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Do Irm Ambrósio
Peters (
* )
Em 1717 foi oficializada a existência do Sistema Organizacional
da nossa Maçonaria Especulativa com a fundação
da primeira Potência, a Grande Loja de Londres. Este sistema,
que passou a ser universalmente adotado, jurisdiciona todas as Lojas
regulares a um poder regional denominado Potência,
todas permanecendo porém independentes e autônomas.
Dizemos que foi oficializada a existência porque, havendo
Lojas para se reunir, certamente havia já antes uma a Maçonaria
especulativa. No início do século XVIII o pensamento crítico
moderno também estava acabando de nascer e já firmava
suas raízes no seio da classe culta do continente europeu.
Com essa nova diretriz filosófica, a do livre pensamento,
tomava corpo a tese do Deísmo como contestação
ao conceito Teísta tradicional.
O pensamento crítico moderno, do qual Giordano Bruno é
quase unanimemente considerado o fundador, dominava a indubitavelmente
entre os fundadores da Grande Loja de Londres, e continuou a ser
o ideal dos que procuraram as Lojas Maçônicas no século
seguinte, especialmente na França. Na Maçonaria Francesa
ingressaram grandes luminares da ciência e da literatura,
como Benjamim Franklin, Lafayette, Rousseau, Voltaire, Diderot,
e todos os renomados Enciclopedistas.
A Maçonaria era um reduto dos intelectuais que buscavam
um ambiente onde pudessem expor suas idéias a coberto das
ações dos governos autoritários e das interveniências
da Igreja através de sua Inquisição. Também
aí encontravam interlocutores a altura para seus diálogos
em torno de suas idéias inovadoras. Os recintos reservados
das Lojas eram o lugar ideal, protegidas contra os intolerantes
e contra a nefasta ignorância ativa da maioria dos homens
públicos.
A Maçonaria daquela época era, como o define o final
do artigo primeiro da Constituição de 1723, um verdadeiro
lugar de formação de sólidos e confiáveis
elos de fraternidade entre pessoas que sem ela teriam permanecido
perpetuamente distantes. Com o rápido crescimento se reuniu
na Maçonaria uma elite de homens cultos, e então sentiram
como Irmãos que poderiam influenciar no destino das nações
e interferir positivamente nas mudanças que se estavam processando
na sociedade civil. Esse foi o grande passo da Maçonaria
que assumiu o seu grande papel por todo o século XIX. Essa
era a sua grande meta oficial, e que não foi bem vista pelos
líderes religiosos, porque são as mudanças
sociais o bicho papão dos sistemas religiosos, cuja estabilidade
repousas essencialmente na preservação das tradições.
Naqueles tempos um grupo coeso de cidadãos líderes
dispostos a luta podia modificar a estrutura política e social
de países e nações. Há grandes exemplos
na América, como o Gal, San Martin, e muitos outros próceres
que lutaram pelo desenvolvimento e pela independência de países
latino-americanos. Tivemos um exemplo clássico também
aqui ao nosso lado, no Brasil, quando Lojas Maçônicas
do Rio de Janeiro encamparam os ideais libertários, e tiveram
um papel decisivo e preponderante na solução final
positiva da independência brasileira.
As estruturas dos sistemas de governo mudaram universal e radicalmente
neste século. O nascimento das democracias, um dos ideais
de nossa Ordem, tornou praticamente inviáveis grandes projetos
de mudanças de sistemas governamentais por ação
de líderes isolados ou de pequenos grupos de pessoas dinâmicas.
Dificilmente um San Martin, um Bolivar, ou mesmo uma Loja Maçônica,
ainda que composta de homens influentes e poderosos, teria hoje
a força social necessária para obter êxitos
como o da Independência do Brasil. A classe dominante deixou
de ser de homens socialmente bem colocados e legitimamente representativos,
para passar a ser uma categoria de políticos sem liderança
legítima, meros caçadores de votos em sua maioria,
e pouco influenciáveis por idealismos nobres, já que
no primeiro plano dos seus interesses figuram sempre os resultados
das urnas. As grandes causas do interesse nacional não são
o móvel de seus atos. Quando de reformas fundamentais na
sociedade jamais alguém pergunta se o que está fazendo
é bom para o Brasil.
Com isso, a maçonaria se recolheu ao interior de suas Lojas
e hipoteticamente assumiu o papel de escola de moral e se voltou
para o desenvolvimento cultural do próprio homem que, assim
moldado no cadinho das Lojas, se tornaria num atuante homem pela
sua ação pessoal junto ao seu meio social, e um fautor
de mudanças sociais. Essa substituição de metas
sociais globais e públicas por um envolvimento cultural do
próprio homem não foi de todo adequadamente conduzida
em termos práticos. Houve nesse processo uma guinada em direção
a mediocridade e a acomodação. Um homem só
precisa de muito mais coragem e fé si mesmo para ser bem
sucedido.
Deixando de relembrar quase liricamente um passado de glórias
externas passamos a vangloriar-nos de ser uma escola de aperfeiçoamento
moral e pessoal, e nosso orgulho passou a ser a nossa condição
de uma associação fraternal socialmente ativa. Os
nossos Irmãos, é verdade, não se tornaram por
isso menos nobres, menos probos, menos fraternos, ou menos socialmente
ativos. A Maçonaria continua a ser uma associação
de homens moralmente sadios e bem formados. Essas qualidades no
entanto já se trouxeram quando foram iniciados e não
são o fruto de um engajamento positivo em favor do progresso
intelectual ou do aperfeiçoamento moral.
Uma meta substituta da ação extrema de luta por mudanças
sociais, numa sociedade que se desagrega mais a cada dia que passa,
deveria ter sido desde logo estabelecido como alternativa para os
ideais de ação pública dos primeiros tempos.
Um envolvimento decidido num metódico processo cultural no
recesso de nossas Lojas se torna absolutamente urgente e necessário
em termos práticos. |