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AMBRÓSIO PETERS * *
CURITIBA, quarta-feira, 5 de julho de 1995
A figura do Príncipe Edwin se tornou maçonicamente
importante e se incorporou às tradições
da Ordem depois que seu nome apareceu no texto do manuscrito
G.L.-I. Este documento o ligou à Grande Assembléia
de Maçons e a uma primeira regulamentação
da Maçonaria na cidade de York.
A falta ou o desconhecimento de dados históricos acabou
levando à desconfiança de sua existência,
e aos poucos ele passou a ser considerado uma figura lendária,
passando a ser lembrado assim em alguns meios maçônicos.
Em virtude disso considerou-se que sua presença na Maçonaria
poderia ser o resultado de uma confusão com o Rei Edwin,
o conhecido Santo Eduino, que entre 585 a 633 fora rei da Nortúmbria,
cuja capital era York.
O tema da confirmação histórica da existência
do Príncipe Edwin empolga os escritores maçônicos
porque dessa confirmação praticamente depende
a legitimidade dos Antigos Deveres, que se tornaram a base das
regulamentações da Maçonaria Moderna depois
que James Anderson os tomou como modelo para elaborar o Livro
das Constituições da Grande Loja de Londres.
Um elemento complicador adicional foi a menção
no manuscrito de que Edwin seria filho mais novo do Rei Athelstan.
Contrariando essa informação, nos diz a Encyclopédia
Britannica que Athelstan nunca se casou e nem deixou descendência.
Na árvore genealógica levantada por S.C. Aston
(10) com base nas fontes primárias das crônicas
anglo-saxônicas, não há lugar para filhos
de Athelstan.
A história de um Príncipe Edwin filho de Athelstan
parece ter surgido pela primeira vez no ano de 1338, na História
(11) de Robert Manning que, escrevendo em inglês medieval,
provavelmente tenha interpretado mal alguns documentos anteriores
escritos em latim.
Mas nos dizem as antigas crônicas anglo-saxônicas
que existiu um príncipe de nome Edwin (Atheling Edwin
= Príncipe Edwin), segundo filho do Rei Eduardo, o Antigo,
com sua segunda mulher Aelflaed, e portanto meio-irmão
de Athelstan, não filho.
Esse Príncipe Edwin foi condenado por seu irmão,
o Rei Athelstan, à morte por afogamento, sentença
cumprida no ano de 933. É indiscutível a existência
desse príncipe tanto quanto é indubitável
o fato do seu afogamento, pois que os relatos atinentes foram
mantidos ininterruptamente através de todas as crônicas,
manuscritos e tradições medievais. Contudo os
motivos de sua condenação, o lugar exato do seu
afogamento e a maneira como foi jogado ao mar, ou ao rio, não
figuram nas crônicas anglo-saxônicas originais e
nos foram legadas apenas através de tradições
orais.
O escritor medieval William Malmesbury, em seus livros De Gestis
Regum Anglorum e De Gestis Pontificum Anglorum, de 1125 e 1135,
dizendo basear-se em antigas baladas e contos anglo-saxônicos,
afirma que Edwin foi acusado de alta traição por
alguns nobres da corte de Londres, insuflados por Eadred (Edredo),
e que Athelstan o condenou à morte por afogamento e o
mandou para o mar alto em um velho barco sem remos, acompanhado
de um pajem (12). Chegado ao mar alto ele próprio se
teria jogado à água e morrido afogado. O pajem
teria, antes de partir para sua macabra missão, recebido
ordens de deixar o barco e o corpo do seu mestre em frente à
costa francesa próxima a Vissant.
Imediatamente depois Athelstan, tendo se acalmado e refletido
melhor, teria percebido o seu engano e mandado executar todos
os delatores, auto-impondo-se uma penitência por sete
anos. Mera coincidência ou não, o rei morreria
sete anos depois.
No século XIV, século do surgimento do Poema Régio,
surgiu outra versão da execução do Príncipe
Edwin. Diz que ele, suspeito de traição, teve
seus pés e mãos atados e foi jogado às
águas do rio Tâmisa (13).
Confirmando o fato e o arrependimento de Athelstan se encontra
no manuscrito Chronica Maiora et Flores Historiarum, de Mathew
Paris, do século XIII, que Athelstan mandou construir
os monastérios de Middleton e Michelton pela alma de
seu irmão Edwin.
Que fatos teriam levado Athelstan a acreditar na suspeita de
traição levantada pelos delatores de Edwin. Na
verdade não o sabemos, porque as crônicas anglo-saxônicas
são omissas a respeito. O crime de traição
ao rei era sempre inapelável e sumariamente punido com
a morte por toda a Idade Média, o que prova que Athelstan
acreditou na acusação.O príncipe foi punido
sumariamente, tanto que Athelstan só percebeu o seu erro
quando a sentença já fora cumprida. Isto parece
estar de acordo com o caráter impulsivo e intempestivo
de rei guerreiro que Athelstan era.
Aqui é lícito levantar uma hipótese. A
linha sucessória dos reis saxônicos, se observarmos
as sucessões ocorridas, já para os filhos em ordem
de idade. O segundo filho de Eduardo, Ealfweard, já morrera
em condições não esclarecidas. O sucessor
de Athelstan seria então Edwin, seguido por Edmundo e
depois por Edredo. Estes dois últimos, que eram amigos
e companheiros de Athelstan no campo de batalha, teriam interesse
evidente na morte de Edwin. E provável que tenha existido
essa calúnia de traição urdida por Edredo,
com a colaboração dos nobres da corte de Londres,
como falam as tradições.
Mas porque Athelstan teria acreditado tão rapidamente
na traição de Edwin. Se dermos crédito
à Lenda de York, pela qual Edwin recebera de seu irmão
e rei carta branca para organizar o numeroso grupo dos profissionais
construtores, e que sua atuação o conduzira à
liderança, tornando-o uma pessoa importante no reino,
já temos um motivo bastante para despertar a inveja dos
nobres da corte e a desconfiança do rei, e levá-lo
a aceitar a calúnia como verdade. É conhecido
que os reis medievais tanto mais tempo permaneciam no trono
quanto mais rápidos e desconfiados eram em suas medidas
preventivas contra traidores.
É historicamente inegável, porém, que houve
um rei poderoso de nome Athelstan, que houve um príncipe
chamado Edwin, filho do Rei Eduardo, o Antigo, e irmão
do rei Athelstan, e que foi sucessivamente sucedido por seus
irmãos Edmundo e Edredo. Portanto os dois principais
personagens envolvidos na Lenda de York, Athelstan e Edwin,
são figuras históricas reais.
Para que a lenda de York tenha consistência é indispensável
que além disso já houvesse também guildas
organizadas de maçons no reinado de Athelstan.
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