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Irm Ambrósio Peters. ( * )
As definições corretas sempre deveriam
ser o primeiro passo ao se pretender partir para um estudo mais
aprofundado de qualquer tema complexo e controverso. Veremos no
correr desta obra que o estudo da Maçonaria é realmente
complexo e controverso.
O primeiro passo para se chegar a uma definição clara
é estudar a Maçonaria como um todo, evitando analisá-la
somente face ao comportamento isolado de grão-mestres, de
maçons individualmente, ou face a atividades de lojas maçônicas
consideradas isoladamente.
Obstáculos a uma correta definição são
também as mistificações, os preconceitos e
as lendas que continuam a distorcer significativamente o ideal maçônico
perante o grande público, obstáculos que só
poderiam ser superados e removidos por um profundo conhecimento
da história e dos princípios essenciais da Ordem.
Essas são razões que conduzem à necessidade
de se procurar definir a Maçonaria começando pelo
método da eliminação, isto é, dizendo
primeiramente o que ela não é, ou seja, que ela não
é uma religião, não é uma facção
política, não é uma associação
de socorros mútuos tampouco é uma sociedade formal.
Em primeiro lugar a Maçonaria não é uma religião
porque os seus adeptos não são obrigados a pertencer
a alguma religião organizada nem a adotar preferencialmente
alguma corrente filosófico-teológica. Isto porém
não a impede de recomendar a todos os maçons que sejam
absolutamente conscientes de suas crenças e cumpram todos
os deveres religiosos assumidos em razão de sua fé,
qualquer que ela seja.
É oportuno observar que há potências maçônicas
(veremos logo adiante o que é uma potência maçônica)
que exigem dos candidatos à iniciação a crença
em um Ser Supremo e na sobrevivência do espírito, embora
não definam uma concepção oficial para esse
Ser Supremo nem como e onde se dará essa sobrevivência
do espírito, definições que são deixadas
à opção individual. Não é meta
da Maçonaria interferir nas convicções religiosas
de seus membros ou fiscalizar os seus procedimentos frente a suas
crenças. Ela apenas insiste em que todos sejam plenamente
conscientes de sua opção.
Dessa forma não tem sentido a acusação de muitas
religiões cristãs de que a Maçonaria é
contra a religião e que prega um conceito de Deus difuso,
em outras palavras, que prega um Deus incorpóreo e ilimitado
no tempo e no espaço. Recomenda-se a cada maçom que
busque incessantemente a verdade e que, encontrando-a, a assuma
conscientemente, ou pela fé ou pela razão, seja em
que religião concepção filosófico-teológica
for, seja qual for a concepção de Deus preferida,
politeísta, monoteísta, deísta. iluminista,
panteísta etc.
Essa neutralidade religiosa no interior das lojas maçônicas
é assumida para evitar que irmãos possam mutuamente
tentar se influenciar, provocando desavenças pessoais ou
abalando a segurança da fé e das convicções
pessoais dos outros. Uma interação mútua assim
poderia dar margem ao proselitismo religioso ou político,
uma prática absolutamente condenada pela Maçonaria
em seu seio.
A Maçonaria também não é um partido
político e nem esposa alguma teoria política em particular,
embora demonstre predileção pelos sistemas democráticos
e se manifeste contrária a tudo o que possa limitar as liberdades
individuais. Isto evidentemente não significa que significa
que proíba aos seus membros que pertençam a partidos
políticos ou que se dediquem a atividades políticas
de modo sadio, patriótico e coerente.
Ao contrário, recomenda a todos os maçons que, individual
ou coletivamente, colaborem ativamente em todas as promoções
sociais de seu país, do seu partido, de sua religião,
de sua associação, enfim, de sua coletividade.
A Maçonaria não aceita como membros os políticos
que se pronunciam a favor de correntes político-doutrinárias
totalitárias, como o Comunismo, o Fascismo e o Nazismo, ou
que colaborem com ditadores e tiranos que suprimam as liberdades
individuais, nem os que se opõem à Maçonaria.
Dessa forma vemos que, quando a Maçonaria proíbe que
sejam tratados temas religiosos e políticos no seio de suas
lojas e templos, ela simplesmente o faz para evitar a desarmonia
entre os irmãos. A História nos mostra que a maior
parte das guerras e genocídios que em todos os tempos afligiram
a humanidade aconteceu por motivos religiosos e/ou políticos.
Ainda hoje vemos exemplos em muitas partes.
Fica pois evidente que a Maçonaria não é contrária
à religião nem à política. Sendo as
suas lojas formadas de modo geral por pequenos grupos de irmãos,
a maioria cristãos( 1 )e líderes em suas comunidades,
se torna imperioso evitar o encontro frontal entre correntes religioso-políticas
divergentes, pois isso traria certamente exacerbadas discussões,
que destruiriam o sentimento de harmonia que deve reinar no interior
desses recintos, indispensável para fazer crescer a fraternidade.
A Maçonaria assumiu desde o seu início um caráter
universalista, para tornar possível a iniciação
a todos os cidadãos livres e de bons costumes, independente
de sua religião, de sua categoria social, de sua raça,
de sua convicção política, o que exige rigorosa
neutralidade.
A Maçonaria também não é uma simples
associação caritativa nem uma caixa de socorros mútuos.
A prática da caridade e do socorro mútuo pelos maçons
é uma atitude pessoal resultante do crescimento interior
e do aperfeiçoamento do espírito da filantropia, alcançado
através de um longo trabalho de conscientização
no interior das lojas.
A filantropia maçônica não se cumpre com o simples
ato de estender uma moeda a um pobre. A filantropia maçônica
tem um sentido mais alto, é atitude geral de benevolência
para com todos os outros homens.
É um sentimento de amor que invade o homem quando toma consciência
de que pertence a uma coletividade superior formada por todos os
homens, a humanidade. A filantropia maçônica é
uma tomada de consciência.
A Maçonaria mundial também não é uma
organização formal nem uma sociedade ou associação
formal. As entidades sociais formais de qualquer natureza sempre
se regem necessariamente por estatutos, regulamentos, contratos
sociais ou constituições e sempre são dotadas
de uma hierarquia administrativa central legalmente nomeada segundo
disposições regulamentares, contratuais e estatutárias,
ou eleita por assembléias gerais. Não há associações
formais sem estatutos ou regulamentos e sem administração
central.
A Maçonaria considerada como um todo não se rege por
regulamentos, estatutos ou constituições e não
tem nenhuma hierarquia administrativa ou governo supranacional ou
mundial não sendo, portanto, uma organização
formal.
Parece-nos que a idéia de que haveria esse governo maçônico
supremo, ou mundial, ou esse comando maçônico central
com poderes de mando sobre toda a Maçonaria, nasceu do conhecido
Os Protocolos dos Sábios de Sião ( 2 ).
Este livro, que acusa a Maçonaria de se ter aliado ao Judaísmo
numa tentativa de dominar o mundo valendo-se de todos os meios possíveis,
até do derramamento de sangue se necessário, é
uma falsificação histórica de natureza anti-semita
lançada em 1903 pela política czarista, na cidade
de Cravóvia. A falsificação é confirmada
por fontes insuspeitas como a Enciclopédia Delta Larousse
e o historiador Mário Curtis Giordani ( 4 ). Este autor o
relaciona entre outras famosas forjicações históricas
como o Donatio Constantini, o Monita Secreta, e O Homem de Piltdown.
Então, se a Maçonaria não é uma religião,
não é um partido político, não é
uma sociedade de socorros mútuos, não é uma
associação ou organização formal e não
tem um governo mundial, como se poderia defini-la? Pensamos que
o mais correto seria dizê-la uma ordem, isto é,
um grupo de pessoas que, reunidas informalmente em torno de um ideário,
ou seja, em torno de um conjunto ou sistema de idéias e propósitos,
tentam alcançar um determinado objetivo através de
um relacionamento pessoal harmonioso.
Transcrevemos as definições do dicionário Aurélio:
"Ordem = 1 - Disposição conveniente
dos meios para se obterem os fins"; - "Ideário
= Conjunto ou sistema de idéias políticas, sociais,
econômicas, etc.:o ideário da Revolução
Francesa".
Portanto ordem é o grupo, e ideário
é o elemento de ligação entre os membros do
grupo formado por pessoas que se unem para o compartilhamento de
um ideal e para atingir um determinado objetivo.
A ordem nasce portanto a partir de ideários. Os ideários,
por sua vez, nascem em certos momentos históricos de forte
comoção e ansiedade coletivas causadas por condições
sociais adversas de instabilidade ou insegurança geral, como
grandes calamidades da natureza, contínuas guerras, fome
e pestes. Para que possa merecer a atenção pública
e levar à constituição de uma ordem deve um
ideário conter aspectos socialmente revolucionários,
capazes de abrandar os efeitos das adversidades.
Como exemplo clássico pode ser tomado o Cristianismo. Cristo
lançou as bases de um ideário composto de idéias
muito simples, mas que eram revolucionárias para o seu momento
histórico. Essas idéias eram o amor a Deus e o amor
ao próximo.
Cristo viveu num período em que praticamente todo o mundo
conhecido estava sob o domínio de Roma, que estabelecera
a sua forçada e famosa Pax Romana universal, isto é,
uma tranqüilidade imposta aos povos dominados ( 5 ) .
Nesse mundo romano não havia consideração para
com o indivíduo que era simples propriedade do Estado, podendo
ser usado e descartado sempre que o bem do Império o exigisse.
O grupo estava supervalorizado. Num momento assim Cristo valorizou
o indivíduo acenando-lhe com as esperanças de uma
vida melhor após a morte, onde todos seriam iguais perante
Deus. E como meio de conquistar esse céu ele falou em amor
ao próximo, isto é, na fraternidade, idéia
absolutamente desconhecida nesse mundo intranqüilo e inseguro.
Assim Cristo lançou um ideário e os primeiros cristãos,
ao se unirem informalmente em torno dele, constituíram uma
ordem, a Ordem Cristã.
O ideário da Maçonaria Moderna surgiu na Inglaterra,
no momento de grande conturbação que se seguiu ao
final da Idade Média (século XV). Foi uma época
de grandes adversidades provocadas por permanentes guerras religiosas,
insegurança intelectual frente ao surgimento da Idade da
Razão, seguidas e desejadoras pestes, altíssimos índices
de mortalidade infantil e sobretudo por fome e penúria. Num
momento assim conturbado e desesperador renovou-se um sentimento
de fraternidade e de solidariedade, e começou a estabelecer-se
uma ordem em que se uniam indivíduos das mais diversas posições
sociais, irmanados por esses sentimentos em comum.
Assim a Maçonaria Moderna, ou Especulativa como é
mais conhecida, é uma ordem que se define com "um
centro de união no qual se desenvolve um verdadeiro e puro
sentimento de fraternidade e solidariedade entre homens que, sem
esse centro, teriam ficado perpetuamente distantes". Essa
é a definição que consta do primeiro documento
oficial da Maçonaria Moderna, o Livro das Constituições,
de 1723, da Grande Loja de Londres( 6 ).
Os ideários, quando passam os momentos de tribulação
que os geraram, se perpetuam como ordens, incorporando-se às
tradições orais dos povos onde nasceram. Depois de
incorporados às tradições culturais dificilmente
se poderá remover alguma de suas idéias básicas,
pelo simples fato de que para isso seria necessária a convocação
de assembléias gerais, providência impraticável
pois as ordens não têm administrações
centrais para convocá-las. Por exemplo, a não admissão
de mulheres na Maçonaria é uma tradição
de quase mil anos, que não pode ser abolida por ser a Maçonaria
uma ordem.
É possível o acréscimo de novas idéias
aos ideários desde que não contradigam frontalmente
as idéias básicas de sua formação original.
As contradições descaracterizam os ideários
originais, que podem perder-se na transmissão das tradições,
permitindo o surgimento de novos grupos de idéias em sua
substituição.
Quando aparecem as administrações hierarquizadas centrais
é porque o ideário original já foi objeto de
interpretações casuísticas que o desvirtuaram,
adaptando-o a situações e interesses particulares.
É a partir dessas interpretações que surgem
as dissensões das quais nascem as instituições
formais com suas hierarquias. Foi por causa de interpretações
diferenciadas de exegetas que do puro ideário do Cristianismo
surgiram centenas de religiões cristãs divergentes,
todas se dizendo detentoras absolutas da interpretação
correta do ideário original.
Justamente porque a Maçonaria não se tornou uma instituição
hierarquizada não vingaram algumas interpretações
diferenciadas do seu ideário e não se radicalizaram
algumas raras dissensões. Ela continua a ser uma ordem tão
estável que a sua definição ainda é
a mesma de há trezentos anos.
Na verdade quando se criou uma primeira hierarquia regionalizada,
com o grão-mestrado da Grande Loja de Londres, em 1717, houve
uma ameaça de ruptura com a criação da Grande
Loja dos Antigos, em 1753, mas tudo voltou à paz de antes
com o pacto de unificação de 1813.
Hoje, como então, podemos ainda definir corretamente a Maçonaria
como uma Ordem, a Ordem da Maçonaria ou Ordem Maçônica,
cujo ideário é a liberdade individual, a fraternidade
universal, a igualdade de direitos entre todos os homens,
a caridade desinteressada, e a solidariedade e a
lealdade sem limites. Como meio principal de chegar a esses
objetivos os maçons se reúnem em lojas que são
verdadeiros centros de união onde se desenvolve um
verdadeiro e leal sentimento de fraternidade, aproximando homens
que de outra forma ficariam perpetuamente distanciados.
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