigos Deveres e encontrar sob seus
textos muitas outras verdades históricas.
Como já vimos, os manuscritos Régio
e de Coke não são certamente cópias um do outro.
O mesmo não se pode dizer dos manuscritos que os seguiram,
e a respeito notemos o seguinte excerto do artigo Masonic Charity:(
23 ). Existe hoje mais de uma centena de versões do século
XVIII.
As mais antigas versões têm caráter
claramente operativo, mas as tardias têm um conteúdo
já fortemente especulativo". Esta observação
do Irmão Hamill nos diz qua os manuscritos foram se adaptando
aos novos rumos da Maçonaria Moderna e confirma que havia
permanentes alterações no texto dos documentos.
Não se pode deicar de considerar o hiato
histórico entre os dois primeiros manuscritos - o Régio,
de 1389, e o de Coke, do início do século XV - e a
provável primeira cópia, a do manuscrito G.L.-I, do
final do século XVI (1583).
O Ir. S.C. Aston, nas considerações
finais de sua pesquisa, aventa a hipóteses de que os dois
primeiros manuscritos, ou cópias deles, ficaram guardados
ou esquecidos nas bibliotecas dos mosteiros católicos ingleses.
Com a implantação do Anglicanismo,
por Henrique VIII, esses mosteiros foram em sua maioria desativados
por uma ordem do Parlamento datada de 1536, sugerida pelo primeiro
ministro Cromwell e obviamente seus acervos de manuscritos e suas
bibliotecas foram para as bibliotecas do governo ou pararam nas
mãos de colecionadores particulares.
A trajétoria do Manuscrito Régio
confirma esta última suposição, pois os seus
sucessivos proprietários foram John Thomas, John Thayer,
Ana Hart Thayer, Robert Scott, que em 1678 o vendeu ao Rei Carlos
II, que o incorporou à biblioteca real (daí o nome
Manuscrito Régio), cujo acervo foi doada em 1757 ao Museu
Britânico.
Durante todo esse tempo, o manuscrito foi considerado
um documento de pouco valor. Chegou a ser vendido por alguns shillings
e foi recusado pela biblioteca da Universidade de Cambridge, até
que em 1839 um não-maçom de nome J. O. Hallivel Phillips
o identificou como um documento de interesse maçônico.
Se o documento foi ignorado pela Maçonaria
até 1839, parece lógico concluir que não foi
ele mas sim o Manuscrito de Coke a origem das cópias dos
Antigos Deveres que circularam depois de 1583. Isto torna mais clara
a origem da menção de Edwin, filho de Athelstan, no
manuscrito G.L.-I, de 1583, cujo copista teve certamente acesso
às informações de 1338 sobre a genealogia equivocada
do Príncipe Edwin.
O ano de 1583 está muito próximo
da data do primeiro registro de um maçom não operativo
presente em uma loja maçônica, o ano de 1600.
O surgimento dos primeiros registros de um processo
histórico - e o nascimento da Maçonaria Especulativa
foi um processo histórico - assinala que ele já estava
em andamento anteriormente. Assim, a cópia do manuscrito
G.L.-I pode ter sido obra de um dos primeiros maçons especulativos.
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