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Do Irm Ambrósio Peters (
* )
A Ordem dos
Templários era uma ordem militar de cavalaria composta por
monges guerreiros. Foi fundada em Jerusalém no ano de 1119
por dois cruzados, o cavaleiro burgúndio Hugo de Payns e
o cavaleiro franco Godefroi de St. Omer, sob o nome original de
Pobres Cavaleiro de Cristo e do Templo de Salomão, com o
propósito de se dedicar à defesa dos peregrinos cristãos
que se dirigiam à Jerusalém e outros lugares da Terra
Santa
Pouco tempo depois, mais seis cavaleiros se juntaram
ao dois fundadores e o grupo se organizou sob a forma de comunidade
religiosa e decidiu adotar as regras monásticas da Ordem
dos Beneditinos fundada por São Bento (ou São Benedito).
Apresentaram-se ao patriarca de Jerusalém e perante ele prestaram
os votos monásticos habituais de pobreza, obediência
e castidade, jurando ainda solenemente defender todas as estradas
públicas que levassem a Jerusalém. De início
não adotaram qualquer vestimenta ou insígnia especial
e cobriam-se com vestes que lhes eram oferecidas por fiéis
e peregrinos.
O Rei de Jerusalém, Balduino II (1240-1261),
lhes cedeu uma ala do seu palácio real, situado próximo
a mesquita de Al-Aqsa, construída ao final do século
VII pelo sultão Al-Wallid sobre a esplanada do monte Morihá,
onde tradicionalmente estivera o antigo Templo de Jerusalém.
Aquela bela mesquita, ainda hoje um conhecido lugar de orações
dos muçulmanos, tem a forma de uma igreja e provavelmente
por isso foi confundida pelos cruzados com o Templo de Jerusalém,
pois certamente ignoravam a destruição do verdadeiro
Templo pelos romanos no ano setenta da nossa era. Esse desconhecimento
da história é confirmado pelo historiador Will Durant.
A Enciclopédia Britânica diz que a Mesquita de Al-Aqsa
era conhecida entre os peregrinos e os cruzados como o Templo de
Salomão. Aí está possivelmente a origem da
fantasiosa imagem do Templo de Salomão tão comum entre
os Maçons.
Para tornar efetivo o serviço prestado aos
peregrinos, fazia-se necessário aumentar o número
dos integrantes da Ordem, um propósito difícil de
conseguir entre os cruzados e os peregrinos que sempre nutriam o
desejo de voltar a sua terra natal. Isso os levou a buscá-los
entre os cavaleiros itinerantes que chegavam a Jerusalém,
em sua maioria excomungados, alguns em busca da salvação
de suas almas e outros a procura de novas oportunidades de roubo.
Depois de doutrinados e trazidos de volta à
sua fé, eram induzidos a aceitar os ideais da Ordem. Assim,
regenerados perante a Igreja lhes obtinham a absolvição
das excomunhões quando pronunciadas pelos bispos e vigários
e os admitia oficialmente na Ordem, onde serviam inicialmente nas
mais diversas tarefas.
Então, pelo esforço dos Templários,
voltavam à fé todos aqueles homens da ralé,
ímpios, trapaceiros, ladrões, sacrílegos, assassinos,
perjuros e adúlteros que chegavam à Terra Santa. Este
trabalho piedoso trouxe para a Ordem dos Templários o mais
importante dos privilégios, a imunidade contra a excomunhão
pronunciada por bispos e vigários, mas trouxe também
a desconfiança da Igreja, pois a Ordem ainda não tinha
obtido dela a aprovação oficial. Urgia pois obter
a imediata sanção dos altos poderes eclesiásticos
e a aprovação de seus regulamentos. À busca
dessa aprovação oficial, o Grão-Mestre Hugo
de Payns se dirigiu à Europa no ano de 1127, pomposamente
acompanhado de um séquito de companheiros.
Afortunadamente, elé conseguiu de imediato
o entusiástico apoio de São Bernardo, o poderoso abade
do mosteiro de Clairvaux, que num fervoroso panegírico enalteceu
esta nova e santa concepção de uma Ordem de Cavalaria,
um apoio inestimável que garantiu a Hugo de Payns o sucesso
de sua missão na Europa.
Em 1128, o Concilio de Treves discutiu e sancionou
as novas Regras do Templo. O original deste regulamento perdeu-se,
mas diversas cópias preservadas nos permitem conhecer as
suas bases fundamentais e comprovar que a Ordem se manteve até
o seu infeliz final, fiel ao seu elevado espirito original de estrita
disciplina, ordem e dedicação à Igreja. Da
existência de regulamentos secretos e cerimônias inconfessáveis
disseminada na cultura popular medieval, alegados pelo Rei Filipe
(1285 - 1314) para condenar a Ordem, nunca foram encontrados sequer
resquícios, apesar de extenuantes pesquisas. É hoje
de entendimento geral, que estas regras secretas nunca existiram,
porém essa lenda lhes foi fatal no seu dramático final.
A partir da aprovação oficial da Igreja,
agradecidos, reis e peregrinos começaram a enriquecer a Ordem
com dádivas financeiras e doações de castelos
e terras espalhados por todos os países da Europa cristã
ocidental. Entre essas doações está a do Rei
Henrique 1, o qual doou à Ordem uma área de terras
nos arredores de Paris onde os Templários construíram
o seu quartel general para a Europa. Este edifício, conhecido
como “O Templo”, serviria no futuro de prisão
ao Rei Luiz XVI durante a Revolução Francesa e que
dali sairia quinhentos anos depois para a guilhotina.
A história dos Templários confunde-se
com a história das Cruzadas, pois enquanto estas duraram,
eles lutaram ao lado dos cruzados e centenas deles morreram nos
combates contra os Muçulmanos.
A 16 de maio de 1290, quando os cruzados perderam
a cidade de São João D’Acre, sua ultima posição
no Oriente, e o Grão-Mestre William de Beaulieu foi morto,
os poucos Templário remanescentes elegeram um novo Grão-Mestre
e navegaram para Chipre onde estabeleceram o seu novo centro administrativo.
Durante o século XIII, os Templários
enriquecidos pelas doações e lucros do seu patrimônio,
se tornaram o mais poderoso agente político-financeiro da
Europa, presentes nas cortes de todos os principais países,
servindo reis, rainhas, príncipes e princesas. Haviam se
tornado donos de imensos domínios imobiliários que
iam desde a Inglaterra até Chipre e desde a Dinamarca até
Portugal. O Templo, seu quartel-fortaleza em Paris, tornou-se o
centro financeiro de toda a Europa, pois a partir dele comandavam
o movimento bancário. Reis e Papas utilizavam-se do Templo
de Paris para guardar em segurança as suas fortunas. O seu
poder militar e a sua disciplina interna davam segurança
às transferencias de dinheiro entre os países, desde
a Armênia até o Oeste da Europa. Tornaram-se os predecessores
e também os rivais das companhias bancárias italianas.
Pesava contra eles a acusação de usura,
pois o lucro financeiro era imoral e ilegal no mundo medieval cristão,
embora essa tenha sido uma atividade, por assim dizer, habitual
entre os cristãos e porque era ignorada por reis e aristocratas,
sempre necessitados de empréstimos para cobrir seus desmandos
financeiro. Diz a Enciclopédia Britânica que os Templários
usavam um jogo contábil no controle dos saldos dos seus devedores
hipotecários, através do qual disfarçavam seus
lucros e se esquivavam da pecha de usurários.
No momento de sua supressão, tinha o Ordem
dos Templários atingido o máximo do seu poder. É
bem verdade, que nunca haviam chegado a um poder soberano como o
dos Cavaleiros Teutônicos na Prússia ou como o dos
Cavaleiros de São João da ilha de Rodes (depois de
Malta), mas os privilégios e imunidades conseguidos junto
aos Reis e Papas os tinham tornado tão poderosos no mundo
da política e das finanças e no seio do Cristianismo,
que haviam se tornado uma outra igreja dentro da própria
Igreja e um outro estado dentro do próprio Estado.
O Rei de França, Filipe IV, o Belo, pretendendo
concentrar em suas mãos todo o poder do seu reino, tentou
por diversos modos restringir o poder da Ordem mas, pressionado
por problemas políticos internos, foi obrigado a confirmar
os privilégios da Ordem em janeiro de 1293, por lhe ser útil
o seu apoio naquele momento.
Também teve que arrefecer sua ambição
de poder, em face da oposição do Papa Bonifácio
VIII (1294 / 1303), que defendia com rigor a supremacia do Papa
e dos clérigos sobre o poder civil em matéria espiritual
e confirmou essa sua posição em diversas bulas. Em
1301, recrudesceu a luta pelo poder entre Filipe e o Papa, o qual
excomungou o Rei em 1303. Filipe mandou então prender o Papa
em Agnani e o tratou com brutalidade. Neste mesmo ano, o Rei assinava
com Hugues de Peraud, Visitador Geral dos Templários na França,
um tratado de aliança contra o Papa.
Depois de ser solto, o Papa voltou a Roma, morrendo
em seguida. A 6 de fevereiro de 1304 o Papa Benedito XI (1303 -
1304), sucessor de Bonifácio VIII, confirmou todos os privilégios
dos Templários, e enquanto isso o Rei Filipe nomeava Hugo
de Peraud como arrecadador oficial da renda pública da França.
Pressionado por uma desastrosa campanha militar em Flandres e necessitando
do apoio dos Templários, beneficiou-os abolindo todos os
entraves que pudessem dificultar a aquisição de novas
propriedades.
No ano de 1305. Felipe, valendo-se da influência
de seus legados e do suborno, fez eleger um cardeal francês,
amigo seu, como Papa Clemente V. Um dos primeiros atos do novo Papa,
foi a anulação de todos os decretos dos dois Papas
anteriores contrários às ambições do
Rei. Este Papa mudaria a residência oficial dos Papas para
a cidade francesa de Avignon, no ano de
1309.
Em 1306, Felipe, para escapar de violentas desordens
populares em Paris, refugiou-se no Templo, edificio-fortaleza sede
dos Templários e na primavera de 1307 teve oportunidade de
assistir ao ritual secreto da iniciação de um novo
Templário. Esse contato mais íntimo com a Ordem, provavelmente
trouxe-lhe a idéia exata de suas riquezas e também
de suas fraquezas, pois parece que a partir desse momento começou
a sua trama para aniquila-la e apossar-se de seus tesouros.
O seu primeiro intento para anular o poder dos Templários,
foi colocar-se ao lado do projeto de fusão com a Ordem dos
Hospitalários, um projeto sucessivamente aprovado pelos Papas,
que almejavam uma ordem militar mais forte capaz de reconquistar
a Terra Santa para o Cristianismo. Isso já havia sido proposto
no Concílio de Lyon em 1274, mas sempre recebera a oposição
daquelas duas Ordens. Segundo planejava Filipe, a Ordem dos Cavaleiros
de Jerusalém, resultante daquela fusão, deveria ficar
sob o permanente domínio do Reino Francês, pois pretendia
estabelecer que o Grão-Mestre seria sempre um príncipe
da casa real francesa.
O projeto de fusão fracassara, mas os problemas
financeiros cada vez mais deixavam o reino da França em perigo.
Na tentativa de levantar dinheiro, o Rei Filipe usara de todos os
expedientes, a até roubara e expulsara de Paris os banqueiros
judeus e lombardos, uma medida desastrosa que acabaria por aviltar
a moeda nacional. Fracassado o processo da fusão, o Rei começou
a tramar secretamente a supressão da Ordem dos Templários,
necessitando para isto apenas de uma desculpa formal para iniciar
o ataque.
Uma desculpa poderia facilmente ser forjada, pois
bastaria encontrar um delator venal para denunciar a Ordem por heresia
e prática de atos de imoralidade nas suas cerimônias
de meia-noite. Uma denúncia poderia confirmar as estranhas
histórias que já há algumas décadas
circulavam popularmente a respeito dessas cerimônias de iniciação.
Bastaria dar a algum desses boatos um aspecto de
realidade.
Por ocasião da eleição do Papa
Clemente V, na primavera de 1305, um certo Esquiu de Floyram de
Bezier propôs inesperadamente ao Rei Jaime I, de Aragão,
a revelação dos segredos dos Templários. O
piedoso rei, que conhecia de sobra os Templários, não
deu ouvidos à denúncia. Esquiu voltou-se para o rei
Filipe, de quem parece ter obtido a promessa de parte dos despojos,
e teve melhor acolhida. O rei induziu doze espiões a procurarem
filiação à ordem e entrementes procurou atrair
o Papa para seus propósitos.
Clemente V, não obstante dever sua tiara ao rei Filipe, não
cedeu ao apelo tão prontamente quanto o Rei o desejava. O
Papa limitou-se a prometer uma inquirição rigorosa
para apurar os fatos. Mas toda a França estava sob a jurisdição
direta da Inquisição e sendo o inquisidor-mor William
de Paris, seu confessor, resolveu Filipe forçar a mão
por este lado e mandou que um delator denunciasse os Templários
diretamente à Inquisição. Como de praxe, nos
casos de heresia, os acusados eram submetidos primeiro ao poder
civil e somente depois aos poderes da Inquisição.
A 6 de junho de 1306, dando seqüência
a sua promessa de rigorosa inquirição, usando o pretexto
de discutir um projeto de organização de uma nova
cruzada, o Papa convidou o Grão-Mestre da Ordem dos Templários,
Jacques de Molay, a vir a sua presença. Imediatamente, Jacques
de Molay acedeu ao honroso convite e deixou a sede de Chipre. Na
primeira entrevista, o Grão-Mestre foi interrogado demoradamente
sobre o comportamento e os rituais da Ordem defendendo-se de todas
as acusações e a seguir foi visitar as instalações
da Ordem na França.
Face às acusações de heresia
denunciadas à Inquisição, o Rei Filipe já
expedira a 14 de setembro de 1307, mandados de prisão contra
os Templários a todas as autoridades do Reino. Jacques de
Molay, tomado de surpresa, foi preso na noite de sexta-feira do
dia 16 de outubro de 1307, juntamente com sessenta de seus irmãos
de Paris. Haviam sido colhidos numa armadilha sem saída.
Para força-los a confessar, foram primeiro
torturados pelos oficiais do Rei e depois entregues à Inquisição,
para novamente serem torturados se novas confissões fossem
necessárias. Somente em Paris, morreram nessa fase inicial
do processo, trinta e seis daqueles Templários, devido a
torturas. Tudo corria como o Rei o desejara. Foram inquiridos 138
Templários, entre 16 de outubro e 21 de novembro e 121 deles,
homens idosos que haviam passado toda sua vida servindo à
Ordem, confessaram ter cuspido na cruz ou perto dela, por ocasião
de sua iniciação. Mas a mais dramática, foi
a confissão pública do Grão-Mestre Jacques
de Molay, ao admitir ter repudiado Cristo e cuspido na cruz.
Apesar de estar inteiramente voltado para os interesses
do Rei Filipe, o Papa Clemente V não concordava totalmente
com o procedimento independente da Inquisição francesa,
pois lhe parecia que a Ordem como um todo não podia ser julgada
com base no comportamento individual de alguns de seus membros.
Apesar disso e de considerar não aprovado
pela alta hierarquia eclesiástica os procedimentos na França,
deixou-se o Papa convencer de que a culpa poderia não ser
de toda a Ordem, mas que certamente pelo menos alguns dos seus membros
mais importantes eram culpados e concluiu corretamente ser da competência
da Igreja o julgamento final. Os atos de Filipe lhe pareciam estar
indo além dos limites do seu poder civil. Sua preocupação
cresceu quando o Rei, sem o consultar, enviou cartas ao rei Jaime
de Aragão, ao rei Eduardo II da Inglaterra, ao Rei Alberto
da Germânia e a outros príncipes, incitando-os a imitar
o seu exemplo. A 27 de outubro, o Papa Clemente enviou cartas suspendendo
os poderes da inquisição na França. O que aconteceu
nos meses seguintes não ficou claro, pois os documentos são
confusos.
A 22 de novembro, o Papa expediu uma bula ordenando
a todos os reis e príncipes que detivessem os Templários
onde quer que se encontrassem. Provavelmente deu essa ordem para
colocar o processo sob sua própria autoridade e impedir um
avanço do poder secular. Essa Ordem papal teve o efeito de
fazer cessar todos os escrúpulos e hesitações.
Na Inglaterra, os Templários foram presos em janeiro de 1308,
no mesmo mês na Sicflia e no mês de maio em Chipre.
Em Aragão e Castela, o processo foi mais diftcil porque os
Templários avisados puseram-se em defesa em seus castelos
e só foram presos depois de longa resistência.
Enquanto isso, o rei Filipe entrara solenemente
em Poitiers em maio e ali encontrou-se com o Papa que já
se achava reunido com os cardeais. Depois de muitas confabulações
chegaram a um arranjo. O rei concordou em ceder aos comissários
do Papa, a solução dos destinos dos Templários
e de suas propriedades; o Papa de sua parte retirou a sentença
de suspensão contra o inquisidor-mor de França e ordenou
que a inquisição contra os Templários fosse
individual e conduzira pelos bispos diocesanos, com assessores nomeados
por ele. O Papa reservou para si a inquirição do Grão-Mestre,
do grande Visitador da França e dos grandes preceptores de
Chipre, da Normandia e da Aquitânia.
O Papa decidiu que a inquisição deveria
ser conduzida em cada país por comissários papais
especiais e que destino da Ordem como um todo, seria decidido por
um concílio geral que foi convocado para outubro de 1310
em Viena.
Enquanto isso, o Papa e os cardeais organizavam
a nova inquisição pública que, por problemas
de definições, não funcionaria senão
em abril de 1311. Tentando defender a Ordem, muitos dos Templários
ao serem novamente interrogados, retrataram suas confissões
anteriores.
Os comissionáreis papais, em conluio com
os representantes reais, decidiram que as acusações
contra a Ordem em Paris seriam usadas contra os Templários
individualmente, quando fossem julgados nas suas províncias.
As referidas retratações feitas em Paris, de acordo
com as normas de procedimento dos comissários diocesanos,
foram consideradas perjúrios e punidas com a morte por fogo.
Sessenta e sete Templários pereceram desta forma, em maio
de 1311.
O Papa Clemente e Filipe concordavam que caberia
ao Papa a condenação ou não da Ordem dos Templários.
O Concílio geral reuniu-se em outubro de 1311 e logo surgiu
a dúvida sobre se os Templários poderiam ou não
ser ouvidos em sua própria defesa. O Papa dissolveu a sessão
para evitar complicações e quando sete Templários
se ofereceram para fazer sua própria defesa, ele os mandou
para a prisão. Filipe chegou a Viena no mês de março
de 1312 e imediatamente sentou-se a direita do Papa que então
pronunciou seu sermão contra a Ordem dos Templários,
anunciando que ela tinha sido dissolvida, não pelo Concílio,
mas por um consistório privado.
Em 2 de maio de 1312, ele publicou a bula que transferia
os bens da Ordem dos Templários, exceto os dos reinos de
Castela, Aragão, Portugal e Maiorca, para a Ordem dos Cavaleiros
de São João de Rodes, a Ordem dos Hospitalários.
O final desta estupenda tragédia humana viria a ocorrer em
1314. Jacques de Molay, o Grão-Mestre até esse momento,
não tinha se portado de seu cargo, pois o simples medo da
tortura tinha sido suficiente para fazê-lo confessar.
Sua confissão de culpa acabaria por arrancar também
a confissão dos seus irmãos, acostumados que estavam
a obedecer cegamente aos seus chefes militares.
Aquele infeliz homem já fora submetido a
humilhações após humilhações,
a retratações públicas e a repetidas confissões.
Ante a comissão papal, ele foi levado à ira, protestou,
usou termos ambíguos e até o final teve que repetir
sua confissão, sempre mais uma vez. Nunca lhe foi concedida
uma audiência solicitada com o Papa.
O Papa Clemente emitira sua decisão final
contra a Ordem dos Templários, mas reservara a condenação
dos 5 oficiais maiores para si próprio. Decidido o destino
da Ordem, a sorte dos Templários, individualmente perdeu
o interesse dos historiadores.
Jacques de Molay e Gaufrid de Charney, preceptor
da Normandia, foram levados a um tablado, erguido em frente a igreja
de Notre Dame de Paris a 14 de março de 1314. Ali, na presença
dos legados Papais e do povo, eles foram instados a repetir suas
confissões e receber sua sentença de prisão
perpétua. Em vez disso, eles valeram-se da oportunidade para,
ante as milhares de pessoas reunidas, mais uma vez retratar suas
confissões e protestar a inocência da Ordem. O Rei
Filipe o Belo, sem esperar previamente por resposta a uma consulta
à Igreja para saber que destino dar aos dois templários,
ordenou que fossem queimados.
Uma palavra deve ser dita sobre a importância
e a queda dos Templários perante a História. A Ordem,
além de ter detido o avanço do Islam, tanto no Oriente
como na Espanha, havia criado um novo conceito de cavalaria ao conseguir-lhe
a sanção religiosa. Depois dos Templários,
as Ordens de Cavalaria assumiram grande influência em todos
os campos da sociedade européia, destacadamente no campo
da beneficência.
A supressão da Ordem teve três conseqüências
funestas para a civilização cristã: (1) facilitou
as conquistas turcas no Mediterrâneo; (2) mostrou e confirmou
o comportamento criminoso e irresponsável dos governos da
França, que afinal acabaria por conduzir à Revolução
Francesa; (3) trouxe a sanção oficial das altas autoridades
eclesiásticas para a crença em relações
pessoais ou grupais com o demônio, o que trouxe a aprovação
oficial para o expediente de arrancar sob indizíveis torturas
confissões de culpa dos acusados, tornando possíveis
as nefandas perseguições inquisitórias que
enlamearam a baixa Idade Média e que sobreviveriam até
em países protestantes depois da Reforma.
Continuam divididas ainda hoje as opiniões
sobre a culpabilidade ou não dos Templários, face
aos motivos que levaram à sua supressão. Dezenas de
livros já foram escritos sobre essa matéria e mostram
que a absoluta maioria de seus contemporâneos acreditava na
sua inocência. Sobre as confissões dos Templários
de terem cuspido na crus, há autores que apresentam a hipótese
de que esse poderia ter sido um simples expediente usado nas iniciações
secretas para avaliar o espírito de obediência do iniciando.
Teria Filipe o Belo visto algo semelhante quando assistiu a iniciação
de um Templário no Templo de Paris?
Qual a origem da idéia de ligar os Templários
à maçonaria?
Evidentemente, não se pode ligar a Maçonaria
Operativa aos Templários, porque ela é de dois séculos
anterior aos Templários. A Maçonaria Especulativa
é o fruto de um processo social que se iniciou no século
XVI, portanto quase três séculos e meio após
a extinção dos Templários.
Mas como foi visto, os bens imóveis dos Templários
foram passados para os Hospitalários, e os Templários
tinham pelo menos um Templo em Londres. Diz James Anderson em seu
Novo Livro das Constituições de 1738 (pg 78), que
no ano de 1500, o Grão-Mestre da Ordem de São João
de Rodes (Hospitalários), reunido em Grande Loja com seus
companheiros, elegeu o rei da Inglaterra Henrique VII seu Protetor,
e este logo nomeou seus dois Grandes Vigilantes para a Inglaterra,
isso é, este Rei considerou-se o Grão-Mestre da Inglaterra.
O rei Henrique VIII que o sucedeu em 1509, logo nomeou o primeiro
Grão-Mestre dos Maçons na Inglaterra. Este contato
com os Hospitalários, proprietários sucessores dos
bens dos Templários em Londres, pode ter dado origem à
lenda.
Um escritor francês, Pierre du Puy, bibliotecário
da Biblioteca Real, publicou em 1654, uma obra afirmando que aqueles
que procuravam provar a inocência dos Templários, estavam
na verdade querendo desacreditar o Rei da França. Segundo
o escritor Loiseleur, os editores posteriores da obra de Du Puy
teriam sido Maçons que, sob pseudônimos, subtraíram
parte dos antigos documentos do processo, induzindo outros para
provar que a Maçonaria tinha origem nos Templários.
Ainda é comum ouvir-se Irmãos afirmarem
que provavelmente os Templários remanescentes poderiam Ter
procurado a Maçonaria Operativa para preservar através
dela os seus ideais. Certamente depois da implacável perseguição
movida contra eles, tanto pela Inquisição como pelo
Rei Filipe e pelas inquisições diocesanas em todo
os países cristãos, pouquíssimos devem
Ter escapado da morte. Provavelmente alguns deles devem ter se abrigado
na Ordem dos Cavaleiros de São João de Rodes, que
ficou com a maioria das propriedades dos Templários.
É oportuno também consideram, que
na época da supressão da Ordem dos Templários
a Maçonaria era totalmente operativa, isto é, formada
por guildas de ofício, inteiramente voltadas para a defesa
de seus interesses profissionais. Isto nos leva a concluir que não
era um abrigo próprio para Templários, que tinham
interesses totalmente diversos. Não se pode esquecer que
eles eram membros de uma Ordem Religiosa, portanto seria mais crível
que os seus remanescentes tivessem procurado monastérios
para se abrigar e não as guildas.
Parece sem sentido a pretensão de ligar os
Templários à Maçonaria. |