|
Irm
Ambrósio Preters
(*)
Há muitos irmãos que defendem o uso
indistinto de ambas em nossos trabalhos ritualísticos, por
não se aperceberem, cremos, que esses instrumentos em nossos
altares são alguma coisa mais que simples pontos de iluminação,
meros objetos ornamentais. Não obstante, assim pensarem,
insistem que elas, veIas ou lâmpadas devem existir, em número
definido e invariável para cada circunstância ou grau.
O simples fato de aceitarem que essas Luminárias
devem ser colocadas em posições predeterminadas para
cada ato litúrgico e em quantidade exata, implica na aceitação
de que há um ritualismo a cercá-las e, conseqüentemente,
um misticismo implícito. Se assim não fosse, não
haveria por que determinar com exatidão seu número
e sua localização.
Se aceitarmos esses fatos, estamos atribuindo um
caráter litúrgico às nossas luzes ritualísticas
e portanto místico, porque toda liturgia é uma ponte
para o misticismo.
Defende-se intransigentemente a obediência
à tradição em nossos trabalhos e vela-se cuidadosamente
para que nossos rituais sejam seguidos, com toda correção,
e se mantenham, o mais possível, fiéis aos de nossas
Lojas primitivas Estas sempre usaram velas em seus altares, velas
que fazem parte integrante de nossas mais caras tradições.
Mas por que velas serão diferentes de lâmpadas.
As velas, sempre de cera pura de abelhas, como manda a tradição,
emitem uma chama pura e sem fuligem, emitem fogo, o que não
acontece com as lâmpadas elétricas. O fogo sempre acompanhou
a humanidade desde os mais primitivos ancestrais, e nesta sua marcha
através da história foi assumindo sempre mais o aspecto
de elo de ligação entre o homem e os espíritos,
entre o homem e Deus.
A primeira prova inequívoca de que o homem
usava o fogo em seu dia-a-dia apareceu na caverna de Chucutien,
na China, onde, junto aos achados arqueológicos do "Homem
de Pequim" (Sinantropus), encontraram se restos de fogueiras
não acidentais. Esse homem viveu há cerca de 40O mil
anos. Junto às cinzas se encontraram também sinais
evidentes de que esse hominídeo já enterrava os seus
mortos com rituais, pois junto às sepulturas se localizaram
restos fósseis evidentes de pólens de quase todas
as flores da região. A conclusão é evidente.
Os cadáveres foram sepultados rodeados de flores, ilumina
cerimônia obviamente ritualística.
Sem muito esforço, poderemos imaginar a cena
com os nossos primitivos ancestrais amuados no fundo de suas cavernas,
apreensivos e temerosos ante o fulgor dos relâmpagos a iluminar
as paredes de sua morada. Podemos até conceber o seu temor
e o seu espanto ante os raios e os vulcões e ante os ocasionais
incêndios nas inatas de seus territórios de caça,
e a ameaçar as suas vidas.
O medo do fogo faz parte de nossa natureza humana
e, também da natureza dos animais irracionais. É freqüente
vermos animais retratados fugindo do fogo como que alucinados, provavelmente
resquícios inconscientes dos traumas provocados por este
fenômeno ainda em tempos remotos. Nós, humanos tememos
tanto o fogo que a simples menção desta palavra em
algum recinto fechado leva ao pânico e ao desastre. Há
um medo incontido em todos os seres vivos, homens e animais.
Mas o homem dominou o fogo. Primeiro aprendeu a
conservá-lo quando colhido em eventuais fogueiras naturais
e depois descobriu também como fazê-lo. Não
sabemos se o Homem de Pequim já o sabia, sabemos apenas que
o usava. Ainda hoje há tribos de pigmeus no centro da África
que ainda não aprenderam a técnica de fazê-lo.
Desde os primitivos tempos, deve o fogo ter sido
tratado com grande respeito, tanto pela utilidade, como em virtude
dos danos que sempre trazia consigo Sua ligação com
a divindade vem de tempos imemoriais, assim o atestam as inumeráveis
lendas que correm entre os povos primitivos a seu a respeito, todas
dando-lhes uma origem celeste.
Os índios Navajos, dos Estados Unidos, cultuam
a lenda do Grande Coiote que roubou o fogo dos deuses e o deu de
presente aos homens. Ela é muito semelhante ao mito de Prometeu,
que também roubou o fogo dos céus e o trouxe para
os homens. Também entre os índios brasileiros se conta
que um pássaro foi ao sol buscar o fogo e que, tendo-o segurado
com o bico, ficou com ele vermelho para sempre (daí a origem
das aves de bico vermelho). Há muitas outras lendas semelhantes
junto a outros povos primitivos.
Os gregos tinham a deusa Héstia, protetora
do fogo doméstico; os romanos a deusa Vesta, protetora também
dos espíritos e do fogo doméstico. Ligados a esta
última havia a comunidade das Vestais, jovens virgens encarregadas
de zelar pela conservação permanente do fogo sagrado;
os descuidos eram punidos com a pena de morte.
Não poderemos deixar de mencionar a mitologia
egípcia da Fênix, um grande pássaro que tinha
vida eterna, morrendo pelo fogo, mas sempre renascendo das cinzas.
Temos, ainda, as lâmpadas votivas dos templos
e igrejas, simbolizando a presença divina permanente; nas
igrejas católicas esta luminária indica a existência
de hóstias consagradas, rias quais está presente Deus
em pessoa.
O fogo, desde que o homem começou a percebê-lo
conscientemente como um dos elementos da natureza, foi sempre olhado
como um elemento mágico de origem divina, pois Deus usava-o
tanto para iluminar seus diletos filhos, como para castigar os que
incorriam em sua ira por desobediência aos seus preceitos.
Considerava-o como um elemento de purificação e castigo
(purgatório - inferno).
Isto, naturalmente, quando não era adorado
como o próprio Deus, dada a sua misteriosa origem e seus
misteriosos efeitos. Houve muitas culturas que mantiveram, e que-
ainda mantêm um verdadeiro culto sagrado
do fogo. Esse culto, ria sombria pré-história
do homem, deve ter se originado ria ansiosa necessidade de sua conservação,
já que a técnica de fazê-lo foi aprendida muito
mais tarde.
Aos poucos esse misticismo todo em torno do fogo
o tornou um verdadeiro agregador social, reunindo os membros do
grupo em suas cavernas, para se aquecerem e afastar as teias. As
ondas de calor, o cheiro inebriante das madeiras queimando, o crepitar
das labaredas, as nuances bruxuleante das chamas os rostos e corpos
semi-iluminados ao clarão vermelho, tudo isto deve ter provocado
uma sensação enlevante e muito próxima ao espiritual.
Essa fascinação, após terminado
o dia e quando começa a misteriosa noite, e a aproximação
dos espíritos das trevas que se julgava virem com ela, naturalmente
levaram os primitivos hominídeos a fazer do fogo o centro
de suas atenções e de seus rituais.
Os escoteiros, ainda hoje, realizam seus atos mais
solenes ao redor do seu fogo de conselho, e ali encerram suas reuniões
mais importantes com a cadeia de união.
A intromissão desse elemento natural em todos
os atos humanos, a sua divinização, o seu caráter
ritualístico, fez com que sempre fosse cercado de respeito
e de inúmeras crendices populares. Não se pode, sem
atrair desgraças, urinar no fogo, empurrar tições
com os pés, apagá-lo com água, acender sobre
fogueira extinta (fogo morto), e muitas outras mais.
Os alquímicos o usavam como seu instrumento
predileto, derretendo seus metais, purificando o ouro, obtendo o
mercúrio e o enxofre, seus materiais prediletos. Considerando-o
a ferramenta ideal para alteração da matéria
existente, usavam-no ria tentativa de transformar tudo em ouro,
não para ficarem ricos, mas para tornar incorruptível
o corruptível,
Segundo a mitiga sabedoria, já desde os babilônios
ele era considerado um dos quatro elementos que compunham todas
as matérias visíveis, porém, enquanto o ar,
a água e a terra podiam abrigar habitantes, no fogo não
podia habitar nem mesmo a salamandra.
Não é de se admirar, portanto, que
ainda hoje a mística que cerca o fogo faça com que
continue ainda a ser considerado unia espécie de mediador
entre Deus e os homens, o símbolo do Espírito Santo,
da iluminação da alma, símbolo do amor, da
pátria, do lar.
É conhecido que, biologicamente falando, somente se transmitem
aos descendentes características genéticas quando
absolutamente indispensáveis à sobrevivência
da espécie. É certo, outrossim, que rias épocas
das grandes glaciações o fogo se. tornou um elemento
indispensável à sobrevivência do homem, e daí
rios parece lícito concluir que certo tipo de comportamento
em relação a esse elemento natural, como o pânico
que ele causa, o embevecimento ante as chamas e o seu fulgor místico,
essa reação quase sensual
que ele cria em nós, são transmissões
genéticas que rios acompanham de geração em
geração.
Quando o homem tendeu ao aperfeiçoamento
de seus rituais, e a realizá-los nos recônditos de
suas cavernas tornando-os aos poucos secretos, não houve
mais possibilidade de acender fogueiras. Foi mister passar ao uso
de objetos mais práticos para manter o fogo sagrado, como
tochas, por exemplo. Posteriormente, com a invenção
das velas, feitas de cera de abelhas, obteve se uma chama pura e
praticamente isenta de fuligem, mais prática para uso em
recintos fechados e ocultos.
Muita dessas tradições se fixaram
e permaneceram até os nossos dias. As igrejas, em suas cerimônias
religiosas, não permitem o uso de velas que
não sejam produzidas de cera pura de abelhas, como a Igreja
Católica.
A vela se tornou um fogo simbólico e ritualístico,
mantendo acesa a chama sagrada em nossas reuniões, como o
faziam nossos ancestrais em suas moradas primitivas.
Todo o Iniciado recebe a Luz. Este tipo de Iniciação
está muito bem simbolizado no Novo Testamento quando os apóstolos
receberam a Luz do Espírito Santo sob a forma de urna língua
de fogo descendo dos céus. Portanto, o Iniciado recebe uma
Luz vinda do alto, do poder de Deus, vinda do fogo infinito, da
imortalidade simbolizado no ato iniciatório pela chama da
vela.
A chama simboliza a sabedoria dos iluminados. Os
três altares dos Poderes que governam nossas Lojas têm,
nas velas o símbolo da sua sabedoria, de sua iluminação,
como era um símbolo de iluminação a chama que
veio dos céus trazer o Espírito Santo, a iluminação,
para os Apóstolos.
As velas são ainda, com suas chamas, o símbolo
da transformação a que se deve submeter permanentemente
o maçom na sua busca incansável pelo aperfeiçoamento
pessoal. O fogo não é uma matéria como o criam
os antigos sábios, ele é um, processo de transformação
como a Maçonaria também é um processo, uma
luta contra a incompreensão.
As luzes em nossas Lojas não são meramente
decorativas ou instrumentos de iluminação. São
objetos ritualísticos e de simbologia. muito profunda. Sua
substituição por lâmpadas elétricas é
quase uma afronta, às nossas mais caras tradições;
lâmpada elétrica não emite chama, não
tem simbologia, não tem misticismo.
O uso da eletricidade em nossos altares nos parece
um comodismo que deveria ser abolido, pois não se coaduna
com as nossas mais caras tradições, nem com nossa
ânsia de misticismo, sempre reforçada pela luz das
velas.
As velas, com sua chama limpa e multicolor cheia
de nuances, são um símbolo de sabedoria, de iluminação
interna, de transformação espiritual: não deixemos
morrer essa tradição. |