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Irm Ambrósio Peters *
A Maçonaria
é caracteristicamente universalista, por ser uma sociedade
que aceita a afiliação de todos os cidadãos
que se enquadrarem na qualificação "livres e
de bons costumes", qualquer que seja a sua raça, a sua
nacionalidade, o seu credo, a sua tendência política
ou filosófica, excetuados os adeptos do comunismo teorético,
porque seus princípios filosóficos fundamentais negam
ao homem o direito à liberdade individual da autodeterminação.
Embora assim
caracterizada, essa universalidade não implica a Maçonaria
em ter um poder administrativo soberano centralizado, nem mundial
nem supranacional, e nem significa que tenha princípios doutrinários
ou filosóficos universais de aceitação obrigatória
por parte de seus membros. Os únicos princípios filosóficos
ou doutrinários, se é que assim se pode denominá-los,
são a crença em um Ser Supremo e a crença na
sobrevivência do espírito, sem nenhuma definição
que identifique esses conceitos ou essas crenças, em ralação
a determinada filosofia ou a determinada religião.
A definição
desses dois postulados é deixada ao livre arbítrio
de cada Maçom, de forma a não interferir em suas convicções
ou tendências pessoais. Esclareça-se que na filosofia
atual a expressão Ser Supremo tem o significado convencional
de Deus Único.
O Ser Supremo, é habitualmente referido na Maçonaria como o Grande
Arquiteto do Universo, uma expressão que, apesar de conter
os atributos físicos Grande e Arquiteto, não privilegia
nenhuma concepção de Deus em particular. Grande Arquiteto
do Universo, tem para os Maçons apenas um significado simbólico,
o da unificação sob um só conceito, da geração
de todos os seres pela contínua atuação das
leis que governam o Universo. Dar-lhe uma interpretação
diversa ou menos ampla, seria prestigiar uma ou outra corrente filosófica,
contrariando o princípio de neutralidade maçônica.
Dessa forma,
não tem a Maçonaria um centro ou um órgão
administrador supranacional ou mundial, apesar de ter órgãos
administrativos regionais, com jurisdições geograficamente
definidas, chamados potências. Sua atribuição
exclusiva é manter a unidade das lojas, regulando sua organização
administrativa, definindo as regras do relacionamentos delas entre
si e com seus membros e destes entre si. Todas essas potências
maçônicas, são também absolutamente independentes
entre si, e todas tem seus próprios estatutos e os seus próprios
regulamentos.
Potências
e Lojas são autônomas, somente em sentido administrativo,
mas nem os Grão-Mestres e nem os Mestres das Lojas podem
se pronunciar em nome da Maçonaria Universal. Mas, desde
que para isso estejam oficialmente autorizados por suas Assembléias,
podem se pronunciar oficialmente sobre desenvolvimento dos seus
trabalhos, na escolha da forma e do direcionamento de suas atividades
sociais e culturais. Isso equivale a dizer que os Grão-Mestrados
e os Mestres das Lojas sempre seguem a tendência da maioria
de suas assembléias. Essa autonomia, impede que as decisões
particulares se transfiram a outros Grão-Mestrados e a Mestres
de outras Lojas.
Essa definição
de Maçonaria permitiu, que em tempos passados algumas lojas,
ou grupos de lojas, se pronunciassem a favor da república
e outras lojas ou grupos de Lojas a favor de reinos constitucionais
como, por exemplo, aconteceu no Brasil durante o segundo Império.
Mas essas posições, aparentemente divergentes, atendem
às aspirações da liberdade maçônica,
porque ambos os mencionados sistemas políticos, limitam os
poderes de seus governantes máximos, o presidente ou o rei.
Portanto, não
tem sentido a hipótese de que uma recíproca influência
Iluminismo/Maçonaria, tantas vezes alegada por igrejas cristãs
para condenar a Maçonaria, possa tê-la levado a ser
anticristã. Mesmo que a maioria dos membros de determinada
loja possa ser de iluministas não cristãos, devem
eles respeitar a minoria quanto ao direito à sua própria
convicção filosófica ou religiosa.
Na verdade,
pode ter acontecido no correr da História da Maçonaria
Moderna, que uma ou outra loja tenha sido formada por uma maioria
iluminista dominando a administração e impondo seu
ponto de vista. Mas são exceções raríssimas
que habitualmente se corrigem, tanto pela alternância anual
das administrações das Lojas, como pela constante
mudança das concepções filosóficas,
uma das características do livre uso da razão.
Algumas igrejas
cristãs, insistem nessa ligação como algo condenável,
por concluírem afinal que a Maçonaria teria absorvido
do Iluminismo, a idéia central de submeter ao crivo da razão
todos os aspectos do conhecimento, o que demonstraria a oposição
Maçonaria/Religião, por considerarem que o livre pensamento
é o inimigo da fé, por excelência. Mas isto
não acontecerá, porque os livres pensadores jamais
predominarão na humanidade.
Um apoio espúrio
a esse ponto de vista, recebem essas igrejas em afirmações
historicamente incorretas, como a contida na Enciclopédia
Mirador internacional sob o verbete "Iluminismo", onde
diz: "Entre os sucessores do Iluminismo está a Maçonaria"
(v. 11, p. 5.982). Evidentemente, o redator do texto explicativo
do verbete não procurou instruir-se em fontes fidedignas,
pois origens da Maçonaria são anteriores aos primeiros
movimentos Iluministas.
Na verdade, pode a Maçonaria ter sofrido influência
dos Iluministas, mas essa influência foi temporária,
pois no mundo atual a maioria absoluta dos Maçons é
de cristãos.
Contrariando
essa afirmação enciclopédica, afirma-se que
foram os Iluministas que se filiaram às Lojas Maçônicas,
como um lugar seguro e intelectualmente livre e neutro, apropriado
para a discussão de suas idéias, principalmente no
século XVIII, quando os ideais libertários ainda sofriam
sérias restrições por parte dos governos absolutistas
na Europa. Por isso não se pode negar, que certamente a Maçonaria
pode ter contribuído para a difusão do Iluminismo
e que este por sua vez, possa ter contribuído para a difusão
das lojas maçônicas.
A Maçonaria
contudo, não adotou e nem incorporou teses de origem iluminista
aos seus dois princípios básicos anteriormente referidos,
e nem o poderia ter feito, pois isso comprometeria o seu postulado
de universalidade. Assim, a Maçonaria pode ter contribuído
apenas indiretamente para o crescimento dos movimentos iluministas,
por congregar seus seguidores e pô-los em contato direto entre
si, na mesma forma do acontecido com os constitucionalistas, com
os republicanos ou com os liberais. Nem por isso, a Maçonaria
se tomou iluminista, constitucionalista, republicana ou liberal,
por princípio.
Mas essa preocupação
das Igrejas, é uma perda desnecessária de energias,
pois menos de um por cento das pessoas de fé, teriam a necessária
cultura filosófica para racionalizar seus princípios
de fé. E ainda mais, das pessoas que teriam essa capacidade,
talvez menos de um por cento, teria a necessária coragem
para faze-lo. Restaria uma ínfima porcentagem de pessoas,
talvez menos de 0,01%, a colocar eventualmente sua fé em
perigo, se é que essa percentagem, mesmo tão ínfima,
chegue a tanto.
Não se
definirá aqui o que é Maçonaria, porque o assunto
foi exaustivamente tratado na obra MAÇONARIA HISTÓRIA
E FILOSOFIA. Discorrer-se-á somente sobre o Iluminismo, cuja
essência é freqüentemente mal compreendida e cujos
movimentos nem sempre são percebidos, e lamentavelmente,
porque é um movimento intelectual que todo o Maçom
deveria conhecer. Foi o Iluminismo que despertou a humanidade para
o uso da razão, em todos os campos do conhecimento.
Isso contudo,
não o torna um inimigo das religiões, porque devido
ao seu diminuto número, os homens pensantes jamais destruirão
qualquer religião. Poderão, quando muito influenciar
um ou outro membro isoladamente. São muito raros os homens
em condições de discutir temas filosóficos.
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