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Irm Ambrósio Peters (
* )
Há três séries ou grupos de
documentos muito importantes para o estudo da história da
Maçonaria. As crônicas anglo-saxônicas da época
dos reis anglo-saxões e dinamarqueses, instituídas
pelo Rei Alfredo (século IX e XI, e os manuscritos da época
dos reis franceses normandos e angevinos. (séculos XI e XIV);
e os manuscritos dos Antigos Deveres, que começaram no ano
de 1389 com o Poema Régio.
As duas primeiras séries - as crônicas
anglo-saxônicas e os manuscritos medievais que os seguiram
- compõem-se de documentos existentes nos mosteiros e nas
bibliotecas e arquivos públicos ingleses. Em conjunto com
as antigas baladas e canções dos menestréis
e jograis formam a base para o estudo da história do Reino
Unida da Inglaterra. São também a fonte confiável
para o estudo da história da Maçonaria Operativa.
O terceiro grupo, o dos Antigos Deveres, é
também conhecido como as Antigas Constituições
Góticas, ou os Manuscritos das Antigas Constituições,
ou as Constituições Góticas. Segundo uma teoria
geralmente aceita, todos os manuscritos pertencentes ao grupo são
cópias de um único original, o Manuscrito Régio,
também conhecido como o Poema Régio ou Manuscrito
de Haliwell, teoria que nos parece merecer algumas considerações.
Chegaram até nós 119 desses manuscritos,
havendo referências a mais outros 15, que foram perdidos.
Cerca de 75 são anteriores a 1717 e destes 55 são
anteriores a 1700. Quatro foram escritos em torno de 1600, um é
de 1589 (G.L.-I, ou Manuscrito de Lansdowne), um de 1400 ou 1410
(Manuscrito de Coke) e um de 1390 ou 1389 (o Poema Régio),
sendo ou outros de data incerta. Mais de cinqüenta estão
em Londres, treze na Escócia, três nos Estados Unidos,
um no Canadá e um na Alemanha. Há algumas reproduções
impressas, mas a maioria está escrita em folhas de papel
e em pergaminhos com iluminuras ou não. Alguns manuscritos
estão em folhas soltas, em outros as folhas presas e formam
livros, e uma grande parte está em rolos ou enrolada sobre
um suporte.
Estes manuscritos dos Antigos Deveres parece terem
se incorporado às tradições maçônicas
a partir do século XVI com o manuscrito G.L.-I. Há
falta de dados históricos a respeito, mas já a partir
do início do final do século XVII todas as lojas,
tanto as operativas como as já especulativas, deviam possuir
uma cópia, que era sempre lida obrigatoriamente nas sessões
de iniciação e, habitualmente, como instrução
nas sessões comuns.
Porque esses documentos são tão
importantes para as tradições maçônicas?
Certamente devido ao seu conteúdo, um misto
de religião, história fantasiosa e regulamento. Obedecem
a um padrão geral, embora nem todos contenham todos os itens
que a seguir mencionaremos.
Segundo o escritor Wallace Mcleod começam sempre com uma
oração, invocando a Santíssima Trindade, a
Virgem Maria e o Santo Padroeiro da guilda, seguindo-se um rápido
resumo das finalidades e do conteúdo do documento.
Este preâmbulo continua com uma explanação
sobre as Sete Ciências ou Artes Liberais e a tradicional história
fantástica da Geometria, ou da Maçonaria, ou da Arquitetura,
o que tomava cerca da metade de todo o texto.
A história está quase sempre baseada
em passagens bíblicas. Muito resumidamente ela inicia afirmando
que a Arte de Construir foi inventada por Jabal antes do dilúvio
de Noé e que a fundição de metais foi descoberta
por seu irmão Tubal-Caim. Eles souberam que Deus iria a Terra
por causa dos pecados e, para sua preservação, escreveram
os fundamentos da Arte em duas estelas (colunas), que foram encontradas
depois do dilúvio.
A história falando de Nemrod, da Torre
de Babel e de Abraão que chegou ao Egito e lá ensinou
a Arte e as ciências, tendo tido um famoso aluno chamado Euclides.
Segue dizendo que o Rei Daví amava muito os maçons
e como o Rei Salomão construiu o templo com a colaboração
do Rei Hiram e de seu mestre construtor. Diz depois que um homem
que trabalhou na construção do templo do Rei Salomão
chegou à França e ensinou a Arte a Carlos Martel e
que, logo a seguir, a Maçonaria chegou à Inglaterra.
Finalmente, cerca do ano 930 o Príncipe Edwin convocou a
Grande Assembléia de Maçons, em York, estabelecendo
um regulamento, que foi retransmitido até nós.
Este relato não deve ser lido como História,
pois há nele uma fusão de diversas tradições
e um terrível desencontro de datas. Por exemplo, o templo
do Rei Salomão foi construído cerca do século
X a.C. e Carlos Martel foi rei de França no século
VII d.C. Como poderiam trabalhadores do templo chegar à França,
que ainda nem existia, e transmitir algo a Carlos Martel, que viveria
quase 1700 anos depois?
É necessário considerar que no tempo
em que os manuscritos foram redigidos a história da humanidade
ainda não fora escrita nem era conhecida a ciência
da Historiografia. O mais antigo dos manuscritos do grupo Antigos
Deveres é o Manuscrito Régio, cujo original data provavelmente
de 1389 (algumas fontes dizem 1390). Seu conteúdo se enquadra
perfeitamente no esquema geral dos manuscritos do século
XIV. A maior parte do seu texto é ocupada pelos Antigos Deveres
e está em inglês medieval, ( 20) com o cabeçalho
e todas as chamadas dos diversos capítulos e títulos
ainda em latim clássico. As chamadas em latim e a forma poética
com rimas qualificam o seu autor como uma pessoa de bom nível
cultural para a época. Assim, mesmo que não seja do
ano de 1389 (ou 1390), o manuscrito original não é
anterior ao século XIV. A forma poética era de uso
corrente na Idade Média.
Portanto, sendo o autor uma pessoa culta, certamente
estava ligado a um mosteiro ou a uma universidade, como o estavam
todas as pessoas daquele tempo. Tinha fácil acesso ao acervo
cultural que via de regra se mantinha nesses institutos, inclusive
aos registros das crônicas anglo-saxônicas e a toda
a coleção de atos, regulamentos e leis do Rei Athelstan.
Estas crônicas e estes documentos talvez sejam as mais importantes
fontes de consulta para a história da Maçonaria, pois
foram iniciadas por determinação do Rei Alfredo, o
Grande.
Com possível relação com
a origem do Manuscrito Régio e possivelmente com o Manuscrito
Coke, encontramos na Encyclopédia Britannica esta anotação
sob o verbete "Guilds": "Em 1388 o Parlamento ordenou
a cada administrador de condado na Inglaterra que determinasse que
os mestres e os vigilantes das guildas e das fraternidades remetessem
ao Conselho do Rei, junto à Chancelaria, antes de 2 de fevereiro
de 1389, informações completa sobre sua fundação,
seus regulamentos e suas propriedades. Isto trouxe muita luz sobre
o funcionamento das guildas. Seus regulamentos eram similares aos
das acima mencionadas fraternidades anglo-saxônicas.
O conteúdo desses mencionados regimentos
das fraternidades anglo-saxônicas, segundo a Chamber's Encyclopédia,
eram a solidariedade, a fraternidade, o socorro mútuo, o
auxílio funeral, o amparo às viúvas e assistência
aos irmãos estrangeiros.
O Manuscrito Régio costuma ser datado de
1389, o mesmo ano marcado pelo Parlamento para a resposta sobre
as fraternidades (2 de fevereiro de 1389). Essa incrível
coincidência de datações não será
certamente mero acaso e nos leva à fundamentada hipótese
de que o documento é seguramente uma das respostas àquela
ordem do Parlamento e não cópia de algum documento
anterior, como por vezes se supõe. Todo o conteúdo
do Manuscrito Régio se constitui de informações
colhidas nos antigos manuscritos dos mosteiros e das universidades.
Da mesma forma o Manuscrito de Coke (cerca de
1410), sempre tido como cópia modificada do Manuscrito Régio,
pode o não ser, mas sim cópia da resposta dada por
outra guilda àquela ordem do Parlamento. Isto explicaria
aceitavelmente o porquê de esse manuscrito trazer informações
não contidas no Manuscrito Régio, como as atinentes
a um filho de Athelstan.
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