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Irm
Ambrósio Peters. ( * )
De
toda e qualquer deficiência de um candidato talvez a pior
delas seja a mediocridade. O homem medíocre jamais assumirá
o seu papel de Maçom no pleno sentido deste termo, pois o
medíocre já é por sua própria natureza
um acomodado. Do homem medíocre dizia Jesus; "por não
ser nem frio nem quente o cuspirei de minha boca". Não
se pode contar com ele seriamente para nenhuma atividade que exija
um rompimento com a rotina. Ele nada começa e quando o começa
nada termina. Nada faz além de suas estritas obrigações.
Somente acompanha e critica, ou quando muito dá seu apoio
fictício com meros e superficiais aplausos. No seu inconsciente
ele se condena a si próprio pela na sua inércia, e
toma como uma censura velada tudo o que os outros realizam. Por
isso o medíocre é um crítico contumaz. Na
maioria das ocasiões será preferível lidar
com inimigos, porque pelo menos esses se definem e pode-se saber
onde estão.. O medíocre é um omisso e contagia
tudo ao seu redor com sua omissão. Certa vez, sendo eu Venerável
de uma Loja, um Irmão se aproximou de mim com críticas
por não promovermos com mais freqüência jantares
para aproximar os Irmãos e suas famílias. Informou-me
que perto de sua residência havia uma senhora que promovia
festas e jantares a preços acessíveis e que seria
fácil contratá-la. Pedi-lhe então, já
que o restaurante estava próximo a sua casa, que organizasse
um jantar com as nossas esposas. Não posso, disse-me secamente,
não tenho tempo. A indicação do restaurante
era simplesmente uma maneira discreta de criticar e dizer que a
Administração da Loja era ineficiente em suas atividades
sociais.
Esse é um exemplo típico de mediocridade. Mas eles nunca
aceitam a pecha de mediocridade, porque sempre se julgam cidadãos
perfeitos, cumpridores de seus deveres, que não prejudicam
aos seus semelhantes, que respeitam a todos, que não fazem
mal a ninguém. Na realidade sob o ponto de vista das religiões
é até uma pessoa exemplar e digna, pois as religiões
habitualmente só exigem obediência e não atos
positivos, que são às vezes até condenadas.
Ele é livre por não ser escravo, e é de bons
costumes porque cumpre mandamentos negativos que a sua fé
lhe impõe.
O
medíocre diz amar o próximo mas nunca fará
nada por ele, diz não fazer mal a ninguém mas também
não faz o bem a ninguém. O medíocre é
entre os homens como um dos moveis de minha sala de estar, que também
não faz mal a ninguém, mas tão pouco faz algo
por alguém. Eles são o flagelo de qualquer sociedade,
pois não são sensíveis a apelos e incentivos
e ao contrário, com sua apatia, põe-se contra qualquer
ação que ameace tira-los de sua inércia.
Então
porque os admitimos em nosso meio se são tão prejudiciais?
Fazemo-lo porque relaxamos os nossos critérios de avaliação
quando os convidamos. Depois de admitidos é quase impossível
demiti-los porque não fazem nada que possa constituir motivo
de censura, e que Irmão aceitaria puni-los já que
todos os julgam homens exemplares e cumpridores de seus deveres?
Os medíocres se auto-protegem.
Os
critérios de admissão perdem o seu poder de seleção
quando passamos a procurar candidatos entre nossos parentes, entre
os nossos amigos, entre nossos colegas de trabalho, entre as pessoas
de destaque social, em suma, entre aqueles homens que pela sua posição
no mundo profano pressupostamente podem trazer benefícios
à Loja e à Ordem, ou que simplesmente nos podem agradar
com sua presença. Relaxamos os critérios quando deixamos
de alicerçar nossa escolha no conceito medianamente puro
de "homens livres e de bons costumes. Não no sentido
comum e negativo dessas qualidades, mas homens de ideal, dispostos
a lutar positivamente por suas idéias, homens de comprovada
iniciativa, principalmente participantes na luta pelo livre pensamento,
homens socialmente ativos, conscientes de sua cidadania
Quando
foi promulgada a Constituição de 1723, livre significava
não ser escravo ou servo, mas este termo não tem hoje
certamente mais o mesmo sentido. Agora devemos entender livre aquele
que não tem sua mente servilmente amarradas aos condicionamentos
doutrinários e que é religioso porque assim o decidiu
livremente diante de sua própria consciência, um homem
que tem livre seu pensamento. De bons costumes aquele que procede
de acordo com princípios morais rígidos não
por temor de ser castigado por algum poder superior com um hipotético
inferno, e que não norteia o seu comportamento por seu egoísmo
e sim por sua consciência de ser membro da raça humana,
cujos componentes são todos seus irmãos e semelhantes.
Todos os elementos do Universo, quer seres vivos quer matéria
inerte, obedecem sem decisão própria às leis
naturais, somente ao homem cabe a regalia de poder decidir muitos
dos seus atos.
Isto
por si só confere ao homem a nobreza particular de poder
obedecer a sua própria consciência intuída da
auto-legislação do Universo, não podendo impunemente
fugir as determinações dessas mesmas leis de cooperação
universal. O homem que não cumpre seu papel nesse contexto
está traindo a própria confiança que nele foi
depositada como elemento máximo desse mesmo Cosmo. Esse é
o verdadeiro homem de bons costumes de que fala a Maçonaria.
Quando
começamos por admitir parentes, amigos, colegas, ou quando
procuramos pessoas destacadas no concerto das pessoas profanas,
estamos abrindo mão de critérios sérios de
escolha de maneira irresponsável. Como conseqüência
desse acúmulo de falhas pode-se chegar a iniciar amigos ou
pessoas importantes, ou simplesmente porque são nossos amigos
ou então porque são pessoas importantes, omitindo
o julgamento de suas qualidades intrínsecas. Aí se
instala a mediocridade com todas as suas seqüelas danosas.
Quando
buscamos pessoas proeminentes na nossa sociedade em geral somos
levados por um íntimo sentimento de bajulação
e interesse próprio, que são péssimos e egoísticos
critérios de avaliação. Sempre pensamos que
essas pessoas de projeção social poderão ajudar
a realçar o nome de nossa Instituição, ou ajudar-nos
a sair da mediocridade e até de dificuldades financeiras.
Certamente então estaremos nos desviando pelo caminho inverso
ao desejado. Pessoas que aceitam ser bajuladas sempre são
medíocres, e eles contribuirão com sua mediocridade
apenas para uma estagnação ainda maior. E isso não
vale somente para nós, vale também para todas as instituições
políticas, religiosas ou outras associações.
Para
elevar a nossa Ordem, seria necessário buscar novos Irmãos
no restrito campo do livre pensamento, no âmbito das pessoas
cultas de consciência bem formada. Esses candidatos sim poderão
contribuir realmente para o soerguimento do nível cultural
de toda a comunidade pois somente estes terão algo positivo
a nos transmitir. Caso contrario estaremos criando um irremediável
estado de perda de nobreza. Os Irmãos admitidos fora desses
critérios somente nos prejudicarão por sua inércia,
pois apenas aparentemente não serão de maus costumes
e apenas aparentemente serão livres.
Só
aparências!!!!! |