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Revista HIRAM - número 5 - maio 1990
Órgão do Grande Oriente da Itália
Título original: SUB SPECIE
HISTORIAE - SUB SPECIE
AETERNITATIS






( * ) Irm Ambrósio Peters.
A R L S "Os Templários"
GOB/Paraná
Or de Curitiba - PR.
Escritor, Historiador Filosofo e Livre Pensador.

 

 

 

 

A Teoria Socrática


Autor: Battista di Vallemina

Tradutor autorizado Irm Ambrósio Peters ( * )



Historiadores apoiados documentação fidedigna definem o período 1680/1715 como anos cruciais de uma crise de consciência européia, uma crise que após um período de letargia, tornará a explodir nos decênios seguintes, e da qual ainda não emergimos.

A fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, esteve condicionada e nem podia ser diferente ao período histórico em que ocorreu.

As definições de ordem moral contidas nas “Old Charges” da Constituição de Anderson, de 1723, em particular os antigos deveres relativos a Deus e a Religião, mostram um posicionamento frente aos problemas morais e espirituais que agitaram a cultura européia naqueles tempos.

Para compreender exatamente aquilo a que se propunham os fundadores da assim chamada “Maçonaria Especulativa”, não é suficiente ver literalmente o enunciado andersoniano, pois creio necessário aprofundar-se no contexto histórico do tempo, e buscar as razões fundamentais que levaram a sua aprovação, pois assim acharemos também respostas às questões que dizem respeito à afirmação da Maçonaria como Instituição nos séculos seguintes, e bem assim, as características por ela assumida nos diferentes estados europeus.

Não somente procuraremos mostrar um quadro sumário dos movimentos de idéias e dos fenômenos sociais e políticos que caracterizam aqueles anos cruciais, mas também evidenciar sua carga revolucionária. Somente assim poderemos nos dar conta do porquê, em tão curto lapso se desestabilizou e revolucionou uma sociedade solidamente assentada na hierarquia, na disciplina, na ordem ditada por autoridades como dogmas reguladores de toda a vida,.

Nem é insensato dizer que uma verdadeira revolução ocorreu no modo de pensar e que as conseqüências não foram menores que as operadas por Copérnico, Keppler e Galileu, duzentos anos antes. À época do Renascimento e da Reforma, duas grandes aventuras do espírito, tão bem ilustradas por Cervantes no capítulo XVI da segunda parte de "Dom Quixote”, quando o cavaleiro da triste figura encontra Dom Diego de Miranda, o homem do manto verde, seu ideal da sabedoria clássica.

Mas os tempos mudaram, e o que representava o ideal para o homem de 1615 não é mais válido para o homem do final do século. Agora este homem viaja pela Europa e por países longínquos. Isto produz uma desmesurada quantidade de narrativas, relatos, coleções literárias, avidamente lidos e comentados também por aqueles que não viajam. Algumas idéias preconcebidas evoluem; Maomé não é mais um impostor, mas sim o fundador de uma religião bela e coerente; o oriente se opõe ao ocidente; a filosofia chinesa é ateísta, mas virtuosa, etc., etc.

Experiências de viajantes, relatadas e extrapoladas até em viagens imaginárias, abalam o terreno da cultura clássica. Acrescente-se a isso a polêmica entre Antigos e Modernos a respeito do valor da História. Os historiadores antigos, que engrandeciam os belos tempos do passado fantasiavam, ou erravam, ou mentiam, ou quando menos, eram adeptos dos que haviam falseado a verdade para sustentar teses pré-concebidas.

O ceticismo filosófico se transforma em ceticismo histórico. Fica-se descrente daquelas obras históricas que eram bases de modelos de vida. Não somente a história profana, mas também a História Sagrada e a própria cronologia bíblica entraram em questionamento com objeções difíceis de desfazer. Nesta ação demolidora, se distinguiram Malebranche, os Cartesianos e, mais ferrenhos, os Liberais.

Neste, entretanto, muda a geografia intelectual da Europa cuja hegemonia cultural estivera sempre em mãos de uma potência latina, a França, que com seu idioma e suas obras, juntamente com sua “civilização”, ditava as leis.

Neste momento se firma o poder intelectual e político da Inglaterra, passando a influenciar primeiro a França e depois a Alemanha. Entretanto a Holanda mostra um movimento de internacionalização, se alçam a Prússia e a Rússia; declina a Itália e a Espanha.

Elemento não menos importante nesta revolução geográfica da hegemonia cultural é a dispersão dos protestantes franceses, causada pela revogação do Edito de Nantes, de 1685. Sobretudo, ressalta o exemplo de Teófilo Désaguliers, que bem pode ser considerado, juntamente com Payne e Anderson, o teórico divulgador da Constituição Maçônica de 1723. Filho de um pastor protestante francês de La Rochelle emigrou para a Inglaterra em seguida à revogação daquele Edito.

É o momento mais inflamado entre Ortodoxia e Heterodoxia na religião, nos costumes, na política e na cultura.

Neste cenário, emergem figuras que encarnam e interpretam a ação dos tempos: Pierre Bayle, Bossuet, Leibniz, Spinoza, Locke, John Toland, Fenelon, para citar apenas alguns.

Entre as diversas denominações assumidas pelas diversas correntes nos debates culturais, devo deter-me em duas, expressamente citadas no Capítulo 1 dos Antigos Deveres, os Libertinos e os Ateus. A passagem do tempo dá hoje a estes dois termos um significado bem distante daquele que tinham ao final do século XVI.

Os libertinos, dos quais Saint-Evremond é um exemplo de intérprete, não tem uma doutrina formal. Sua cultura aristocrática não fez mais do que reforçar suas dúvidas; são com certeza epicuristas, mas o seu epicurismo é conseqüência de sua vontade de viver de acordo com a natureza.

Este desejo de liberação, esta impaciência frente às regras, esta revolta contra os dogmas, em uma palavra, esta revolução intelectual os leva a duvidar de tudo. Malgrado sua pobreza doutrinária eles na realidade preparam as rebeliões futuras. Eis então que no termo libertinos estão compreendidos todos os que são considerados perigosos para o sistema: os que criticam os textos da Bíblia, os que se negam a crer na revelação e nos milagres, os indiferentes, os cartesianos e os deístas.

O termo muda e se especifica quando o seu sentido, no dicionário de Pierre Bayle, se torna os “Libertinos de Espírito”. Estes são os que Anderson definirá como “Libertinos Irreligiosos”.

O ateísmo do princípio do século XVIII não é aquele materialista do princípio do século XIX, mas sim aquele do “Tractadus Theologicus Politicus” de Spinoza que, do alto de sua erudição e do seu conhecimento de hebraico, abala os fundamentos da Revelação, da inspiração das profecias, da possibilidade dos milagres, da autenticidade dos Livros Santos, afirmando ter para isso as provas nos próprios Livros Sagrados.

Sob estes argumentos Leibniz apoiará seu trabalho de conciliação e de ecumenismo.

Será este o ateísmo que Anderson impugnará sob a definição de “ateus estúpidos”.

Enquanto entre Paris e Amsterdã, entre Bossuet e Leibniz se inflama a discussão, toma corpo na Inglaterra o Deísmo, um elenco de espíritos fortes, de gente que pensa livremente. Quem por primeiro proclamou esta definição do “Livre Pensamento” foi Collins, em 1713, inicialmente em escritos polêmicos, e depois mais definidamente no seu famoso “Discurso sobre o Livre Pensamento”.

Era o começo de uma tentativa de reconstrução de uma moral e de atacar de frente o nihilismo que ameaçava destruir a convivência humana. Antes de tudo seria necessário evitar o ceticismo, esta eterna discussão sobre todas as coisas sem jamais tomar nenhum partido.

Neste momento aparece no cenário do pensamento John Locke: em meio às ásperas lutas que destoem pensa em como reconstruir sobre as ruínas. Este gentleman não tem nada dos filósofos clássicos, não saiu da Sorbonne, não é um pastor nem um monsenhor. É, na realidade, um leigo. Com Locke, o pragmatismo inglês abandona as hipóteses metafísicas para entrar no domínio da filosofia, da pedagogia, da religião, da política, e dar uma resposta nova à eterna pergunta: “Quid est Ventas?”.

Durante vinte anos , de 1671 a 1691, ele escreve, aperfeiçoa o seu pensamento e lança as bases do deísmo e da religião natural. Não se trata de abolir Deus, mas sim de fazer dele o objeto de uma crença indefinida, conquanto positiva, aqui se delineia o conceito de G.A.D.U.

Os deístas preservam, contudo, a idéia da obediência a uma lei, à lei da natureza, e uma filosofia, o deísmo que renuncia à metafísica. A concepção de uma natureza poderosa e ordenada que está de acordo com a razão, e da qual deriva uma religião natural, um direito natural, uma liberdade natural. Uma moral que promova a felicidade, a felicidade sobre a Terra, com uma conseqüente luta contra tudo o que impede os homens de serem felizes nesse mundo, contra o absolutismo, o fanatismo, a superstição, a guerra.

São estas as bases da convivência que Locke exprime em sua “Epístola da Tolerância”, publicada em 1689.

Trata-se de reformular uma comunhão de pensamento. Esta necessidade foi percebida por John Toland que, em Londres, fundou a Sociedade Socrática poucos anos antes daquele notável ano de 1717.

Os membros dessa associação tinham sessões reservadas, cantavam hinos, celebravam ágapes, se serviam de um cerimonial e de um ritual. Menciono a seguir um fragmento do diálogo que se desenvolvia entre o Presidente e os Participantes no início da sessão.
- Presidente: para que seja feliz e proveitosa;
- Participantes: Nós fundamos uma Sociedade Socrática;
- Presidente: Que floresça a filosofia;
- Participantes: com as Artes Liberais;
- Presidente: Silêncio! Que esta Assembléia e tudo quanto se deva pensar, dizer e fazer seja consagrada ao tríplice voto dos Sábios: à Verdade, à Liberdade, à Saúde.
- Participantes: Que assim seja para todo o sempre;
- Presidente: Consideremo-nos iguais e irmãos;
- Participantes: e também companheiros e amigos.

Os tempos estavam enfim amadurecidos. Na festa de São João, em 24 de junho de 1717, as quatro lojas de Londres se reuniram e fundaram a Grande Loja de Londres, encarregando a Anderson e a outros Irmãos já redação de uma nova Constituição.

No livro das Constituições, chamadas de Anderson, que seriam aprovadas seis anos depois, em 1723, se destacam os Antigos Deveres que constituem aquilo que hoje podemos definir como a plataforma programática da Fraternidade que estava por nascer e se organizar. O primeiro daqueles deveres, concernente a Deus e à Religião, diz textualmente.

“Um Maçom, por sua condição, é obrigado a obedecer à lei moral; e se ele compreende corretamente a Arte, não será nem um ateu estúpido e nem um libertino irreligioso”.

Se bem que, nos tempos antigos, os Maçons fossem obrigados, em qualquer país, a pertencer à religião de cada Estado ou Nação, fosse qual fosse; hoje, ao contrário, se julga mais conveniente obriga-los somente àquela religião com a qual todos concordam, deixando a cada um as suas convicções pessoais, ou seja, ser homens bons e sinceros, homens honestos e honrados, quaisquer que sejam as denominações e convicções que possam distingui-los e para os quais a Maçonaria se torne o Centro de União e um meio de conduzir a uma sincera amizade entre pessoas que estão normalmente distantes.

Nesta admirável enunciação está condensado um trabalho de dezenas de anos vem como a tentativa de reconstruir sobre as novas bases de uma moral reguladora a convivência civil fundada sobre o direito nacional, sobre o espírito de tolerância que, ainda que abolindo a Religião de Estado, não abolia a Religião em nome da Razão, como infelizmente sucederá mais tarde. Era o encontro do Deísmo de Locke, com a filosofia de Leibniz.

A última fase deixa entrever com que pressupostos se poderá criar uma Instituição que, com a participação do espírito de tolerância de pessoas boas, sinceras e honestas, ainda que de diversas convicções religiosas ou filosóficas, confiará os deveres normativos da superação da crise em ação na consciência européia.

Na Europa, ensangüentada por guerras dinásticas e religiosas que, ao final dos anos 600, com seus pensadores e com seus filósofos, se dera conta da enorme crise nos valores políticos e sociais, procura um novo pacto entre os homens e as Nações, para reconstruir uma nova sociedade, conjugando as correntes de dois grandes rios, a corrente nacionalista e a corrente sentimental.

Da Inglaterra, este esforço de reconstrução sobre as ruínas de um passado já morto e sepultado, atravessará o Mancha e encontrará na França um Montesquieu. Por decênios, a Instituição se encontrará mediando entre a ordem a se restabelecer e as correntes inovadoras que cavam sob as cinzas. O século XVIII produzirá Frederico II, Voltaire, D’Alembert, e terminará com o grande fogo da revolução de 1789.

Deixemos para trás os dois últimos séculos de nossa Instituição, eis que ela nos fará somente constatar a falência de uma idéia generosa e de uma tentativa de realizar uma utopia.

Detenhamo-nos, ao invés, em um aspecto que muitas vezes é postergado pelos Maçons de ontem e de hoje, mas que legitima “Sub Specie Aeternitatis” a nossa Instituição.

Trata-se do caráter iniciático da Maçonaria. As antigas fraternidades de mistério, as guildas ou as corporações de trabalho tinham todas uma base doutrinária que era o suporte espiritual do adepto; utilizavam uma linguagem esotérica interna e desenvolviam uma metodologia simbólica que investigava o oculto, isto é, o desconhecido.

No âmbito das normas que regulavam sua organização, normas que eram influenciadas pelas condições ambientais e históricas, aqueles elementos não espaciais e nem temporais eram fundamentais.

Lendo criticamente a Constituição de 1723 - ainda que Anderson tenha sido encarregado de redigi-la segundo modelo dos Antigos Estatutos Góticos das Corporações de Trabalho, em particular do Estatuto dos Construtores - se verá como este aspecto foi voluntariamente negligenciado, para premiar características filosóficas e sócio-políticas do momento. Criou-se assim uma Instituição que, mais do que do progresso espiritual do homem, se preocupou em resolver os problemas que a Sociedade daquele tempo tinha criado no, domínio da política, da pedagogia e dos costumes.

Não pretendo negar a boa fé nem o empenho generoso daqueles que assumiram este trabalho para sair de uma crise que se sustentava a si mesma. Mesmo assim, o substrato iniciático da Instituição foi sendo completamente ignorado e o novo sodalício que se estava constituindo tratava só e precipuamente de argumentos profanos e inevitavelmente se profanizava.

Este modo pragmático de agir, típico da mentalidade inglesa, impregnou-se desde o início na assim chamada Maçonaria Especulativa, dando-lhe um aspecto de clube, configurando uma entidade cultural antes que uma instituição iniciática.

Ao firmar-se esta concepção,favorecida pelas contingências históricas, falseando quando não cortando as raízes da tradição, se relegou o rito, o símbolo, o esoterismo à condição de um ouropel arcaico e apenas sugestivo, mas sem valor efetivo.

É por este motivo que não êxito em definir como erro de base, que a Instituição pode ser usada como instrumento por Napoleão, no século seguinte, ou ser identificada como porta-bandeira de um laicismo anticlerical ao final do século XIX.

Nesta carência de elementos iniciáticos, está possivelmente a razão principal da secular disputa entre Antigos e Modernos, surgida na Inglaterra imediatamente após 1723 e solucionada em 1814, por um compromisso ainda vigente na Maçonaria, que é Andersoniana, embora ao mesmo tempo tenha recebido formalmente a carga da tradição.

De fato, aqueles que, mesmo não se interessando pelos problemas morais, mantinham como básico o aspecto iniciático, isto é, o único elemento capaz de possibilitar ao sodalício ter e conservar uma perene justificação, tiveram êxito em introduzir nos rituais, nos trabalhos, nos regulamentos, o esoterismo dos ensinamentos e o ocultismo dos símbolos.

Estes homens, bem como todos aqueles de que não temos registro, trabalham com uma só intenção: por uma Maçonaria que sendo de direito a herdeira das escolas esotéricas, deveria ser também a depositária do saber tradicional.

Discutiu-se muito, historicamente, a inserção na Maçonaria da lenda de Hiram do terceiro grau, a respeito da qual Anderson e seus companheiros não fizeram a menor menção.

Discutiu-se, também, acerca do aparecimento e da evolução daquilo que alguns, erradamente consideram como uma supra-estrutura da assim chamada Maçonaria Azul, isto é, os Ritos Maçônicos que concedem graus acima do terceiro.

Debateu-se muito, ainda, sobre o motivo por que ocultistas como Martinez de Pasqually, ou Louis Claude de Saint Martin e outros, ainda no século XVIII, e mais Leabeter ou Guenon, neste século, foram Maçons. O motivo é óbvio: uma estrutura institucional que não esteja fundamentada prevalentemente sobre conceitos tradicionais não pode ser guia da humanidade.

Se se pretende dar uma resposta às dúvidas, se se quer confirmar as conquistas do pensamento, veremos que uma instituição deve ter, além dos estatutos que regulam seu aspecto tradicional e moral, deve ter também um repositório de tradições que a una e a projete nos destinos da humanidade.

A Maçonaria vive hoje aquele comprometimento, agora já completamente apagado pelo tempo, que levou à Constituição da Grande Loja Unida da Inglaterra em 1814. Aceitou-se aí o Rito, o símbolo, o Esoterismo, o Repositório de Tradições como fazendo parte do “corpus juris”, mas que, contudo, não são vividos plenamente nos trabalhos maçônicos.

Tende-se a premiar o aspecto organizacional. O Maçom, à pergunta “Sois Maçom?” não mais responde: “Os meus Irmãos como tal me reconhecem”, mas saca de sua identidade, onde sua qualificação é comprovada pela quitação do pagamento de sua capitação.

Não que isto não seja necessário, penso apenas que o aspecto tradicional da Maçonaria seja aquele que a justifique “Sub Specie Aeternitatis”, e o aspecto institucional seja aquele que a caracteriza “Sub Specie Historiae”.