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Autor:
Battista di Vallemina
Tradutor autorizado Irm Ambrósio Peters ( * )
Historiadores
apoiados documentação fidedigna definem o período
1680/1715 como anos cruciais de uma crise de consciência européia,
uma crise que após um período de letargia, tornará
a explodir nos decênios seguintes, e da qual ainda não
emergimos.
A fundação
da Grande Loja de Londres, em 1717, esteve condicionada e nem podia
ser diferente ao período histórico em que ocorreu.
As definições
de ordem moral contidas nas “Old Charges” da Constituição
de Anderson, de 1723, em particular os antigos deveres relativos
a Deus e a Religião, mostram um posicionamento frente aos
problemas morais e espirituais que agitaram a cultura européia
naqueles tempos.
Para compreender
exatamente aquilo a que se propunham os fundadores da assim chamada “Maçonaria Especulativa”, não é
suficiente ver literalmente o enunciado andersoniano, pois creio
necessário aprofundar-se no contexto histórico do
tempo, e buscar as razões fundamentais que levaram a sua
aprovação, pois assim acharemos também respostas
às questões que dizem respeito à afirmação
da Maçonaria como Instituição nos séculos
seguintes, e bem assim, as características por ela assumida
nos diferentes estados europeus.
Não somente
procuraremos mostrar um quadro sumário dos movimentos de
idéias e dos fenômenos sociais e políticos que
caracterizam aqueles anos cruciais, mas também evidenciar
sua carga revolucionária. Somente assim poderemos nos dar
conta do porquê, em tão curto lapso se desestabilizou
e revolucionou uma sociedade solidamente assentada na hierarquia,
na disciplina, na ordem ditada por autoridades como dogmas reguladores
de toda a vida,.
Nem é
insensato dizer que uma verdadeira revolução ocorreu
no modo de pensar e que as conseqüências não foram
menores que as operadas por Copérnico, Keppler e Galileu,
duzentos anos antes. À época do Renascimento e da
Reforma, duas grandes aventuras do espírito, tão bem
ilustradas por Cervantes no capítulo XVI da segunda parte
de "Dom Quixote”, quando o cavaleiro da triste figura
encontra Dom Diego de Miranda, o homem do manto verde, seu ideal
da sabedoria clássica.
Mas os tempos
mudaram, e o que representava o ideal para o homem de 1615 não
é mais válido para o homem do final do século.
Agora este homem viaja pela Europa e por países longínquos.
Isto produz uma desmesurada quantidade de narrativas, relatos, coleções
literárias, avidamente lidos e comentados também por
aqueles que não viajam. Algumas idéias preconcebidas
evoluem; Maomé não é mais um impostor, mas
sim o fundador de uma religião bela e coerente; o oriente
se opõe ao ocidente; a filosofia chinesa é ateísta,
mas virtuosa, etc., etc.
Experiências
de viajantes, relatadas e extrapoladas até em viagens imaginárias,
abalam o terreno da cultura clássica. Acrescente-se a isso
a polêmica entre Antigos e Modernos a respeito do valor da
História. Os historiadores antigos, que engrandeciam os belos
tempos do passado fantasiavam, ou erravam, ou mentiam, ou quando
menos, eram adeptos dos que haviam falseado a verdade para sustentar
teses pré-concebidas.
O ceticismo
filosófico se transforma em ceticismo histórico. Fica-se
descrente daquelas obras históricas que eram bases de modelos
de vida. Não somente a história profana, mas também
a História Sagrada e a própria cronologia bíblica
entraram em questionamento com objeções difíceis
de desfazer. Nesta ação demolidora, se distinguiram
Malebranche, os Cartesianos e, mais ferrenhos, os Liberais.
Neste, entretanto,
muda a geografia intelectual da Europa cuja hegemonia cultural estivera
sempre em mãos de uma potência latina, a França,
que com seu idioma e suas obras, juntamente com sua “civilização”,
ditava as leis.
Neste momento
se firma o poder intelectual e político da Inglaterra, passando
a influenciar primeiro a França e depois a Alemanha. Entretanto
a Holanda mostra um movimento de internacionalização,
se alçam a Prússia e a Rússia; declina a Itália
e a Espanha.
Elemento não
menos importante nesta revolução geográfica
da hegemonia cultural é a dispersão dos protestantes
franceses, causada pela revogação do Edito de Nantes,
de 1685. Sobretudo, ressalta o exemplo de Teófilo Désaguliers,
que bem pode ser considerado, juntamente com Payne e Anderson, o
teórico divulgador da Constituição Maçônica
de 1723. Filho de um pastor protestante francês de La Rochelle
emigrou para a Inglaterra em seguida à revogação
daquele Edito.
É o momento
mais inflamado entre Ortodoxia e Heterodoxia na religião,
nos costumes, na política e na cultura.
Neste cenário,
emergem figuras que encarnam e interpretam a ação
dos tempos: Pierre Bayle, Bossuet, Leibniz, Spinoza, Locke, John
Toland, Fenelon, para citar apenas alguns.
Entre as diversas
denominações assumidas pelas diversas correntes nos
debates culturais, devo deter-me em duas, expressamente citadas
no Capítulo 1 dos Antigos Deveres, os Libertinos e os Ateus.
A passagem do tempo dá hoje a estes dois termos um significado
bem distante daquele que tinham ao final do século XVI.
Os libertinos,
dos quais Saint-Evremond é um exemplo de intérprete,
não tem uma doutrina formal. Sua cultura aristocrática
não fez mais do que reforçar suas dúvidas;
são com certeza epicuristas, mas o seu epicurismo é
conseqüência de sua vontade de viver de acordo com a
natureza.
Este desejo
de liberação, esta impaciência frente às
regras, esta revolta contra os dogmas, em uma palavra, esta revolução
intelectual os leva a duvidar de tudo. Malgrado sua pobreza doutrinária
eles na realidade preparam as rebeliões futuras. Eis então
que no termo libertinos estão compreendidos todos os que
são considerados perigosos para o sistema: os que criticam
os textos da Bíblia, os que se negam a crer na revelação
e nos milagres, os indiferentes, os cartesianos e os deístas.
O termo muda
e se especifica quando o seu sentido, no dicionário de Pierre
Bayle, se torna os “Libertinos de Espírito”.
Estes são os que Anderson definirá como “Libertinos
Irreligiosos”.
O ateísmo
do princípio do século XVIII não é aquele
materialista do princípio do século XIX, mas sim aquele
do “Tractadus Theologicus Politicus” de Spinoza que,
do alto de sua erudição e do seu conhecimento de hebraico,
abala os fundamentos da Revelação, da inspiração
das profecias, da possibilidade dos milagres, da autenticidade dos
Livros Santos, afirmando ter para isso as provas nos próprios
Livros Sagrados.
Sob estes argumentos
Leibniz apoiará seu trabalho de conciliação
e de ecumenismo.
Será
este o ateísmo que Anderson impugnará sob a definição
de “ateus estúpidos”.
Enquanto entre
Paris e Amsterdã, entre Bossuet e Leibniz se inflama a discussão,
toma corpo na Inglaterra o Deísmo, um elenco de espíritos
fortes, de gente que pensa livremente. Quem por primeiro proclamou
esta definição do “Livre Pensamento” foi
Collins, em 1713, inicialmente em escritos polêmicos, e depois
mais definidamente no seu famoso “Discurso sobre o Livre Pensamento”.
Era o começo
de uma tentativa de reconstrução de uma moral e de
atacar de frente o nihilismo que ameaçava destruir a convivência
humana. Antes de tudo seria necessário evitar o ceticismo,
esta eterna discussão sobre todas as coisas sem jamais tomar
nenhum partido.
Neste momento
aparece no cenário do pensamento John Locke: em meio às
ásperas lutas que destoem pensa em como reconstruir sobre
as ruínas. Este gentleman não tem nada dos filósofos
clássicos, não saiu da Sorbonne, não é
um pastor nem um monsenhor. É, na realidade, um leigo. Com
Locke, o pragmatismo inglês abandona as hipóteses metafísicas
para entrar no domínio da filosofia, da pedagogia, da religião,
da política, e dar uma resposta nova à eterna pergunta:
“Quid est Ventas?”.
Durante vinte
anos , de 1671 a 1691, ele escreve, aperfeiçoa o seu pensamento
e lança as bases do deísmo e da religião natural.
Não se trata de abolir Deus, mas sim de fazer dele o objeto
de uma crença indefinida, conquanto positiva, aqui se delineia
o conceito de G.A.D.U.
Os deístas
preservam, contudo, a idéia da obediência a uma lei,
à lei da natureza, e uma filosofia, o deísmo que renuncia
à metafísica. A concepção de uma natureza
poderosa e ordenada que está de acordo com a razão,
e da qual deriva uma religião natural, um direito natural,
uma liberdade natural. Uma moral que promova a felicidade, a felicidade
sobre a Terra, com uma conseqüente luta contra tudo o que impede
os homens de serem felizes nesse mundo, contra o absolutismo, o
fanatismo, a superstição, a guerra.
São estas
as bases da convivência que Locke exprime em sua “Epístola
da Tolerância”, publicada em 1689.
Trata-se de
reformular uma comunhão de pensamento. Esta necessidade foi
percebida por John Toland que, em Londres, fundou a Sociedade Socrática
poucos anos antes daquele notável ano de 1717.
Os membros dessa
associação tinham sessões reservadas, cantavam
hinos, celebravam ágapes, se serviam de um cerimonial e de
um ritual. Menciono a seguir um fragmento do diálogo que
se desenvolvia entre o Presidente e os Participantes no início
da sessão.
- Presidente: para que seja feliz e proveitosa;
- Participantes: Nós fundamos uma Sociedade Socrática;
- Presidente: Que floresça a filosofia;
- Participantes: com as Artes Liberais;
- Presidente: Silêncio! Que esta Assembléia e tudo
quanto se deva pensar, dizer e fazer seja consagrada ao tríplice
voto dos Sábios: à Verdade, à Liberdade, à
Saúde.
- Participantes: Que assim seja para todo o sempre;
- Presidente: Consideremo-nos iguais e irmãos;
- Participantes: e também companheiros e amigos.
Os tempos estavam
enfim amadurecidos. Na festa de São João, em 24 de
junho de 1717, as quatro lojas de Londres se reuniram e fundaram
a Grande Loja de Londres, encarregando a Anderson e a outros Irmãos
já redação de uma nova Constituição.
No livro das
Constituições, chamadas de Anderson, que seriam aprovadas
seis anos depois, em 1723, se destacam os Antigos Deveres que constituem
aquilo que hoje podemos definir como a plataforma programática
da Fraternidade que estava por nascer e se organizar. O primeiro
daqueles deveres, concernente a Deus e à Religião,
diz textualmente.
“Um Maçom,
por sua condição, é obrigado a obedecer à
lei moral; e se ele compreende corretamente a Arte, não será
nem um ateu estúpido e nem um libertino irreligioso”.
Se bem que,
nos tempos antigos, os Maçons fossem obrigados, em qualquer
país, a pertencer à religião de cada Estado
ou Nação, fosse qual fosse; hoje, ao contrário,
se julga mais conveniente obriga-los somente àquela religião
com a qual todos concordam, deixando a cada um as suas convicções
pessoais, ou seja, ser homens bons e sinceros, homens honestos e
honrados, quaisquer que sejam as denominações e convicções
que possam distingui-los e para os quais a Maçonaria se torne
o Centro de União e um meio de conduzir a uma sincera amizade
entre pessoas que estão normalmente distantes.
Nesta admirável
enunciação está condensado um trabalho de dezenas
de anos vem como a tentativa de reconstruir sobre as novas bases
de uma moral reguladora a convivência civil fundada sobre
o direito nacional, sobre o espírito de tolerância
que, ainda que abolindo a Religião de Estado, não
abolia a Religião em nome da Razão, como infelizmente
sucederá mais tarde. Era o encontro do Deísmo de Locke,
com a filosofia de Leibniz.
A última
fase deixa entrever com que pressupostos se poderá criar
uma Instituição que, com a participação
do espírito de tolerância de pessoas boas, sinceras
e honestas, ainda que de diversas convicções religiosas
ou filosóficas, confiará os deveres normativos da
superação da crise em ação na consciência
européia.
Na Europa, ensangüentada
por guerras dinásticas e religiosas que, ao final dos anos
600, com seus pensadores e com seus filósofos, se dera conta
da enorme crise nos valores políticos e sociais, procura
um novo pacto entre os homens e as Nações, para reconstruir
uma nova sociedade, conjugando as correntes de dois grandes rios,
a corrente nacionalista e a corrente sentimental.
Da Inglaterra,
este esforço de reconstrução sobre as ruínas
de um passado já morto e sepultado, atravessará o
Mancha e encontrará na França um Montesquieu. Por
decênios, a Instituição se encontrará
mediando entre a ordem a se restabelecer e as correntes inovadoras
que cavam sob as cinzas. O século XVIII produzirá
Frederico II, Voltaire, D’Alembert, e terminará com
o grande fogo da revolução de 1789.
Deixemos para
trás os dois últimos séculos de nossa Instituição,
eis que ela nos fará somente constatar a falência de
uma idéia generosa e de uma tentativa de realizar uma utopia.
Detenhamo-nos, ao invés, em um aspecto que muitas vezes é
postergado pelos Maçons de ontem e de hoje, mas que legitima
“Sub Specie Aeternitatis” a nossa Instituição.
Trata-se do
caráter iniciático da Maçonaria. As antigas
fraternidades de mistério, as guildas ou as corporações
de trabalho tinham todas uma base doutrinária que era o suporte
espiritual do adepto; utilizavam uma linguagem esotérica
interna e desenvolviam uma metodologia simbólica que investigava
o oculto, isto é, o desconhecido.
No âmbito
das normas que regulavam sua organização, normas que
eram influenciadas pelas condições ambientais e históricas,
aqueles elementos não espaciais e nem temporais eram fundamentais.
Lendo criticamente
a Constituição de 1723 - ainda que Anderson tenha
sido encarregado de redigi-la segundo modelo dos Antigos Estatutos
Góticos das Corporações de Trabalho, em particular
do Estatuto dos Construtores - se verá como este aspecto
foi voluntariamente negligenciado, para premiar características
filosóficas e sócio-políticas do momento. Criou-se
assim uma Instituição que, mais do que do progresso
espiritual do homem, se preocupou em resolver os problemas que a
Sociedade daquele tempo tinha criado no, domínio da política,
da pedagogia e dos costumes.
Não pretendo
negar a boa fé nem o empenho generoso daqueles que assumiram
este trabalho para sair de uma crise que se sustentava a si mesma.
Mesmo assim, o substrato iniciático da Instituição
foi sendo completamente ignorado e o novo sodalício que se
estava constituindo tratava só e precipuamente de argumentos
profanos e inevitavelmente se profanizava.
Este modo pragmático
de agir, típico da mentalidade inglesa, impregnou-se desde
o início na assim chamada Maçonaria Especulativa,
dando-lhe um aspecto de clube, configurando uma entidade cultural
antes que uma instituição iniciática.
Ao firmar-se
esta concepção,favorecida pelas contingências
históricas, falseando quando não cortando as raízes
da tradição, se relegou o rito, o símbolo,
o esoterismo à condição de um ouropel arcaico
e apenas sugestivo, mas sem valor efetivo.
É por
este motivo que não êxito em definir como erro de base,
que a Instituição pode ser usada como instrumento
por Napoleão, no século seguinte, ou ser identificada
como porta-bandeira de um laicismo anticlerical ao final do século
XIX.
Nesta carência
de elementos iniciáticos, está possivelmente a razão
principal da secular disputa entre Antigos e Modernos, surgida na
Inglaterra imediatamente após 1723 e solucionada em 1814,
por um compromisso ainda vigente na Maçonaria, que é
Andersoniana, embora ao mesmo tempo tenha recebido formalmente a
carga da tradição.
De fato, aqueles
que, mesmo não se interessando pelos problemas morais, mantinham
como básico o aspecto iniciático, isto é, o
único elemento capaz de possibilitar ao sodalício
ter e conservar uma perene justificação, tiveram êxito
em introduzir nos rituais, nos trabalhos, nos regulamentos, o esoterismo
dos ensinamentos e o ocultismo dos símbolos.
Estes homens,
bem como todos aqueles de que não temos registro, trabalham
com uma só intenção: por uma Maçonaria
que sendo de direito a herdeira das escolas esotéricas, deveria
ser também a depositária do saber tradicional.
Discutiu-se
muito, historicamente, a inserção na Maçonaria
da lenda de Hiram do terceiro grau, a respeito da qual Anderson
e seus companheiros não fizeram a menor menção.
Discutiu-se,
também, acerca do aparecimento e da evolução
daquilo que alguns, erradamente consideram como uma supra-estrutura
da assim chamada Maçonaria Azul, isto é, os Ritos
Maçônicos que concedem graus acima do terceiro.
Debateu-se muito,
ainda, sobre o motivo por que ocultistas como Martinez de Pasqually,
ou Louis Claude de Saint Martin e outros, ainda no século
XVIII, e mais Leabeter ou Guenon, neste século, foram Maçons.
O motivo é óbvio: uma estrutura institucional que
não esteja fundamentada prevalentemente sobre conceitos tradicionais
não pode ser guia da humanidade.
Se se pretende
dar uma resposta às dúvidas, se se quer confirmar
as conquistas do pensamento, veremos que uma instituição
deve ter, além dos estatutos que regulam seu aspecto tradicional
e moral, deve ter também um repositório de tradições
que a una e a projete nos destinos da humanidade.
A Maçonaria
vive hoje aquele comprometimento, agora já completamente
apagado pelo tempo, que levou à Constituição
da Grande Loja Unida da Inglaterra em 1814. Aceitou-se aí
o Rito, o símbolo, o Esoterismo, o Repositório de
Tradições como fazendo parte do “corpus juris”,
mas que, contudo, não são vividos plenamente nos trabalhos
maçônicos.
Tende-se a premiar
o aspecto organizacional. O Maçom, à pergunta “Sois
Maçom?” não mais responde: “Os meus Irmãos
como tal me reconhecem”, mas saca de sua identidade, onde
sua qualificação é comprovada pela quitação
do pagamento de sua capitação.
Não que isto não seja necessário, penso apenas
que o aspecto tradicional da Maçonaria seja aquele que a
justifique “Sub Specie Aeternitatis”, e o aspecto institucional
seja aquele que a caracteriza “Sub Specie Historiae”. |