Página ou Portal Maçônico








 

( * )Irm Ambrósio Peters.

Saudoso Irm Escritor, Historiador Filosofo e Livre Pensador. Viveu em Curitiba - PR.

Extraído do livro "ANTOLOGIA MAÇÔNICA"
do mesmo Autor

 

 

Leia também clique no
Símbolo que antede


Amanhã



II - Falta de envolvimento sério das Lojas


III - Abrandamento dos critérios de seleção de candidatos.


IV - Falta de uma análise competente.


V - Exaltação de ideais que não são atingidos

I - Ausência de uma definição precisa de Metas

 

 

Do Irm Ambrósio Peters ( * )

 


Em 1717 foi oficializada a existência do Sistema Organizacional da nossa Maçonaria Especulativa com a fundação da primeira Potência, a Grande Loja de Londres. Este sistema, que passou a ser universalmente adotado, jurisdiciona todas as Lojas regulares a um poder regional denominado “Potência”, todas permanecendo porém independentes e autônomas. Dizemos que foi oficializada a existência porque, havendo Lojas para se reunir, certamente havia já antes uma a Maçonaria especulativa.

No início do século XVIII o pensamento crítico moderno também estava acabando de nascer e já firmava suas raízes no seio da classe culta do continente europeu. Com essa nova diretriz filosófica, a do livre pensamento, tomava corpo a tese do Deísmo como contestação ao conceito Teísta tradicional.

O pensamento crítico moderno, do qual Giordano Bruno é quase unanimemente considerado o fundador, dominava a indubitavelmente entre os fundadores da Grande Loja de Londres, e continuou a ser o ideal dos que procuraram as Lojas Maçônicas no século seguinte, especialmente na França. Na Maçonaria Francesa ingressaram grandes luminares da ciência e da literatura, como Benjamim Franklin, Lafayette, Rousseau, Voltaire, Diderot, e todos os renomados Enciclopedistas.

A Maçonaria era um reduto dos intelectuais que buscavam um ambiente onde pudessem expor suas idéias a coberto das ações dos governos autoritários e das interveniências da Igreja através de sua Inquisição. Também aí encontravam interlocutores a altura para seus diálogos em torno de suas idéias inovadoras. Os recintos reservados das Lojas eram o lugar ideal, protegidas contra os intolerantes e contra a nefasta ignorância ativa da maioria dos homens públicos.

A Maçonaria daquela época era, como o define o final do artigo primeiro da Constituição de 1723, um verdadeiro lugar de formação de sólidos e confiáveis elos de fraternidade entre pessoas que sem ela teriam permanecido perpetuamente distantes. Com o rápido crescimento se reuniu na Maçonaria uma elite de homens cultos, e então sentiram como Irmãos que poderiam influenciar no destino das nações e interferir positivamente nas mudanças que se estavam processando na sociedade civil. Esse foi o grande passo da Maçonaria que assumiu o seu grande papel por todo o século XIX. Essa era a sua grande meta oficial, e que não foi bem vista pelos líderes religiosos, porque são as mudanças sociais o bicho papão dos sistemas religiosos, cuja estabilidade repousas essencialmente na preservação das tradições.

Naqueles tempos um grupo coeso de cidadãos líderes dispostos a luta podia modificar a estrutura política e social de países e nações. Há grandes exemplos na América, como o Gal, San Martin, e muitos outros próceres que lutaram pelo desenvolvimento e pela independência de países latino-americanos. Tivemos um exemplo clássico também aqui ao nosso lado, no Brasil, quando Lojas Maçônicas do Rio de Janeiro encamparam os ideais libertários, e tiveram um papel decisivo e preponderante na solução final positiva da independência brasileira.

As estruturas dos sistemas de governo mudaram universal e radicalmente neste século. O nascimento das democracias, um dos ideais de nossa Ordem, tornou praticamente inviáveis grandes projetos de mudanças de sistemas governamentais por ação de líderes isolados ou de pequenos grupos de pessoas dinâmicas.

Dificilmente um San Martin, um Bolivar, ou mesmo uma Loja Maçônica, ainda que composta de homens influentes e poderosos, teria hoje a força social necessária para obter êxitos como o da Independência do Brasil. A classe dominante deixou de ser de homens socialmente bem colocados e legitimamente representativos, para passar a ser uma categoria de políticos sem liderança legítima, meros caçadores de votos em sua maioria, e pouco influenciáveis por idealismos nobres, já que no primeiro plano dos seus interesses figuram sempre os resultados das urnas. As grandes causas do interesse nacional não são o móvel de seus atos. Quando de reformas fundamentais na sociedade jamais alguém pergunta se o que está fazendo “é bom para o Brasil”.

Com isso, a maçonaria se recolheu ao interior de suas Lojas e hipoteticamente assumiu o papel de escola de moral e se voltou para o desenvolvimento cultural do próprio homem que, assim moldado no cadinho das Lojas, se tornaria num atuante homem pela sua ação pessoal junto ao seu meio social, e um fautor de mudanças sociais. Essa substituição de metas sociais globais e públicas por um envolvimento cultural do próprio homem não foi de todo adequadamente conduzida em termos práticos. Houve nesse processo uma guinada em direção a mediocridade e a acomodação. Um homem só precisa de muito mais coragem e fé si mesmo para ser bem sucedido.

Deixando de relembrar quase liricamente um passado de glórias externas passamos a vangloriar-nos de ser uma escola de aperfeiçoamento moral e pessoal, e nosso orgulho passou a ser a nossa condição de uma associação fraternal socialmente ativa. Os nossos Irmãos, é verdade, não se tornaram por isso menos nobres, menos probos, menos fraternos, ou menos socialmente ativos. A Maçonaria continua a ser uma associação de homens moralmente sadios e bem formados. Essas qualidades no entanto já se trouxeram quando foram iniciados e não são o fruto de um engajamento positivo em favor do progresso intelectual ou do aperfeiçoamento moral.

Uma meta substituta da ação extrema de luta por mudanças sociais, numa sociedade que se desagrega mais a cada dia que passa, deveria ter sido desde logo estabelecido como alternativa para os ideais de ação pública dos primeiros tempos. Um envolvimento decidido num metódico processo cultural no recesso de nossas Lojas se torna absolutamente urgente e necessário em termos práticos.