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Do Irm Ambrósio Peters
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III
- Iluminismo um sistema de conhecimento
O Iluminismo
se caracteriza pela confiança no progresso e na razão,
pelo desafio à tradição e à autoridade
no âmbito da filosofia e pelo incentivo à liberdade
de pensamento. O Iluminismo se distingue particularmente por um
otimismo quase utópico ante o progresso da ciência,
por uma quase veneração pelo uso irrestrito da razão
e por um antitradicionalismo radical.
Esse fascínio
pelo uso da razão, tem o mesmo sentido do fascínio
pelas aventuras materiais das grandes viagens, dos grandes descobrimentos,
como o progresso da ciência e os constantes avanços
em desvendar os segredos do Universo. O Iluminismo, é o fascínio
pelo desconhecido que sempre levou os homens, cada vez um pouco
mais adiante. E esse mesmo fascínio que incentiva os iluministas,
ou os iluminados, porque os avanços do pensamento, sempre
descobrem novas teorias e novas concepções filosóficas,
e nunca o pensador, tal como os aventureiros do mundo material,
saberá exatamente onde o levará o seu raciocínio.
Não se
definirá portanto, corretamente o Iluminismo, dizendo-o um
sistema de conhecimento, porque ele não compreende o estudo
de um determinado tema filosófico. Seria mais correto denominá-lo
um movimento intelectual, voltado para a busca da verdade pela razão
sem a revelação, verdade em todos os campos do conhecimento,
o religioso, o político, o econômico, o científico,
o social, o filosófico. ? tem algo estranho nesta frase?
Citando René
Descartes (1596 - 1650), possivelmente um dos pioneiros iluministas,
que já no início do século XVII, colocou na
base de seu cartesianismo o caráter universal e absoluto
da razão, que partindo do cogito (eu penso), pode por suas
próprias forças, chegar à descoberta de todas
as verdades possíveis, subordinando as conclusões
às experiências reais, somente quando necessário
para dirimir dúvidas no caso de evidências equivalentes.
Por causa de suas idéias avançadas, Descartes teve
que se transferir para a Suécia, para evitar perseguições.
Emmanuel Kant
(1724 - 1804) escreveu a respeito do Iluminismo: "O Iluminismo
é a evasão do estado de menoridade que o homem costuma
atribuir a si próprio. Menoridade é a incapacidade
de servir-se do próprio intelecto sem o guia de nutrem. A
cada um é atribuível essa menoridade, se a causa não
for um defeito do intelecto mas a falta de decisão e coragem
para servir-se dele como guia. 'Savere aude (ouse saber)! Tenha
a cora em de servir-se do seu Próprio intelecto." Este
é o mote do Iluminismo." (Ia: Nicola Abbagnano - Dicionário
de Filosofia).
Na História
Moderna, houve necessidade de acontecimentos traumáticos,
para acordar o homem à percepção de que algo
estava errado com as tradições antigas e medievais.
Esse despertar para o Iluminismo começou lentamente e de
forma vagamente perceptível entre os pensadores do final
do século XVI.
Os primeiros
iluministas foram de início extremamente cautelosos ao emitir
os seus pensamentos, pois entravam em conflito com todo o conjunto
das teorias e teses que dominava o mundo ocidental cristão,
desde a Idade Média.
Possivelmente,
alguns acontecimentos históricos do século XVI foram
os grandes impulsionadores desse despertar, como por exemplo, os
grandes descobrimentos marítimos do século XVI, que
mostraram ser a nossa Terra muito mais complexa e ampla do que aquela
descrita na Bíblia; ou a insubordinação de
Henrique VIII da Inglaterra, que mostrou que cada país pode
ter a sua própria religião oficial sem depender de
Roma; ou a Reforma de Martinho Lutero, que trouxe a público
as fraquezas da Igreja Romana; ou o Edito de Nantes de 1596, que
mostrou ser possível a liberdade religiosa na França;
ou as viagens de Giordano Bruno pela Europa, pregando os seus novos
conceitos de liberdade de pensamento e mostrando pela primeira vez,
que havia um público ávido por novas e revolucionárias
idéias.
Por isso, o
Iluminismo veio ganhando terreno lentamente a partir do início
do século XVII, na Inglaterra, para chegar a sua idade áurea
mi França, ao final do século XVIII, conhecido como
o século das luzes.
Os Deístas
ingleses mais influentes foram, em ordem de ano de nascimento:
Thomas Hobbes (1588 - 1679) - Lord Herbert of Cherbury (1593 - 1648)
- Sir Robert Boyle (1627 - 1691) - Charles Blount (1629 - 1693)
- John Locke (1632- 1704)- Sir lsaac Newton (1642- 1727)- Mathew
Tindal (1653- 1733) - John Toland (1670 - 1722) - Bernard Mandeville
(1670 - 1733) - Terceiro Conde de Shaftesbury (1671 - 1713) - Anthony
Collins (1676 - 1729) - Henry Vise, de Bolingbroke (1678 - 1751)
- Conyers Middleton (1683 - 1750) - David Hume (1711 - 1776) - Joseph
Priestley (1733 - 1804) - Thomas Woolston (+1733).
Lord Cherbury
faleceu em 1648, ano em que Oliver Cromwell derrotava o Rei Carlos
1, assumia o poder e conduziria a Inglaterra à republica,
numa revolução civil caracterizada por desentendimentos
e lutas religiosas entre presbiterianos puritanos e exaltados, anglicanos
e católicos. Impressionado com esses desentendimentos, Lord
Cherbury, paralelamente a sua careira militar e diplomática
no continente, dedicou os seus últimos anos de vida ao estudo
das razões dessa inconseqüente disputa religiosa, na
tentativa de estabelecer os motivos básicos, causadores desses
permanentes conflitos entre credos e sistemas religiosos.
Em sua primeira
obra, De Veritate (Paris, 1624), Lord Cherbury propôs uma
teoria do conhecimento baseada num padrão universal e inato
da percepção da realidade, rigidamente oposta aos
conhecimentos de origem sobrenatural como o conhecimento de Deus,
conhecimentos sobrenaturais esses, que por serem inteiramente subjetivos,
seriam a causa dos conflitos.
Em sua obra,
De Religionis Gentilium Errorum que apud eos Causas (Londres 1645),
Lord Cherbury apresentou cinco pontos que constituiriam o núcleo
dos desentendimentos entre todas as religiões: 1 - Fé
na existência de uma deidade; 2 - Obrigação
de adorar essa deidade; 3 - Demonstrar adoração com
a prática da moralidade; 4 - Arrependimento dos pecados e
propósito de não reincidir neles; 5- Crença
em recompensas ou castigos divinos, nesta ou numa outra vida.
A influência
inicial das teses de Lord Cherbury dissipou-se no roldão
da revolução puritana de Cromwell, mas o Deísmo
encontrou um reforço especial entre os eclesiásticos,
que na reminiscência da Renascença, inclinaram-se para
uma contraditória teologia racional. Nos desentendimentos
entre puritanos, católicos romanos, anglicanos e protestantes,
freqüentemente se invocava a razão como árbitro.
Os neoplatonistas
de Cambridge, invocavam a intuição moral inata, contra
o sensualismo de Hobbes. A revolução republicana evidenciou
a necessidade da busca de uma unidade no campo da moralidade, que
somente poderia ser alcançada pelo livre uso da razão.
Em relação ao uso da razão como árbitro,
deve-se considerar que muitos homens religiosos costumam limitar
o uso da razão, apenas aos casos que não são
fundamentais para suas crenças, isto é, são
pensadores apenas quando lhes convém.
Uma característica
da filosofia de Hobbes, baseada nos novos conhecimentos matemáticos
e científicos, era a rejeição de uma teologia
baseada no sobrenatural. Hobbes explicou a diversidade das religiões,
como resultado do temor do homem ante o poder dos fenômenos
naturais, ou como resultado das reflexões do homem ante a
universalidade das relações de causa e efeito em todos
os acontecimentos. Dizia Hobbes ainda, que os milagres e a revelação
eram altamente improváveis e certamente produto da ignorância
e da imaginação.
Dizia também
Hobbes, que a criação de uma religião positiva
por um Estado forte, cujo soberano tivesse o poder necessário
para impor as leis e as prescrições oficiais, seria
a única alternativa para evitar as brigas entre as religiões.
Para amainar esses desentendimentos, propunha Hobbes o caminho da
interpretação racional dos milagres e uma crítica
histórica dos textos bíblicos. Nas teses de Hobbes
nota-se um evidente domínio do racionalismo sensualista,
isto é, provindo da percepção da realidade
pelos sentidos.
Esse racionalismo
de Hobbes, ficou limitado em sua aplicação ao homem
e seu comportamento moral, e não se estendeu aos conceitos
de Deus. Foram Spinoza e Bayle que deram ao Deísmo, a característica
de sua aplicação universal a todos os campos do conhecimento,
inclusive ao conhecimento de Deus.
Viajantes que
voltavam da China, da Índia, da Arábia, do Egito,
da Pérsia, trouxeram notícias de outros povos com
outras religiões e outras filosofias, tomando inevitável
a comparação dessas filosofias e dessas religiões,
com a religião dos povos do cristianismo. Essas comparações
foram exaltadas por Locke e reforçadas pela ciência
natural de Isaac Newton.
Newton e Bayle,
partiram para a reconciliação dos credos com a metafísica
mecanicista, da auto-suficiência de um Universo desenvolvendo-se
por suas próprias leis e por suas próprias forças.
Tem-se aí uma mescla da teoria do conhecimento sensualista
de Locke com uma teologia mecanicista, um criticismo histórico
da revelação e uma Ética apriorística
inata.
Em outras palavras,
o Deísmo inglês é uma mescla do conhecimento
da realidade através dos sentidos, com uma metafísica
baseada na auto-suficiência do Universo em seu desenvolvimento,
reforçada por uma crítica histórica dos textos
bíblicos e regras de moral preestabelecidas pela natureza.
Essa impossível concordância, permaneceu como característica
do Deísmo Inglês, até quase o final do século
XVIII.
Em 1688, sob
a intervenção de Guilherme de Orange, apoiada pelo
Parlamento, houve a segunda Revolução Inglesa, ou
a Revolução Gloriosa, que até 1694 produziu
a Declaração dos Direitos, a limitação
do poder real, a consolidação das liberdades tradicionais
e a liberdade de imprensa. A tolerância resultou na diversificação
das tendências políticas, no abrandamento da ortodoxia
dos dogmas religiosos e na definição de um padrão
de demonstrações favoráveis ao conteúdo
da revelação.
Locke, e também
John Toland, defenderam a tese de que o conteúdo da revelação
e os princípios religiosos, nada poderiam conter que contrariasse
a razão, mas que a religião seria necessária
para instruir o conhecimento humano, quanto a sua relação
com o sobrenatural.
Foi Mathew Thindal
quem estabeleceu o texto básico do deísmo inglês,
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segundo a proposição de Locke, e quem buscou uma identificação
da revelação com a razão, aduzindo uma nova
ordem de argumentos em defesa dessa posição.
Dizia Thindal,
que a bondade de Deus, a grande extensão da Terra e a longa
vida do homem, mostrariam como improvável que somente os
judeus e os cristãos poderiam ser favorecidos com a graça
de receber a fé, ficando o restante da humanidade, sem direito
a ela.
Citou como exemplo,
os milhões de chineses, que não obstante seguirem
preceitos morais rígidos, não teriam direito a fé,
simplesmente porque os princípios práticos do seu
confucionismo, contrariavam pontos da lei mosaica; em outras palavras,
não teriam direito a fé por terem nascido na China.
Para Thindal,
pode-se encontrar em todas as religiões o substrato da fé,
por ser ele tão antigo quanto à criação.
A doutrina do pecado original, por exemplo, não pode ser
exclusiva das religiões bíblicas, pois a não
ser que seja irracional, deveria ser encontrada em todas as religiões
de todos os povos.
Porém
se mostra ortodoxo, quando concorda que Judaísmo e Cristianismo
conheceram a revelação diretamente, apesar de confirmar
que a crê identificada com a lei natural. A primitiva e incorruptível
fé, é a prática da moral em obediência
à vontade de Deus, expressa pela lei natural, e que essa
foi a doutrina que Jesus ensinou.
Mas de todos
os deístas ingleses, David Hume, foi sem dúvida, o
mais influente. Ele condensou o criticismo deísta e o emancipou
de uma concepção racional de Deus e de sua característica
de interpretação histórica. Ele livrou a teoria
do conhecimento de Locke, da teologia mecanicista e confinou o pensamento
humano aos limites da percepção dos sentidos, partindo
dos simples fatos da experiência e não de normas ético-religiosas.
Fazendo distinção
entre o problema metafísico, do conhecimento da idéia
de Deus pela razão e o problema histórico da origem
das religiões, afastou a hipótese de se poder chegar
ao conhecimento de Deus através da razão. Atribuiu
a origem das religiões, a uma má interpretação
da experiência. Em sua conhecida crítica aos milagres,
opôs à possibilidade de sua ocorrência a possibilidade
de erro, por parte do observador ou dos historiadores.
Para Hume, as
experiências humanas são sempre afetadas pela ignorância,
pela fantasia, pela presença da esperança e do medo,
e isto explicaria suficientemente as religiões. Essas fundamentais
correções na tese deísta, feitas por Hume,
não foram percebidas pelos seus contemporâneos ingleses.
Os princípios deístas adquiriram importância
no século XIX, com o ceticismo, o pessimismo ou o panteísmo,
ainda que a concepção de uma religião natural
tenha continuado com suas velhas características inglesas.
Vê-se
assim, que o Deísmo inglês praticamente voltou a ser
ortodoxo, por não ter ousado estender o uso da razão
a todos os setores do conhecimento humano, tendo por isso se estagnado
ao findar o século XVIII. Para os deístas ingleses,
a religião natural, a existência de Deus e a imortalidade
da alma humana, continuaram sendo conceitos universais.
O Deísmo
chegou a França no início do século XVIII,
sob influência dos pensadores ingleses, mas sem mais aquela
ligação com a religiosidade destes. O deísmo
francês, deixou de lado a teologia, que sempre se constituía
no maior obstáculo ao progresso do deísmo na Inglaterra.
Dos deístas ingleses, os que deixaram maior influência
no pensamento dos franceses foram Hobbes, Locke, Shaftesbury, Pope,
Bolingbroke e Hume.
Os Deístas
franceses foram em ordem de ano de nascimento: Charles Montesquieu
(1689 - 1755) - François Marie Arouet (Voltaire) (1694 -
1778) - Chevalier de Jaucourt (1704 - 1779) -Jean Jacques Rousseau
(1712 - 1788) - Denis Diderot (1713 - 1784) - Claude Helvetius (1715
- 1771)- Etienne Bonnot de Condillac (1715 - 1780) - Jean D'Alembert
(1717 - 1783) - Robert Turgot (1721 - 1781) - Paul Flenri Holbach
(1723 - 1789) - Marie Jean Condorcet (1743 - 1794).
O deísmo
na França, apesar dessas influências, assumiu uma característica
materialista e revolucionária, ao deixar de lado o seu aspecto
religioso, e no seu estudo merecem especial referência Voltaire,
Rousseau, o Círculo de Holbach e o grupo dos Enciclopedistas.
Voltaire abraçou
com entusiasmo a tese da religião natural e logo entrou em
polêmica com a Igreja que ele condenava, tanto por sua intolerância
e por sua ligação espúria com o Estado, quanto
por causa de sua filosofia e por seu falso cartesianismo religioso.
Ele derivou sua filosofia natural, dos pensamentos de Newton e de
Samuel Clarke (1675 - 1729), sua teoria do conhecimento e suas idéias
de tolerância, de Locke, seus princípios éticos,
de Shaftesbury, seu método crítico e sua concepção
da religião natural, dos Deístas. Pode-se dizer que
sua filosofia é totalmente de origem inglesa.
Dizia Voltaire,
que todos os fenômenos históricos podem ser explicados
pela interação do homem com o seu meio ambiente e
pela intervenção indireta de Deus através das
leis naturais. A moralidade e a religião natural não
seriam inteiramente inatas, mas sem dúvida simples e universais
condições do desenvolvimento, seguindo seu curso através
de erros e acertos, da ignorância e do medo. Dizia mais, que
por isso o deísmo ficara repleto de conteúdos religiosos,
por se restringir ao campo da moralidade e da racionalidade restrita
ao mundo físico.
Para Voltaire,
tudo o que caracteriza a natureza humana é o mesmo em qualquer
parte, dependendo sua variação apenas da variação
dos costumes e das condições de vida. O que principalmente
influencia o pensamento, são o clima, o governo e a religião,
sendo que a submissão inconsciente a esses fatores costuma
produzir um modelo padrão de princípios doutrinários
e de comportamento, que acaba levando ao fanatismo, que é
a causa primeira de desentendimentos entre as religiões.
Os dogmas incorporam aquele modelo padrão e por isso são
a principal causa do fanatismo. Só uma moralidade consciente
pode inspirar a harmonia.
O surgimento
de uma religião positiva, pode ser estudado psicologicamente
nas crianças e nos selvagens, e este estudo mostrará
que o medo e a ignorância das leis da natureza estão
sempre entre as primeiras causas. Paralelamente, surgem os grupos
sociais que, gerando a necessidade de uma autoridade, são
a causa subsequente. Somente na China, a religião escapou
desse pernicioso desenvolvimento. Foi a Índia que se tornou
a sede da especulação teológica e com isso
influenciou as religiões do ocidente. Entre as mais importantes,
estão o Judaísmo e seus parentes próximos,
o Cristianismo e o Islamismo.
Moisés
foi o sagaz líder religioso e político que levou os
Israelitas para uma vida difícil no deserto e lhes impôs
um Deus que proveria todas as suas necessidades se o obedecessem
e os castigaria se não o fizessem. Esse temor de Deus foi
transmitido ao Islamismo e ao Cristianismo. Os profetas judeus foram
tão entusiastas de sua religião, quanto foram os dervixes
muçulmanos e os primeiros líderes do cristianismo.
Jesus foi um visionário, tanto quanto o foi o fundador dos
Quackers, e sua religião cresceu graças a sua união
com o platonismo.
Os conceitos
de Voltaire, a respeito da evolução da história,
penetraram profundamente na cultura européia. Com relação
ao meio ambiente e ao bom senso, dos quais Voltaire é o mais
representativo defensor, nasceu uma escola que levou a doutrina
do mecanicismo (evolução do Universo por suas próprias
leis e forças) e do sensualismo (percepção
da realidade através dos sentidos) a suas últimas
conseqüências, evoluindo para a filosofia do materialismo.
Os enciclopedistas
removeram radicalmente do Deísmo, o grande fator da religião
natural, conservando somente seu método critico em relação
à história das religiões e ao conteúdo
da revelação. O idealizador dessa escola foi Denis
Diderot, que reuniu em tomo do seu projeto, um elenco de destacados
iluministas e foi em razão disso que a Enciclopédia
se tornou o grande instrumento de expressão do Iluminismo.
A censura do
Estado e da Igreja, obrigou os idealizadores da obra a aceitar contribuições
literárias de autores conservadores, de modo a tentar estabelecer
um equilíbrio entre as duas forças. Essa colaboração
forçada, tomou a projetada visão céptica e
racional da obra dos enciclopedistas, compromissada com a defesa
da revelação. Diderot providenciou para os tópicos
conservadores mais importantes, a subtil inclusão de referências
cruzadas, que os ligaram a artigos fundamentados no espírito
de Bayle, reduzindo seu impacto conservador sobre os leitores. Diderot
foi bem sucedido na aplicação dessas correções.
Foi o círculo
de Holbach que ousou aplicar até suas últimas conseqüências,
o materialismo às questões religiosas. Helvetius expôs
os princípios de uma psicologia materialista e ética,
tomando suas teses um arsenal de instrumentos contra todas as religiões
e suas conseqüências, a intolerância e a corrupção
moral.
Holbach foi
sem dúvida, o autor do Sistema da Natureza, mas sua tese
não é original na descrição da origem
das religiões e da sua relação com o medo,
com a esperança e com a ignorância das leis da natureza.
Fraude, ambição e entusiasmo doentio já haviam
sido usados por outros pensadores, como ingredientes de influências
políticas e sociais que sempre acabariam cristalizados como
credos, com tendências animistas geradoras de sistemas metafísicos
e teológicos, origem da intolerância irracional.
Dos círculos
de Holbach e do grupo dos enciclopedistas, nasceu a assim chamada
escola ideológica, cujo problema filosófico principal
foi a análise das concepções mentais originadas
das sensações vindas do mundo material. A partir dessas
escolas, mas à parte delas, desenvolveu-se o positivismo
de Comte.
Rousseau deu
uma tendência diferente ao Deísmo, aceitando como essenciais,
o sensualismo de Locke (todo conhecimento provém, e só
provém das sensações), os princípios
da filosofia natural de Newton e de Clarke e à maneira de
Shaftesbury e de Diderot, a crença em instintos morais inatos
definidos como percepções distintas de meras idéias
adquiridas.
Rousseau se
manteve fiel à posição deísta. de ligar
essa moral da percepção à crença em
um Deus, e se colocou contrário a separação
entre essas idéias inclusas no ceticismo de Diderot (o homem
não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável).
Rousseau se deixou influenciar por Richardson. tanto quanto por
Locke. e para ele a percepção moral, tornou-se a base
de um sistema metafísico. construído a partir dos
dados da experiência sob a influência da filosofia deísta,
mas livre de constantes referências ao formalismo sentimental
e emocional como origem das religiões. A origem das religiões
não é dogmática.
Por isso. Rousseau
e Voltaire não acham a religião produto de cultura
intelectual, mas da ingenuidade e da indiferença dos incultos.
O consciente e o progresso racional da civilização
resultam no declínio, quando a opção pelo progresso
intelectual se confunde com o simples bem-estar. Com Rousseau. a
religião natural toma um novo sentido. a natureza não
é mais universalidade ou racionalidade na ordem cósmica.
como contraste entre o sobrenatural e os fenômenos positivos,
mas sim é a sinceridade e a simplicidade primitivas em comparação
com artificialidade da estudada reflexão.
No seu projeto
do surgimento das religiões. Rousseau saiu do entendimento
comum das discrepâncias e das contradições entre
os credos históricos. Até então, a religião
positiva não era tanto o produto da ignorância e do
medo. quanto da corrupção do instinto original pelo
egoísmo do homem, erigindo credos rígidos que lhe
garantissem injustificados privilégios ou escape da moralidade
natural.
Para Rousseau.
algo da verdadeira fé se encontra em todas as religiões,
e de todos os credos. o cristianismo seria o que reteve o melhor
da fé original e a moralidade mais pura. Foi dessa maneira
tão simples e sublime que interpretou o evangelho e ele mesmo
quase não o pode crer como obra humana.
Atribui os elementos
irracionais da doutrina de Jesus, à má compreensão
dos seus seguidores. mais especialmente Paulo. que não esteve
pessoalmente com ele, Seria natural que entre os adeptos desta visão
e os materialistas. houvesse desentendimentos.
A religião
de Rousseau teve pouca repercussão na França. mas
foi grande sua influência no surgimento do idealismo de Moses
Mendelsohn (1729 - 1796). na Alemanha, onde o Iluminismo se transformou
no pietismo um movimento da Igreja Luterana pela intensificação
da pura e verdadeira fé.
Na Itália,
aparece Giovanni Battista Vico (1668 - 1744). que procurou formular
uma filosofia em bases históricas e científicas, chegando
a esboçar a primeira Filosofia da História. Tomou
como modelo de toda evolução da história a
história ideal dos gregos e dos romanos. Dizia Vico. que
a história das nações e das civilizações
começa com uma idade divina, passa para uma idade heróica
e depois retorna à barbárie como tinha acontecido
com gregos e romanos.
Em outros países
europeus não houve flagrante evolução do Iluminismo.
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