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Ir Ambrósio Peters (
* )
Uma estranha e difusa nebulosidade parece pairar
sobre aqueles primeiros anos que se seguiram à fundação
da Grande Loja da Inglaterra, quando foi dado o grande passo inicial
de nossa Maçonaria Especulativa, numa arrancada intelectual
que viria a ser objeto de contradições e controvérsias
nos séculos seguintes.
Esse silêncio deixou sem respostas concretas
perguntas como:
Quem foi o idealista?
Porque foi fundada a Maçonaria?
Quais foram realmente as quatro Lojas que estavam
presentes naquele dia de 1717?
A respeito parece que dispomos de uma única
fonte de informações: a segunda edição,
a de 1738, das
Constituições.
Quando em 1723 se publicou pela primeira vez a “The
Constitutions of the Free-Masons, Containing History, Charges, Regulations,
S & C, of the Must Ancient and Right Worshipful Fraternity”,
dita de Anderson, nada foi consignado sobre a fundação
da Grande Loja da Inglaterra.
Somente a segunda edição, a de 1738,
foi acrescida por Anderson de um adendo contendo dados sobre o 24
de junho de 1717, evidentemente com base em uma tradição
oral, sobre cuja exatidão há que por restrições
porque relativas a um período não documentado de mais
de vinte anos. As primeiras atas de que dispomos das reuniões
da Grande Loja da Inglaterra são do início de 1723,
ano da edição das “Constituições”.
Habitualmente, apenas dois nomes aparecem ligados
àquela primeira edição: James Anderson e Jean
Theophile Desagulliers. Mas há um outro nome, muito raramente
mencionado, mas que a nosso ver teve um papel não menos destacado
nos eventos da época dos primeiros movimentos da Grande Loja
da Inglaterra, principalmente na elaboração das “Constituições”.
Esse nome é John Toland.
A imprecisão histórica que marca os
primeiros anos e os primeiros atos da Maçonaria Especulativa,
também paira sobre a autoria e outros fatos ligados às
“Constituições” de 1723. Algumas questões
intrigantes não podem deixar de ser postas na busca de uma
elucidação.
Quem foi na realidade o encarregado, ou os encarregados,
de redigir as “Constituições” segundo
os velhos costumes, ou melhor, de fazer uma compilação
resumida destes? Battista di Vallemina, em seu artigo “Sub
Specie Historiae, Sub Specie Aeternitatis”, da revista HIRAM,
publicado no número 78 de “O Prumo”, teria recebido
a incumbência “James Anderson juntamente com outros
Irmãos”. Provavelmente Anderson, por uma questão
de simples ordem alfabética, foi apenas o primeiro da lista.
No decorrer dos anos, “os outros” foram sendo relegados
e a redação inicial atribuída apenas a Anderson,
quando ele, na realidade, poderá ter sido apenas o redator
ou o relator. Há quem espose essa teoria.
Quem poderia estar entre estes outros, ou entre
os da comissão de quatorze notáveis encarregados de
revisar a redação dita de Anderson? Há dados
que apontam em direção a Jean Theophile Desagulliers,
que fez a apresentação oficial, como também
em direção a John Toland. Quem foram estes dois, e
quem foi na realidade James Anderson?
James Anderson foi um pastor e pregador presbiteriano,
bastante ativo, mas de pouca evidência. Nascido na Escócia
em 1680, faleceu em Londres no ano de 1746. Doutorou-se em Teologia,
fixou residência em Londres ainda antes de 1710 e aí
comprou os direitos de vicariato de uma capela presbiteriana, na
qual pregou permanentemente até pouco antes de sua morte.
Ao que tudo indica, foi sempre um pastor devotado à sua religião
e, portanto, por todos os pontos de vista lógicos, um TEÍSTA.
É este o sentido claro que imprimiu a todos os sermões
que publicou. Era também um maçom assíduo,
pois pertencia a mais de uma Loja. Não foi protagonista de
nenhuma idéia pessoal nova no campo da filosofia ou da teologia.
Não trouxe nenhuma contribuição nova nesses
campos.
John Toland, raramente mencionado nas obras maçônicas,
mereceu uma menção especial na obra “A Era de
Luiz XIV”, dos historiadores Ariel e Will Durant, com a citação
dos traços principais de sua revolucionária linha
de pensamento, dizendo, inclusive, o que é raro em historiadores
profanos, que Toland talvez fosse membro da “Grande Loja Matriz”
da Maçonaria, que se estabelecera em Londres no ano de 1717.
O escritor maçom Nicola Aslan também o cita nessa
condição em seu livro “Landmarques e outros
Problemas Maçônicos”. Destaque-se a citação
dos “Durant”, pois Maçonaria parece um assunto
proibido para historiadores profanos.
Toland era um DEÍSTA convicto e, portanto,
um racionalista. Afirmava categoricamente que a razão é
o único fundamento de nossa certeza e que, crer na divindade
das escrituras ou no sentido divino de qualquer de suas passagens
sem prova racional ou evidente consistência, é lamentável
credulidade. Mas, apesar disso, julgava todas as verdades cristãs
perfeitamente razoáveis. Seu livro “Christianity not
Misterious”, publicado quando tinha apenas 26 anos de idade,
foi publicamente queimado em frente ao edifício do Parlamento
Irlandês.
Foi forçado a uma fuga precipitada, primeiro
para Londres e depois para o continente europeu. Seus pensamentos
eram demasiadamente avançados para sua época, principalmente
os relacionados com os movimentos da matéria e a reacionalidade
do sobrenatural. São dele as palavras “que todos os
homens falem livremente o que pensam sem jamais serem estigmatizados
ou punidos a não ser pelas suas más ações”
a base do pensamento maçônico.
Para ele, o livre pensamento deveria ser um dever
e um privilégio exclusivo de uma minoria culta, não
devendo haver censura mútua entre os componentes dessa minoria.
Seu opúsculo “Phanteisticus” expunha o credo
e o ritual de uma sociedade secreta imaginária, cujos membros
rejeitariam todas as revelações sobrenaturais e adotariam
unia nova religião baseada em uma filosofia que identificaria
com Deus e o Universo. Compare com o artigo 1º das “Constituições”.
Toland, como quase todos os grandes idealistas,
morreu pobre, em Londres, no ano de 1722.
E Jean Theophile Desagulliers? Nasceu em La Rochelle, na França,
no ano de 1683. Já no ano de 1685, sua família teve
que emigrar para a livre Inglaterra, porque a revogação
do Edito de Nantes pelo Rei Luiz XIV, tornou a vida dos protestantes
impossível na França. Foi educado em Oxford e ordenou-se
diácono presbiteriano no ano de 1710, quando Anderson, também
clérigo presbiteriano, já se domiciliara em Londres.
Obviamente se conheciam e se encontravam.
Desagulliers, cientista parcamente conhecido por
suas pesquisas no campo da física, era, no entanto, amigo
de Isaac Newton e membro efetivo da “Royal Society”
que abrigava muitos dos maiores cientistas da Europa de então.
No campo da física, limitou-se a ampliar as pesquisas de
Stephen Gray, e foi o primeiro a descrever a condutibilidade elétrica
dos materiais, e introduziu a palavra “isoladores” para
os materiais não condutores.
Um homem de comportamento exemplar socialmente,
professor emérito em diversos estabelecimentos de ensino,
capelão do príncipe de Gales, é autor de diversos
trabalhos literários publicados em revistas e de uma dezena
de livros. Como Anderson, era um clérigo presbiteriano influente.
Não defendeu particularmente nenhuma idéia inovadora
no campo filosófico-teológico.
Desagulliers conservou-se presbiteriano convicto
e, portanto, um TEISTA. Pertencente a um sistema religioso baseado
em uma revelação divina, que defendia ardentemente
em seu dever de clérigo, não pode ter sido um DEÍSTA
e nem se tomado racionalista.
De princípios morais rígidos, clérigo
em evidência, cientista de alguma notabilidade, amigo dos
membros da Royal Society, seria um homem que a Maçonaria
se orgulharia de ter entre seus membros. Foi seu terceiro Grão-Mestre
em 1719. Por sua projeção social, deve ter sido convidado
a colaborar na redação das “Constituições”
de 1723, auxiliando Anderson, que era seu colega e certamente amigo,
juntamente com alguns outros Irmãos.
Não existem atas, correspondências
ou quaisquer outros documentos relativos à Grande Loja da
Inglaterra do período 1717/1723. Teriam sido todos destruídos
propositadamente, não se sabe por qual motivo. Tudo o que
se sabe desse período, conhecemo-lo através de adendo
às “Constituições” de 1738, escrito
pessoalmente por Anderson.
Anderson era, obviamente, um “TEISTA”
convicto, e provam-no os seus sermões publicados, reveladores,
que são do que habitualmente pregava sua paróquia.
Não há nada que indique ter tido alguma vez outra
linha de pensamento. Toland era um “DEÍSTA” publica-
mente confesso, e seus princípios filosóficos se aproximam
dos ideais maçônicos ainda hoje propugnados. Desagulliers,
um experimentador no campo da eletricidade, como conhecedor da natureza,
poderia ter se aproximada do deísmo, mas sua condição
de clérigo protestante convicto evidentemente o manteve TEÍSTA.
A projeção histórica de Toland é conhecida
no campo da filosofia e teologia. Desagulliers obteve alguma notoriedade
com suas experiências com condutibilidade elétrica,
mas era desconhecido como pensador. Anderson é historicamente
um desconhecido.
Analisando as condições e a projeção
intelectual de cada um dos três, nos será permitido
conjecturar quais as suas influências pessoais na elaboração
do documento-mãe da Maçonaria Especulativa.
Permitimo-nos prevenir os leitores de que os pensamentos
expressos a seguir são pessoais, e como tais devem ser encarados.
Em nossa análise, vamos ater-nos ao artigo primeiro “1
- O que diz respeito a Deus e a Religião”, e ao artigo
“VI da Conduta” em seu item 2º.
Os demais itens das “Constituições”
são uma compilação em resumo das “Old
Charges”, e contém regras de comportamento em geral
para os Maçons, tanto em Loja como fora dela, e não
contém nenhuma particularidade filosófica - religiosa
como a contida nos dois artigos citados.
Transcrevemos a seguir o artigo 1º das “Constituições”
de 1723, em tradução ditada por Nicola Aslan, em seu
livro “Landmarques e outros Problemas Maçônicos”
Rio, Aurora, que o transcreveu de Plantagenet e a considera uma
tradução muito aproximada do original inglês.
“Um Maçom é obrigado, por sua
dependência à Ordem, a obedecer à Lei Moral;
e se entende corretamente o Ofício, nunca será um
estúpido ATEU nem um LIBERTINO irreligioso. Porém,
embora nos tempos antigos, os Maçons fossem obrigados, em
todos os países a seguir a religião do país
ou da nação, qualquer que ela fosse, considera-se
hoje mais conveniente obrigá-los unicamente para com a religião
sobre a qual todos os homens estão de acordo, deixando a
cada um as suas opiniões pessoais. Esta religião consiste
em serem homens bons e sinceros, homens honrados e probos, quaisquer
que sejam as denominações ou crenças que podem
distinguí-los, pelo que a Maçonaria se tornará
o centro de União e o meio de conciliar, por uma amizade
sincera, pessoas que teriam ficado perpetuamente separadas.”
Há traduções e resumos demasiadamente
livres que devem ser lidos com reserva, como, por exemplo, a anexa
à “Constituição e Regulamento Geral”
do G.O.R.S. que, particularizando, diz “Leis e Costumes”
em lugar de “Lei Moral”, ou então “Religioso
Livre Pensador” em lugar de “Libertino Irreligioso”,
expressões que não se identificam, e se afastam do
sentido original.
Detenhamo-nos em alguns tópicos do artigo
acima transcrito.
“... por sua dependência”; este
excerto consta do original inglês sob o vocábulo “tenure”.
É um termo jurídico-moral medieval e significa exatamente
isto, dependência, como a que obriga o Maçom para com
sua Loja ou sua Obediência, quando aceita os ditames e princípios
maçônicos ao se iniciar.
“... Obedecer a Lei Moral...” Qual Lei Moral? Evidentemente
a Lei Moral Cristã, os princípios morais cristãos,
único código de procedimentos conhecido na Europa
de então. Essa primeira obrigação maçônica
tem sua razão de ser porque na época a decadência
moral na Inglaterra era um fato altamente preocupante. Toda a sociedade,
desde a mais alta aristocracia até a classe mais pobre, estava
em desagregação moral. A licenciosidade dos costumes
levava ao ateísmo, e este à libertinagem em todos
os ambientes, não se excluindo o próprio clero entre
cujos membros a pouca instrução e ausência de
comportamento moral digno era uma tônica.
Este item sobre a Lei Moral poderia ter sido escrito
tanto por Anderson, como por Desagulliers ou por Toland, ou mesmo
por qualquer outro membro da Grande Loja, pois a obediência
a princípios morais estabelecidos qualifica um homem como
de bons costumes, qualidade exigida de todo aquele que pretendesse
se filiar à Maçonaria.
“... nunca será nem um estúpido
ateu nem um libertino irreligioso...” Parece um brado de alerta
e uma repreensão, apropriadamente dita por qualquer pregador
de qualquer igreja cristã em uma sociedade em desagregação.
O ateísmo já se tornara dominante nos meios aristocráticos
e nas classes mais pobres. A classe média, não a mais
numerosa, mantinha por conveniência um comportamento público
mais moderado e moralizador, provavelmente por necessidade egoística
de status social, embora na vida privada não fossem assim.
Era um a teísmo inconseqüente, porque negava simploriamente
a existência de Deus, sem se preocupar em propor outra solução
para as origens do Universo e nem outra justificação
para procedimentos éticos. Era assim um ateísmo estúpido,
originado não da racionalidade, mas sim da revolta íntima
contra as intermináveis e sucessivas guerras de religião,
contra o comportamento pouco exemplar dos pastores, padres e pregadores,
contra as injustiças sociais praticadas pelas classes dominantes,
clero e aristocracia, que viviam às custas de uma população
sempre beirando a miséria e a fome total. Diante de tantas
injustiças,
sem ter a quem apelar, se perguntavam: Que Deus é esse que
permite tanta miséria? Deixavam de crer nele simplesmente
por desilusão.
Esses estúpidos ateus eram, evidentemente
e por conseqüência, irreligiosos que, sem mais nenhum
vínculo moral com o que quer que fosse, se entregavam aos
piores vicios, à libertinagem. A irreligiosidade libertina,
conseqüência de um ateísmo irracional, desligava
o cidadão de qualquer compromisso moral, ou de qualquer compromisso
com a Lei Moral.
Vislumbra-se, neste tópico, uma bastante
clara declaração de TEÍSMO, e então
as expressões «estúpido ateu” e “libertino
irreligioso” são quase certamente de Anderson ou Desagulliers,
dois Teístas. Mas este tópico contradiz em parte o
que se segue quanto à religião natural ou universal.
“... Porém, embora nos tempos antigos
os Maçons fossem obrigados, em todos os países, a
seguir a religião de seu país ou da nação,
qualquer que fosse ela, considera-se hoje mais conveniente obrigá-los
unicamente para com a religião com a qual todos estão
de acordo, deixando a cada um as suas opiniões pessoais...”
Eis uma clara e evidente declaração de iluminismo,
ou de livre pensamento, exatamente o ideal defendido por John Toland
em sem opúsculo “Phanteisticus”, antes citado.
É uma declaração aberta em favor da racionalidade
no campo religioso e no campo do pensamento: uma declaração
de DEÍSMO.
Com que religião todos os homens poderiam
estar de acordo? Certamente nenhuma das religiões então
dominantes, pois entre elas não havia acordo de espécie
alguma. Notamos aqui a expressão “todos os homens”,
e não “todos os cristãos”. Uma religião
assim não pode ser senão a natural, não revelada
por nenhum Deus, a religião a que se chega através
da racionalidade. Exatamente como teorizava Toland com o seu Deísmo,
única concepção que se casa com a religião
natural.
Esse tópico, evidentemente, não pode
ser nem de Anderson, nem de Desagulliers, ambos clérigos
presbiterianos, que sempre se mostraram coerentes com sua religião,
cujos princípios se dedicaram a pregar. Isto é mais
próprio de um livre pensador como Toland.
“...esta religião consiste em serem
os homens bons e sinceros, homens honrados e probos, quaisquer que
sejam as denominações que possam distingui-los...”;
esta declaração subentende que todas as crenças
são aceitáveis desde que conduzam os homens a um comportamento
moral exemplar, de acordo com uma Lei Moral Universal, sem ligação
com alguma religião em particular. A tese do livre pensamento
continua a ser posta em evidência, importando não a
crença ou a fé em si, mas sim a sinceridade e a liberdade
com que se busca essa crença. Nesta redação,
não se pode ver nem a mão de Anderson, nem a mão
de Desagulliers, mas sim, provavelmente, a de Toland.
“...pelo que a Maçonaria se tornará
um centro de União e um meio de conciliar, por uma amizade
sincera, pessoas que teriam ficado perpetuamente separadas...”
Uma minoria culta unida em um ambiente intelectualmente livre e
sem recriminações, reunindo-se longe da plebe inculta
que não teria condições intelectuais de participar
dos debates. Para ser um Deísta, é antes de tudo necessário
ser culto; um homem inculto jamais o compreenderá.
Reforçamos que, com absoluta certeza, Anderson
era um Tenista, como o era também Desagulliers, ambos clérigos
de uma religião teísta baseada em uma verdade revelada.
John Toland, com absoluta certeza, era um DEÍSTA. Antes de
prosseguir, será correto dar aos leitores a diferenciação
entre TEÍSMO e DEÍSMO.
TEISTA monoteísta, politeísta é
a teoria segundo a qual há um Deus Criador do Universo, um
Deus Pessoal de existência individualizada, revelador de uma
verdade doutrinária inquestionável. E o Deus do sistema
Judaico-Cristão, do Islamismo, ou os Deuses dos povos do
Oriente Próximo.
DEISTA é a concepção filosófica
ou racional de um Ser Superior, ou uma Essência Universal,
não um Deus pessoal e individualizado de existência
além e acima da matéria, mas sim uma essência
emanadora e subjacente a toda a matéria, e de tudo o que
dela advém, inclusive a vida.
Lei Moral, Estúpido Ateu, Libertino Irreligioso
nos parecem termos ligados ao Teísmo, a uma verdade revelada.
Já a segunda parte, que fala da religião com a qual
todos concordam, a religião natural, e equaciona religião
com comportamento moral e social irrepreensível, são
expressões mais próprias do Deísmo. Os Teístas
seguem regras determinadas por uma religião revelada, os
Deístas, os ditames da consciência e da razão,
e não de uma religião. Isto evidencia que as “Constituições”
de 1723 têm diversos autores que conflitaram entre si, e não
são somente da autoria de Anderson, como constantemente se
costuma afirmar.
O artigo “James Anderson”, de “A
Trolha” nº 62, de autoria de Kurt Prober, nos dá
conta de que Anderson foi encarregado pela Grande Loja da Inglaterra,
em fins de 1721, de reestudar as antigas constituições
dos Maçons Operativos para reformá-las e elaborar
uma Carta Magna de teor mais prático e conciso. Daí
devemos concluir que até 1723 a Grande Loja regulava seus
procedimentos pelas antigas constituições góticas.
Anderson, na última reunião anual
da Grande Loja, dezembro de 1721, apresentou seu primeiro manuscrito
a um grupo de 14 Irmãos competentes, uma comissão
que lhe fez diversas modificações quais modificações?
e apresentou um projeto definitivo em reunião do dia 25 de
janeiro de 1722.
Cerca de um ano depois, em 17/01/1723, esse projeto
foi apresentado oficialmente à Grande Loja, já impresso,
tendo sido aprovado e adotado imediatamente. Somente a partir daí
é que datam os primeiros documentos formais e oficiais da
Maçonaria Especulativa. Nessa edição de 1723,
nada consta a respeito dos acontecimentos relativos à fundação
da Grande Loja, em 1717.
John Toland viu-se atacado de moléstia incurável
no ano de 1721, e veio a falecer no ano seguinte, em 1722. As "Constituições"
tiveram sua elaboração encetadas exatamente no ano
em que Toland se viu doente e foram aprovados e divulgados logo
a seguir ao seu passamento para o Oriente Eterno. Podem ser meras
coincidências, mas podem também indicar divergências
fortes entre Deístas e Teístas a respeito da filosofia
básica a ser adotada, pois claros princípios deístas
e teístas, apesar de conflitantes, se misturam no parágrafo
inicial. Possivelmente tenham sido aplainadas as dissensões
com o afastamento de Toland. Elas podem estar, outrossim, na base
das notícias, não confirmadas de todo, de que os documentos
da fase inicial da Grande Loja foram propositadamente destruídos
em 1720. E uma mera conjectura.
Mas deve-se também considerar que em 1721
assumiu o Grão-Mestrado o primeiro nobre, o Duque de Montague
e, segundo Anderson, a intenção inicial da Grande
Loja era ser governada por um nobre. Então pode-se supor
que ela se manteve em compasso de espera até que um aristocrata
no Grão-Mestrado lhe desse o impulso inicial, o que anula
a suposição anterior.
Mas, onde estaria o grande idealista que deu ou
lançou a idéia da fundação de um organismo
centralizador da Maçonaria? A nosso ver, foi John Toland,
esse batalhador desconhecido.
A grande Loja, em sua fase inicial, de 1717 a 1723,
teve cinco Grão-Mestres: Anthony Sayer, George Pine, Jean
Theophile Desagulliers, o Duque de Montagne e o Duque de Wharton;
Sayer e Pine da burguesia, Desagulliers cientista e pregador presbiteriano
e os dois últimos, da Nobreza.
Mas todos esses dados, como os demais a respeito
da primeira fase da Grande Loja, são baseados exclusivamente
em informações pessoais consignadas por James Anderson
em um anexo à edição de 1738. Assim, Anderson
recompôs uma história de 21 anos atrás, simplesmente
louvado em lembranças pessoais ou colhidas de terceiros Irmãos.
Acrescenta-se a isto que Anderson esteve afastado do convívio
dos Irmãos da Grande Loja por um longo espaço de 10
anos, de 1725 a 1735, o que complica ainda mais a confiabilidade
de suas informações.
A que se deve o afastamento de Anderson da Grande
Loja por um longo período de dez anos? Há quem creia
que foi devido à sua discordância quanto a afirmações
deístas incluídas nas Constituições.
Há outros que crêem nos mais plausíveis motivos
de ordem financeira.
Anderson, durante os mandatos de Pine e Desagulliers,
teria passado por dificílima crise financeira e, para não
ir preso, como era costume naquela época, teria tido o auxilio
dos Irmãos no pagamento de suas dívidas. Em 1723,
quando as “Constituições” foram apresentadas
à Grande Loja em caráter oficial, elas já estavam
impressas e prontas para a comercialização. Quem usufruiu
os lucros comerciais de sua venda e distribuição?
Teria sido Anderson? Lembremo-nos de que ele não desfrutava
de situação financeira estável. Pode estar
aí um ponto de dissensão, que poderia ter levado Anderson
a se afastar da Grande Loja.
Ou por motivos financeiros ou por discordâncias
acerca de princípios filosóficos, o certo é
que Anderson deixou a Grande Loja no ano de 1725. Voltou em 1735,
e logo a seguir providenciou uma nova edição das “Constituições”.
Que ele teve influência direta nessa iniciativa provam-no
algumas alterações introduzidas e o anexo com o relato
dos acontecimentos anteriores a 1723, relativos à fundação
da Grande Loja.
Necessário, ainda, destacar o que está
inserido ao final do item 2º do parágrafo VI das “Constituições”:
“...Por causa disso, nenhum ressentimento ou brigas particulares
devem transpor a porta da Loja Maçônica, muito menos
quaisquer querelas sobre religião, sobre a nação,
ou sobre política de estado, porque nós, sendo Maçons,
pertencemos todos à religião católica acima
mencionada; nós somos também de todas as nações,
idiomas, grupos e expressões; nós somos, decididamente,
contra a política, que nunca contribuiu e nunca contribuirá
para o bem estar da Loja Maçônica. Esta obrigação
foi sempre observada e tida em alta conta, especialmente após
a reforma na Grã-Bretanha, ou desde a dissensão ou
secessão dessas nações da comunhão de
Roma”.
Eis aí uma clara declaração
de Teísmo, e mais um teísmo definido, o da religião
católica, evidentemente não a católica romana,
mas sim a católica anglicana. A Igreja Anglicana adotou todos
os dogmas e todos os itens de fé da Igreja Romana, com exceção
da autoridade do Papa. Como se posicionaram perante isto Anderson
e Desagulliers,, que eram presbiterianos e, portanto, claramente
em oposição à igreja católica, por uma
questão de princípios?
Parece ter havido pressão para que permanecesse
a ligação explícita com a igreja anglicana,
e os opositores conseguiram introduzir um adendo, dizendo que pertencemos
a todas as nações, idiomas, etc., numa referência
ao que consta do artigo 1º.
Fala-se também em “igreja católica
acima mencionada”, mas não se encontra nenhuma menção
anterior à igreja católica, o que parece demonstrar
que essa menção teria estado no artigo 1º que
pode ter sido totalmente substituído. Aliás, o artigo
1º parece uma peça totalmente desligada do restante
do texto, como se fosse um enxerto feito poste-dormente. Podem residir
nestes dois artigos as emendas que Anderson se refere quando fala
das feitas pela comissão de quatorze membros notáveis
encarregada de fazer a revisão do original manuscrito.
Ao seguir as recomendações da Grande
Loja da Inglaterra, providenciando uma compilação
e adaptação dos “Antigos Deveres" (ou Constituições
Góticas), do que sabemos apenas através do próprio
Anderson, ele incluiu uma história da Maçonaria calcada
nas lendas dos antigos Maçons Operativos, que adaptou aos
contos bíblicos, compondo um relato fantasioso sem bases
históricas.
Essa história de Anderson deu à Maçonaria
um conteúdo milenar inverossímil e inverídico,
até mesmo danoso, que prejudicou mais do que beneficiou a
Ordem. Todos nós estamos sempre dispostos a ampliar a abrangência
dos relatos de Anderson a tal ponto de vermos escrito por aí,
e com preocupante freqüência, que os princípios
maçônicos teriam sido gravados no coração
de Adão ainda no paraíso. Se não houvesse sido
escrito esse relato, provavelmente não teríamos essas
tantas inverdades a respeito de nossa história, e que pululam
por aí.
Em suma, somos
de opinião que as Constituições de 1723, bem
como todos os documentos que as acompanham, podem ter tido uma redação
inicial e preparatória de Anderson, mas o seu conteúdo
recebeu a colaboração e as emendas de diversos outros
Irmãos, entre os quais avultam Desagulliers e Toland. Mas
o cerne do artigo 1º e a parte final do artigo VI, item 2,
com seu conteúdo francamente deísta, são provavelmente
de Toland. Mas a contradição flagrante permaneceu.
São justamente esses dois tópicos das “Constituições”
que traduzem a tendência filosófica central da Maçonaria
Especulativa surgida em 1717. Certamente Toland foi o grande idealista,
cujo nome permanece indevidamente nas sombras. |