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Irm Ambrósio Peters
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A través da história
tem o homem manifestado uma tendência, que diríamos
inata, de lutar e trabalhar em grupos, de se compor em organizações
e formar associações, quer procurando a satisfação
de seus anseios individuais, quer buscando alcançar suas
metas grupais, a que isoladamente não poderia jamais chegar.
Houve, até, agrupamentos humanos, como os
colégios funerários romanos, que visavam unicamente
dar a seus membros, no final de suas vidas, um enterro e uma campa
decentes.
Floresceram as guildas e corporações
intensamente durante toda a Idade Média, estendendo?se quase
até o final da Idade Moderna. Essas associações
tinham o escopo principal de agregar os profissionais de uma determinada
atividade, tanto para se protegerem mutuamente, como para tratar
da defesa dos interesses gerais da classe.
Mais recentemente, os historiadores concluíram
através de suas pesquisas que esses colégios, corporações
ou guildas, além de sua finalidade material e ostensiva,
também tinham entre seus membros ligações mais
íntimas de caráter religioso, e que suas reuniões,
de um modo geral, ser realizavam acobertadas pelo segredo e obedeciam
a determinados rituais e esquemas rígidos de trabalho.
É inegável, porém, que todas
tinham sempre o fato de um interesse comum ligado ao modo de vida
dos associados, principalmente sob o aspecto profissional. Os rituais
e senhas de reconhecimento eram unicamente um elemento de ligação
entre os membros, mantendo não somente o grupo unido, mas
também tornando as reuniões mais rigidamente ordenadas
e produtivas.
Qualquer cidadão
que quisesse pleitear seu ingresso deveria identificar-se com o
grupo, e assumir o compromisso de trabalhar incansavelmente pelo
bem comum. A identificação de interesses com os dos
futuros companheiros era essencial, e cada candidato era rigorosamente
submetido a uma sindicância prévia para analisar suas
verdadeiras intenções e capacidades. Tentava-se evitar,
a todo custo, que um iniciado viesse a prejudicar a harmonia do
grupo. Por isso, cada associação estabelecia um perfil
avaliativo do cidadão a ser iniciado, e somente quem a ele
perfeitamente se adaptasse lograria ser aceito.
A definição desse perfil era considerada
uma necessidade indispensável para que a organização
pudesse seguir homogênea e ativa na luta por seus ideais.
A fixação das características essenciais do
candidato e sua exata definição não poderiam
ser desprezados sob nenhuma forma sem o perigo de graves danos à
comunidade.
Temos aí uma premissa básica a ser
seguida se quisermos um grupo unido e coeso, capaz de atingir suas
finalidades, grupais ou individuais. Não se pode permitir
a existência de vozes contrárias e destoantes comprometedoras
da boa ordem dos trabalhos. A história nos diz que as guildas,
corporações e colégios seguiam rigorosamente
esse estatuto, observância que lhes deu vida por mais de mil
anos.
É muito natural, portanto, que a Maçonaria,
como toda e qualquer sociedade que se proponha altas finalidades
sociais, estabeleça um rígido perfil para enquadramento
dos candidatos à iniciação, perfil esse que
deve delinear com precisão as qualidades básicas mínimas
e indispensáveis desejadas.
Já é nosso hábito dizer que
somente damos ingresso a homens 1ivres e de bons costumes".
Essas qualidades, contudo, nos parecem absolutamente vagas e imprecisas,
por não serem capazes de definir a verdadeira personalidade
de alguém.
É mister
procurar com denodado empenho uma elaboração mais
exata para o perfil das pessoas que queremos trazer para o nosso
meio e engajar na luta pelos ideais maçônicos. Necessitamos,
na realidade, de verdadeiros homens de iniciativa, com decisão
de luta pelo bem comum de nossa sociedade, que possam efetivamente
envolver-se com o nosso grupo, com disposição também
de dedicar-se sem esmorecimento à elevação
de seu nível cultural individual.
Ser "livre e de bons costumes" seria apenas
um poluo de partida para analisar um candidato; porém em
segundo lugar, mas não secundariamente, aquilatar outras
qualidades imprescindíveis como disposição
para o estudo sério, para a filantropia, para a luta pela
solução de problemas sociais, disposição
para lutar, enfim, por uma boa causa.
Em suma, queremos homens "livres e de bons
costumes" sim, mas também culturalmente avançados,
verdadeiros líderes sociais, intensamente dedicados à
busca da perfeição não somente em si mesmo
mas em toda a humanidade. É neste ponto que se origina a
maior parte dos problemas internos de nossa Ordem.
É notoriamente difícil encontrar candidatos
que se ajustem com perfeição a esse perfil, ainda
mais porque essa exigência tolhe o desejo de muitas Lojas
que querem a todo custo aumentar os seus quadros, como se isso representasse
algum fato positivo em seus trabalhos.
Mas, analisemos mais pormenorizadamente as duas
qualidades referidas inicialmente, e que sempre mencionamos em nossos
trabalhos: "Livre e de bons costumes". Verificaremos que
se prestam a interpretações ambíguas, pois
têm um sentido demasiadamente amplo e indefinido.
O que é um homem livre?
Livre para ir e vir conforme assegura a Constituição
Brasileira? Livre em contraposição a escravo? Livre
de laços de juramento com outras associações
similares? Livre das imposições do seu meio social?
Livre de pressões de parentes e amigos? Livre de pensamento?
Seria, ainda, ser livre contar com a coragem suficiente
para arrostar com a reprovação da sociedade para com
todo aquele que tenha a ousadia de ser diferente, diferente apenas,
do pensar da maioria?
Provavelmente naqueles primeiros tempos em que a
Maçonaria Especulativa começou a substituir a antiga
Maçonaria Operativa, quando as guildas de pedreiros vinham
perdendo sua finalidade em virtude da vulgarização
dos segredos de construção, a expressão "livre"
era entendida em seu sentido literal, ou seja, livre da peia de
ser escravo ou servo.
Evidentemente não é mais essa a conotação
de liberdade que hoje referimos, eis que no oriente, no sentido
estrito da palavra, não temos mais escravos, embora devamos
admitir que uma família que receba apenas um salário
mínimo esteja em piores condições do que um
escravo, pois a este se garantiam a comida, a moradia e o vestuário.
O termo livre tem hoje uma interpretação
muito mais nobre em nossas sindicâncias,, sendo definida em
sentido mais de liberdade mental do que física. Entendemos
como homem livre, ou deveríamos sempre entender, aquele com
coragem suficiente e evidente capacidade de escolher livremente
os seus passos, e determinar ele próprio os rumos de sua
vida. Homem livre é um homem de iniciativa, dono de seu próprio
destino, que ousa pensar sem imposição de limites
para isso.
Mas, poderá um homem livre assim praticar
alguma religião carregada de afirmações dogmáticas,
e ser ao mesmo tempo um maçom convicto? Evidentemente que
sim, desde que ele adote essa fé e seus dogmas como uma livre
escolha sua, como urna conclusão de seu processo cognitivo,
como um ponto de chegada de sua busca intelectual; desde que ele
aceite esses dogmas como uma verdade plausível perante sua
consciência.
Certa vez, em
viagem, identifiquei-me junto a alguém que de antemão
sabia ser maçom. Ele correspondeu, mas imediatamente esclareceu
que abandonara nossos trabalhos porque seu pároco, ele era
católico, lhe dissera que teria de optar entre Maçonaria
e Igreja, pois as duas se excluíam mutuamente.
Evidentemente
esse ex-Irmão não chegou a conhecer nossa Ordem, como
não conhecia sua própria religião. Não
era tampouco, seu procedimento o denunciava, um homem livre; tinha
necessidade de alguém a pensar por ele. Possivelmente teria
sido mais uma vítima da preocupação que algumas
Lojas têm de aumentar os seus quadros. Uma sindicância
um pouco mais rigorosa teria mostrado que ele não deveria
ter sido iniciado.
Liberdade não é uma aparência
externa do indivíduo, é antes uma condição
interna que permite agir sem condicionamento e sem constrangimento,
sem limitações impostas por outrem. Liberdade é
uma posição conscientemente assumida, tolerada apenas
a limitação da própria capacidade intelectual.
Essa posição não será revelada pelo
comportamento visível de um candidato, somente o seu passado
o revelará.
Mas, há um segundo quesito' que costumamos
exigir dos que desejam a Iniciação: ser um homem de
bons costumes. Esta é uma expressão muito mais ambígua
ainda. Tentemos defini?Ia e veremos quantas dificuldades se nos
depararão. "De bons costumes" é popularmente
considerado aquele hábito que leva o cidadão a proceder
de acordo com a maioria de seu meio social, a seguir os usos gerais
de procedimento adotados como corretos pelo grupo dominante.
Conheço
homens que são considerados "de bons costumes"
apenas porque publicamente se comportam segundo um padrão
preestabelecido. Não têm títulos protestados,
são pontuais no pagamento de suas dívidas, têm
ficha policial sempre limpa, mantêm oficialmente um lar com
esposa e filhos, em suma, na aparência externa, nada se provará
contra eles, e uma sindicância superficial não os condenará.
Mas no seu foro íntimo, são verdadeiros tiranos com
seus inferiores e seus familiares, fazem quaisquer negócios
escusos quando podem esconder a mão, aceitam e dão
propinas e subornos; são cidadãos que pensam exclusivamente
em seu próprio bem-estar e posição social.
Não se pode naturalmente definir um homem
por suas aparências sociais. Ser realmente livre e de bons
costumes são facetas muito íntimas de foro interno
de cada um, que não podem ser aquilatadas por uma mera e
superficial análise externa, muitas vezes eivada de considerações
e influências pessoais.
Há que se recorrer a outros meios que não
esses prismas para analisar corretamente o perfil moral de um homem.
O seu passado deve ser percorrido. Como disse muito sabiamente o
escritor grego Políbio, não é o presente que
define um homem, mas sim os atos e fitos de sua vida pregressa.
Percorramos a estrada da vida de nossos candidatos.
Procuremos ver o que eles já fizeram pelos seus semelhantes,
se eles têm efetivamente participado de atividades sociais,
se já têm voluntariamente assumido trabalhos comunitários,
se têm demonstrado espírito de iniciativa.
Se um homem já se aproxima da metade de sua
vida e nunca participou ativamente da solução dos
problemas de sua comunidade, se é adepto de uma religião
e se limitou a assistir passivamente aos cultos em ocasiões
obrigatórias, se em matéria de cultura nunca foi além
da leitura superficial de jornais e revistas, poderemos afirmar
com certeza que é assim que ele será em nossas Lojas.
Jamais nossa Ordem poderá contar com ele. Não é
por entrar para a Maçonaria que alguém se tornará
homem atuante do dia para a noite, ou virá a ser um homem
interessado em seu desenvolvimento pessoal. Jamais será um
verdadeiro Maçom.
Não poderemos aceitar como digno de Iniciação
alguém que de positivo apresente apenas a característica
de ser um bom cidadão, ou que seja considerado de bons costumes
por não ter feito mal a ninguém. Essa máquina
com que datilografo estas linhas também pode ser considerada
boa porque não faz mal a ninguém; ela é exatamente
como aquele cidadão, apenas bom, mas que para produzir algo
proveitoso deve ser permanentemente manejado.
Ao acolhermos a apresentação de novos
candidatos, deveremos fazer prevalecer sempre o bom senso e a responsabilidade,
tanto dos apresentantes como dos sindicantes, do corpo da Loja,
da Administração Central do Grande Oriente. A análise
dos dados apresentados deve ser profunda e cuidadosa. O passado
do apresentado deve ser a base de uma pesquisa muito ampla e conscienciosa.
As liberalidades para com amigos e pessoas por ocuparem
cargos de destaque têm permitido que entrem para nossa Ordem
muitos candidatos que nada mais são do que simplesmente livres
(não escravos) e de bons costumes (apenas bons cidadãos),
mas cujo passado nada mais mostra do que um caminho deserto sem
nada de positivo a ser anotado.
A condescendência, as liberalidades, os precedentes
são o grande mal que afligem o funcionamento de muitas associações,
e principalmente não poucas de nossas Lojas.
Como são raros os candidatos que poderiam
se enquadrar no perfil de perfeição que tentamos delinear,
e como muitas Lojas deixam entrever um desusado interesse em ampliar
o quadro de seus obreiros, possivelmente para encobrir a falta de
outras iniciativas mais substanciosas, verifica?se um apressamento
dos cerimoniais de Iniciação. Freqüentemente,
por isso, são iniciadas pessoas que nada trarão para
nossa Instituição, muito ao contrário, sua
inércia será muito prejudicial e contagiante.
E a observância do perfil rigoroso antes estabelecido
vai se abrandando. As considerações de amizade e uma
indisfarçada admiração por quem ocupa cargos
públicos importantes, forçam um relaxamento do processo
de seleção. De concessão em concessão
se inicia uma reação em cadeia.
Os mesmos que foram iniciados em virtude de uma
sindicância facilitada, quando por sua vez apresentarem os
seus candidatos usarão um perfil ainda mais diluído.
O nível geral da Ordem, como estamos assistindo nesse momento
histórico, vai decaindo, não no sentido moral evidentemente,
mas pela ausência de homens dinâmicos com quem a Maçonaria
necessita contar para poder atingir os seus altos objetivos. A própria
freqüência aos trabalhos, por vezes muito aquém
do desejado, é um atestado desse fenômeno.
Embora devamos admitir que a condescendência
se tomou quase universal, afetando em todo mundo as associações
de qualquer natureza, ela não deveria existir na Maçonaria,
dada a seriedade com que costumamos encarar nossos trabalhos. Essa
reação em cadeia também vem nos atingindo,
levando para baixo o nível de nossa eficiência, tão
decantada em outros tempos.
Nossa atenção a esse fato social deverá
ser dobrada, agora, para que não deixemos chegar esse nível
a um patamar perigoso, pois a experiência evidencia que quando
isso ocorre a própria existência da associação
se vê ameaçada. Muitos membros de nível cultural
mais elevado poderão se afastar silenciosamente por não
encontrarem guarida para seus esforços pela dinamização
da luta por ideais que tanto apregoamos serem nossos.
Qualquer associação que se permita
cair no conceito de seus próprios membros está chegando
a um limiar indesejável e perigoso para a sua própria
sobrevivência.
Nossa Ordem nunca poderá ser maior ou melhor
do que o forem os Irmãos que a constituem. Nem se aceitará
aquela observação de alguns pusilânimes que
dizem querer deixar a Instituição porque não
encontraram nela o que procuravam, pois habitualmente nada fizeram
ou fazem para modificar a situação. A Maçonaria
será tão grande e boa quanto nós, os Irmãos,
se formos grandes e bons individualmente.
Esses que assim
pensam são exatamente aqueles que em sua vida pregressa nada
fizeram de grandioso e meritório, e entraram na Maçonaria
pensando que ela faria isso por eles; pretendiam apenas engrandecer-se
às custas dos Irmãos.
Cuidemos para que não entrem para o nosso
grupo aqueles que Cristo já rejeitou como nem frios nem quentes:
os medíocres.
Os pusilânimes não fazem história,
são apenas levados de roldão. Percorramos a trilha
da história da humanidade e veremos que ficaram apenas os
nomes dos que foram ou muito bons ou muito maus. Procuremos ficar
na evidência por termos sido muito bons, muito grandes em
nossa luta por uma vida melhor, por uma MAÇONARIA GRANDE
E UNIDA. |