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Irm
Ambrósio Preters
(*)
O "Édito de Nantes" foi promulgado
no ano de 1598 pelo rei Henrique IV, da França, concedendo
aos huguenotes uma quase plena liberdade de culto. Somente algumas
restrições foram mantidas, como a limitação
do número de vilas e cidades onde poderiam, exercer suas
práticas religiosas e construir
Igrejas e colégios. "Huguenote" é o nome
depreciativo que, na França, se deu aos calvinistas, e que
logo a seguir se estendeu a todos os protestantes.
Embora se tenha constituído num ato de liberalidade
e tolerância do rei Henrique IV, ou melhor, do Cardeal Richelieu,
o Édito acabou por se transformar, com o correr dos anos,
num potencial barril de pólvora que, em face da intolerância
dos mandatários da Igreja Católica, viria a detonar
sobre os próprios huguenotes quase um século mais
tarde, no reinado de Luiz XIV, neto daquele rei.
Sob o governo de Luiz XIV, a França atingiu
o seu clímax como nação, sendo considerada
modelo que toda a Europa e todos a queriam imitar. A literatura
clássica atingiu o seu clímax e as artes e a arquitetura
chegaram a níveis nunca atingidos antes em solo europeu.
Por esses méritos, passou para a história como o "Rei
Sol". Mas, como sempre acontece, a memória dos povos
guarda com zelo e carinho os grandes momentos de seus governantes
e líderes, e se esquece com muita facilidade dos seus defeitos
e dos seus erros. O que o "Rei Sol" fez de positivo pelas
artes e letras, o fez também negativamente em outros setores
do governo, como o de finanças e o da tolerância religiosa.
Financeiramente, ele levou o Tesouro da França
à falência. Para sustentar os seus luxos excessivos
e os de sua corte de aristocratas ociosos, dilapidou o erário
público e endividou o país com empréstimos
sobre empréstimos, a juros escorchantes. No final do seu
governo, acumulara dívidas que excediam a dez vezes o valor
da arrecadação anual de todo o estado. Gastou, além
de seus faustos pessoais e de sua corte, imensas fortunas tanto
em gastos militares como em subornos a membros do parlamento inglês
que desejava o apoiassem em sua intenção de induzir
o rei Carlos II a forçar a Inglaterra a se tornar novamente
católica.
Quanto à tolerância religiosa, agradava?lhe
o lema "cujus regio eius religio" (a religião do
rei é a religião do súdito), seguido, ainda
que com pouco rigor, pelos governantes protestantes a leste da França.
O clero católico freqüentemente lhe lembrava o ditado
do escritor católico Bossuet, "Un Roi, Une Loi, Une
Foi" (um só rei, uma só lei, uma só fé),
para arrancar dele a revogação do Édito de
Nantes.
Sucedendo a Luiz XIII, Luiz XIV assumiu o reinado
quando tinha apenas 5 anos de idade, no ano de 1643. Reinou até
1715, no mais longo reinado da história européia.
Durante o governo de Luiz XIII, sob o tolerante
ministro Cardeal Richelieu, os huguenotes foram cada vez mais se
incorporando ao estado francês, assumindo cargos públicos,
ampliando significativamente o seu número e suas atividades
comerciais e industriais, construindo igrejas e, o que irritou especialmente
o clero católico, instituindo numerosas escolas dedicadas
à instrução da aristocracia.
A proteção que obtiveram no ministério
de Richelieu, foi continuada sob Luiz XIV até meados do século
XVII sob a influência do cardeal Mazzarino. Este cardeal,
que não era sacerdote, faleceu em 1661, odiado por todos
os franceses por causa de sua extrema ganância, até
mesmo pelos huguenotes aos quais favorecera. O clero católico,
incluindo?se até mesmo, muitos prelados devotos, que já
vinha, pressionando a coroa desde a regência para que usasse
da força para obrigar os huguenotes a aceitar a fé
católica, insistindo por uma interpretação
menos liberal ou mais estrita do édito, sentindo?se mais
livre com a morte de Mazzarino, intensificou suas gestões.
Conseguiram aos poucos que os huguenotes fossem sendo relegados
a uma segunda ordem de cidadãos, perdessem para os católicos
os cargos públicos que ocupavam, e que fossem submetidos
às dragonadas. Estas eram um meio de o rei aliviar parte
das despesas militar de seus exércitos às custas da
intranqüilidade das famílias não católicas.
Um oficial da cavalaria e alguns soldados eram colocados junto às
famílias mais ricas dos huguenotes, para lhes dessem abrigo
e alimentação gratuita. Era permitido aos dragões
da cavalaria fazer tudo aos seus anfitriões, menos matá?los.
Estupravam suas mulheres e filhas, submetiam?nos a suplícios
humilhantes, obrigavam os homens a praticar a sodomia, expunham,
as mulheres mais resistentes ao suplício máximo de
serem amarradas nuas em plena rua e expostas à chacota dos
passantes, e outras torturas mais que se possa imaginar.
Isso continuou até que o clero finalmente
conseguiu a total revogação do "Edito de Nantes",
e o rei assinou, em 1685, o "Édito de Revogação
do Édito de Naiites".
Quando esse ato entrou em vigor, havia mais de um
milhão e quinhentos mil huguenotes na França, graças
à tolerância de quase um século. Cerca de 40O
mil conseguiram asilar?se na Inglaterra, Alemanha e Países
Baixos, onde foram aceitos com muita solidariedade por católicos,
protestantes e judeus. Os restantes, ou se converteram forçadamente
ao catolicismo, ou foram assassinados, ou reduzidos à pobreza
com o confisco total dos seus bens. Muitas regiões prósperas
da França se viram, do dia para a noite, reduzidas à
miséria. A França perdeu a maioria dos seus artesãos
e trabalhadores especializados, que foram ajudar a enriquecer os
países para onde emigraram, especialmente a Inglaterra.
Os católicos festejaram a vitória,
pois finalmente a França voltava à "Paz de Cristo!!!".
Havia novamente um só Rei, uma só Lei e uma só
Fé, como pregava Bossuet. E o Clero Católico se viu
livre para instalar um verdadeiro terror em solo francês,
muito superior em virulência ao terror da Revolução
Francesa no ano de 1793, de que tanto querem acusar a Maçonaria
as autoridades religiosas.
Entre os emigrados para a Inglaterra estava o pai
de Jean Théophile Désaguliers (1683/1744), que contava,
na ocasião da fuga, com menos de três anos de idade.
Jean Theóphile Désaguliers, embora
francês, viveu assim quase toda a sua vida na Inglaterra,
onde se dedicou à pesquisa científica, sendo notáveis
as suas experiências no campo dos condutores elétricos.
Quanto à Religião, tornou?se pastor da Igreja Presbiteriana.
Foi um daqueles bravos que estiveram presentes à Fundação
da Grande Loja de Londres, no dia 24 de junho de 1717, da qual foi
o terceiro Grão-Mestre. Os pensadores franceses, desiludidos
com os sistemas religiosos por causa de sua ganância e de
sua insensibilidade para com o próximo, por causa das contínuas
guerras religiosas, passaram diretamente às teses do iluminismo,
dando condições a que, após 1723, a Maçonaria
fizesse rápidos progressos no continente europeu.
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