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De Ambrósio
Peters (*)
Introdução A história da Maçonaria
deve ser estudada em dois períodos distintos: o dos maçons
operativos, que se inicia no século X com o Rei Athelstan,
e o dos maçons modernos, que começa oficialmente no
início do século XVIII com a fundação
da Grande Loja de Londres, mas resulta de um processo histórico
ocorrido nos três séculos anteriores. Esses dois períodos
se sobrepuseram, portanto, nos séculos XVI, XVII e XVIII,
constituindo uma época intermediária de transformação
conhecido entre os pesquisadores da Maçonaria como "Transição".
Os maçons operativos foram os mestres e os operários
construtores da Idade Média, associados em guildas, os verdadeiros
artistas que ergueram as majestosas catedrais românicas e
góticas, os grandes castelos e as fortificações,
verdadeiros monumentos arquitetônicos que ainda hoje podem
ser admirados em tantas cidades da Europa.
As suas guildas medievais se comparam de certa forma aos sindicatos
modernos, pois tinham como principal finalidade proteger os interesses
da classe dos artistas construtores. Estes passaram a ser chamados
de maçons operativos a partir da Idade Moderna, para serem
distinguidos dos maçons modernos, também conhecidos
como maçons especulativos.
Embora essas duas maçonarias sejam absolutamente distintas
e diferentes em sua essência e em seus propósitos sociais,
e uma não seja a sucessora direta da outra, o estudo de suas
histórias deve ser feito em continuidade, porque a Maçonaria
Especulativa preservou todas as tradições culturais
da Maçonaria Operativa, como os deveres dos associados, os
regulamentos, os rituais, os simbolismos e, principalmente, o sentimento
de solidariedade e fraternidade. Por essa circunstância iniciamos
o estudo da história da Maçonaria Moderna pelo estudo
dos maçons operativos e de suas guildas.
Considerando-se que as primeiras notícias históricas
da existência de guildas nos vêm da Inglaterra do século
IX, é necessário que as pesquisas partam daquele século
e centrem-se no estudo das guildas dos maçons (operários
construtores) e nos primeiros reis da Inglaterra.
O primeiro nome a chamar a atenção dos escritores
maçônicos foi o Rei Athelstan, que ganhou destaque
nos meios literários maçônicos ao ser mencionado
como fundador da Maçonaria nos manuscritos conhecidos na
história como Old Charges [Antigos Deveres].
Pessoalmente, tomamos conhecimento da existência do Rei Athelstan
através do Manuscrito Régio e também pelo livro
A Maçonaria Operativa, do judicioso escritor maçônico
Nicola Aslan(1), que por duas ou três vezes o citou superficialmente
como um rei inglês de pouco interesse histórico, quase
lendário.
Nos antigos manuscritos citados é mencionada pela primeira
vez oficialmente, na história da Maçonaria, a Grande
Assembléia de Maçons(2), ou seja, a conhecida Lenda
de York.
Assim o nome de Athelstan despertou nossa curiosidade como personagem
histórico, e isto nos levaria à pesquisa de um fascinante
período da história, o mundo medieval das guildas
dos profissionais talhadores da pedra, e à certeza de que
já têm hoje mais de mil anos os nossos tradicionais Antigos Deveres, que foram a base para a elaboração
do Regulamento Geral e dos Deveres de um Maçom, as
partes mais importantes do Livro das Constituições
da Grande Loja de Londres, oficializado em janeiro de 1723.
Dispondo de escassas e pouco informativas fontes maçônicas
para nossas pesquisas sobre o Rei Athelstan, dirigimos nossa atenção
para fontes não maçônicas e encontramos então
amplas referências a seu respeito no Grolier Multimedia
Encyclopedia, na Encyclopedia Britannica, na Chambers's Encyclopedia,
na História do Mundo Feudal de Mário Curtis Giordani(3),
e evidentemente as poderíamos encontrar em muitas outras
fontes mais.
Tivemos assim através das enciclopédias Britannica
e Chamber's também um primeiro contato com as crônicas
anglo-saxônicas iniciadas ao final do século IX pelo
Rei Alfredo. Já lamentávamos a impossibilidade de
acesso a essas crônicas citadas como fontes primárias
nas enciclopédias consultadas, quando inesperadamente nos
chegou uma preciosa informação, através de
dois trabalhos de autores ligados à Loja Quatuor Coronati,
os Irmãos Wallace Mcleod(4) e S. C. Aston(5).
Essas fontes cruzadas, as maçônicas e as profanas,
nos trouxeram no conjunto um cabedal de seguras informações
históricas sobre essa figura ímpar que foi o Rei Athelstan
e, de sobejo, também sobre a Lenda de York, o príncipe
Edwin e a Grande Assembléia de Maçons, e isso confirmou
nossa convicção de que não se pode escrever
sobre história da Maçonaria sem recorrer também
às fontes profanas.
Concluímos, ainda, que tanto as guildas de benemerência
como as guildas dos maçons operativos merecem um estudo à
parte das demais guildas de artes e ofícios e das guildas
de mercadores da Idade Média. A partir daí nos convencemos
de que a história de uma primeira regulamentação
das guildas dos maçons no reinado de Athelstan, a que os
manuscritos se referem, com muita definição, têm
bases históricas seguras, ainda que a multissecular tradição
maçônica possa ter-lhes acrescentado algumas fantasias.
Outra constatação que fizemos foi a de que os documentos
mais antigos que se referem à Maçonaria não
são os primeiros manuscritos dos Antigos Deveres, como por
vezes se pretende, mas sim as crônicas anglo-saxônicas
iniciadas no tempo do Rei Alfredo, avô de Athelstan, isto
é, ao final do século IX. Não se pode no entanto
deixar de considerar que foram esses manuscritos que introduziram
nas tradições maçônicas a noção
de sua antigüidade.
Essas considerações iniciais nos mostram uma profunda
relação entre o surgimento da Maçonaria Operativa
e o despertar do Reino Unido da Inglaterra ao final do Século
IX e início do século X. Detenhamo-nos pois no estudo
desse período histórico para melhor conhecer o Rei
Athelstan. |