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Do Irm Ambrósio Peters (
* )
O propósito
deste capítulo é fazer uma análise crítica
da freqüente afirmação, de que a Maçonaria
Moderna teria sofrido uma influência negativa do Iluminismo,
e que essa influência a teria desviado para um suposto lado
anticristão, causando o abandono das primitivas raízes
cristãs dos Maçons Medievais.
É preciso
repetir, que a Maçonaria Moderna não é de forma
alguma uma sociedade sucessora dos Maçons Medievais, apesar
de ter herdado deles alguns usos e costumes, de significado doutrinário
neutro e de ter absorvido deles o espírito de assistência
mútua. Mas isto não equivale a uma comparação
entre suas essências.
Segundo os capítulos
iniciais deste livro, pode-se situar o surgimento da Maçonaria
Moderna entre os anos de 1534 e 1561, podendo-se dizer que é
o fruto indireto da intranqüilidade social, provocada pela
disputa religiosa entre o Catolicismo e o Anglicanismo, pelo domínio
religioso da Inglaterra. Foi esta intranqüilidade que levou
muitos homens cultos ingleses, não alinhados com o anglicanismo,
a se aproximar dos Maçons Medievais, como já visto
no capítulo "Maçonaria Moderna". Os novos
Maçons Modernos, que se chamam francomaçons-aceitos,
eram homens de uma classe social mais culta, ao passo que os Maçons
Medievais, continuaram a ser profissionais da construção.
Encarando desta
forma, deve-se considerar todos aqueles itens herdados e esse envolvimento
religioso direto ou indireto, apenas como a estrutura palpável
ou o sustentáculo perceptível da Maçonaria
Moderna. A sua essência contudo, nada tem a ver com isso,
pois ela sempre foi desde o seu início, um centro de formação
de fraternidade universal entre seus membros e da defesa da liberdade
política e religiosa, isto é, da liberdade individual
de cada um, de procurar com a consciência tranqüila e
sem oposições, o seu próprio destino em uma
fraternidade universal.
Esta é
a parte mais importante da Maçonaria Moderna, pois é
o que faz a diferença com as guildas da Maçonaria
Medieval, que não passavam de meras organizações
assistenciais. Essas guildas não eram fraternidades, devido
a sua finalidade material, pois se destinavam à defesa de
interesses trabalhistas e a assistência mútua.
A Maçonaria
Medieval era Cristã? Evidentemente que era, pois na Idade
Média da Europa Ocidental, tempo em que se formaram e floresceram
as guildas, havia apenas uma Igreja, e alguém ou alguma associação
que não pertencesse a ela, se tornaria socialmente marginalizado,
isto é, excomungado.
A defesa de
direitos trabalhistas e comerciais nunca foram o objetivo da Maçonaria
Moderna, o que evidencia claramente que ela não é
a sucessora da Maçonaria Medieval. A forma exata em que a
Maçonaria Moderna herdou dos Medievais aquela estrutura palpável,
ainda não foi inteiramente desvendada, porque não
há documentos que comprovem qualquer das teorias já aventadas.
A primeira notícia
que se tem da Maçonaria Moderna, diz que a Rainha Elizabete
lhe deu apoio porque era uma sociedade que se mostrava alheia a
motivos políticos ou religiosos, sendo já então
uma entidade neutra, religiosa e politicamente. E muito natural
que assim fosse, pois o período entre o cisma de Henrique
VIII em 1534 e a primeira notícia de 1561, foi pleno de perturbações
políticas em que se debatiam não só o anglicanismo
e o catolicismo, mas também as novas religiões que
se criavam na Europa com a Reforma de Lutero.
É por
isso, que o "Os Deveres do Maçom" e o "Regulamento
Geral" no Livro das Constituições da Grande Loja
de Londres, de 1723, não fazem nem uma única referência
a um Ser Supremo, referindo-se no artigo 1, "De Deus e da Religião"
superficialmente a um vago ateísmo estúpido. O adjetivo
estúpido, refere-se a um ateísmo por decepção
ante os males do mundo, que um Deus Todo Poderoso podia evitar e
não evitava.
O termo "ateísta
estúpido" ali empregado, não se refere obviamente
ao racionalismo em relação à existência
de Deus, que nunca chegou a ser defendido pelos deístas ingleses.
Ateísmo estúpido é portanto uma expressão
deísta, pois o deísmo inglês nunca negou a existência
de Deus, já que apenas afirmava que o conhecimento dele não
estaria ao alcance do homem. O ateísmo racionalista somente
viria com os iluministas franceses, depois de 1723.
Assim como a
Maçonaria inglesa não contemplou uma crença
em um Ser Supremo em sua primeira Constituição, assim
também O Grande Oriente da França eliminou de sua
Constituição, a obrigatoriedade da crença em
um Deus Supremo, no ano de 1877, pelos mesmos motivos, isto é,
para preservar a neutralidade religiosa.
Nessa atitude,
o Grande Oriente da França se igualou à Grande de
Loja de Londres, que até a formação da Grande
Loja Unida da Inglaterra, em 1813, também não exigia
oficialmente essa obrigatoriedade, tanto que um dos motivos principais
da grande loja opositora, chamada Grande Loja dos Antigos, foi a
acusação de que a Grande Loja de Londres permitia
a admissão de não-cristãos.
O certo é
que, tanto a Maçonaria Inglesa da Grande Loja de Londres
surgiu e cresceu par a par, com o Iluminismo Inglês, quanto
a Maçonaria francesa, do Grande Oriente da França,
surgiu e cresceu par a par, com o Iluminismo Francês. Quem
influenciou quem? Difícil decidir historicamente, porque
essas interações não deixam registros claros.
A modificação
feita pela Grande Loja Unida da Inglaterra, introduzindo em 1813
a obrigatoriedade da crença em um "Supremo Arquiteto
do Céu e da Terra", não modificou fundamentalmente
o Livro das Constituições de 1723, porque a expressão
"Supremo Arquiteto do Céu e da Terra", não
se adapta a nenhuma religião em particular, mas serve para
todas, cristãs ou não cristãs. A expressão
não passa para os maçons pensadores, de um mero símbolo
da Ordem Universal. A própria expressão crença
em um Ser Supremo", contida nos Landemarques, pode ser interpretada
como uma simples expressão deísta.
Portanto, analisado
esse conjunto de considerações, pode-se dizer que
o deísmo inglês não modificou a Maçonaria,
pois provavelmente a maioria dos fundadores da Grande Loja de Londres
era composta de deístas. Não há indícios
claros disso nos documentos históricos, mas todo o conjunto
do texto da Constituição de 1723, o indica desde que
seja analisado globalmente.
Seria mais apropriado
dizer que a Grande Loja de Londres nasceu deísta, e esta
é a definição do artigo primeiro dos "Deveres
de um Maçom" do Livro das Constituições
de 1723, mantido no Novo Livro de 1723.
De outra parte,
também os Deístas Franceses, ou os Iluministas Franceses,
deram suporte à formação da Maçonaria
na França, que acabou optando pela não obrigatoriedade
da crença em um Deus para seus iniciandos, o que não
torna o Grande Oriente da França ateu.
Na verdade,
o Iluminismo Francês não modificou a orientação
quanto à religião dos Maçons ingleses, que
continuaram acreditando em Deus, nem dos Maçons brasileiros
que sempre foram todos cristãos liberalistas mas não
iluministas, nem dos Maçons das colônias inglesas que
continuaram cristãos, logo predominantemente teístas.
Na verdade,
a convivência com o Iluminismo nada mudou na Maçonaria,
porque todos os regulamentos do ano de 1723, ainda estão
presentes na Maçonaria atual.
V - Conclusão
O fato de a
Maçonaria Moderna ter começado a surgir concomitantemente
com o Iluminismo, pode ou não ser mera coincidência
histórica.
O deísmo
inglês começou a surgir, como vimos anteriormente,
com Lord Herbert of Cherbury, ainda ao final da primeira metade
do século XVII, momento em que a Maçonaria Moderna
já tinha quase cem anos e mostrava um desenvolvimento esplendoroso
com o grande Arquiteto Inigo Jones.
Mas esta é
a primeira manifestação pública de Lord Cherbury
em Londres, que já havia sido precedida pelo aparecimento
de Giordano Bruno no ano de 1583, o qual havia obtido o apoio da
Universidade de Cambridge, onde fez diversas palestras.
Assim, pode-se
alongar o surgimento do Iluminismo na Inglaterra para um tempo anterior,
e aproximar-se do nascimento da Maçonaria Moderna, em meados
do século XVI. Mas esta também foi a época
do nascimento do Anglicanismo e a época do surgimento da
Reforma religiosa na Europa.
Mas quando se
coloca este fato lado a lado com o nascimento da Maçonaria
na França, com raízes na Grande Loja de Londres e
considera-se que o seu desenvolvimento se deu passo a passo com
o Iluminismo Francês, parece que a idéia de mera coincidência
histórica perde o sentido.
Relacionaram-se
os deístas ingleses separadamente dos deístas franceses,
e por ano de nascimento, para poder mais facilmente relaciona-los
com dois períodos históricos da Maçonaria Moderna,
o período inglês seguido do período francês.
Feita a comparação,
viu-se que os deístas ingleses tiveram a parte intelectual
mais produtiva de suas vidas entre os anos de 1640 e 1770, exatamente
o período em que a Maçonaria Moderna na Inglaterra
deu os seus primeiros passos e atingiu o seu auge. Nota-se que na
fundação da Grande Loja de Londres, no ano de 1721,
a julgar pelo status social de seus Grão-Mestres, devia haver
uma presença dominante de pessoas da alta burguesia e da
classe média alta. Anthony Sayer e George Payne eram gentis-homens,
Jean Desaguliers era pastor religioso e pesquisador cientifico.
Se assim não fosse, nenhum nobre teria se filiado, porque
os nobres nunca se filiariam a uma associação freqüentada
por pessoas não socialmente bem qualificadas.
As novas Lojas
Especulativas, que se fundaram nas Américas, perderam o caráter
eminentemente iluminista, para assumirem um caráter predominantemente
liberalista, principalmente nas disputas políticas que precederam
sua independência ou suas mudanças de sistema de governo.
Atualmente,
em quase todo o Mundo, as Lojas Maçônicas tornaram-se
novamente teístas, porque os seus membros, vindos da classe
média e não sendo intelectuais, tornaram-se predominantemente
teístas e ausentes nas disputas filosófico-religiosas.
Deve-se concluir
assim, que as características de Liberalismo, Iluminismo
e Teísmo estão presentes nas Lojas individualmente,
e não na Maçonaria como um todo. Se uma determinada
Loja é Iluminista, ela o é porque a maioria dos seus
membros é iluminista, e deixar de sê-lo. quando a maioria
de seus membros o deixar de ser.
Assim, pode-se
concluir que nem o deísmo, nem o Iluminismo, nem o teísmo
ou o liberalismo, nem qualquer outro "ismo". influenciaram
a Maçonaria como um todo, mas atuaram exclusivamente nas
Lojas em que os membros dessas correntes filosófico-religiosas
eram a maioria.
Assim, pode-se
concluir que o deísmo inglês, até entrar em
declínio ao final do século XVIII, contribuiu para
o crescimento das atividades da Grande Loja de Londres e que a partir
desse declínio, passaram a dominar as Lojas, os maçons
conservadores, provocando mudanças constitucionais da Grande
Loja Unida da Inglaterra, de 1813. Igualmente, o deísmo francês,
contribuiu para as atividades das Lojas do Grande Oriente da França
durante o século XVIII, até que a maioria de seus
membros foi dispersa ou morreu na guilhotina, por pertencer às
classes perseguidas pelos revolucionários de 1789.
A situação
atual das Lojas da Maçonaria Moderna, predominantemente de
orientação teísta, evidenciam que influências
de correntes filosófico-religiosas são passageiras
e jamais deixam uma influência durável sobre a Maçonaria
como um todo.
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