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Irm
Ambrósio Preters
(*)
Filosofia é uma ciência, a rainha das
ciências, expressão maior da busca racional da verdade.
A Filosofia é a ciência da Lógica.
Ela se propõe ampliar progressivamente a
compreensão da realidade que nos rodeia, isto é, apreender
o mundo como uma totalidade, e isto inclui a sua origem e a sua
causa primeira, ou Causador Primeiro, que costumamos denominar Deus.
A Filosofia como ciência não pode,
em sentido amplo, partir de pressupostos aleatórios que não
possam ser demonstrados logicamente, ou de fatos não passíveis
de serem submetidos a experiências repetitivas ou a experimentação
científica padronizada.
Em sentido restrito, pode a Filosofia também
ser definida como um compósito de estudos ou considerações
tendentes a reunir, num conjunto ordenado, determinados conhecimentos
expressamente limitados a um campo de cultura ou pesquisa. Assim,
podemos ter a Filosofia da Ciência, a Filosofia Social, a
Filosofia da História etc.
Os estudos filosóficos, no sentido de busca
incessante da verdade, ou seja, do conhecimento do mundo que nos
rodeia, pode eventualmente partir de pressupostos ou premissas liberalmente
aceitas que componham conjuntos ou sistemas de teses doutrinárias
de uma determinada época ou país, ou de determinado
ideário como, por exemplo, a Filosofia Grega, a Filosofia
Cartesiana, a Filosofia Cristã e, evidentemente, a Filosofia
Maçônica etc.
Em razão desses princípios, filosoficamente
falando, são justamente essas proposições,
pressupostos, preceitos ou regras diretoras, que subordinam e delimitam
todo o desenvolvimento posterior dessas filosofias restritas a seus
determinados campos, grupos, regiões ou épocas.
Esses diversos pressupostos podem classificar-se
como máximas, que são princípios básicos
indiscutíveis da ciência e da arte; axiomas, que são
premissas imediatamente evidentes admitidas universalmente como
verdadeiras sem exigência de demonstração;
teses, que são proposições apropriadas à
compreensão de fatos específicos - teorias, que são
conjuntos de princípios fundamentais de uma arte ou de uma
ciência; hipóteses, que são proposições
ou conjuntos de proposições provisórias, que
antecedem outras, servindo-lhes de fundamento.
A Filosofia Geral, ou Filosofia Pura é um
campo ilimitado do pensamento quando pode se desenvolver num ambiente
de plena liberdade cultural e de consciência, sempre tomando
como ponto de partida as possíveis proposições
referidas no parágrafo anterior: máximas, axiomas,
teses, teorias, hipóteses, sem nenhuma limitação.
Embora essas liberalidades de seu desenvolvimento,
não parecem razoável especular apenas pelo prazer
de especular, pois assim a grande ciência da Filosofia deixaria
de ser grande, porque não levaria a lugar algum; levaria
apenas ao conhecimento pelo conhecimento, seria um diletantismo
infrutífero.
Como disse Platão, a Filosofia só
se justifica se for uma busca do conhecimento para o bem do homem
e o bem máximo do homem, sua suprema felicidade, é
a percepção e a contemplação plena da
verdade. Sob esse aspecto a Filosofia somente se justifica como
instrumento da busca da verdade em benefício da humanidade.
E o que será essa verdade de que tanto se
fala na Filosofia? As concepções de verdade podem
apresentar três faces distintas: a verdade como correspondência;
a verdade como revelação; a verdade como conformidade.
A concepção de verdade como correspondência
nos diz que a verdade não está nas coisas percebidas
e sim em nossa mente. Nas coisas está a medida da verdade.
Isso significa que verdade é afirmar aquilo que alguma coisa
é aquilo que é e como ela é (exemplo: todo
cão é um animal); falso é dizer que alguma
coisa é aquilo que não é (exemplo: todo cão
é um gato).
Verdade é aquilo que as coisas manifestam
ao homem e que é percebido pelo homem. A neve é branca
porque o homem a percebe assim e porque a neve se manifesta assim.
A brancura da neve existe porque o homem se apercebe dela. A brancura
da neve não está na neve, está na mente do
homem. Num mundo sem homens e sem luz não haveria cores;
a existência de cores depende da luz e da percepção
do homem.
Essa é a definição de verdade
como correspondência. E a concepção popular.
Ampliando o que dissemos a respeito da brancura da neve, podemos
afirmar que o próprio Universo existe porque existe a energia
que o permite manifestar-se e porque existe o homem que o percebe.
A verdade como revelação tanto pode
ser a verdade empírica que nos é revelada a partir
da manifestação das coisas que existem na natureza
(exemplo: a chuva molha), como pode também ser a verdade
metafísica, ou teológica, simplesmente intuída,
ou então comunicada ou revelada por um Ser Supremo a uma
pessoa ou a um grupo de pessoas privilegiadas, ou a um povo escolhido.
A verdade revelada não é submetida a discussões
filosóficas.
A verdade revelada pela natureza, por um ser sobrenatural
ou por algum homem iluminado, é simplesmente aceita como
ponto de partida para a busca de verdades dela derivadas. A verdade
revelada exclui a busca livre da verdade, uma vez que restringe
a busca às verdades derivadas da revelação.
Esta concepção parte da suposição
primária básica de que existe um Deus, corpóreo
(Cristianismo) ou incorpóreo (judaísmo, Islamismo),
que em certo momento de sua existência eterna decidiu comunicar
a verdade a algum habitante do nosso imenso universo , ou de que
há uma natureza que se revela a nós através
da ciência ou de percepções pessoais.
A existência de um Deus de concepção
teísta não pode ser filosoficamente demonstrada, e
em razão disso recusam-se os adeptos da verdade divina revelada
a discutir a existência do seu Deus que crêem inquestionável.
De outra parte, isso se assemelha à revelação
das verdades pela natureza através da ciência, também
tida como inquestionáveL A formação de filosofias
modernas, que apareceram após o advento do Racionalismo partem
dos princípios científicos stricto sensu, isto é,
acadêmicos. A diferença está em serem estáticas
as revelações divinas, ao passo que as filosofias
naturais evoluem com a evolução da ciência.
A verdade como conformidade é a que concebemos
como conforme aos mandamentos e aos princípios de um sistema
de conhecimentos, ou conforme a um conjunto de conceitos que aceitamos
como correto a partir de um sistema de verdades reveladas. Aqui
se enquadram os dogmas e os mandamentos das religiões, as
definições das escolas filosóficas, os textos
dos livros sagrados etc.
A maioria das escolas ou correntes filosóficas
admite como verdadeiros os conjuntos de princípios definidos
a partir da verdade como correspondência, isto é, da
verdade deduzida a partir da percepção da natureza,
da percepção pela observação direta,
ou da percepção através do método científico,
da própria Filosofia e assim por diante. É a Filosofia
não dogmática.
já a maioria dos sistemas religiosos aceita
um conjunto de verdades reveladas pelo Ser Supremo, a partir das
quais os grupos religiosos formam conjuntos diversificados de conceitos
julgados não questionáveis, que constituem a verdade
como conformidade de cada um deles.
À verdade das escolas ou correntes filosóficas
se chega através do livre exercício do pensamento,
ou seja, através da Filosofia Geral ou Pura. A verdade dos
grupos ou sistemas religiosos é uma verdade definida ou dogmática
a que se chega através da revelação, isto é,
da pura aceitação, da fé. |