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Irm
Ambrósio Preters*
A Filosofia Maçônica, como se apresenta
no mundo moderno, e não dogmática, na medida em que
propõe dedicar-se à busca incessante da verdade, sem
restrições, sem pressupostos nem premissas impostas
ou de antemão estabelecidas como verdades.
A Filosofia Maçônica incentiva o homem
a buscar a sua própria verdade individual independentemente
dos agrupamentos formais ou informais a que pertençam os
maçons individualmente. Sob este aspecto a Maçonaria
deixa os seus afiliados inteiramente livres para buscar ou não
buscar o conhecimento, seja a verdade como correspondência,
a verdade revelada ou a verdade como conformidade. Eis porque é
tão importante e essencial a sua neutralidade filosófico-religiosa.
E natural que assim seja, pois como pretender agrupar
e harmonizar pessoas vindas dos mais diversos agrupamentos humanos
se cada um puder trazer para dentro das lojas a discussão
de seus próprios princípios? Teríamos assembléias
conturbadas e tomadas pela balbúrdia, onde cada qual desejaria
demonstrar a superioridade de seus próprios princípios.
Portanto uma das mais sábias expressões
maçônicas é a do Livro das Constituições
de 1723, onde diz que cada irmão deve guardar para si as
suas próprias convicções político -religiosas,
para que as lojas maçônicas possam se tornar um centro
de união e harmonia e desenvolver um legítimo sentimento
de fraternidade.
A livre e incessante busca da verdade é um
direito inalienável do homem. O exercício desse direito,
pelo fato mesmo de ser um direito, não pode ser uma obrigação
ou uma imposição. Cada maçom poderá
escolher o seu próprio caminho sem nenhuma interferência
da Ordem. Em virtude dessa liberdade pode o maçom também
adotar uma filosofia de ordem restrita a um grupo de princípios
preestabelecidos, como pode aceitar a crença em uma Causa
Primordial ou na sobrevivência da individualidade após
a morte de que falam os Landemarques. Mas isto não pode ser
uma imposição ou uma exigência estatutária
ou constitucional.
Uma imposição nesse sentido limitaria
a busca incessante da verdade a uma busca dirigida da verdade, o
que não seria maçônico. Uma imposição
restritiva, por exemplo, é obrigar alguém a aceitar
dogmas como a existência de um Grande Arquiteto do Universo
e a sobrevivência do espírito após a morte.
Isto na Maçonaria é uma opção, não
uma imposição, pois não há como incentivar
um maçom neófito à busca livre da verdade e,
ao mesmo tempo, impor-lhe os limites de um dogma, que pode deixar
de ser sua verdade pessoal em razão dessa busca que lhe é
recomendada como um ideal maçônico.
Verdades impostas como conditio sine qua non para
pertencer a uma sociedade ferem o princípio da liberdade
por ferirem a liberdade de pensamento.
O estamento mais culto da Maçonaria, que
infelizmente é uma minoria a se opor a esses dogmas pseudo-maçônicos,
deveria ser mais respeitado, pois é ele a parte pensante
que pode influir decisivamente sobre o futuro da Ordem, ou da Maçonaria
do terceiro milênio. Obrigar alguém a crer em alguma
coisa é uma restrição retrógrada para
esse pequeno grupo que pesquisa, que escreve, que se manifesta nas
revistas e nos livros e que, evoluindo pessoalmente, pode fazer
evoluir o pensamento maçônico.
O que verdadeiramente distingue a Maçonaria
Especulativa das outras sociedades é a filosofia contida
no seu lema universal: Liberdade - Igualdade - Fraternidade. Estas
três palavras, apesar de um aparente sentido díspar,
se entrelaçam profundamente.
Só há verdadeira fraternidade em um
grupo de pessoas quando todos se sentem iguais; só há
igualdade quando, ao estarem em convívio, todos deixam conscientemente
de parte suas condições sociais de qualquer natureza-
só há verdadeira liberdade quando todos podem decidir
seus próprios destinos buscando livremente estabelecer sua
própria identidade cultural, sem imposições
de qualquer espécie.
Só pode ser fraterno quem se sentir igual,
só pode sentir-se igual quem é livre. Este é
um conjunto de princípios maçônicos essenciais,
pois sem eles Maçonaria não teria a sua grandeza.
Sem eles não tem sentido a busca incessante da verdade, que
não pode apenas ser consentida ou tolerada, pois é
um direito.
Isso considerado, a Filosofia Maçônica
encampa a busca incessante da verdade como decisão individual
inalienável e inalterável, não obrigatória.
Estas são as condições únicas que preservam
o caráter de universalidade da Maçonaria. Assim forma-se
o tripé da verdadeira Filosofia Maçônica:
O direito inalienável da busca da verdade
O lema Liberdade Igualdade e Fraternidade
O caráter da universalidade
O primeiro apoio do tripé, a busca livre
da verdade, para que possa cumprir-se integralmente deve em primeiro
lugar o homem ser livre física e intelectualmente e, principalmente,
livre de preconceitos herdados, impostos ou adquiridos.
Livre fisicamente não significa apenas não
ser escravo. É muito mais que isso. E ter a possibilidade
de mover-se livremente na busca de suas oportunidades físicas,
é ter condições de cumprir suas obrigações
financeiras para com a sociedade e sua família, é
ser íntegro fisicamente, é ter capacidade cerebral
normal padrão ou superior para desenvolver o seu livre-pensamento.
Para se manter ou se tornar livre intelectualmente
necessita o maçom ter, além de sua integridade física,
acesso aos meios de cultura, que podem ser bibliotecas, tertúlias
culturais, movimentos culturais em loja, tudo com a participação
direta de todos os irmãos. Nenhum irmão deveria sair
de uma assembléia em loja sem ter conseguido aprender algo
culturalmente novo.
Esses movimentos culturais terão como primeiro
resultado prático fazer todos entenderem que o Ideário
Maçônico e mais grandioso do que o podem fazer crer
as práticas ritualísticas, que multas vezes mais confundem
do que ensinam. Isso levado a sério evitaria esses inúteis
e descabidos desentendimentos e preocupações com cores
de aventais, uso ou não de bastões, abertura ou não
de livros da lei e outras tantas superficialidades.
Outra conseqüência imediata seria fazer
os irmãos se tornarem mais cônscios de suas próprias
crenças e assumirem a fé de sua religiosidade com
mais consciência do seu verdadeiro sentido. A grande maioria
da humanidade segue sua religião por hábito ou por
tradição, sem jamais se dar conta dos verdadeiros
e profundos significados de seus princípios de fé,
limitando-se as mais das vezes a seqüências mecânicas
de atos inconscientes. Isto é uma conseqüência
dos superficiais ritualismos religiosos.
O que significa a Igualdade Maçônica?
É o despojamento pessoal dos direitos de precedência
ou de status gozado na sociedade profana, bem como dos diretos do
ambiente hierárquico maçônico quando não
no exercício do cargo. Esse despojamento não deve
ser apenas um procedimento ritualístico ou físico,
mas deve ser consciente e ocorrer no interior do próprio
irmão.
Não se pode certamente receber no recinto
de uma loja um Presidente da República e tratá-lo
como se fosse um cidadão comum. Ele, o Presidente, ou outra
qualquer alta autoridade, deve se portar como um irmão, não
usando a autoridade para seu destaque pessoal, mas sem abrir mão
do respeito que merece como autoridade. Igualdade não é
rebaixamento.
A Liberdade Maçônica e a Igualdade
Maçônica levam à Fraternidade Maçônica,
que não é certamente chamar de irmão todos
os companheiros da loja. O que distingue a nossa Maçonaria
Especulativa das antigas guildas dos maçons e Justamente
a fraternidade universal como virtude, O maçom moderno deixa
de ser irmão entre irmãos, para ser irmão de
todos os homens. Portanto o maçom moderno é antes
de tudo um ser generoso, não materialmente, mas um generoso
de espírito. |